quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dos pais e dos filhos

Há sempre uma altura da vida em que as relações entre pais e filhos se tornam difíceis.
Quando eles nascem são motivo de tanto orgulho e trampolins para tanto crescimento que julgamos poder manter para sempre uma relação de amor e devoção de parte a parte. Mas a verdade é que chega sempre um momento em que a devoção desvanece, a deles, não a nossa. Um momento em que se tornam críticos e em que acreditam que o mundo é um lugar bem diferente daquele que os pais habitam. Perde-se, deles, a admiração e essa perda dói. Dói porque, de repente, sentimos que todo o esforço foi em vão porque não é reconhecido, e não tem de ser. Eles querem lá saber se sacrificámos isto ou aquilo por eles; se nos esforçámos muito ou pouco; se aquilo que têm e de que desfrutam é devido a mais ou menos esforço. Não querem, nem têm de querer, saber. Só mais tarde, muito mais tarde, quando a vida lhes entrar pela porta adentro; quando os filhos deles nascerem e eles estiverem, por sua vez, no nosso lugar, só então, se aperceberão daquilo que não se aperceberam antes.
Há sempre uma altura em que os filhos desiludem os pais e os pais desiludem os filhos e, nessas alturas, há pais que sentem uma enorme vontade de sair porta fora; de virar costas e dizer – desenrasquem-se; fiquem por vossa conta e vão ver como elas mordem… Mas este sentimento não é fruto de amor, mas de amor-próprio; não existe por vontade de educar, mas por uma estranha espécie de vingança, do tipo – não me reconheces o valor; talvez o faças se deixares de me ter.
É por isso que, nessas alturas, se deve respirar fundo, encher o peito de ar e mostrar de que fibra somos feitos. É nesses alturas que os filhos nos dão, verdadeiramente, a oportunidade de crescer, de provar que somos adultos inteiros, responsáveis, conscientes, e que o nosso amor por eles é incondicional. É precisamente nessas alturas que devemos estar, discretamente, mais presentes do que nunca.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Guerra de Joaquim Furtado

Tenho estado a ver A Guerra de Joaquim Furtado, porventura o melhor e mais completo documento histórico que até hoje se fez sobre a nossa presença em África.
Fomos um bocadinho diferentes dos outros, mas podíamos ter sido tão mais se não tivéssemos tido um chefe de Estado tão provinciano…
Salazar não nos atrasou só a nós. Atrasou nações inteiras.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Patriota?

Se a Portuguesa e o fado me comovem, isso não é ser patriota?
Se quando estou longe sinto saudades e acho que em lugar nenhum do mundo há praias como as nossas, isto não é ser patriota?
Se fico ofendida quando um estrangeiro não conhece ou mal diz o meu país, isso não é ser patriota?
Se apesar de ler perfeitamente em Francês; Inglês ou Castelhano, prefiro fazê-lo na minha língua, isso não é ser patriota?
Se o meu peito incha de orgulho quando leio Camões ou Pessoa, isso não é ser patriota?
Então porque é que uma patriota como eu está tão cansada deste país onde nasceu?!

É tudo a roubar!

Trabalhei, em 1979, cerca de dois anos na Holanda. Trabalhava doze horas por dia, seis dias por semana. Nunca me senti explorada; roubada; abusada.
Neste país, desde os Bancos que funcionam como o melhor mata-borrão, não fosse hoje o dinheiro mera tinta num papel, até à Segurança Social que, reconhecendo o erro em que ocorreu, continua a exigir o pagamento de juros de uma mora que nunca existiu, é tudo a roubar!
Trabalha-se com fé e vontade, acreditando que se vai longe, para um país que nos puxa constantemente para trás por uma corda feita de incompetências, vigarices e abuso de quem mais precisa.
Puta que os pariu a todos!

domingo, 11 de julho de 2010

Waca Waca



Quem realizou este vídeo sabia que o Mundial ia acabar assim - a ser jogado por animais.

Cá por mim dava a taça aos alemães, pelo menos protagonizaram, e ganharam, um jogo muito mais bonito do que esta final.
Trabalhar ao domingo é muito chato. Principalmente com este sol, depois de uma caldeirada e de dois copos de vinho...

sábado, 10 de julho de 2010

Não gosto de sentir raiva, revolta, ódio mesmo, seja por quem for ou pelo que for, mas é isso que estou a sentir neste momento, o meu coração está cheio de ressentimento e, a partir de hoje, há duas ou três pessoas que é bom que não se cruzem comigo porque quando isso acontecer não vai ser bonito.
O que vale é que isto passa que eu não sou de alimentar maus sentimentos. Não é por nada, é só porque é a mim que fazem mal...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

E pronto

Tem-me passado pela cabeça que um dia destes aparece-me um adulto à frente e eu não saberei o que dizer. Ando a leste, a viver num mundo de fantasia e de brincadeira, com luas que moram nas varandas, e amigos imaginários. Se não me ponho a pau ainda me esqueço da realidade, já dou por mim a rir com aquilo a que, por hábito e falta de humor, se dá o nome de «coisas sérias».
Entretanto, hoje ao almoço, os meus olhos passearam pelas notícias e fiquei a saber que no Cacém uma fábrica vai fechar e deixar 15.000 trabalhadores na rua, e que o Ministério Público retirou a queixa que tinha, de associação criminosa, contra Mário Machado. Resolvi, assim, olhar para as crianças e manter-me, enquanto me for permitido, no mundo delas. É muito mais divertido.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Museu da Electricidade...

...é muita giro!
Claro que toda a gente já deve saber isto, ou quase toda. Mas eu não sabia. É o preço de andar o ano todo sem tempo nem para respirar...Mas hoje levámos lá os miúdos e divertimo-nos, se bem que houve momentos em que me pareceu que eu estava a gostar daquilo mais do que eles. Estou a brincar, eles gostaram muito daquela parte em que podem mexer em tudo e as luzes acendem...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Esclarecimento

Não, não fui de férias. Mas tenho ido à praia todos os dias (hoje foi dia de piscina). Tenho um fardo de palha na cabeça, que é o que acontece ao meu cabelo quando só vê água salgada; sol e cloro; dores musculares como não tinha…sei lá, há vinte anos pr’aí; e descobri que, na verdade, já não sou mãe, sou avó. Não que os meus filhos tenham tido filhos, isso ainda não aconteceu com alguma pena minha diga-se de passagem, mas porque a minha alma é já de avó. Senão vejamos: pergunto sempre aos meninos o que é que querem fazer, ou onde é que querem ir; se um deles diz que não gosta da comida a minha reacção mais imediata é – vamos lá a ver o que é que se pode arranjar para substituir isto; se um deles amua fico preocupadíssima a pensar que algo não está bem; deixei de identificar as manhas e corro sempre que me chamam; se vão para a água, seja no mar ou na piscina (excepto na dos pequeninos, também era melhor…), vou a correr e não arredo pé, deixo que me molhem, que se pendurem em mim, enfim, uma avó…
É claro que a contrapartida é chegar a casa tão derreada, mas tão derreada, que nem forças tenho para ligar o computador e há dois ou três dias que nem para o correio olhava. O resultado são 57 mails…que não vou ler. Faz de conta que estou de férias.

domingo, 4 de julho de 2010

Da dor de não poder Ser

São muito marcantes e dolorosos os estigmas que a sociedade imprime a certas pessoas, nomeadamente aos homossexuais. As alterações nas leis são um começo mas não o suficiente para a sua aceitação no seio de uma sociedade que, na verdade, os teme, não sei bem porquê.
Tenho dois amigos que se amam. São um casal em toda a acepção da palavra; tiveram a felicidade de se encontrar depois de tantos anos de sofrimento, porque esconder quem realmente somos ao longo de uma vida causa sofrimento, e que, apesar de todas as leis, se vêem obrigados a manter o seu anonimato até que a coragem de mandar tudo às urtigas os tome, já que, de facto, quem não aceita este ou aquele por via das suas opções íntimas não merece o epíteto de amigo. Contudo, o seu maior receio prende-se com a profissão de cada um; Se nos descobrem, dizem, corremos o risco de despedimento, de ostracismo.
Não durará muito mais, digo eu, espero eu, que é já tempo de sair desta mediocridade, desta desumanidade, deste atraso civilizacional; desta subjugação à educação judaico-cristã que muito, ou tudo, contribuiu para as frustrações do mundo e, mais grave ainda, para as suas taras.
No que à sexualidade diz respeito, temos tudo misturado na nossa cabeça e não raro associamos pedofilia com homossexualidade quando, atrever-me-ei a dizer, a pedofilia grassa mais entre heterossexuais do que entre homossexuais e, essa sim, é uma tara, uma doença perigosa porque causadora de danos irreversiveis.
A homossexualidade é uma condição que pode existir no seio da mais séria, da mais humana, da mais competente e da melhor das pessoas. A homossexualidade, como a heterossexualidade, só a cada um diz respeito e é tempo de nos libertarmos de falsos valores e de fazermos uma introspecçãozinha acerca do porquê de tanto medo. Porque raio é que há quem se sinta ameaçado?!...

sábado, 3 de julho de 2010

Memórias

Objectos são objectos e valem o que valem, por isso mesmo podem valer muito e tornar mais difícil a separação quando a hora chega.
Sou daquelas que acredita que quando um objecto passa connosco muitos momentos e muita vida, agarra vibrações e marcas indeléveis que, se estão ou não nos materiais não me interessa, mas estão seguramente na minha memória que é acordada cada vez que o revê.
Mesas e cadeiras de madeira, maciças e pesadas, que me acompanharam durante tantos anos; em cima das quais li e revi tantas obras, na sombra do meu jardim ou no silêncio do meu escritório, levaram com eles esses momentos e hoje, se por acaso os revejo, revejo uma parte de mim que, quer eu queira quer não, permanece com eles.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Num carrocel

A vida sucede-se, os acontecimentos atropelam-se de forma mais ou menos intensa, mas estão aí para os vivermos, de forma mais ou menos intensa.
O que ontem foi verdade, hoje deixou de o ser e para quem, como eu, se entusiasma, ela, a vida, assemelha-se muitas vezes a um carrocel.
Podemos escolher sentir o vento a levantar-nos os cabelos, ou sentir o estômago às voltas. Eu escolho os dois, conforme as circunstâncias.
Neste momento é o orgulho que me faz sorrir. O orgulho de ter, afinal, conseguido vencer etapas que julgava perdidas ou, no melhor dos casos, gravemente danificadas. Acabei o ano académico, sem precisar de recorrer à segunda fase dos exames, com média de 14 e consegui, neste segundo semestre, em que mudei de casa e faltei às aulas semanas a fio, um 19 de nota final que me deixou inchada de orgulho; as crianças que ameaçaram não vir neste início de Julho, afinal vieram e, de ontem para hoje, cresceram em número; a aceitação de uma criança diferente das outras, com problemas difíceis de lidar, fez-nos temer esta aventura que é levá-las para praia todos os dias, e para o parque, e para as brincadeiras que os façam felizes, porque se não sorrirem nós também não sorriremos, esse medo não deu frutos e dissipou-se no sucesso do primeiro dia que foi o de ontem; um incidente que considero grave e que existiu em consequência de um quase extremo cansaço e da aceitação de prazos demasiado apertados pôs em risco um trabalho que amo e faço há vários anos, não só pôs em risco como me fez balançar na crença das minhas capacidades, que isto de capacidades próprias nem sempre a consciência acerta, mas tudo se compôs porque afinal, tal como já tive oportunidade de dizer aqui, sou eu que sou mais exigente comigo e tendo a castigar-me mais do que mereço, ainda bem que quem me vê de fora não é assim.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Há dias felizes

Dias em que tudo corre de feição; em que as notícias são boas; em que os eléctricos que chegaram a ameaçar descarrilar, entram nos eixos.
Há dias felizes. E hoje foi um desses dias.

quarta-feira, 30 de junho de 2010


Ontem estive por aqui. Fui rezar. Rezar à minha maneira que eu pouco ou nada sei dos rituais da Santa Igreja. Na verdade o que me comove são as Igrejas antigas. Frescas. Silenciosas.
Valeram pois os dez minutos que assim passei, em silêncio e em paz na Catedral sem missa. Comoveram-me bem mais do que os quatro padres que falaram alternadamente na Capela das Aparições, seguidos pelos devotos que, conhecedores da coisa, lá iam acrescentando às vozes daqueles, as suas. Mecânicas. monótonas. Não me tocaram a alma. Nem as vozes nem as figuras dos padres das quais não me consegui abstrair nem deixar de me indagar por que diabo estariam quatro padres a fazer o trabalho de um...
Mas rezei e estive em paz. Em paz e em muito boa companhia. Que mais se pode pedir?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Hoje...

...estou oca. Incapaz. Vazia de vontades; de pensamentos; de energia.

Hoje não me peçam nada; não me perguntem nada. Não saberia responder. Hoje só quero ficar assim - vazia.

Hoje é dia de não ser.

domingo, 27 de junho de 2010

Ter juizo

A vida exige muita coisa. Exige empenho; exige dedicação; exige amor e entusiasmo; exige alguma inteligência e sorte também, mas exige, acima de tudo, muito juízo.
Perder a cabeça não é tão raro nem tão difícil quanto se possa imaginar. Não depende sequer da idade; tampouco da experiência. Basta um pequeno deslize, estar vivo e gostar de estar, as solicitações são tantas que, quando se dá por isso, já se mudou o rumo; já se enveredou por estranhos caminhos. Estranhos pela ausência de normalidade e estranhos por serem desconhecidos e, quando não se conhece a terra que se pisa, é bem mais difícil encontrar o caminho de volta.
Ter juízo, portanto, é fundamental. Conhecer os próprios limites; saber o que se pode e o que não se pode, ou não se deve. Nunca perder o rumo, eis um dos segredos para levar o barco a bom porto – nunca perder o rumo.

sábado, 26 de junho de 2010

Banalidades

Não tenho jeito nenhum para pinturas, mas a minha filha, que é alérgica a pés, virou-se para mim no outro dia e disse, E pintar as unhitas dos pés, hum?
Desde esse dia parece que apanhei o vírus e cada vez que me via ao espelho evitava olhar para os pés. Em contrapartida passei a reparar nos pés de tudo quanto é mulher. A minha filha tem razão. Sempre é outro decoro.
Assim lá me decidi a comprar verniz. Vermelho, claro (não é vermelho claro, é vermelho, claro), e estou há perto de duas horas de volta da pintura. Já gastei mais «diluente» do que tinta; os dedos ficaram um pouco rosados mas tenho fé que com as lavagens isto vá ao sítio. Tirando isso, o resultado não está mau de todo. Agora tenho as unhas dos pés a condizer com os óculos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Corações ao alto

Foi assim que decidi acabar uma semana a transbordar de promessas e desilusões, assim, umas a seguir às outras, sem dar tréguas, porque a vida é feita de escolhas e eu escolhi deitar fora coisas que me prejudicam, que me fazem mal, como o medo ou a preocupação, que não trazem vantagens nenhumas, antes pelo contrário.
Corações ao alto, pois. Que é lá, no alto, que devem estar.