Isto vai ser uma desgraceira só! O euro vai acabar! Volta o escudo, e a miséria não vai ter limites! As pessoas não vão ter dinheiro para pagar as casas! Nem compradas, nem alugadas, nem o c********** É o fim do mundo!
Em cuecas, diriam os meus pais há umas dezenas de anos atrás.
Na boca destes profetas da desgraça o melhor mesmo é tratarmos já de arrumar as botas porque não sobreviveremos ao que aí vem e, a fazê-lo, será debaixo das pontes a comer restos. E o que acontecerá às casas?, pergunto eu. Ficam vazias, ao abandono, a acumularem degradação tal e qual as contas que quando não se pagam acumulam juros de mora? O que acontece aos ricos quando todos os outros deixarem de consumir? Será que se aguentam mutuamente, numa economia fechada onde os bens circulam ali, e só ali? Quem é que já foi ao futuro? Em que altura funcionaram rigorosamente as previsões? Que papel desempenhamos nós nesse futuro que se avizinha tão negro?
Pela parte que me toca recuso-me a baixar os braços, da mesma forma que me recuso a ter medo até porque me sinto incapaz de ver tanta negridão, antes pelo contrário – vejo alguma luz na possibilidade de o meu futuro ser construído por mim com as decisões que for sendo capaz de tomar à medida que as circunstâncias assim o exigirem, sem medos, mas sobretudo sem me deixar envolver naquilo que é o mais perigoso patamar de todos os processos de crise – a lei da sobrevivência. Desumaniza-nos e a desumanização, a existir, será o escorrega mais íngreme e, por isso mesmo, mais rápido, para o caos e para a desgraceira que alguns gostam de apregoar.
Mantenhamos pois as cabeças frias, unamo-nos e não nos esqueçamos nunca de que somos gente e que ser gente significa amar o próximo, ampará-lo, considerá-lo sempre parte da solução e não parte do problema. Significa ser íntegro, moral, justo e digno e significa, sobretudo, ser capaz de não embarcar na vergonhosa “lei” do “salve-se quem puder”. Tanto quanto sei, e mesmo que seja pouco é qualquer coisita, os proveitos que essa lei pode trazer são sempre demasiado efémeros quando não ilusórios. “A união faz a força” é, e sempre foi, uma verdade muito maior.