
Todos nós somos antagónicos. Todos procuramos, incessantemente, dentro e fora de nós. Todos somos múltiplos. Neste espaço, é a minha multiplicidade que se manifesta.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Pavlov, essa é que é essa!
É certo que, na última mudança que fiz, me vi obrigada a superar todas as minhas forças e momentos houve em que acreditei sucumbir à dor de me desfazer de uma vida inteira; de um projecto; de um futuro que dei como certo. Mas esta mudança nada tem a ver com isso. Ao contrário da anterior esta representa um passo na construção de uma estabilidade que acredito ser capaz de construir sozinha. Então porquê esta resistência? Porquê este aperto no estômago, estas vertigens sempre que levanto os olhos para os livros que vou ter de encaixotar?
Provavelmente Pavlov explicaria isto com os seus reflexos condicionados. De facto, e ao que parece, aprendemos mais depressa do que a nossa razão supõe. E é esta «inconsciência» do que se sabe que, não só obriga o nosso corpo a reagir como, e atenção a isso, nos pode induzir no erro de interpretarmos mal essa reacção.
Se eu, em vez de «ler» a forma como o meu corpo tem reagido à mudança como uma estranha aprendizagem feita por ele na mudança anterior, a ler como um aviso ou um alerta – estará lançada a confusão, com todas as dúvidas e todos os medos a causarem-me insónias para além daquelas que já me causam (estão mais brandas) a falta dos cigarros. Estarei a fazer bem? Será que estou no caminho certo? Será que tudo vai correr de forma positiva? São estas perguntas, de resto as mais estúpidas que se podem fazer porque raramente têm resposta e quando a têm ela não passa, ao fim e ao cabo, de suposições e desejos aos quais gostamos de chamar previsões e que nos dão, por períodos de tempo indeterminados, a falsa ilusão de controle, mas são estas as perguntas que me invadem o cérebro sempre que sinto o estômago a apertar, quando afinal e muito, mas muito provavelmente, ele aperta porque se lembra do sofrimento que foi, a última vez que se viu nestes apuros. Até porque, e isso é uma coisa que eu faço questão de ter bem presente, se se tratasse deste tipo de dúvidas então ele tinha-se apertado no dia da escritura e isso não aconteceu. Muito pelo contrário. Por isso vamos mas é a despachar isto que se faz tarde! Que é como quem diz, deixa-te mas é de merdas!
sábado, 24 de abril de 2010
Vidas virtuais
A mulher dele, com cara de poucos amigos, falou-me por cima do ombro, enfim, o ambiente estava pesado e eu tive pena do meu antigo colega que leva uma vida totalmente desprovida de sentido.
Neste entretanto entrou uma senhora cuja cara não me é estranha e eis que de repente a conversa muda para um registo completamente diferente. Os olhos dele recuperaram o antigo brilho e, de ataque em ataque, a expressão do seu rosto rejuvenescia. Compreendi que falavam de um jogo. Um jogo de computador. Mas faziam-no como se da vida se tratasse. As expressões; os termos; a seriedade e o entusiasmo, roubados à vida, existem agora no écran de um computador.
Eu sei que hoje em dia se passa muito tempo por aqui e sei também que a virtualidade é já uma realidade. Não sou inocente. Mas eu vivo sozinha. Isto distrai-me. Ainda assim, nunca dei por mim a discutir um jogo de computador como se da vida se tratasse! É triste. Saí de lá triste. Tanto mundo aí! Tanta vida para viver! Tanta gente com quem trocar sorrisos!
sexta-feira, 23 de abril de 2010
No segredo dos deuses
Hoje, a tratar do Ernesto (o Ernesto é o canário), tive consciência de que sempre parti do princípio que o Ernesto é macho, quando não faço a mínima ideia se é macho ou fêmea.
Aposto em como ele também não e, a esta hora, acredita tanto como eu, ou mais ainda, que é macho. Que é macho, que é amarelo, que é pequenino e que é lindo; que canta muito bem e por aí adiante… É nisso que ele acredita e é isso que ele é, tudo aquilo que eu lhe digo que é – ele é.
Imaginem agora o que cada um de nós é! Provavelmente por isso, por sermos o que os outros desde sempre disseram que somos, é que somos todos muito parecidos senão iguais! Vai-se a ver e aquilo que cada um de nós é, se é que existe, e que nos poderá efectivamente diferenciar de todos os outros, está mais do que camuflado debaixo de tudo aquilo que, desde que nascemos, nos dizem que somos. A não ser que tenhamos tido a sorte da coincidência, isto é, que quando nos disseram, em pequenos, que éramos inteligentes, tenham acertado na muche!, aquilo que cada um de nós é permanecerá para sempre no segredo dos deuses. Isto se realmente existir, já se vê...
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Aos poucos...

quarta-feira, 21 de abril de 2010
Estou tão danada que o melhor é não dar nome a isto...
O meu sonho, aquele sonho sonho, a minha grande ambição, é poder, um dia, cagar em absoluto nestas instituições todas; é ter um pedaço de terra onde possa fazer um furo à revelia dos mamões; onde instale placas e moinhos que me gerem a energia que preciso; é não precisar dos bancos para nada, nadinha, ter as minhas dívidas todas pagas e guardar o dinheiro como se fazia antigamente, debaixo do colchão; dentro de um frasco; à sombra da árvore – em todo o lado menos no banco. O meu sonho é poder, um dia, espetar-lhes, com toda a convicção, o dedo do meio e mandá-los a todos àquela parte. Puta que os pariu!
Há muito tempo que não me surpreendiam!
terça-feira, 20 de abril de 2010
A vida tem destas coisas
Ontem no meio de um certo desespero resolvi parar o cérebro e nessa paragem realizei que tudo, rigorosamente tudo aquilo a que me propus foi escolha minha. A compra de casa, foi escolha minha; uma licenciatura tardia, foi escolha minha; a Empresa, foi escolha minha. Poderia ter feito outras escolhas. Poderia ter optado por algo mais simples, mais básico, e muito mais desinteressante.
Foi escolha minha. É escolha minha. Em qualquer momento posso escolher outra coisa qualquer. Nem sabem o descanso que isso dá!...
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Não consigo
domingo, 18 de abril de 2010
Agora sim, começou a dança...
Entretanto agarrei-me com unhas e dentes à Estatística mas não tenho a certeza se servirá para alguma coisa. Mesmo agarradinha, passei estas duas últimas horas a falar alto e a esticar os braços para amparar os candeeiros.
E foi este o dia que me escolheu para eu deixar de fumar. Digo, que me escolheu, porque não fui eu que escolhi coisa nenhuma, foi a noite de ontem que, à traição, me deixou sem cigarros e eu, como sou preguiçosa e preciso de estudar (já se percebeu), entendi que não haveria de sair de casa para comprar fosse o que fosse.
Vamos lá a ver como me aguento…
Me, me, me...
Raramente, quase nunca, bem…nunca, os nossos pensamentos se debruçam sobre os momentos em que directa ou indirectamente beneficiámos dessa amizade. Nunca, porque o momento em que isso começa a acontecer é o mesmo em que a zanga se começa a esvair.
Quando atravessamos na vida fases de assoberbamento de tarefas, afazeres ou prazos para cumprir, raramente pensamos nos afazeres, nas tarefas ou prazos para cumprir, dos outros, por muito queridos que eles nos sejam, quer-se lá saber! os nossos prazos são, sem sombra de dúvida, muito mais apertados; as nossas urgências muito mais prementes, ainda que a razão nos diga que se calhar não, mas isso não interessa para nada, o coração é que sente e ele está chateado e pronto.
Tudo isto é a prova provada da gigantesca dificuldade que temos, todos nós, de nos colocarmos na posição do outro. Isso é tudo muito bonito mas é quando a vida do outro está complicada mas a nossa flui, calma e pacificamente, sem stresses ou dissabores. Aí sim, somos capazes de nos encher de compreensão, altruísmo e boa vizinhança. Agora se não for esse o caso, temos pena mas o meu é sempre sempre, mais urgente do que o teu… a minha desgraça é sempre sempre muito maior do que a tua e o meu azar!... Desse nem se fala.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Deus escreve direito por linhas tortas
Foram quatro pneus novos. O acidente provocado ontem pelo motar que me rasgou o pneu traseiro levou-me hoje ao senhor dos pneus. O plano era passar os dianteiros para trás e comprar dois para a frente. É assim que costumo fazer. O problema é que aquele outro, o dianteiro, que me caiu no buraco não há um mês, estava num estado tão lastimoso, ele e a jante, que se o carro me fugia era só por ele e se não tive um acidente maior, daqueles que se tem quando à chuva um pneu rebenta, exactamente no momento em que atrasada se «corre» daqui para ali, só pode ter sido Deus.
Obrigada portanto ao senhor da mota porque a Deus já agradeci.
Queixamo-nos amiúde das coisas, sem sabermos se o seu acontecimento não estará a evitar um mal maior.
Da vitimização, ou não...
Se formos a ver bem, a vitimização é uma coisa relativamente simples. Todos nós temos razões de queixa. Todos nós podemos, se quisermos e estivermos para aí virados, chorar as nossas desgraças; lamentar os nossos esforços; carpir sobre os nossos azares; sofrer, enfim, as injustiças do mundo e até de Deus e darmos, assim, realce a todas as mágoas.
Se quisermos, e estivermos para aí virados…
Mas também se quisermos e estivermos para aí virados, podemos agradecer toda a nossa sorte; alegrarmo-nos com todas as nossas conquistas; regozijarmo-nos com os nossos esforços; fortalecermo-nos com os nossos percalços e, sobretudo, chamar-lhes isso mesmo – percalços.
Podemos. Se quisermos e estivermos para aí virados.
Talvez por isso se veja por aí gente sem nada a não ser dor; gente curvada pela vida, a sorrir e a agradecer o sol que espreita, olhe ali, não vê?! naquela nesga! E gente que trabalha e tem um salário, todos os meses; gente que respira saúde; gente que estuda; que escolhe; que luta, porque pode e porque quer, num lamento diário de não aguento mais isto; num choro sufocado de ninguém me quer, ninguém me dá atenção, ninguém me dá valor. Talvez por isso…
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Faz hoje anos o mais novo elemento da família. Parabéns a ele.
Nasceu há nove. Num domingo de Páscoa. Quando já todos suspirávamos por ele.
Vive indeciso entre o português e o holandês. Bem, talvez não tão indeciso assim mas que se esforça por falar a língua do seu pai disso eu não tenho dúvidas, ainda que precise de começar no número um sempre que quer traduzir para português um número qualquer. Mas já responde para além dos «sins» e «nãos», o que é já uma vitória. Principalmente para nós que, daqui de tão longe, gostamos de lhe ouvir a voz.
É giro que se farta. Quando era mais pequeno tinha tanta graça que o comparávamos a um desenho animado. Agora, mais crescidinho, não gosta desse tipo de comparações e nem sempre vai à bola com as brincadeiras dos primos, tão mais crescidos do que ele.
Faz anos hoje e eu gostava de o ter aqui para o poder abraçar mas a vida é mesmo assim. Agora só lá mais para o fim do ano. Ainda assim aqui fica, bem registado, o meu desejo de uma vida longa e tão feliz, mas tão feliz que o seu rosto, quando envelhecer, envelheça a sorrir. Que a saúde e a fortuna lhe batam sempre à porta e que, mais ano menos ano, queira vir até cá, passar connosco umas férias de Verão.
E vão dois...
Batem leve, levemente...
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Os verdugos desta nova Idade Média
Na outra Idade Média, os verdugos dos senhores feudais invadiam as aldeias para extorquir aos pobres camponeses impostos impossíveis, mas davam a cara. A quem, como eu, gosta de espernear, era-lhe dado um alvo, concreto, definido, e a possibilidade de se armar contra.
Estes verdugos, desta nova Idade Média, escondem-se atrás uns dos outros; atrás das leis; atrás da ordem para a qual nós, que habitamos as bases, não contribuímos em nada a não ser na dócil concordância, e roubam tanto ou mais ainda, subtilmente, quase despercebidamente, todos os dias, mais um bocadinho.
