terça-feira, 16 de novembro de 2010

Antiguidades

O carro da minha mãe não tem direcção assistida. Ela tem 78 anos e uma força de braços que a mim me escapa em absoluto. Tem também uma grande aversão a todos os «novos» caminhos, pelo que só circula pelos mais antigos, que são também os mais estreitos; os mais desgastados e, por conseguinte, os mais difíceis e perigosos, não para a vida mas para a chapa. Não para ela, que prefere ver os carros de frente a senti-los a passar a velocidades «alucinantes». Depender dela para ir à injecção e para vir para o trabalho tem-se revelado um exercício de paciência e compreensão, sem igual.
Hoje foi preciso meter gasolina. Fiquei dentro do automóvel a sorrir para as caras de caso dos condutores obrigados a grandes manobras para conseguirem aceder à bomba da frente. É que ela deixou a traseira do carro a meio metro de distância…Mas vê-la a rodar aquele volante, num esforço quase titânico é, acreditem, motivo de orgulho. Quanto ao resto, é só uma questão de se sair de casa com tempo…

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O fruto proibido...

Se é já tantas vezes complicado conseguir que os dedos encontrem as teclas certas à velocidade do pensamento quando se escreve com as duas mãos, contar apenas com uma e ainda por cima a esquerda, para quem, como eu, é dextro, transforma um pequeno texto num exercício de estilo e agilidade fora do comum.
É sem dúvida útil se eu quiser aproveitar para imaginar as dificuldades de alguém que tem o azar de ficar aleijado para o resto da vida. Mesmo assim, só posso mesmo imaginar uma vez que a certeza de que durará apenas alguns dias me acompanha sempre. Contudo, deixo aqui a minha homenagem a todos aqueles a quem azares desse tipo batem à porta porque não é fácil, apesar de não ser de todo impossível, a adaptação permanente a uma circunstância extraordinária, e esta nem é das piores…
Mas nem era nada disto que eu queria escrever. Na verdade nem sei bem sobre o que queria escrever, senão sobre uma amálgama de ideias difusas já que me encontro, ou pelo menos me sinto, privada de um normal funcionamento e, portanto, tudo o que realmente quero é escrever, seja lá aquilo que for, porque o que importa é que o faça e me prove que o posso fazer – juntar, no ecrã, letra a letra, formar palavras e depois frases, é tudo o que me apetece, tal e qual a vontade quase incontrolável de fazer exactamente aquilo que não se pode ou não se deve, mas de que se não é capaz de prescindir. Creio ser isto a teimosia.
E neste momento estarão vocês a pensar – que culpa tenho eu?; Que tenho eu a ver com isso?! Nada, na verdade. A não ser que se identifiquem com este tipo de teimosia…

sábado, 13 de novembro de 2010

À canhota

A boa notícia é que tenho o ombro impecável - sem calcinações ou desgaste.
A má notícia é que tenho o tendão todo lixado.
Pode ser que me safe em três ou quatro dias. Até lá ando a treinar a mão esquerda que isto nunca se sabe...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Anna Karénina


Para quem estiver interessado em ler ou reler Tolstoi, recomendo esta edição de Anna Karénina, editada pela Relógio d'Água, com posfácio de Nabokov.
Não se deixem intimidar, nem pelo número de páginas, nem pelas, por vezes exaustivas, descrições do autor. Levem o tempo que for preciso mas não deixem de o ler - vale mesmo a pena e, no final, não descurem o posfácio. Não direi que é tão importante quanto a obra, mas completa-a. É sempre uma mais valia sabermos de um autor por um seu conterrâneo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

«Não há Bela sem senão»...

... e outras frases do género, ganha todo o sentido naquelas ocasiões em que é óbvia a proporcionalidade directa entre o bom e o mau.
Eu explico: Quanto maior for uma coisa, maior é a sua ausência.
O vazio que por cá fica, sempre que os meus filhos por cá passam, é tão grande quanto foi a alegria de os ter por cá.
E como não existe medida para isto, só posso dizer que o vazio é absoluto.

Transparência, precisa-se

Não sei se é falta de coragem, se de outra coisa qualquer, o que leva certas pessoas a não manifestarem o seu desagrado relativamente a determinadas situações. O resultado é o incumprimento. Mais cedo ou mais tarde falham os compromissos porque andam insatisfeitos mas não tiveram a coragem de expor as suas razões ou de tentar mudar as condições que, inicialmente, aceitaram.
Não há desculpa para a falta de frontalidade. Se têm medo comprem um cão ou consultem um psicanalista. A vida já é suficientemente complicada para se complicar ainda mais com os sapos que se engolem e não se chegam a vomitar. Nada funciona numa base de insatisfação e contrariedade.
Gente que à minha frente é toda salamaleques e que depois me deixa na merda não merece a minha consideração. Ainda se eu fosse assim…mas não sou! sou frontal; sincera; desbocada às vezes, confesso. Mas quem lida comigo sabe com o que pode contar e sabe que não ando com «cartas escondidas nas mangas». Quanto mais não seja, por solidariedade paguem-me com a mesma moeda.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Pormenores

É disso que o amor é feito – de momentos, de pormenores, de pequenos detalhes que por qualquer razão o inspiram e o tornam tão profundo que qualquer palavra o ofende.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

É isto a Liberdade

Sentir-me refém da vida é mais de meio caminho andado para me sentir profundamente infeliz e eu não nasci para sofrer e é isso que sinto, sempre que a vida decide mudar.
Uma coisa são aquelas mudanças programadas, voluntárias, que têm como objectivo a melhoria, pelo menos é o que se espera, da própria vida; outra são as mudanças desestabilizadoras que baralham a ordem das coisas e fazem com que a base de sustentação mude de tal forma que deixam de ter cabimento, nessa nova ordem, os procedimentos anteriormente adequados.
O que me interessa a mim, o que nos interessa a nós, andar a remar contra a maré?!
O que faz um marinheiro quando o vento muda? Vira as velas, com certeza, e aproveita o vento o melhor que pode, sempre com os olhos postos no destino que escolheu. O meu é ser feliz e só o não sou quando me sinto refém do vento. Há que estudar muito bem as circunstâncias, bem como os instrumentos de que se pode dispor, para se poder voltar a navegar a favor da maré. É a isso que me tenho dedicado nos últimos dias - a estudar as circunstâncias; os instrumentos; as possibilidades e só isso, só esse exercício, já é o suficiente para me sentir melhor. Posso até chegar à conclusão que não, que não é o que quero, que não me satisfaz, mas saber que as hipóteses existem, que estão lá e que posso dispor delas, é mais de meio caminho andado para ser feliz.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Algum sossego

A confusão e o desarrumo transtornam-me. Seja ela interna ou externa. No meio da confusão perco o norte; perco o controlo e o rumo da vida e uma vida sem rumo é como um buraco negro. De tal forma negro que fico sem saber se é muito ou pouco profundo. Assim, passo a depender do meu estado de espírito – se for optimista, o buraco é pouco fundo; se for pessimista, é imenso!...
Oscilo então entre a angústia do precipício e a esperança do pequeno salto. E, nos entretantos, lá vou conseguindo pensar. E é enquanto penso que vou pondo alguma ordem nas coisas e acabo por retomar, pelo menos assim parece, o tal controlo sobre a vida. E sossego.
Infelizmente todas as mudanças trazem desarrumação e, infelizmente também, a minha vida parece ser feita delas, das mudanças. Têm sido tão constantes, tão sequenciais ou mesmo simultâneas, que chega a ser para mim um mistério esta minha capacidade de voltar a pôr ordem na desordem…

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Trabalho no pátio das cantigas! Já faltou mais para ver a Beatriz Costa e o Vasco Santana a desfilar na marcha do S. António...

E pronto...

...acabou a época dos exames de rotina. O cancro não quer nada comigo, e nem as outras coisas esquisitas. Saúde tenho, falta-me o dinheiro. E, sim, quero as duas coisas e muito mais.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Cansada de mim

Ando cansada de mim. Tanto mais agora que o contacto com os meus pares tende a escassear. Só me tenho a mim e pouco mais. Sem desprestígio para aqueles que me acompanham mas com quem não estou, evidentemente, todos os dias a toda a hora.
Deixei de ir às aulas. Teve de ser, diz a vida. A puta da vida, desculpem a expressão mas não há outra, pelo menos para já e para mim. Os dias passo-os rodeada de crianças mas não tanto como gostaria, não tanto quanto preciso...; e de mim. De mim, que ando cabisbaixa; desiludida; amargurada. De mim a quem nem o sol arranca uma alegria. De mim.
E eu que até sou, ou costumava ser, optimista, vejo-me a lutar constantemente contra a negritude que teima em cercar-me a alma!
Não sei que faça! Queria que isto desaparecesse e não sei que faça para que desapareça. Queria voltar a sentir-me segura; inteira; confiante. Queria que esta espécie de tristeza, esta estranha tristeza, desaparecesse. Era o que eu queria. É o que eu quero.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Chama-se controle...

Ultimamente tenho reparado na dificuldade que certas pessoas têm em escolher; em dizer, alto e bom som, aquilo que querem. Principalmente no seio dos mais antigos.
Mas, mais do que isso, aflige-me o alimento que outros dão a essa incapacidade, decidindo por eles.
Não acredito, nunca acreditei, no estúpido ditado «Burro velho não aprende línguas». Pode ser até que não aprenda línguas dado que há uma idade própria para tal. Mas este ditado, como todos os outros, extrapola para o geral e é nisso que não acredito. Pessoas a quem nunca foi dada a liberdade de escolha, naturalmente anulam-se e esperam que escolham por elas. Nunca é tarde para crescer e crescer passa por sabermos o que queremos e não queremos. Passa pela assunção das nossas escolhas e pela sua responsabilidade e, acima de tudo, passa por esse sentimento único de liberdade; de responsabilidade; de autonomia. Alimentar esta incapacidade é alimentar dependências; é impedir a autonomia e a liberdade. E é, sobretudo, uma intromissão na vontade alheia a que ninguém tem direito.

domingo, 31 de outubro de 2010

Giboiar

Um velho amigo atirou-me, pela primeira vez e há muito tempo, com este termo «giboiar», numa tarde chuvosa de domingo, para me dizer o que estava a fazer em casa àquela hora.
Hoje sou eu que giboio e sabe-me bem. Leio o que me apetece e dormito pelo meio; oiço o vento lá fora e aconchego-me no meu espaço cheio de luz apesar das nuvens que deambulam por esse céu.
Há muito tempo que não tinha um dia assim. Será talvez por isso, por falta de hábito, que, de vez em quando, a meio de um sonho estremeço como estremece o ladrão quando é apanhado! Como se o tempo na verdade não me pertencesse! Como se o estivesse a roubar sabe-se lá a quem!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010



Não sei se serei o cavalo se a árvore. Nem sei se me cansarei, um dia, mais do que aquilo que já estou, ou se ele, o vento, acabará por me derrubar. Mas é assim que me sinto - Running against the wind...
Em dias como o de hoje penalizo-me por não ter comprado um Jeep.
Ou um barco...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Azar

Falar com os olhos e não ter medo do que se diz, tem as suas vantagens, principalmente em situações em que existe apenas um visado.
Não sei se uma certa loucura já se instalou entre nós ou se sempre cá esteve e fui eu que não dei por isso. O facto é que ando com azar no que diz respeito a consultórios médicos, eu, que só os frequento uma vez por ano que é quando dou conta de tudo o que há para dar e fico despachadinha desta deambulação pelas capelinhas dos especialistas!
Ontem foi a vez da oftalmologista, de quem gosto muito e por quem tenho uma grande consideração (só por isso é que não abri a boca, note-se).
Então não é que a meio da consulta um dos colegas da dita entra pelo consultório adentro e, como se eu não existisse, desata a falar sobre o fim-de-semana, a fazer perguntas e à espera que a colega lhe responda entre máquinas e medições de tensões oculares! Não é que o animal, que não tem outro nome, não se calava, não se ia embora e não deixava a outra trabalhar! Não é que foi preciso eu parar e fixar o meu olhar no dele para ele perceber, (perceber, e não «tomar consciência» que este tipo de gente não toma consciência de nada), que o melhor seria pôr-se a mexer?!
Desconfio bem que Deontologia foi uma cadeira à qual muitos se esquivaram, afinal não é com ela que se abrem barrigas; se tiram dentes ou se curam cancros…daí que pode muito bem passar para segundo plano, a gente copia ou faz isto à rasquinha que depois logo se vê…
Ou é isso ou então há uma grande necessidade, diria mesmo - urgência, em rever as matérias dessa cadeira em particular, se calhar estão desactualizadas, se calhar remontam ao Estado Novo…

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ainda o Acordo Ortográfico

As publicações infanto-juvenis já vêm de acordo com o Acordo, o que faz todo o sentido. De resto já tive oportunidade de expressar aqui a minha opinião relativamente a este assunto.
Contudo, e como disse na altura, num dos comentários ao meu post, esta menina, a supressão do acento da terceira pessoa do singular do Presente do Indicativo do verbo Parar faz uma confusão danada!
Não me queixo de mais nada, mas da falta deste acento, sim!
Ontem, altas horas da noite, deparo com a seguinte frase: « ...mas ela não para para pensar...»! Eu parei! A primeira reacção foi tirar um dos «para» - estava a mais, pensei eu - e espetar-lhe com uma vírgula: ...mas ela não, para pensar... Voltei a trás e não fazia sentido! Foi quando percebi!...
Pode até ser uma questão de hábito. Mas que faz confusão, faz. Para além de que fica feio! Olha uma pessoa explicar isto a um estrangeiro que queira aprender português!...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

De como pode ser terapêutica uma ida ao médico

Temendo a aproximação de uma ligeira depressão, apressei-me a marcar uma consulta de Psiquiatria.
Assim que entrei no consultório julguei ter entrado num quarto onde alguém, dormindo, corria o risco de apneia de tal forma era ruidosa a sua respiração! Obeso naquilo que me parece o limite da obesidade, o senhor respirava a contragosto, num esforço incomodativo e perturbador. Agarrado a uma caneta de onde sobressaiam unhas roídas para lá do sabugo e peles levantadas até se ver sangue, não me olhou sequer! Ao cabo de duas perguntas, desatou a escrever e, quando se preparava para me responder à, creio que única, pergunta que lhe fiz, um telefone tocou! O senhor deitou a mão a um dos bolsos do casaco de onde tirou uma pequena bolsa, de feltro verde bandeira. Na pequena aba, as quinas. Não era aquele que estava a tocar – pousou-o suavemente na secretária, ao seu lado, e meteu a mão na outra algibeira de onde tirou uma outra bolsinha, igual à primeira mas, desta feita, vermelha! Falou entusiasticamente ao telefone, desligou, pousou a bolsinha ao lado da que lá estava - uma bandeira portuguesa passou a marcar presença naquele consultório, e voltou à escrita. E o que escrevia o senhor?! Uma receita que comportava injecções e três espécies de comprimidos! Quando o indaguei sobre os efeitos, respondeu-me que eram antidepressivos.
E foi assim que, sem me conhecer; sem saber fosse o que fosse da minha história ou mesmo dos meus sintomas, este senhor decidiu que eu precisava de me encharcar em medicamentos!
Saí de lá convencidíssima que estou em muito, mas muito melhor estado do que ele, coitado!...