domingo, 31 de julho de 2011

No meu tempo...

As realidades mudam mas não tanto com o tempo como nós gostamos de salientar. Mudam com o lugar, com a cultura.

Há gerações que gostam de pensar que “no tempo delas” as coisas eram muito diferentes, as crianças brincavam na rua, não viam tanta televisão, não tinham computador, por isso não passavam tantas horas fechadas em casa.

Eu cresci num sítio de rua. Com ou sem televisão, nós brincávamos na rua – andávamos de bicicleta; trepávamos às árvores e escondíamo-nos no meio do matagal. Isto porque vivíamos rodeados de árvores e de matagal. As minhas primas, pelo contrário, só brincavam assim quando iam de férias para lugares rodeados de matagal, porque em Lisboa, com ou sem televisão, com ou sem computador, brincavam em casa – fosse na delas, fosse na das amigas, brincavam em casa – aos médicos; às famílias; aos professores…em casa.

As gerações mais velhas gostam de criar mitos em torno de si. Talvez isso faça parte da dor de crescer. Talvez seja uma defesa, quem sabe? Uma forma de preservação. Mas, na verdade, as diferenças só existem porque existe distância entre as idades. Se nós mantivéssemos intacta a nossa memória concluiríamos que os nossos filhos passam pelas mesmas coisas que nós passámos, sonham o mesmo, querem o mesmo…a diferença reside apenas na tecnologia que constrói os brinquedos com que brincamos – no tipo de brincadeiras.

O Homem não muda tanto quanto aquilo que nós gostaríamos que mudasse. Não avança, nem regride, tanto quanto gostamos de acreditar que sim porque nos dói sentir que os lugares que vamos deixando para trás não ficam vazios, não sentem, tanto quanto gostaríamos, a nossa falta.

sábado, 30 de julho de 2011

Tanta merda só para dizer que estou gorda!

À excepção daquelas pessoas aborrecidas que estão sempre na mesma, a vida decorre entre altos e baixos (de forma).

Quando estamos em baixo fazemos dieta, andamos a pé, corremos, nadamos, às vezes vamos ao ginásio…enfim socorremo-nos do que estiver à mão e, principalmente, daquilo que mais se adapta ao espírito do momento – do nosso, não do dos outros. Mas esforçamo-nos, lá isso…esforçamo-nos até olharmos para o espelho e voltarmos a ver aquela pessoa de quem gostamos, que nos faz sentir bem e que cabe dentro das calças.

Aí descontraímos. São os tais momentos em que a vida é. São os momentos em que nos sentimos em forma; em que podemos comer sem culpas nem restrições; em que podemos não fazer exercício; em que a vida é bela porque nós somos belos também. Capazes até de suscitar inveja! (Bolas, haverá maior recompensa?!). São os momentos em que nos sentimos capazes de enfrentar o Minotauro – poderosos! (ou poderosas que isto é mais coisa de gaja).

Estes períodos acabam quando os baixos começam. O início dos baixos é quando tomamos consciência que temos de mudar de vida se não nos queremos perder para sempre. E é nesses momentos que deixamos de viver para nos empenharmos na recuperação da velha forma.

O resultado dos esforços dependerá do tempo de descontracção, que é como quem diz – do tempo que levamos a tomar consciência que nada de bom pode resultar do facto de andarmos para aí a empanzinarmo-nos de tudo quanto é bom sem mexer o rabo da cadeira.

Neste momento estou numa fase de negação. Numa fase em que quero acreditar que tudo se vai recompor mesmo sabendo que já ultrapassei em muito o prazo limite que, já agora, tende a diminuir com a idade…

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Lili Caneças quer casar vestida de noiva

Cinco horas de espera numa sala de hospital deu para ter uma ideia do tipo de programação a que as televisões, públicas e privadas, aderiram.

Ou porque a maior parte das pessoas está de férias; ou porque os tempos exigem retenção; ou porque o melhor mesmo é trabalhar para a estupidificação das massas, a programação é, numa palavra – vergonhosa.

A maior parte dos programas, e constatei ontem que não são só os do horário nocturno mas também os matutinos, são repetidos. Os gajos "metem a bobina a correr" e vão para a praia ou voltam para a cama...

Aqueles que não são repetidos são a maior das misérias! Talk shows que raramente têm uma pontinha por onde se lhes pegue, não ensinam nada a ninguém, não estimulam nem pensamento nem cultura nem ensino…nada.

Em cinco horas a SIC transmitiu um compacto de uma espécie de telenovela que eu acreditei ser os Morangos com Açúcar até ser devidamente elucidada por um velhote que, sentado ao meu lado, não tirava os olhos da televisão ( pouco lhe importando o facto de não se ouvir patavina do que por lá se dizia...), de que não, não eram os Morangos, era uma outra treta qualquer, da qual ele sabia o nome, conhecia os personagens, as circunstâncias, enfim - tudo, e que eu vi como irrealista, passada num colégio impossível, com gente, se não de um outro planeta, seguramente de um outro lugar qualquer que não este jardim à beira mal plantado, e da qual, lá nisso o velhote tinha razão,  não é preciso ouvir a voz para perceber que só diz disparates.

Logo a seguir, e este “logo a seguir” quer na verdade dizer duas horas depois, ou mesmo três – não faço ideia a que horas terá começado…, veio a Querida Júlia! Também a ela não tive oportunidade de lhe ouvir a voz, nem a ela nem àquele homem horroroso que só sabe dizer mal de tudo e de todos e só fala de coisas que não interessam nem ao menino Jesus mas que parecem interessar a uma parte significativa deste nosso povo! Aliás, continuem a dar-lhe pérolas destas que é o que ele precisa para se manter quieto e manso, não vão as cabeças começar a pensar e soltarem-se os lusitanos (tão convenientemente amarrados dentro de cada um).

Cada vez que levantava os olhos do livro que, em vão, tentei ler no meio daquele frenesim todo, lá passava uma notícia de rodapé relacionada com o tema da conversa entre a Júlia Pinheiro e o outro parvalhão (é que nem me apetece dar ao trabalho de ir ver como se chama o idiota!) carregada de informação importantíssima  como, por exemplo, a revelação bombástica do sonho da Lili Caneças - casar vestida de noiva...É que nem há palavras para tal revelação! Eu, pela parte que me toca, fiquei de boca aberta.

Assim que puderem...

... façam um seguro de saúde. Daqueles que pagam quase tudo e vos permitem escolher hospitais e clínicas particulares.

Oiçam o que vos digo – façam um seguro de saúde. Se for preciso acabem com os almoços fora, deixem de ir ao cinema, não comprem aqueles sapatos…mas façam um seguro de saúde.

Cinco horas num hospital público, à espera de uma consulta antecipadamente marcada; sem ar condicionado; sem comer…à espera! Cinco horas! Sentados em cadeiras que não precisam de mais de meia hora para provocarem dores em partes do corpo que nem sabíamos que existiam!...Esteja cá às oito e meia, disseram eles pelo telefone! Às oito e meia da manhã! Saímos de lá praticamente às duas da tarde!! Não, não se fizeram exames! Não, não estivemos mais de quinze minutos a conversar com médico nenhum! Esperámos - eis o que fizemos! Esperámos! 

Claro que escrevi no livro de reclamações. Claro que sim! Para que é que vai servir? receio bem que para nada. Receio bem que a coisa vá piorar. A tendência é para regredir. E sabem quem são os mais sacrificados? Os velhos! As pessoas de oitenta anos, frágeis, cansadas...essas são as que mais sofrem, as que lá estavam em maior número. Não, a consulta não foi para mim. Eu quero ver se chego a essa idade com um seguro de saúde.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Ao encontro do desencontro

O que fazer quando a vida se resume a um mau timing? As coisas até se fazem; as ideias até se têm e muitas delas até se concretizam. Mas fora de tempo. A loja deveria ter sido alugada antes de a casa ter sido vendida; a casa deveria ter sido vendida antes de a crise se manifestar; a firma deveria ter nascido há mais tempo, bem como a compra da casa… E isto para dar apenas as últimas notícias, porque se quiser fazer uma retrospectiva não me faltarão desencontros – atrasos, antecipações.

Como se faz? Como é que se sabe que está na hora disto ou daquilo?

Prevê-se; calcula-se; projecta-se; programa-se…adivinha-se; pressente-se…Uma mistura, enfim, de concreto e abstracto que dá trabalho sem garantias nenhumas. Um misto de inteligência e visionariedade, unidos no desejo de poder e controlo – poder e controlo sobre a própria vida, evidentemente.

Haverá quem consiga? Assim, desta forma? A partir de receita elaborada com base nesta dicotomia de opostos? Ou é tudo treta e as previsões “cautelosamente” calculadas mais não são do que fellings e é com assento em fellings que se tomam todas as decisões importantes e eu ando para aqui convencida que tenho de saber disto e daquilo, que o que me falta são conhecimentos, de gestão, de economia, de comportamentos de mercado…quando o que me falta são “tomates” para me afastar, de vez, desse “racionalista da Bíblia”[1] que foi S. Tomé e escutar o que me diz o espírito, lugar de todos os fellings, casa onde habitam todos os pressentimentos?


[1] Pascoaes, Teixeira, O Homem Universal e Outros Escritos, Assírio & Alvim, p. 101.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Os novos "amigos"

Como acontece sempre que estamos directamente envolvidos seja no que for, escapa-se-nos a real dimensão da coisa.

Não há muitos anos que o nosso mundo era um mundinho, pequeno, reduzido à insignificância do núcleo familiar ao qual se acrescentavam os amigos e vizinhos à proporção que o nosso espaço, físico e psíquico, o permitisse. Sendo que muitas vezes uns e outros eram os mesmos, porque a distância mandava, se mandava! E perder um vizinho que se mudava para longe era perder um amigo, mais carta menos carta…  

Hoje vivemos embrenhados nas redes sociais e todos nos conhecemos, mesmo que nunca nos tenhamos visto, todos fazemos parte de uma globalidade que nos transmite um falso sentido de pertença.

O que é um amigo? Que significado tinha, e que implicação, os termos – O meu bairro; A minha rua; A minha terra? O mesmo que tem agora – A minha página? O meu grupo? No way!!!! Nada disso!!! Nem parecido!

No meu bairro; na minha rua; na minha terra, as pessoas ajudavam-se umas às outras. As pessoas “acudiam-se” quando era preciso. “Valiam-se” umas às outras. Na minha página, no meu grupo, eu fico a saber o que é que este aquele e o outro andam a fazer; tomo parte activa ou passiva em discussões que não levam, a maior parte das vezes, a lado nenhum. Mas, se precisar verdadeiramente de ajuda, não é lá que a vou buscar e, pior do que isso, sem nos apercebermos, esta nova forma de “pertença”, este novo sentido, está a infectar o anterior quando o ideal, o que podia ser mesmo LINDO, seria o contrário – seria que este "alargamento" fosse MESMO um alargamento dos círculos de cada um e cada um se pudesse sentir cada vez mais seguro e apoiado como quando a mercearia fechava e, sendo já tarde, sabíamos de fonte segura que, se não fosse o do lado, o vizinho da frente haveria de ter uma lata de conserva para nos desenrascar.

Agora, por via dos novos amigos, aos antigos tanto lhes faz que as imagens apareçam no écran do computador, na escada do prédio ou no café da esquina. É tudo a mesma coisa. Está tudo à mesma distância - a de um clique.

This is our soul

domingo, 24 de julho de 2011

“O Inferno são os outros” (Jean-Paul Sartre)

Ontem, em conversa amiga, cheguei à conclusão que o mundo está de tal forma intrincado que eu, por muito que queira, não sou capaz de o salvar. Por muito que me indigne, os chineses continuarão a ser explorados (e se fossem só eles…enfim…); a corrupção continuará a encher os bolsos a uns e a deixar outros na miséria (se assim não fosse as “damas” angolanas não fariam uma quantidade inacreditável de horas de avião para virem ao cabeleireiro, enquanto compatriotas seus lutam por uma gota d’água e por um pedaço de pão…); os pedantes continuarão a exercer a sua sobranceria e os crimes domésticos, que é como quem diz, a violência exercida por quem acredita deter poder sobre outro, continuará a existir, e por aí fora, que isto, infelizmente, é uma lista que nunca mais acaba…

Mas posso sempre tentar, a despeito das opiniões alheias, posso sempre tentar mudar o meu pequeno mundo. Posso indignar-me, barafustar e não consentir. Posso compreender, aceitar e condescender. Ele há coisas que posso fazer, disso não tenho dúvidas, mas a mais importante de todas, aquela que é fundamental é Ser. É aí que entra o inferno que são os outros sempre que querem mudar o seu pequeno mundo e se indignam e não consentem naquilo que sou.

O beco era escuro e eles novitos – entre os 16 e os 18, não tinham mais. Deixa-me!, dizia ela barafustando e gesticulando braços enquanto o corpo tentava ultrapassar a barreira móvel formada pelo dele que insistia que, Se és minha namorada fazes aquilo que eu quero e estás a gritar para quê, é para ver se alguém te salva?!

Alguém salvou. Pelo menos ontem, alguém salvou. Fica agora a cargo dela a salvação total.

Trocamos as voltas uns aos outros, ou tentamos pelo menos, e a nossa maior lástima é estarmos irremediavelmente presos a eles; é serem eles as únicas fontes onde podemos ir bebendo tudo aquilo que vamos sendo por essa vida fora! Que inferno! E que alegria ter esse poder!

Não, não é xenofobia

Em 1979, perto de Amesterdão, conheci um inglês, um irlandês e um escocês – três amigos, trabalhadores da construção civil que estavam a cumprir um daqueles contratos temporários e específicos e que regressariam às suas terras após a conclusão dos ditos.

Muitos portugueses buscam contratos deste tipo e há os que vão daqui para Espanha, França ou Holanda, deixam-se ficar por lá os meses necessários à conclusão dos trabalhos e regressam em busca de um outro, temporário também, que remédio...

Creio fazer isto parte da livre circulação de pessoas e bens, ainda que saiba de fonte segura que esquemas destes nasceram muito antes da nossa entrada na UE.

O que mudou talvez foi a natureza de Portugal – de país fornecedor de mão-de-obra, passou a país comprador da dita e, enquanto a construção civil andou (mais ou menos bem…) a coisa dava para “enfiar” os clandestinos que vinham de leste ou do Brasil em busca de mais e melhor.

Estamos em crise, toda a gente sabe. Uma crise que, pelos vistos, atinge mais os países que até há pouco “compravam” mão-de-obra, do que aqueles que a “forneciam”.

Assim sendo o que andam por cá a fazer romenos de mão estendida, em busca de esmola e trabalho? Não será altura das embaixadas, consulados, o que for… ajudar estes compatriotas a regressarem aos seus países? É que para andarem de mão estendida que andem entre os seus porque eu, se precisar de alguém (e puder pagar, evidentemente) para me pintar a casa, me soldar um cano ou me arranjar uma máquina, não escolherei um romeno se ao lado estiver um português com fome.

sábado, 23 de julho de 2011

Entre a indignidade da vida e a dignidade da morte (aos senhores guardadores da vida)

Não são a maioria mas eu diria que são muitos os que perdem a razão. Chamam-lhe demência. A uns atinge apenas o cérebro e eles deambulam por átrios e corredores mastigando frases sem sentido e injúrias obscenas. Às vezes gritam, outras dir-se-ia que rezam, tão baixo é o seu murmúrio.

Outros há que nada em si escapou e, pasme-se, permanecem deitados, sem vida maior do que o olhar vago que pousa sempre ao lado do espectável e dos braços que por vezes gesticulam violentamente para agarrar e enxotar o que querem e não querem – um braço; uma colher…

Os guardadores da vida injectam-lhes vitaminas diluídas numa sopa, que por via delas saberá provavelmente sempre ao mesmo. Diz que é para as escaras. E enfiam-lhes essa papa pela garganta abaixo a despeito do franzir dos cenhos, do ar de repulsa e do gesticular dos braços. Chega a ser uma batalha, a hora da refeição!

Fugir da morte; adiá-la o mais possível, eis o objectivo! Eu sou pela vida! dizia-me uma das assistentes, Eu sou pela vida!

Eu também. Sou pela vida.

E como para mim a vida está muito para além do respirar, que fique bem claro que eu, no meu perfeito estado de lucidez, não autorizo ninguém a “lutar” pela minha vida, seja de que forma for – seja com máquinas, bolos ou sopas atulhadas de pó vitamínico que as engrossa e lhes dá um sabor tão peculiar e igual, sobretudo igual.

E como a morte para mim faz parte da própria vida, não vivo, nunca vivi e dificilmente viverei na ânsia de a contornar, de a enganar, de a adiar ou mesmo de me libertar da sua lei ou de a arrancar do seu trono de rainha das certezas. Nem sequer anseio a eternidade porque acredito que ela já existe em mim, faça eu o que fizer. E estando ela em mim, não me faz grande mossa se a memória do que fui perdurar muito ou pouco naqueles que por cá ficam. Contudo, interessa-me a qualidade dessa memória. E a lembrança de alguém demente, deitado numa cama, a fazer cocó na fralda, sem falar, sem ver, sem ouvir, estando cá mas já não estando, não é, de todo, a lembrança que quero deixar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sem vergonha

Em tempos de crise aumentam os crentes e quanto mais a crise se estende mais se estende, também, o número dos ditos.

É um fenómeno recorrente que eu só compreendo à luz do medo e da busca, por vezes desesperada, de uma tábua de salvação, porque a não ser que se seja alvo de um qualquer milagre – o que acontece quando somos abençoados por aquilo que é bom e não por crises que põem em causa a nossa subsistência – não me parece lógico que se passe a acreditar naquilo em que não se acreditava antes. Aliás, parece-me até que o lógico seria o contrário – afinal Deus não existe, nem coisa nenhuma que olhe por nós, já que tudo está cada vez pior…

Então porque é que aumentam as crendices e os améns? porque é que cada vez, mais gente reza? pede? implora? É tudo uma questão de marketing. Nichos de oportunidade, como dizem os empresários. Em tempo de seca vende-se mais água, evidentemente. Mas todos sabemos que a água mata realmente a sede. 

Ora o ser-se crente, principalmente crente de última hora, não implica, necessariamente, a salvação seja lá do que for. Volto por isso à questão inicial – porque é que aumenta o número de crentes? porque se enchem as igrejas? porque se entope o correio com  mensagens religiosas?

Creio bem que isso acontece por perda de vergonha. Talvez que no fundo – mais fundo nuns do que noutros – todos sejamos crentes ou, pelo menos, todos saibamos “de fonte segura” da existência de algo que transcende esta vidinha que por cá levamos. Algo que transcende o tempo e o espaço da mesquinhez do dia-a-dia. Algo do qual todos nós fazemos parte.

Tenho por mim que todos sabemos isso e que, nestas alturas, vamos, devagarinho, perdendo a vergonha…

Ter fé

Aquilo a que normalmente se dá pelo nome de nervos – ai os nervos bloquearam-me; os nervos isto; os nervos aquilo – é na verdade excesso de expectativa. Criamos expectativas imensas e, a reboque, vem o terrível medo de não seremos capazes de as cumprir, e não somos mesmo porque bloqueamos!

O segredo está em não criar expectativas. Aceitar o que vier, e saber que, na verdade, nada, mas mesmo nada, é tão grave quanto parece. Acho que tem a ver com fé, também. Quem tem fé, quem acredita, confia. E quem confia, não tem de que ter medo e as coisas boas acontecem porque não está lá o medo para as afugentar.

Parece-me uma boa receita. Vou agarrar este espírito e tentar colá-lo a mim o maior número de horas possível até que se entranhe. Tenho fé que vou conseguir.

quarta-feira, 20 de julho de 2011


Nada me satisfaz.

Separar a poesia da ciência; o conhecimento da intuição; o objectivo do subjectivo, confunde-me, divide-me, insatisfaz-me.

Preciso de alguém capaz de intuir a razão; de ver a subjectividade que existe em tudo o que é objectivo; de dizer a poesia que emana dos movimentos ondulantes de todas as partículas.

Preciso de alguém capaz de pôr ordem no caos; alguém capaz de unificar.

Preciso de um sábio, mais sábio que este




Os desempregados e os que não têm trabalho

Só sossego quando encontro alternativas e, grosso modo, as alternativas surgem-me sempre na casa de banho, esteja eu a fazer o que estiver! E não, nem sempre são ideias de merda. Muito pelo contrário.

Mas a questão é esta dificuldade em sossegar! Tentei mentalizar-me que as circunstâncias me proporcionaram férias – coisa que eu não tinha há muito! Mas quando as férias são “proporcionadas” pelas circunstâncias, não são férias - são falta de trabalho, o que é bem diferente. Psicologicamente, claro, porque na prática vai tudo dar ao mesmo. Ou quase…

Há dois tipos de férias “proporcionadas pelas circunstâncias”: as de quem não tem trabalho e as de quem está desempregado. Os primeiros precisam de fazer um esforço diário para conseguir tirar algum proveito do tempo que as férias trazem. Os segundos estão verdadeiramente de férias. (será que  também recebem dois meses nesta altura do ano?)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Amor de mãe

Há momentos em que sinto que nada se move a favor dos meus interesses. Até a minha mãe, que era suposto cuidar de mim, tem um estranho conceito do conceito. Talvez porque deixou de o fazer cedo de mais, sente que um dos seus deveres é alimentar-me – muito. Não vê que eu já não tenho quinze anos e que as minhas necessidades alimentares, bem como o meu metabolismo, não se podem comparar. Cozinha para três e espera que eu coma por dois e para mim é mais uma coisa contra a qual terei de lutar – a tentação dos restos que jazem no tacho. E ri-se! Acha graça! Tempero mais salada? Já está feita. O que é que fica aí a fazer esse bocadinho de carne? Então não comes o resto do esparguete?

E de resto em resto me sinto eu cada vez pior. Engordando a olhos vistos e zangada com aquela que era suposto proteger-me e não sabe como! 

domingo, 17 de julho de 2011

As escolhas dos outros

Sujeitamo-nos, evidentemente, sempre que delegamos nos outros a responsabilidade das nossas escolhas.

O que, de resto, é uma atitude bastante cómoda porque não só nos esquivamos ao trabalhão que dá ter de decidir seja o que for, como nos dá a maravilhosa oportunidade de nos podermos chorar para o resto da vida à pala da nossa triste “sorte” porque podíamos ter sido tudo e mais alguma coisa, podíamos ter tido este mundo e o outro, mas não nos deixaram.

Se não foi o pai, foi a mãe, ou os dois em conjunto numa clara conspiração contra as nossas pessoas. Pode ter sido também o padrasto ou a madrasta, que eram do pior que já se viu, ou o vizinho do lado que nos levou para maus caminhos; a professora que nos cortou a criatividade, pela raiz!...; o patrão que nunca nos deu a oportunidade que merecíamos ou, em desespero de causa, o próprio país.

Note-se que não estou a afirmar que nada disto existe ou que estas coisas, quando existem, não pesam. Pesam sempre, e muito. A questão é que todos, quer queiramos quer não, acabamos por crescer e por ter de assumir, mais cedo ou mais tarde, os cursos das nossas vidas com o material que toda esta gente e circunstâncias nos foram depositando cá dentro ao longo do tempo que levámos para crescer, que é como quem diz, ao longo do tempo que nós consentirmos, porque cabe-nos a nós gritar – Parou! Agora quem manda sou eu!

Se eu tivesse dado ouvidos às pessoas e às circunstâncias da minha vida, àquelas que mais me pesaram principalmente, tenho por certo que o meu destino teria sido outro bem diferente e muito; muito; mais negro. Mas mais cómodo…lá isso…tinha-me deixado ir, a vida teria passado amorfa, sem feitos ou responsabilidades; outros teriam tratado de mim e mesmo que andasse por aí pelas ruas alguém me daria uma sopa – há sempre alguém que dá. Se me tivesse tornado numa toxicodependente, provavelmente já não existia para vos chatear e os meus filhos não teriam nascido, mas alguém teria feito alguma coisa para me “tentar salvar” e, com certeza, alguém me teria feito o funeral e tudo se teria arranjado como sempre se arranja, nós é que gostamos de pensar que não e borramo-nos de medo sempre que a coisa vacila…

Portanto, o importante mesmo – o gozo de tudo isto – é sermos nós. Nós os decisores. Nós os determinantes. Nós os condutores, de nós. Nós os executores. Nós os juízes. Nós os responsáveis…

Até porque, no fim, isso e só isso contará…para nós. E, o que tem mais graça, é que somos sempre tudo isto, quer queiramos quer não. Seja o que for que sejamos ou venhamos a ser; seja qual for o caminho que escolhamos, a escolha é sempre nossa e é por isso mesmo que eu não tenho pachorra para ouvir lamentos, queixas e vitimizações de gente que andou toda a vida encostada às decisões alheias e nem sequer sabe reconhecer, não apenas que a escolha foi sua mas a sorte que teve por ter encontrado quem escolhe tratar de outros que, como ela, preferem fingir que não escolhem e levam a vida a olhar para o lado.

Mas enfim…quer queiramos quer não, teremos sempre de levar com as escolhas dos outros…