sábado, 13 de fevereiro de 2010

Desabafos

Não é que seja mau. Não é.
Criamos os filhos para os dar à vida. Tentamos prepará-los para ela e sentimos orgulho quando os vemos capazes.
Não é que seja mau. Já passei por coisas verdadeiramente más. Sei distinguir. Esta é boa. Não é a primeira vez que passo por ela. É boa.
O meu filho anda por lá, embrenhado na selva a tratar de pumas e a aprender a construir esgotos numa aldeia que não tem água canalizada. Juntou-se a uma equipa de voluntários daquelas que acredita que pode fazer a diferença. E faz. É bom. É motivo de orgulho. E é orgulho aquilo que sinto.
Mas ando há duas semanas a fugir de limpar a casa, como se fosse incapaz de anular de uma só vez os vestígios que deixou. Como se em cada grão de pó eliminado, um pouco dele voasse também; como se em cada bocado de chão lavado os seus passos desaparecessem. Assim, não limpo. Vou limpando. Aos poucos. Hoje mais um bocadinho.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Peter Gabriel

Agora é que vi o lindo serviço que o Peter Gabriel fez aqui no estaminé! Será que é por a música ser comprida que a janela também é maior? ou foi vírus que deu no youtube?

Vai-se a ver e é disto tudo junto...

Não sei se é do frio; das escutas; das suspeitas; das previsões de liberdade ameaçada (como se fosse possível andar para trás!...); dos senhores da Vodafone (e disto é melhor não adiantar muito mais...); da distância do meu filho e dos planos que tem para os próximos meses; do contrato de parceria novinho em folha; do Carnaval; da preguiça dos meninos que na verdade já estão de férias e não compreendem porque carga d'água é que têm de trabalhar (isto nem eu percebo...); do pagamento que já devia ter vindo e não veio; daquele que tem de ser feito e é grande...enfim, não sei exactamente do que é que é, mas eu estou com uma dor de cabeça de caixão à cova e, acreditem, não é nada que eu tenha com frequência...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Se calhar estava na altura de libertarmos o Mandela que há em nós...

Doida por eles


Mas tão doida que dei comigo a fazer downloads desta última temporada!

Hoje vou-me deliciar a ver o 3º episódio. É que nem quero saber se tenho de estar sentada numa cadeira em frente ao computador!

Ninguém escreve ao Coronel...

... era o que eu ia dizer, antes de abrir aqui o estaminé e ver que afinal tenho notícias do meu filho.
Como ao pé das notícias dele as outras são de somenos importância, já não me sinto tão «coronel» como há cinco minutos atrás.
Mesmo assim era de bom tom que os senhores da casa e do telefone dessem notícias que a minha paciência está por um fio...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O síndroma da pequenez

Cresci, e posso dizer que sempre vivi, em terras pequenas. E quem, como eu, as conhece, saberá que não minto quando afirmo que existe, nas terras pequenas, uma certa mesquinhez. Todos sabem, ou pensam saber, da vida de todos; todos gostam, ou parece gostarem, de maldizer, de coscuvilhar, de difamar. Nas terras pequenas as pessoas entretêm-se com o diz que disse; com o parece que fez…
Neste momento creio que o vírus das terras pequenas se espalhou pelo meu pequeno Portugal. Ou isso ou sofremos todos do síndroma desta pequenez continental que na verdade nunca descansou, nem mesmo enquanto fomos, consideravelmente, maiores.

Do medo

A vida não teria com certeza metade da graça sem todas as incertezas que nela vivem. Imaginem se soubéssemos de antemão tudo o que nos vai acontecer, como nos vai acontecer, onde nos vai acontecer… Nada faríamos. Deixar-nos-íamos ficar, quietos no nosso canto à espera, à espera que acontecesse…
As incertezas são o sal da vida, não me queixo; não duvido. Mas são elas, também, que me arrasam o coração; que me pregam nas mãos este tremor; que me trocam os passos; que me plantam na alma o medo de me perder pelo caminho; o medo de não chegar, eu! Eu que sempre disse que é o caminho que interessa! Chegar ou não, aqui ou ali, logo se verá. O que interessa são as cores que encontramos; as estradas; o sol e a chuva; as gentes que connosco se cruzam. Isso é que interessa.
Então porquê este medo agora?! Este medo de acabar torta; de não conseguir lá chegar; de não ter tempo; de ser já tarde?! Este medo que não me serve para nada a não ser para me atrasar ainda mais; para me atrapalhar. Este medo que só me prejudica! Esta merda deste medo capaz de estragar, ele sim, todos os passos do meu caminho; todos os verdes; todos os sóis e até as pedras! Este medo capaz de tomar conta de mim!
Estamos numa era de ciência e de tecnologia. Numa era rica em descobertas e invenções.
Vou lá fora. Vou entrar em todas as lojas; em todas as farmácias e para farmácias; em todas as drogarias que encontrar. Nalguma encontrarei, com certeza, um remédio para o meu medo e, se por acaso se tiver esgotado, vou correr todos os jardins até encontrar a árvore do antimedo. Depois apanho um ou dois frutos e como-os. Um ou dois. Penso que será o suficiente...

I will survive

Como não me ocorre nada de inteligente para vos dizer, deixo-vos com esta música de sobrevivência, porque todos acabamos por sobreviver, mesmo que o trambolhão seja grande e o orgulho fique amassado, sobreviveremos. Por isso Pedro não te amofines com a dimensão do teu tralho, só é pena que os óculos, de tão colados que estão, não tenham sucumbido à queda, mas enfim... ele há artefactos que têm o estranho poder de serem absorvidos pelos corpos que ocupam.


sábado, 6 de fevereiro de 2010

Falsidades

Acabei de falar ao telefone com uma pessoa que não vejo há anos e veio-me à ideia que o mundo está cheio de pregadores. Gente que apregoa o que não faz e que faz o contrário daquilo que apregoa.
A última vez que falei com esta pessoa, há muitos anos atrás, foi para o ouvir dizer que era melhor eu cancelar a visita que tinha programado à sua mulher doente, convém que se diga que ambos são conhecimento de juventude, porque a sua vizinha, mulher de um muito ex-namorado meu, aliás do meu primeiríssimo namorado, poderia não gostar de me ver por lá!
Recordo-me que nessa altura, aquando do tal telefonema, vieram-me lágrimas aos olhos e pensei – como é que é possível?! Tanta insegurança! Mas o que mais me doeu foi a atitude deste meu suposto amigo, que segundo me tem chegado aos ouvidos é um homem zen; adepto da cultura oriental e todo voltado para a paz, para a harmonia e para o perdão. Imaginem!
Hoje, e porque estava na companhia de alguém para quem liguei, pediu para me falar e cumprimentou-me como se de um velho amigo se tratasse. Como não sei fingir e nem a voz disfarço, percebeu com certeza o que me vai na alma. Tanto mais tratando-se de alguém com tanta experiência em vibrações…

Do meu País

Confesso que a preocupação me tem tolhido as palavras. Deixo-vos, por isso, com aquelas desafortunadamente intemporais de um imortal.
Nevoeiro
«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!»
Pessoa, Fernando, Mensagem, Assírio & Alvim, 2004

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Hoje troquei a televisão por isto e fez-me bem

Matar Saudades

Renúncia

Renunciei ao amor. Não ao amor em sentido lato, evidentemente, mas àquele particular – ao amor de um homem, seja ele quem for. Renunciei e não é de hoje ainda que só hoje me tenha apercebido disso. Fui, ao longo dos anos, construindo uma barreira que se interpõe entre mim e um outro qualquer. Foram talvez as muitas desilusões, ou talvez a minha incapacidade de não me iludir. O certo é que renunciei.
Ou isso ou a triste realidade de olhar em volta e não encontrar ninguém que valha a pena.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Paternalismos

Hoje, porque me deixei dormir, liguei a televisão como costumo fazer para ver as notícias durante o pequeno-almoço, e dei com a Serenela Andrade numa sala de aula de pintura duma Academia sénior, a tratar pessoas que têm idade de ser pais dela por meninas e meninos! Quem terá sido a imbecil, ou o imbecil, que decidiu começar a tratar os velhos como se fossem crianças, confundindo carinho com paternalismo?! O paternalismo é talvez das formas mais gritantes de desrespeito, por ser cínica. Quem é que disse a estes ignorantes que os velhos são como as crianças?! Um velho é alguém que perdeu, talvez, algumas capacidades mas a quem ninguém pode tirar os anos que cá andou nem uma vida inteira de aprendizagem!!!! Haja respeito!

Do pretensiosismo

O pretensiosismo, tal como o nome indica, é a qualidade de quem pretende. E como só se pretende o que não se possui, os pretensiosos mostram ao mundo o que não são e o que não têm.
O pretensiosismo manifesta-se nos nomes pomposos; nos maneirismos afectados; na escolha de obras de arte pela sua cotação de mercado; na vacuidade das opiniões; na superficialidade dos sentimentos; nos olhares de cima para baixo, ou de lado, tanto faz e num certo sotaque, tão ou mais afectado do que os maneirismos. E é irritante. Irritante e pobre. Sobretudo pobre.
Ninguém é obrigado a ter ou a ser isto ou aquilo, mas os pretensiosos transportam néons que gritam – Vejam bem o que eu não sou mas gostava de ser! Vejam o que eu quero que acreditem que tenho mas na verdade não tenho!
A mim inspiram-me pena porque sempre senti pena da verdadeira pobreza. E a verdadeira pobreza é essa do espírito. Desse espírito que os pretensiosos exibem como quem exibe um majestoso troféu.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Conduzir aflitinha para fazer xixi e com a chuva a cair lá fora, como diria a minha filha, não é fixe.

Da Fé

Ontem num jantar de amigos discutiu-se política – confirmei algo de que já suspeitava – ando a leste! embrenhada na minha vida, leio apenas as letras gordas só para não dizer que não leio nada!; discutiu-se religião e fé, só para se concluir que cada um tem a sua e que podemos fazer dela o que bem nos aprouver – dar realce ao que é comum ou focarmo-nos nas diferenças…
Afinal é para isso, também, que servem os amigos, para nos mostrarem aquilo que pensamos e sentimos mas que anda escondido nos meandros do inconsciente e só se manifesta quando nos olhamos no espelho que são os outros que podem, ou não, pensar como nós.
Palavra puxa palavra, e eu ouvi mais do que falei e soube-me bem. Eu, que falo pelos cotovelos, dei por mim divertidíssima no meio dos dois a olhar um e outro na sua acesa discussão, houve momentos em que parecia estar a assistir a um daqueles debates em que os intervenientes ora se ouvem ora se deixam de ouvir e começam a falar todos ao mesmo tempo. A discussão da fé prolongou-se muito mais do que a da política e chegámos à conclusão que nenhum de nós sabia a origem da palavra. Pois aqui vai:
Fé (do grego: pistia e do latim: Fides[1]) é a firme convicção de que algo seja verdade, sem nenhuma prova de que este algo seja verdade, pela absoluta confiança que depositamos neste algo ou alguém.1

1 http://wiki.sapo.pt/wiki/F%C3%A9

Assim sendo, não me parece que a fé deixe grandes margens para se poder dizer – Tenho fé nesta pessoa, até aqui. Daqui para a frente já não. Por exemplo, tenho fé em Deus enquanto tudo o que acontecer fizer sentido para mim, nesta minha terrena capacidade de entendimento. Não faz sentido! Não faz sentido ter-se fé em Deus, ou seja no que for, se ela não for absoluta. Não faz sentido dizer-se que se tem fé e depois ficarmos zangados perante certos acontecimentos que nos magoam, que achamos injustos e despropositados. Nessa altura faz mais sentido dizer que perdemos a fé.
Ter fé em Deus é acreditar que tudo o que acontece tem um propósito, mesmo aquilo que é mau e terrível, e que esse propósito é bom, mesmo que só o venhamos a saber muito mais tarde ou nunca. Ter fé é confiar cegamente em algo; é depositar nesse algo uma visão e uma sabedoria que nos é vedada. Ter fé é acreditar que o sofrimento servirá alguma causa maior. E é nesses momentos que a fé é posta em causa e pode morrer ou não.
Pergunto quantos de nós terão fé e em quê!...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A nossa vida na vida dos outros

Não sirvo para estar sozinha e não sirvo para estar acompanhada! Não sei para que sirvo! No dia-a-dia nada faz sentido sem aqueles que amo, é por eles que me levanto; que lavo a roupa; que limpo, ainda que pouco, a casa; que vou às compras; que ponho a mesa. É na expectativa da sua companhia que penso no que almoçar, ou jantar; que escolho um filme. E mesmo que ultimamente a vida nos desencontrasse e me roubasse o tempo exigido à dedicação, o certo é que me bastava o saber que a porta se abriria, que uma chave entraria, ou que alguém, no quarto ao lado, descansava.

Dou comigo à espera que a porta se abra mas ela teima na sua mudez de porta e eu antevejo o meu futuro solitário e penso na urgência de mudar de casa, de ter outras condições para a voltar a encher e a dar-lhe vida, porque a vida é nos outros que mora e não em nós. Sem os outros ela não faz lá grande sentido.

Faz hoje 78 anos

que nasceu aquela que haveria de me dar à luz; aquela que haveria de cuidar do meu pai; aquela que haveria de me ensinar a simplicidade da vida, a relatividade das coisas e a importância daquilo que é verdadeiramente importante - o amor que nos une a todos.

Faz hoje 78 anos e por isso brindámos, por entre a açorda de ovas e o sável frito, mais vinte anos de saúde e alegria com o vigor que ela continua a ter; mais vinte anos do seu sorriso incomparável; mais vinte anos é tudo o que peço, por agora...