quarta-feira, 30 de junho de 2010


Ontem estive por aqui. Fui rezar. Rezar à minha maneira que eu pouco ou nada sei dos rituais da Santa Igreja. Na verdade o que me comove são as Igrejas antigas. Frescas. Silenciosas.
Valeram pois os dez minutos que assim passei, em silêncio e em paz na Catedral sem missa. Comoveram-me bem mais do que os quatro padres que falaram alternadamente na Capela das Aparições, seguidos pelos devotos que, conhecedores da coisa, lá iam acrescentando às vozes daqueles, as suas. Mecânicas. monótonas. Não me tocaram a alma. Nem as vozes nem as figuras dos padres das quais não me consegui abstrair nem deixar de me indagar por que diabo estariam quatro padres a fazer o trabalho de um...
Mas rezei e estive em paz. Em paz e em muito boa companhia. Que mais se pode pedir?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Hoje...

...estou oca. Incapaz. Vazia de vontades; de pensamentos; de energia.

Hoje não me peçam nada; não me perguntem nada. Não saberia responder. Hoje só quero ficar assim - vazia.

Hoje é dia de não ser.

domingo, 27 de junho de 2010

Ter juizo

A vida exige muita coisa. Exige empenho; exige dedicação; exige amor e entusiasmo; exige alguma inteligência e sorte também, mas exige, acima de tudo, muito juízo.
Perder a cabeça não é tão raro nem tão difícil quanto se possa imaginar. Não depende sequer da idade; tampouco da experiência. Basta um pequeno deslize, estar vivo e gostar de estar, as solicitações são tantas que, quando se dá por isso, já se mudou o rumo; já se enveredou por estranhos caminhos. Estranhos pela ausência de normalidade e estranhos por serem desconhecidos e, quando não se conhece a terra que se pisa, é bem mais difícil encontrar o caminho de volta.
Ter juízo, portanto, é fundamental. Conhecer os próprios limites; saber o que se pode e o que não se pode, ou não se deve. Nunca perder o rumo, eis um dos segredos para levar o barco a bom porto – nunca perder o rumo.

sábado, 26 de junho de 2010

Banalidades

Não tenho jeito nenhum para pinturas, mas a minha filha, que é alérgica a pés, virou-se para mim no outro dia e disse, E pintar as unhitas dos pés, hum?
Desde esse dia parece que apanhei o vírus e cada vez que me via ao espelho evitava olhar para os pés. Em contrapartida passei a reparar nos pés de tudo quanto é mulher. A minha filha tem razão. Sempre é outro decoro.
Assim lá me decidi a comprar verniz. Vermelho, claro (não é vermelho claro, é vermelho, claro), e estou há perto de duas horas de volta da pintura. Já gastei mais «diluente» do que tinta; os dedos ficaram um pouco rosados mas tenho fé que com as lavagens isto vá ao sítio. Tirando isso, o resultado não está mau de todo. Agora tenho as unhas dos pés a condizer com os óculos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Corações ao alto

Foi assim que decidi acabar uma semana a transbordar de promessas e desilusões, assim, umas a seguir às outras, sem dar tréguas, porque a vida é feita de escolhas e eu escolhi deitar fora coisas que me prejudicam, que me fazem mal, como o medo ou a preocupação, que não trazem vantagens nenhumas, antes pelo contrário.
Corações ao alto, pois. Que é lá, no alto, que devem estar.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Constatações

Há momentos em que foge de mim toda a capacidade de comunicação, como se, na previsibilidade das intenções alheias, a desilusão e o aborrecimento a substituíssem, e emudeço; gaguejo; perco a vontade e o à-vontade e fujo para não me denunciar, convencida que os outros, como eu, me adivinham os pensamentos e esquecendo que, na verdade, eles estão muito mais concentrados e preocupados com os deles do que com os meus.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Houve tempos em que a minha mãe costumava dizer que eu era muito complicada.
Não era. Não sou. Gosto é de pensar e durante muitos anos pensei que todas as pessoas eram assim.

Vários olhares

Há sempre várias formas de se olhar as coisas.
Onde uns vêem tristeza, outros vêem contrariedade, dificuldade na cedência.
Abdicarmos de postos e bens é, talvez, um dos grandes objectivos desta nossa curta passagem. Aprender o desapego é o primeiro passo para o altruísmo. Libertarmo-nos de nós, das nossas vontades particulares, para nos focarmos nos outros, nas suas necessidades, é crescermos para uma causa maior.
A minha mãe fez isso há trinta e seis anos. O meu pai está a aprender agora. Vamos lá a ver se consegue…

Estou triste

A velhice é uma condição difícil de aceitar, pelo menos para algumas pessoas. Outras haverá, com certeza, que a recebem com gratidão e em paz. Talvez aquelas que levaram uma vida plena. Que se sentem realizadas. Mas para aqueles que, como o meu pai, passaram uma grande parte da sua vida carregando uma invalidez, a velhice é um peso mais. Mais um desprazer.
Não sei que faça para o animar. E sofro por o ver assim, tão triste. Com a perna que responde cada vez menos; com o braço que já pouco levanta; com a face que já não sabe bem se deixou de sentir agora ou se já não sente há trinta e seis anos. Nada deseja; nada o entusiasma, a não ser, por vezes, a nossa companhia. O facto de ter mudado de ambiente não o deixou feliz. Perdeu uma rotina e não me parece que esteja a conseguir encontrar substituta.
Quem me dera poder consertar o mundo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Certezas

Há-de chegar o dia em que não precisarei dos Bancos para nada.

Do poder e do seu exercício

É ténue a fronteira entre o exercício do poder e o seu abuso. De facto, muitas vezes, o simples exercício do dito é, só por si e já, um abuso. Aqueles que o granjearam honesta e valorosamente, raramente dele fazem uso. São os outros, os inseguros que amiúde se escondem por detrás da presunção e do pedantismo, que sentem necessidade de o fazer – os ignorantes, porque é, grosso modo, a ignorância que gera estas qualidades: a presunção, a altivez e o pedantismo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Não foi o ponto alto do dia, mas podia ter sido ( se Portugal não tivesse dado uma goleada aos norte-coreanos)

Parada num cruzamento fui assolada por um daqueles espirros que até obrigam os olhos a fecharem-se. Quando os abri ia a passar, pela frente do carro, um ciclista todo artilhado, de capacete, cantil e fato à maneira que, com a maior naturalidade, se voltou para trás e disse - santinho. E seguiu viagem.

YE YE YE PORTUGAL É QUE É


Do esmolar e do ajudar

O esmolador vai esmolando…devagar. Devagar como quem alimenta a mendicidade. Devagar, para que o mendigo não deixe de o ser, para que se mantenha dependente – um objecto que serve os propósitos sinistros de quem acredita que dando esmolas conquistará o reino dos céus.
Quem ajuda, ajuda a criar condições de autonomia ao ajudado. Quem ajuda ensina a independência.
O que fará com que certas pessoas, tão ávidas de dar uma esmola, sejam incapazes, ainda que podendo, de ajudar quem precisa?
Foi esta curiosidade que me levou de volta aos livros por onde estudei nos meus primeiros anos de escola.
Foi neles que encontrei estas pérolas que vos deixo, e foi neles que satisfiz um pouco da minha curiosidade.
(Tomei a liberdade de assinalar certas palavras que considero importantes).
«Gosto muito deste pobrezinho. (…) Ando sempre contente nos dias em que posso visitá-lo e dar-lhe esmola. (…) Nosso Senhor ensinou que a maior de todas as virtudes é a caridade
A Caridade, Livro de Leitura da 3ª Classe, O Livro da 3ª Classe, Ministério da Educação Nacional, p. 62.

«Quem dá aos pobres empresta a Deus.»
Provérbios, ibidem, p. 140.

«Defronte dele, morava um ricaço, que reparou naquele viver e teve do sapateiro tal compaixão, que lhe mandou dar um saco de dinheiro, porque o queria fazer feliz. (…)
- Sabes que mais? O dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria. O melhor era ir levá-lo outra vez ao vizinho ali defronte, e que nos deixe cá com aquela pobreza que nos fazia amigos um do outro.»
Braga, Teófilo (Adap.), Livro de Leitura para a 4ª Classe, Série Escolar Educação, Editora Educação Nacional, Porto, p. 57.

«Nunca te esqueças, pois, dos pobrezinhos. Tira de vez em quando alguns centavos da tua pequena bolsa para os deixar cair na mão dum velho sem amparo(…).Os pobres apreciam muito a esmola das crianças.»
De Amicis, Edmundo (Adap.), ibidem, p. 87.

domingo, 20 de junho de 2010

Ainda Saramago

Pessoa deixou-nos um Portugal por cumprir, Saramago mostrou-nos como fazê-lo. Porque um país se cumpre na humanidade; na coragem e na capacidade de ver para lá do que existe, para lá das aparências.
Saramago teve a coragem de ver e de contar o que viu; universalizou-se e universalizou-nos. Ficámos mais pobres agora, mas muito mais ricos do que seríamos se ele nunca tivesse existido; tal como ele teria morrido mais velho se tivesse morrido antes de conhecer Pilar. Somos hoje um país diferente se para tal não nos faltar «o engenho e a arte» de o ler, de o interpretar, de o compreender...em suma, de o conhecer e, conhecendo-o, conhecermos a nossa humanidade.

sábado, 19 de junho de 2010

Do Tempo

Apercebo-me da sua passagem nos aniversários; nos pagamentos dos seguros anuais; nas inspecções periódicas do carro...
E é assim o Tempo, esta ilusão marcada por invenções só nossas, muito nossas. Creio que se elas não existissem, nem dávamos por ele, pelo Tempo.
Hoje uma mulher virou-se para mim, assim do nada, e disse, Tem uma pele tão bonita! e eu nem percebi à primeira, Desculpe?! A sua pele, repetiu ela enquanto me inspeccionava a viatura, é tão lisinha, tão bonita! sem marcas, nem manchas!
Agradeci-lhe (que mais havia eu de fazer?) e pensei cá para mim, E nem sabes que idade tenho!
E foi aí que duvidei da sua existência e pensei que talvez ele, o Tempo, esteja conforme ao nosso estado de espírito.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Crónica a José Saramago

Do homem sempre se disse o pior. Que era antipático; pedante; presunçoso; incoerente; anticristo; antipatriota…
Não sei. Nunca com ele privei. Não conheço os contextos das suas acções ou as pressões que sofreu para as realizar. Dele ficou-me uma imagem bem contrária, transmitida presencialmente aquando da apresentação de uma das suas obras.
Nessa noite esperámos por ele, de pé muitos de nós, cerca de duas horas. Quando chegou, acompanhado pela representante da Câmara Municipal e pelo seu editor, foi o último a falar e o único, dos três, que teve a consideração de nos pedir desculpa pelo atraso e de o justificar.
Nessa noite, após um longo discurso, velho e cansado, dispôs-se a assinar todos os livros e o único pedido que fez foi que lhe poupassem as dedicatórias, porque estava muito cansado. E lá ficou, pela noite dentro. Eu não. Achei que uma assinatura não justificava manter, pela noite dentro, um homem velho e cansado. Mais tarde arrependi-me, mas não de mais…
Do escritor, à parte as barbaridades que por aí se ouviam relativas à ausência de pontuação, havia quem o «devorasse», ou às suas obras, e quem fosse verdadeiramente incapaz de o ler. Conheço a sensação. Existe um escritor que considero muito; de quem «devoro» as crónicas que escreve mas cujos livros, infelizmente, não consigo terminar.
De Saramago esperei sempre, ansiosamente, pela próxima obra, a próxima história…
Não é o homem que hoje choro, é a futura ausência da próxima obra, da próxima história do homem. Quem vai agora escrever para mim? Quem? se ninguém existe como ele existiu e, por tudo o que se disse, diga ou venha a dizer, a sua obra é única e, precisamente por isso, tão amada e tão, vulgarmente, odiada. Por ser única.
Quem vai, agora, escrever para mim?

José Saramago

Amado por uns, odiado por outros, as suas palavras ficarão para sempre na memória de todos aqueles que amam a literatura.

Que descanse em Paz.



Reflexões

Sou mais exigente comigo do que com os outros. Muito menos permissiva.
Não gosto de errar, principalmente tratando-se de temas que penso dominar. Fico mal disposta, arreliada, verdadeiramente incomodada como se a perfeição fosse algo exigível, ou se o erro me estivesse vedado. Em contrapartida tendo a compreender tudo e todos, e a aceitar os erros alheios. Muitas vezes dou mesmo por mim a justificá-los. Ainda assim já fui pior. Estou um pouco mais exigente, com os outros evidentemente.
A questão é que não chega ser um pouco mais exigente com os outros, o que tenho de fazer é ser, também, um pouco mais permissiva comigo. Saber-me perdoar.
Mas nem sequer foi isso que aqui me trouxe. O que aqui me trouxe foi um exercício de pensamento que me ficou a bailar na cabeça – Esta disparidade existe porque a minha auto-estima é baixa ou, muito pelo contrário, é demasiado alta? Será que me considero o supra-sumo infalível enquanto os outros, vulgares de Lineu, são apenas criaturas que erram podendo assim ser perdoadas enquanto a mim me é vedada essa liberdade? Ou, muito pelo contrário, não me considero digna de tal?

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Da Escrita

A escrita é sempre uma forma de catarse, mas há quem escreva por excesso e há quem escreva por defeito.
Não me refiro àqueles que escrevem muito ou pouco, antes àqueles que escrevem porque não são capazes de conter o mar que lhes corre nas veias, e àqueles que escrevem na esperança de irem enchendo riachos que, ou já secaram, ou nunca o foram.