terça-feira, 16 de outubro de 2012

Quem somos nós?


Que parte de nós é nós e que parte pertence ao que a vida nos obriga a ser?

De onde vêm os medos? E as angústias?

Porque somos inconstantes? Quem em nós semeou desassossego?

De onde vem a esperança?

E o desânimo? Porque é que nuns é tanto e noutros tão pouco?

E a força? O que é a força? Uma espécie de energia filha da vontade, ou uma outra coisa qualquer?

Em que momento deixámos de ser aquela criança que ainda habita dento de nós? Quando foi que a deixámos fugir? O que vemos quando olhamos o espelho? Quem roubou dos nossos rostos aquele sorriso fácil?

Quem somos nós?

O dinheiro, esse monstro insubstituível!


Tratamos o dinheiro, algo inventado por nós numa estreitíssima e direta relação com a produção, que entretanto deixou de existir, como algo que nos é dado pela Natureza e se encontra em vias de extinção!

Das duas uma, ou temos em nós  uma grande dose de masoquismo ou somos completamente desprovidos do génio que habitava os nossos antepassados e que lhes permitiu inventar esse monstro que nos mantém presos numa altura em que precisávamos de ser capazes de inventar uma outra coisa qualquer.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O que me entristece


O que me entristece, é não poder dizer aos meus pais, e aos meus filhos, Não se preocupem, vai correr tudo bem. Isso é que me entristece! E saber cada vez mais diminutas as probabilidades de ver sorrisos nos rostos dos meus amigos. Isso é que me entristece!

Sei lá eu se vai correr tudo bem! Espero que corra. Mas sei lá eu se vai correr! Portugal andou anos e anos a acreditar que a sua salvação estaria na fé e olha o que aconteceu – no momento, praticamente no momento, em que tudo se concretizava, pimba. Tudo por água abaixo. Está visto que isto não vai lá com fé. Não, não me parece que seja a fé a salvar-nos.

Acho que temos de fazer mais qualquer coisa para além da reza – temos de mostrar que estamos verdadeiramente empenhados. Verdadeiramente empenhados em andar para a frente. Verdadeiramente empenhados em crescer. Verdadeiramente empenhados em não nos deixarmos governar por outros interesses que não os nossos – os da maioria que somos nós; os de quem realmente trabalha. Os nossos. Os nossos interesses. Os interesses dos portugueses; e dos gregos; e dos espanhóis; e dos italianos; e dos franceses; e dos holandeses… Os interesses de quem trabalha e não de quem não sabe, nem nunca soube, o que isso é. Não os interesses de quem tem construído a vida à custa de especulações, compadrios e vigarices. Não os interesses da bolsa ou dos mercados, essas entidades virtuais e anónimas que encerram em cápsulas meia dúzia de vampiros que sabem que no momento em que de lá saírem sucumbirão. Mas os interesses de quem trabalha. De quem é gente que nasce e morre; que come e dorme e ri e chora e ama e luta e pensa e cria e É. Os nossos interesses.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Realidades


Há certos rostos que guardam olhares tão limpos, tão puros, que é praticamente impossível ficar indiferente.

Sempre que me cruzo com esses rostos sinto que há salvação. Que há saída para todas as crises. Até a da nossa humanidade.

Avó e neta


Há laços que unem as famílias e que estão para além das parecenças fisiológicas. São laços de cetim, que facilmente se desatam mas permanecem esvoaçantes, pontas soltas incapazes de se afastarem, prontas para se unirem outra vez, a qualquer momento.

Há cenas que se repetem, mas não em demasia… Há cenas que se aparentam, como as pessoas, e que, tal como as pessoas, se apuram e aperfeiçoam com o tempo, com a história, porque ao contrário daquilo que os mais pessimistas gostam de fazer crer, a memória existe e protege-nos de muitos males.

Assim, que se repitam todas as alegrias. Que se redobrem, se apurem, se aperfeiçoem, porque o passado só serve mesmo para isso - para nos ensinar a sermos melhores.


6 de Outubro de 2012
9 de Março de 1957


9 de Março de 1957
  
6 de Outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Casou-se a filha


No rescaldo de tantos acontecimentos importantes implanta-se um vazio difícil de atenuar. No centro, um casamento. O da filha. E que casamento pode ser mais importante que o da filha? O nosso talvez. Mas não foi. Não foi porque não foi tão vivido, tão sinceramente assumido, tão comprometido e alegre como o da filha, que apesar de não ter sido um casamento religioso teve um cunho de uma tal humanidade que dispensou, sem qualquer tipo de benevolência, o papaguear por vezes tão ultrapassado de certos padres.

Foi lindo.

E foi lindo pelo empenho que nele foi posto e que a senhora do registo sentiu e por tal esteve à altura. A minha filha sonhou com uma cerimónia assim, e concretizou-a numa cumplicidade tão absoluta que me deixa o coração a transbordar de alegria. Ela conseguiu. Vai ser feliz. E se mais nada na vida se concretizar, que os meus filhos se encontrem, neles e num outro, e que sigam a dois a estrada da vida, é já suficiente.

Da Holanda e de Londres vieram tios e primos. Veio uma amiga do Brasil.

Novos, menos novos e alguns já velhos juntaram-se para dançar para os noivos. A noiva teve direito a uma serenata e eu andei toda a tarde a conter as lágrimas que teimavam em sair do peito e a dar cabo da maquilhagem.

Por estes dias a casa transbordou, como o coração. E hoje, depois de uma mesa cheia no jantar de ontem, está novamente silenciosa.

Já tenho saudades de todos.










terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cenas de um quotidiano em franca mudança ou a quinta dimensão afinal existe mesmo

À minha frente as luzes de travão de um chaço com mais de vinte anos não param de acender. Ao volante um homem, jovem ainda, boceja antes de estancar a viatura no meio da estrada. Eu preparo-me para praguejar quando uma ovelha dispara numa correria incomum estrada fora e dois negros a perseguem a uma distância suficientemente larga para não a conseguirem apanhar. À beira da estrada, um outro negro segura a corda de uma outra ovelha que tenta a todo o custo seguir o mesmo caminho da primeira. Neste entretanto, o metro de superfície desliza, indiferente aos acontecimentos.

domingo, 30 de setembro de 2012

Borboletas no estômago


A todos aqueles que estremecem com a simples referência à infância que foi a deles. Àqueles cujas memórias desses primeiros anos de vida são as mais queridas, as que provocam borboletas – sim, há memórias que provocam borboletas na boca do estômago. A esses, cujo regresso é tão desejado que basta um cheiro um nome uma imagem, quero dizer que é possível. É possível voltar a sentir essas borboletas, essa confiança, esse conforto que a infância deu, a quem deu. É possível, sim. Mas esse retorno não é gratuito – traz consigo a dor de não saber o que fazer a tudo o que está no meio, entre o que foi e o que é.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Insurreição política desarmada


Há algo neste padre que me entusiasma e algo que me faz ficar expectante. Creio que se trata do entusiasmo do poder e da expectativa das coisas virem a melhorar - aquela que me fez ficar em casa até ao passado dia 15. 

O poder é embriagante, seja para os governantes seja para as massas e eu sou demasiado racional para me deixar levar assim, tão facilmente (?). No entanto, é bem capaz de ser de boa utilidade guardar esta espécie de discurso despertador de sentimentos antagónicos. Quem sabe não será útil num futuro próximo e, para além disso, há nele uma verdade indiscutível - as massas detêm um poder que raramente usam e do qual, muitas vezes, nem têm consciência.

Consciencializemo-nos pois.





quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"Você é tão linda"

seguido de um nome, lugar, número de telefone escrito duas vezes, uma por baixo da outra como se fossem dois, e um pedido de desculpas: "Desculpe se a ofendi", não é, de todo, aquilo que esperamos encontrar preso no limpa pára-brisas. Publicidade; ofertas de compra; multas; admoestações...tudo, menos declarações de opinião(?) muito menos quando já se passou a barreira do meio século.

Não, não me ofendeu. Mas assustou-me. Assustou-me o suficiente para eu andar uns dias a olhar por cima do ombro. 

Esta nova ordem doméstica


Ontem, queixava-se uma amiga da inutilidade do marido. Desempregado de longa duração, exerce uma atividade ligada ao imobiliário que anda, ultimamente e como todos nós sabemos, pelas ruas da amargura.
Ela, lutadora de gema, que sustenta vai para três anos a casa, a empresa, os vícios…, dizia que o que mais lhe custa é a passividade do bicho que, para além de não se mexer em busca de alternativas, se deixa ficar sentado em frente à televisão à espera que ela chegue, cansada por mais um dia de trabalho, para fazer o jantar.
Préstimo, zero. Mais-valias – nenhumas.
Não está sozinha. E se antigamente eram as mulheres a ficar em casa  a servir o marido. Hoje são eles que se vão deixando ficar, sem servir seja quem for.
Não falo, graças a Deus, destas novas gerações que cresceram a ver pai e mãe a trabalhar e cuja mentalidade se encontra a milhas daquela que nos criou a nós – os cinquentões e por aí adiante, habituados a uma mordomia que as mulheres foram alimentando mesmo tendo de trabalhar fora de casa e levando para dentro da mesma alguns trocos, ainda que não os mesmos porque a trabalhos iguais não correspondiam salários iguais, e nem sei, na verdade, se já correspondem mas temo bem que não, pelo que me resta desejar que as diferenças não sejam tão gritantes quanto o eram há trinta anos.
Falo precisamente dos desempregados de meia-idade para quem nada mais resta do que esperar pela reforma, com ou sem direito a subsídio. Falo desses desempregados sortudos cujas mulheres, muitas delas por iniciativa própria, se vão lançando a trabalhar para que não falte o pão na mesa. É desses que falo. E hoje, quando pelo correio eletrónico recebi uma série de fotos da antiga Crónica Feminina com conselhos tão úteis como: “’A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas’ (Jornal das Moças, 1959)”, veio-me à ideia que se calhar estamos na altura de lançar uma Crónica Masculina com conselhos que ajudem os nossos homens, coitados, a sobreviverem neste mundo de mulheres trabalhadoras. Caso contrário, não sei que futuro os aguarda. É que já não é a primeira vez que oiço por aí desabafos de zanga e verdadeira saturação…

Tapar o sol com a peneira


Numa época em que o défice de atenção, o desinteresse e a desmotivação não param de crescer, vêm uns cérebros brilhantes com soluções à distância convencidos de que o que falta são os métodos passíveis de serem transmitidos via internet ou em cardápios de soluções à la carte ao dispor do consumidor em qualquer escaparate.
Vale tudo menos a assunção da responsabilidade que temos na distância cada vez maior que se interpõe entre pais e filhos;  professores e alunos;  adultos e crianças.
É que é essa distância a responsável pelas crises de indisciplina que tanto brado têm dado nos meios educativos. É essa distância a responsável pelo desinteresse e a desmotivação da maior parte das nossas crianças. É essa distância, essa impessoalidade; essa ausência de afeto que os afastam cada vez mais de nós e daquilo que acreditamos ser necessário ao seu crescimento; à sua preparação para enfrentar um mundo que todos os dias muda e de tal forma muda que ninguém sabe, nem prevê, como será aquele que os agora mais do que jovens terão de enfrentar.
Uma coisa é certa – a proximidade, o interesse, o afeto são ferramentas estruturantes preciosíssimas que nenhum ensino à distância poderá algum dia substituir.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A verdade tem muitas caras e esta é, sem dúvida, uma delas

Não sei quem é este senhor, nem sequer sei se existe. Mas o texto é bom e eu dificilmente resisto a um bom texto.

Recebi-o via e-mail, e porque a verdade tem muitas caras e sobre a verdade devemos sempre reflectir, aqui vai,  tal e qual o recebi:



A trapeira do Job
José António Barreiros, advogado
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e umgadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status, como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o Campo se tornou num imensoressort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexisbeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu oNew Yorker?
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, aoleasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermo-nos ao dinheiro, enforcarmo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Beijos e beijinhos


Cheguei à conclusão que não gosto de beijinhos. Irritam-me.
Afinal o que é um beijinho? A escandalosa secundarização, a minimização, a redução de algo verdadeiramente importante e arrebatador que é o beijo.
Beijinhos são para as crianças. A essas sim, dão-se beijinhos. Aos adultos dão-se beijos e apertos de mão. Por mim, ficar-me-ia pelos apertos de mão e guardaria os beijos para outras finalidades o que, a propósito, me leva à realidade da faltinha de jeito da maioria…mas enfim, isso tem cura.
Quanto aos beijinhos velados – dêem-nos às criancinhas.
Beijinhos no lugar dos beijos é que não. Fica tudo muito pequenino.

Farta de bichos! ele é bichos por todo o lado!


Tenho um bug no computador. Ou isso, ou é vírus. Não sei precisar. Só sei que me incomoda mais do que aquilo que seria normal. Digo eu…

Nem é a coisa em si, que dispara janelas volta não volta – já disparou mais, que eu tenho feito tanta coisa que o bicho anda mais manso. Digo eu…

Mas dispara sempre, ou quase sempre, que quero fechar esta merda! Uma janela horrível a dizer que um programa está em execução e que não posso assim, de qualquer maneira, mandar fechar a loja! Mas quem é que ele pensa que é para me dizer quando posso ou não posso fechar aquilo que é meu?!

É que é isso que me incomoda. Não é cá o facto de ter de carregar em mais um botão. É esta intromissão. Este desautorizar-me! Olha que porra! Sou ou não sou eu a dona do computador?!

É que ando mesmo irritada com isto! Já tirei, já pus. Já procurei por tudo quanto é ficheiro, e programa, e escondido, e à vista…nada! Não consigo dar com o estupor.

Estou mesmo a ver que não passo sem carregar o aparelho até à clínica. É que me dá cabo dos nervos saber que tenho um intruso a passear por aqui!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Um síndroma chamado Gabriela


O meu ex-marido, homem claramente mundano, tinha o costume de chamar Gabriela a quem se manifestasse adversa a esta ou àquela alteração de caráter que ele considerasse importante se não mesmo indispensável. Fazia-o, portanto, com muito despeito.

Baseava-se este epíteto na canção, mais do que na personagem – “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, serei sempre assim…Gabriela!” - ainda que esta, apesar de todos os atrativos que descarrega sobre o sexo oposto, despertasse nele sorrisos de condescendência, daqueles que soltamos por quem não alimentamos grande respeito – é tonta, coitada…

Hoje, ao rever a criação do autor, e verde de inveja, pergunto-me o que há para não gostar?! Gabriela tem tudo, e vive feliz sem nada. Poder ser! Só ser! Que inveja!  

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Será falta de sensibilidade, despeito ou apenas uma grande dose de estupidez?!

De que forma se pode dizer a pessoas de responsabilidade como, por exemplo, o presidente da câmara de Lisboa, que esta não é uma boa altura para experiências, que as pessoas não estão com paciência para tal, que andam pelos cabelos, que o que querem mesmo é a sua vida de volta e que tudo aquilo que ainda não mudou se mantenha inalterável. Como é que se diz uma coisa destas a alguém, que supostamente já o devia saber, sem o ofender? Alguém me diz?

domingo, 16 de setembro de 2012

Orgulho no meu país!

Desde o primeiro 1.º de Maio, o de 1974, que eu não saía à rua. Sou uma pessoa paciente. Acredito no empenho de quem governa e gosto de pensar que se as coisas não estão tão bem quanto gostaríamos que estivessem não é por má vontade, nem por incompetência - pelo menos grave e recorrente, porque pontual todos temos o direito de a ter - mas por impossibilidade. Como o de muitos portugueses, o meu copo encheu. E transbordou. E, ontem, saí. Saímos. Todos. Ou quase todos. Espero que o governo não faça de conta que não aconteceu nada. Porque não é coisa pouca quando a paciência de gente como eu, paciente, se esgota. E somos muitos. E provámos, ontem, pelo país fora, que somos especiais. Não somos gregos, nem britânicos, nem árabes, nem franceses, nem nórdicos...Somos portugueses, orgulhosos de nós. Aqui fica o que vivi ontem. Lamento o amadorismo do video. Fiz o melhor que sei (até agora).

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Uma questão de fé


Estou prestes a chegar à conclusão que sofro de alguma inépcia vivencial.

Para se viver é preciso possuir certas capacidades práticas que eu, a julgar pela inquietação quase permanente em que vivo, não possuo.

Creio que a maior parte das pessoas que conheço acreditam que a inquietação faz parte do meu amor pela vida e que não saberia viver sem ela. Como se enganam! O que eu dava para prolongar eternamente os momentos de paz que tenho nos curtos intervalos!

Não. A questão não é essa. A questão não passa por uma marca de carácter. Passa, isso sim, pela incapacidade de distância do mundo, porque, na verdade, motivos de inquietação existem, sempre existiram e sempre existirão. A questão é ser capaz de viver com eles, lado a lado, mantendo-me serena. Não nas aparências porque nessas, por vezes, sou até plenamente abraçada por essa serenidade exagerada e falsa que leva a baixar o tom de voz à medida que o de outros aumenta. Mas no íntimo, no coração, na alma. 

São momentos de pouca fé, esses em que vacilo! Momentos de pouca fé. E a fé, quer se queira quer não, é fundamental à vida.

(curiosamente no momento em que acabei de escrever estas linhas, antes mesmo de as publicar, recebi as notícias que precisava para serenar. Se isto não é milagre, não sei o que será.)