terça-feira, 9 de março de 2010

O chamamento da terra

Ontem, quando os homens viviam mais perto da terra, era fácil compreender os amuos do espírito; as tristezas das almas. O sol e as nuvens; o vento e a trovoada, carregavam e descarregavam corações como quem carrega e descarrega uma carroça, mas toda a gente sabia que assim era e, quando o céu se carregava, as gentes preparavam-se para serem, também elas, carregadas.

Hoje, atarefados como andam os homens, assoberbados de afazeres; voam mais do que correm, correm mais do que andam e, de pés levantados do chão, já não sentem a terra. Não ouvem os seus lamentos, não lêem os seus sinais. E a terra, abandonada, não se cansa de chamar.

Parabéns meus queridos



Parecem Estrelas de Cinema mas não são. São os meus pais, que 53 anos depois ainda sorriem um para o outro, apesar dos pesares.
Parabéns a eles. Ao seu carinho; à sua força; à fortíssima amizade que foram capazes de construir ao longo destes 53 anos tão cheios de coisas boas e menos boas, como é a vida de toda a gente. Parabéns a eles, por ainda sorrirem, por ainda se zangarem, por ainda olharem nos olhos um do outro. Parabéns por estarem juntos e serem capazes de ser felizes.

A proximidade da morte

Recebi ontem a notícia da morte de alguém que me acompanhou durante muitos anos. Durante toda a minha adolescência, juventude e parte da idade adulta.
Afastámo-nos por incompatibilidade de estilos de vida; de formas de estar; de modos de pensar e de agir que estão para lá do mundano.
Há coisa de uns meses telefonou-me pedindo um encontro, que havia algo para dizer. Respondi que não havia nada para ouvir e recusei.
Morreu sozinho. O seu corpo foi encontrado três dias depois, já em decomposição. Nu; deitado na cama. Foi autopsiado e enterrado em urna selada. A mãe não o pôde ver; ninguém o pôde ver. Na impossibilidade de ser vestido, baixou à terra dentro de um saco de plástico.
Não é a falta que me faz, é a proximidade da morte. Desta morte. Tão solitária; tão anónima; tão precoce. É a proximidade dela que me põe este peso no peito; este mal-estar; esta tristeza.

segunda-feira, 8 de março de 2010

À minha filha

Faz hoje 30 anos que nasceu o meu primeiro filho.
Alguns dias antes sonhei que tinha tido uma menina e que se chamava Diana. Acordei a meio da noite com a convicção que estava uma menina para nascer.
Quando dei entrada na maternidade, fi-lo por imposição médica e não pela vontade de nascer da criança que teimava em manter-se, confortavelmente, dentro de mim. Puseram-me a soro e foi só ao fim de três dias e três balões, na madrugada da terceira noite, que o bebé decidiu que era a hora de sair.
Inexperiente nestas lides de parir um filho (eu sei que é uma expressão algo crua., talvez por isso eu goste dela), achei que não havia no mundo dores maiores do que aquelas e, no meu absoluto silêncio, feito de inspira expira, convenci-me que só podia ser um rapaz… enganei-me. O sonho estava certo e assim que ela nasceu, olhei-a e disse em voz alta – é a Diana. O médico que me assistia parou o que estava a fazer e perguntou – É quem?! - E eu repeti – É a Diana.
E a Diana, senhora da sua vontade desde sempre, faz hoje 30 anos e é uma mulher linda que, como todos nós, sabe mais o que não quer do que o que quer e, por vezes, deixando-se levar por essa indecisão do querer, pensa ser dela o defeito quando é essa a única forma que temos de ir traçando caminhos – afastando o que não se quer.
Para ela, que o mundo se abra a tudo o que tem para dar, que é tanto. Que os seus escritos ecoem aqui e mais além, pelo planeta que cada vez é mais pequeno; que a alegria lhe bata à porta todos os dias e que não desista se for de manhã e a encontrar algo sisuda. Ela acorda sempre assim, é coisa de somenos importância. Que a prosperidade seja sua companheira e, acima de tudo, que o amor a tome nos seus braços, que ela o abrace também e que assim fiquem, bem juntinhos, até ao fim dos tempos, para que a sua alma encontre, então, o seu estado de graça.
Parabéns minha muito muito muito querida. Qualquer coisa estarei sempre aqui, tu sabes, mesmo que já cá não ande. As mães têm destas coisas, caminham connosco até ao fim.

domingo, 7 de março de 2010

É mau de mais!

O que é que fizeram àquela menina que ganhou o festival da canção, que ela em vez de cantar chora?!
Com tantos concursos não havia para aí alguém que cantasse em vez de ir gemer ao lado de um piano?!

Tu não me conheces

Buscamo-nos no outro.
Aquilo a que chamamos amor mais não é do que o reconhecimento de nós no seu olhar.
E a solidão surge no momento em que esse olhar reflecte um estranho que não somos nós.
Poucas coisas me surpreendem tanto como ouvir alguém que me olha há tantos anos falar de um eu que eu não sei quem é. Ou é porque tem olhado sem ver; ou porque sempre olhou outra coisa qualquer.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Da incompetência

A incompetência incomoda-me. Mas aliada à estupidez e/ou à arrogância, põe-me completamente fora de mim. Dá-me cabo dos nervos; transtorna-me; causa-me stresse e rebenta-me com a saúde e esta semana são já três as situações em que o meu coração se exaltou e os meus cabelos brancos duplicaram.
Dou por mim a sentir-me conflituosa que é aquilo que eu até nem sou mas não engulo mais sapos do que os imprescindíveis, que cada vez são menos graças a Deus e à idade que tem o seu estatuto.
A humildade é uma qualidade obrigatória para a evolução em todas as vertentes. Posso até ser incompetente mas deixá-lo-ei de o ser a partir do momento em que escuto os outros e vou adaptando as minhas acções às suas necessidades, fundamentalmente quando a minha actividade é deles que depende ou é a eles que se destina.
Quem não tem isto presente não pode nem deve ocupar cargos de serviços. Quem não está interessado em evoluir, mesmo que apenas humanamente, isole-se; transforme-se em ilha ou vá para o raio que o parta que assim já não chateia ninguém.

quinta-feira, 4 de março de 2010

E para os imbecis que ontem em Coimbra assobiaram a selecção nacional...

...aqui ficam alguns versos de Camões:

«Eis ali seus irmãos contra ele vão
(Caso feio e cruel); mas não se espanta,
Que menos é querer matar o irmão,
Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta.»

Camões, Luís, Os Lusíadas, canto quarto, estrofe 32

Shame on you!

Suicídio parte II

Ao que parece a polícia não foi bem sucedida e o homem que vi a saltar o gradeamento da ponte acabou mesmo por se atirar. Só espero que a alma dele não me persiga por não ter parado mas, assim como assim, também não me considero uma boa negociadora...
Pode ser que agora esteja em paz.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O Sentido da Vida

Há dias em que o estupor anda tão escondido que chego a duvidar da sua existência.
Damos o nosso melhor; esperamos que a vida nos retribua e, por vezes, tudo o que ela faz é permitir-nos esta ilusão de controle.
Talvez o sentido seja esse: aprendermos os nossos limites e entregarmo-nos a ela, que afinal é soberana. Entregarmo-nos e deixarmo-nos ir. Pode ser que pelo caminho o encontremos, ao sentido.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Suicídio, ou talvez não...

Hoje, por volta das três da tarde, um homem parou o automóvel a meio do tabuleiro da ponte e, calmamente, trepou a primeira vedação.
Quando parei ao pé do primeiro polícia que encontrei, junto ao edifício da ponte, foi-me dito que alguém já tinha chegado às falas com ele. Que estavam a tentar dissuadi-lo.
Mas o certo é que a sua imagem não me sai da cabeça.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ao meu filho

Não gosto de citações, mas há aquelas às quais não podemos fugir.
«(...)A coragem é mais do que a capacidade de suportar, é o poder de criar a nossa própria vida contra tudo o que Deus ou os homens nos possam infligir, para que cada dia e cada noite sejam aquilo que imaginamos. A coragem faz de nós sonhadores, faz de nós poetas.»*
...e o meu filho é o homem mais corajoso que conheço.
*Fitzgerald, Penelope, A Flor Azul, Relógio d'Água Editores, 2010.

Coração de mãe

Já aqui se disse uma vez que uma mãe se condena a transportar o coração nas mãos até ao fim da vida, para quem está prestes a sê-lo saiba que é verdade. E se não literalmente, imaginem-se a caminhar com as mãos em concha, em frente ao peito, sustendo um coração que pulsa e porque pulsa não pode ser apertado; imaginem-se a tropeçar numa qualquer pedra do caminho; imaginem que as mãos se fecham, porque é automático, para o proteger, ao coração. Imaginem o aperto…
Pois eu ontem tropecei. Tropecei logo de manhã quando acendi a televisão à hora do pequeno-almoço, como sempre o faço para ver as notícias, e vejo que no Chile houve mais um terramoto. A Terra não se cansa de nos assustar! E o meu filho está por lá, por aquelas paragens. Sem telefone; só com a Internet, que não é pouco se a ela tivesse acesso diário, mas não tem.
Passei o dia a olhar para as páginas do Facebook, à procura de notícias; a imaginar caminhos; a tentar perceber onde estaria ele aquando da tragédia. De mais esta tragédia.
Só hoje tive notícias: «Sobrevivi ao terramoto…», diz ele e eu acredito. Mesmo sem o ver acredito porque senão como estaria a escrever. Mas o meu coração pede mais – ouvir a sua voz pelo menos, que há tanto tempo já que não a oiço.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O mito de «no meu tempo não havia nada disto»

Tenho na minha turma um grupo de estudantes, rapazes e raparigas, que boicotam sistematicamente cada aula que presenciam. Falam alto a despropósito; desrespeitam professores e colegas, gritam, entram atrasados, saem antes da hora, batem com as portas. É como se mais ninguém estivesse naquelas salas, só eles – quais Reis e senhores de um território privado; privadíssimo! Hoje, palavra de honra, tive vontade de os matar.
Saio dessas aulas mais cansada por eles do que pelo professor a quem, afinal de contas, pago para que me canse. E não se pense que se paga pouco só por se tratar de uma Instituição Estatal! paga-se, e paga-se bem.
À conversa com pelo menos dois professores e lendo nas entrelinhas de outras conversas, a interpretação dada a este tipo de comportamento numa população que se quer mais madura por ser universitária, é a de que a juventude se prolonga, nos dias de hoje, quase ad eternus e, por consequência, também a adolescência que a antecede. Assim, estas criaturas mal-educadas, sem sentido ético e desrespeitosas, deveriam estar, provavelmente ainda, no Secundário ou, quiçá, no ensino básico.
Pelas conversas são espécies recentes, já que há alguns anos atrás um aluno universitário era já um adulto responsável e atento a tudo o que se lhe quisesse ensinar, sendo que para um professor com falta de paciência estaria fora de questão dar aulas noutra instituição que não fosse superior.
Hoje em dia, ao que parece e segundo consta, muitos já fogem a sete pés das licenciaturas, principalmente dos primeiros anos. Muitos professores, bem entendido.
Por questões profissionais tenho em mãos uma obra, que sairá em breve, da Penelope Fitzgerald – A Flor Azul.
Trata-se de um romance baseado na vida de Friedrich Von Hardenberg, mais conhecido por Novalis, que viveu nos finais do séc. XVIII. Deixo-vos aqui uma pequena transcrição do mesmo:
«[na Universidade]Diante dos olhos esbugalhados de Fichte [o professor], os alunos, cuja reputação de desordeiros não tinha igual em toda a Alemanha, acobardavam-se por completo, transformados em crianças assustadas. (…) À noite, os estudantes andavam de cervejaria em cervejaria à procura de colegas, (…) para se embebedarem ou, se já estivessem bêbados, para se embebedarem um pouco mais.»1
1 Fitzgerald, Penelope, A Flor Azul, Relógio d’Água Editores, Lisboa (2010).

Sugiro que o Instituto da Educação da Universidade de Lisboa contrate, para este tipo de gente, um professor de olhos esbugalhados porque, ao que parece, o mal não está nos tempos mas tão só em certas pessoas. Ele, o mal, é intemporal. Tal como a falta de educação e o desrespeito.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A inexistência do amanhã

E dizia Dany Crane:

«A única coisa que há a temer é o amanhã. E eu não vivo no amanhã.»

Da mendicidade

Falava-se de mendicidade e da forma como era encarada há muitos anos atrás e como o é agora.
Antigamente um mendigo suscitava compaixão e tinha até um lugar na sociedade - existia para nos recordar a importância de dar; para nos ensinar a olhar o outro, a valer-lhe. Havia até uma teoria cristã que afirmava que os mendigos faziam falta, como faz falta um construtor ou um médico.
É claro que podemos arranjar justificação para tudo e de tudo fazer um bem, uma mais valia. Quando entornamos vinho, dizemos que é alegria... Mas hoje em dia a mendicidade está, aos olhos de todos aqueles que não a praticam, vista como um fracasso, uma falha, uma culpa. Olhamos os mendigos com um ar acusador como se de seres mais fracos e inferiores se tratasse - se não como teriam eles chegado ao ponto a que chegaram?!
Mas o certo é que não fazemos a mínima ideia do que se passou com aquela pessoa e até que ponto a responsabilidade de andar a estender a mão à caridade, que mingua de dia para dia, é apenas dela. Hoje andava um velhinho, muito velhinho, de mãos trementes, a tentar vender dois sacos - um em cada mão - de língua da sogra aos carros que paravam no semáforo da Praça de Espanha.
Não comprei língua da sogra mas estendi-lhe uma moeda porque nada me comove e escandaliza mais do que um velho, que deveria estar no aconchego de um qualquer lar, repousado de uma vida que deve ter sido de trabalho porque ninguém sobrevive sem ele, muito menos neste país, a andar de carro em carro, disfarçando a sua mendicidade com dois sacos de língua da sogra.
Não há direito! Que país é este?! Que mundo é este?! Haviam de ter visto o seu olhar...haviam de ter visto...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Solidariedade

Diz-se que é nas dificuldades que a alma humana se revela; que a dificuldade aguça o engenho e por aí fora... mas porque é que é preciso uma tragédia para nos ajudarmos, realmente ajudarmos, uns aos outros, é algo que me transcende.
Mas pronto - antes isso que nada.

Por este andar daqui a dias a Madeira voltará a ser a Madeira. Bem hajam.

No escurinho do cinema

Hoje deu-me para aqui...