quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Politicamente incorrecto

No domingo passado um amigo confessou-me que não acredita no amor, a não ser, é claro, nesse amor universal que não escolhe objecto, ou no amor filial, também. De resto, dizia ele, isso a que chamam amor e que junta duas pessoas, é outra coisa qualquer, é gostar "como se gosta de sopa, por exemplo".

Achei graça ao pensamento, à comparação que, na verdade, não me pareceu desprovida de lógica. Ao fim e ao cabo, quem gosta de sopa gostará até ao fim da vida e, se num dia ou noutro, a sopa não lhe souber tão bem, será por estado de espírito ou porque a própria sopa não se apresenta como é costume, a gosto próprio. Foi esta a explicação que me foi dada e que me arrancou uma gargalhada, daquelas que se soltam por alívio que é como quem diz, na liberdade de quem se livrou de grilhetas sociais que travam certas manifestações de opinião.

Hoje, através do Facebook, dei de caras com um comentário de um outro amigo, bem mais jovem, também ele sobre o amor, esse amor universal que, supostamente, nos une, ou não. Ou não. Dizia ele:

"caridade não gera senão párias. compaixão não gera mais que invejas. ou são fruto delas. o altruísmo é um egoísta com disfarce e maior necessidade de satisfação pessoal. a diferença é que consegue essa satisfação mais à custa dos outros do que de si próprio. Como uma espécie de fetiche desarranjado ou hedonismo estragado em que o prazer de uma carícia se sente não quando no-las fazem mas quando as fazemos aos outros. E nem sequer pode ser equiparado à generosidade, em que dar, como partilha, é uma coisa que nos serve em conjunto.É uma coisa muito mais mesquinha, pequena, interior, tão escatológica e elementar como lavar o rabo."

É claro que são palavras grossas, pesadas, difíceis de digerir. Mas não o será, também, a verdade? O facto é que, mais uma vez, senti aquela liberdade de poder gritar aos sete ventos uma verdade que pode muito bem sê-lo. Uma possível verdade. Uma muito possível verdade. E quanto mais lia mais me parecia ser exactamente assim, tal e qual como o disse o Miguel, e apeteceu-me ser capaz de decorar as suas palavras porque é tão raro, cada vez mais raro, ouvirem-se opiniões verdadeiramente pensantes, sobre coisas verdadeiramente importantes.

E quando lá voltei, deparei-me com mais um comentário. Este, com que me fico:

"creio que as pessoas vivem com uma série de preconceitos que lhes foram incutidos desde sempre por morais e afins e que aceitam estranhamente como elementares. o grande problema social é a falta de sentido crítico individual. as pessoas aceitam o que lhes é dado e não questionam. a educação não deveria ser ensinar a saber. qualquer macaco aprende a saber. por imitação, por exemplo. a educação devia ser ensinar a pensar. e saber então surge de forma natural mas com uma independência de raciocínio que sabe pôr as coisas em causa para as levar mais além. e para pensar não há macaco que valha, não há imitação que o consiga. pensar é o princípio da criatividade. e a criatividade é o princípio da evolução, do progresso. como o mal, o bem também é uma bola de neve."

P.S. -  Mais do Miguel, aqui.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Range Rover


Dei de caras com o velho jeep - chamo-lhe jeep como chamo kispo a todos os casacos acolchoados e impermeáveis que tenham capuz. Manias antigas, do tempo em que as coisas eram tão raras que chegavam sem nome próprio. Só traziam o apelido. 

Pois, dizia eu que dei de caras com o jeep. Exatamente o mesmo de há…sei lá…vinte anos p’rá aí… Esmurrado do lado esquerdo, o farol traseiro inexistente, a pintura baça. E pensei, Como as coisas mudam!

Recordei aqueles tempos áureos em que transportava pranchas e para-pentes no tejadilho. Em que carregado de bicicletas rumava ao Parque das Nações e aguardava pacientemente a família que por lá passava o dia a dar ao pedal.

Como as coisas mudam! E que triste que é quando mudam para pior. Quando são os tempos áureos que ficam para trás e não o contrário que deveria ser sempre a ordem natural das coisas – começa-se de baixo e ascende-se. É assim que deve ser sempre – começa-se de baixo e ascende-se. Luta-se. Estuda-se. Trabalha-se. E ascende-se.

Mas não. Não. Nem sempre. Não aqui, neste país. Cada vez menos. Aqui descende-se. Perde-se. Anda-se “de cavalo para burro” ainda que se trabalhe mais ainda, que se estude mais ainda, que se lute mais ainda. Descende-se.

E o velho jeep lá estava, parado, à espera do mesmo dono que há cerca de vinte anos, mais coisa menos coisa, o conduz. Já não tão feliz, já não cheio de crianças e pranchas e para-pentes.

domingo, 21 de outubro de 2012

Qual famílias alargadas qual carapuça!


Entornar vinho é alegria. Pisar dejetos caninos, dinheiro. Atribuímos benfeitorias às coisas chatas e, muitas vezes, avançamos azares a coisas tão inocentes como passar debaixo de uma escada ou deixar que as facas se cruzem.

Nesta linha de raciocínio, digo eu porque posso, entendemos encontrar graças e convenientes vantagens naquilo que designámos “famílias alargadas”. Que giros que são os meus, os teus e os nossos e aqueles que não são bem irmãos mas irmãos de irmãos e primos de primos, famílias tão extensas e diversificadas e distantes que dificilmente caberão numa só casa em épocas de culto como, por exemplo, o Natal.

Graça mesmo só encontram aqueles a quem convém, de uma forma ou de outra, esse estado de coisas, porque nunca ouvi nenhuma criança ou adolescente regozijar-se com a separação dos pais e aceitar de ânimo leve madrasta e padrasto sem um mínimo de resistência ou uma dor bem escondida no centro do coração. Geralmente dão adultos resignados que não perdem uma oportunidade de recordar como as coisas eram “quando éramos uma família”.

Para essas pessoas não existem famílias alargadas. Existe perda e separação. Desmembramento e dor.

Por vezes, quando a coisa se dá muito cedo e cedo se forma uma outra família que cria e acolhe como se nada, ou quase nada, se tivesse passado, a coisa compõe-se. Ainda assim, mais ou menos, porque em nenhuma circunstância se apagam as perguntas sem resposta, os “porquês” e os “comos” – ninguém substitui um pai e uma mãe que se amam e criam, juntos e até ao fim, os filhos que geraram.

Posso não ter aprendido muito, mas isso eu aprendi. São dores que não passam nunca. Despiques que não cessam. Vontade de partir os filhos ao meio, esta metade é minha, esta é tua. Ciúmes que roem. Invejas que tentam a todo o custo respirar.

Não, não é verdade que o vinho entornado em dia de festa seja alegria. Na verdade é uma merda e um trabalhão – uma interrupção; um corte. E quanto ao pisar dejetos caninos, hão de me dizer quantos ou quantas enriqueceram depois disso. A não ser que o segredo esteja na conservação dos mesmos na sola do sapato. Só se for isso. Mas, a julgar pelas pedras que vamos deixando saltar cá para dentro ao longo da vida, eu diria que essa não é, seguramente, uma solução credível.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Depressão


Finalmente teve coragem para abrir o talho e espalhar cartazes, enormes e escritos à mão, pelas redondezas. “Já abriu o talho no Texugo. Com Tudo” – era o que se lia ao contornar as rotundas e à medida que nos íamos aproximando do local.
Lá dentro uma panóplia de arrumações, prateleiras, muitas, balcões, dois e frigoríficos; um fogareiro gigante, daqueles modernos que o carvão é cancerígeno…um espaço de meter inveja a qualquer comerciante. Tudo vazio. Apenas um dos balcões exibia algumas peças de carne.
Entrei para uma perna de peru. Nada.
É claro que os próprios cartazes, escritos à mão e cortados a dentes, só por si já faziam transparecer o esforço hercúleo que o pobre homem teve de invocar para abrir as portas fechadas havia tanto tempo. E depois ele mesmo. De cigarro na mão e olhar no chão. Os ombros a descaírem como quem não acha horizonte nem ao seu nível! Não era para abrir, disse ele. Isto está tudo tão mau. Até o outro, na outra terra, já tinha fechado. Mas não tinha mais onde se agarrar e, ainda por cima, doente, dizia ele. Talvez dos cigarros. Talvez da postura. Depressão é doença. A pior. Tira as forças a qualquer um. Por grandes que sejam vão-se com a vontade.
Não durou uma semana. Voltou a fechar. Na montra, escrito à mão, está outro cartaz – “Vendo esta loja” e, por baixo, um número de telefone que já ninguém descortina porque o tempo levou a tinta.
Nem sabe, o pobre, que mesmo que haja alguém capaz de comprar tal espaço, não saberá como o contactar…

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

a História por devir

Daqui a um ou dois séculos, quando os tetranetos dos nossos tetranetos estudarem este século, conhecê-lo-ão como o século em que os homens ficaram reféns dos mercados - uma coisa suficientemente vaga para não ter fase; suficientemente grande para os tolher; suficientemente poderosa para os subjugar.

E daqui a um ou dois séculos, os tetranetos dos nossos tetranetos folhearão compêndios, elaborarão teses, perderão noites a tentar compreender porque é que os homens se deixaram subjugar por algo que eles próprios criaram. E não compreenderão o porquê dessa inércia, dessa subjugação, desse baixar de braços. 

E, tal como hoje estudamos as crises que nos devastaram no séc. XIV e nas duas grandes guerras, os tetranetos dos nossos tetranetos estudarão a época em que uma grande parte da população europeia se esfumou nas ruas da miséria e de como os que cá ficaram ficaram mais ricos e de como a esta se seguiu mais uma idade de luz e progresso e...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Medo de vencer


O que mais detesto nos outros é o que mais temo em mim – a fraqueza, a incapacidade de cruzar metas, o terror que de mim se vai apoderando à medida que elas se aproximam. É isso que mais detesto nos outros. É isso que me torna impaciente e intransigente e desapaixonada e impiedosa. E má. Como se a fraqueza se pegasse e a incapacidade fosse uma substância a manter trancada, proibida de respirar o mesmo ar que respiram os vencedores. Uma substância a manter nas trevas a todo o custo – única forma de lhe travar a existência.

Não ma mostrem pois. Não a aflorem sequer que me deixam agoniada.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Quem somos nós?


Que parte de nós é nós e que parte pertence ao que a vida nos obriga a ser?

De onde vêm os medos? E as angústias?

Porque somos inconstantes? Quem em nós semeou desassossego?

De onde vem a esperança?

E o desânimo? Porque é que nuns é tanto e noutros tão pouco?

E a força? O que é a força? Uma espécie de energia filha da vontade, ou uma outra coisa qualquer?

Em que momento deixámos de ser aquela criança que ainda habita dento de nós? Quando foi que a deixámos fugir? O que vemos quando olhamos o espelho? Quem roubou dos nossos rostos aquele sorriso fácil?

Quem somos nós?

O dinheiro, esse monstro insubstituível!


Tratamos o dinheiro, algo inventado por nós numa estreitíssima e direta relação com a produção, que entretanto deixou de existir, como algo que nos é dado pela Natureza e se encontra em vias de extinção!

Das duas uma, ou temos em nós  uma grande dose de masoquismo ou somos completamente desprovidos do génio que habitava os nossos antepassados e que lhes permitiu inventar esse monstro que nos mantém presos numa altura em que precisávamos de ser capazes de inventar uma outra coisa qualquer.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O que me entristece


O que me entristece, é não poder dizer aos meus pais, e aos meus filhos, Não se preocupem, vai correr tudo bem. Isso é que me entristece! E saber cada vez mais diminutas as probabilidades de ver sorrisos nos rostos dos meus amigos. Isso é que me entristece!

Sei lá eu se vai correr tudo bem! Espero que corra. Mas sei lá eu se vai correr! Portugal andou anos e anos a acreditar que a sua salvação estaria na fé e olha o que aconteceu – no momento, praticamente no momento, em que tudo se concretizava, pimba. Tudo por água abaixo. Está visto que isto não vai lá com fé. Não, não me parece que seja a fé a salvar-nos.

Acho que temos de fazer mais qualquer coisa para além da reza – temos de mostrar que estamos verdadeiramente empenhados. Verdadeiramente empenhados em andar para a frente. Verdadeiramente empenhados em crescer. Verdadeiramente empenhados em não nos deixarmos governar por outros interesses que não os nossos – os da maioria que somos nós; os de quem realmente trabalha. Os nossos. Os nossos interesses. Os interesses dos portugueses; e dos gregos; e dos espanhóis; e dos italianos; e dos franceses; e dos holandeses… Os interesses de quem trabalha e não de quem não sabe, nem nunca soube, o que isso é. Não os interesses de quem tem construído a vida à custa de especulações, compadrios e vigarices. Não os interesses da bolsa ou dos mercados, essas entidades virtuais e anónimas que encerram em cápsulas meia dúzia de vampiros que sabem que no momento em que de lá saírem sucumbirão. Mas os interesses de quem trabalha. De quem é gente que nasce e morre; que come e dorme e ri e chora e ama e luta e pensa e cria e É. Os nossos interesses.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Realidades


Há certos rostos que guardam olhares tão limpos, tão puros, que é praticamente impossível ficar indiferente.

Sempre que me cruzo com esses rostos sinto que há salvação. Que há saída para todas as crises. Até a da nossa humanidade.

Avó e neta


Há laços que unem as famílias e que estão para além das parecenças fisiológicas. São laços de cetim, que facilmente se desatam mas permanecem esvoaçantes, pontas soltas incapazes de se afastarem, prontas para se unirem outra vez, a qualquer momento.

Há cenas que se repetem, mas não em demasia… Há cenas que se aparentam, como as pessoas, e que, tal como as pessoas, se apuram e aperfeiçoam com o tempo, com a história, porque ao contrário daquilo que os mais pessimistas gostam de fazer crer, a memória existe e protege-nos de muitos males.

Assim, que se repitam todas as alegrias. Que se redobrem, se apurem, se aperfeiçoem, porque o passado só serve mesmo para isso - para nos ensinar a sermos melhores.


6 de Outubro de 2012
9 de Março de 1957


9 de Março de 1957
  
6 de Outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Casou-se a filha


No rescaldo de tantos acontecimentos importantes implanta-se um vazio difícil de atenuar. No centro, um casamento. O da filha. E que casamento pode ser mais importante que o da filha? O nosso talvez. Mas não foi. Não foi porque não foi tão vivido, tão sinceramente assumido, tão comprometido e alegre como o da filha, que apesar de não ter sido um casamento religioso teve um cunho de uma tal humanidade que dispensou, sem qualquer tipo de benevolência, o papaguear por vezes tão ultrapassado de certos padres.

Foi lindo.

E foi lindo pelo empenho que nele foi posto e que a senhora do registo sentiu e por tal esteve à altura. A minha filha sonhou com uma cerimónia assim, e concretizou-a numa cumplicidade tão absoluta que me deixa o coração a transbordar de alegria. Ela conseguiu. Vai ser feliz. E se mais nada na vida se concretizar, que os meus filhos se encontrem, neles e num outro, e que sigam a dois a estrada da vida, é já suficiente.

Da Holanda e de Londres vieram tios e primos. Veio uma amiga do Brasil.

Novos, menos novos e alguns já velhos juntaram-se para dançar para os noivos. A noiva teve direito a uma serenata e eu andei toda a tarde a conter as lágrimas que teimavam em sair do peito e a dar cabo da maquilhagem.

Por estes dias a casa transbordou, como o coração. E hoje, depois de uma mesa cheia no jantar de ontem, está novamente silenciosa.

Já tenho saudades de todos.










terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cenas de um quotidiano em franca mudança ou a quinta dimensão afinal existe mesmo

À minha frente as luzes de travão de um chaço com mais de vinte anos não param de acender. Ao volante um homem, jovem ainda, boceja antes de estancar a viatura no meio da estrada. Eu preparo-me para praguejar quando uma ovelha dispara numa correria incomum estrada fora e dois negros a perseguem a uma distância suficientemente larga para não a conseguirem apanhar. À beira da estrada, um outro negro segura a corda de uma outra ovelha que tenta a todo o custo seguir o mesmo caminho da primeira. Neste entretanto, o metro de superfície desliza, indiferente aos acontecimentos.

domingo, 30 de setembro de 2012

Borboletas no estômago


A todos aqueles que estremecem com a simples referência à infância que foi a deles. Àqueles cujas memórias desses primeiros anos de vida são as mais queridas, as que provocam borboletas – sim, há memórias que provocam borboletas na boca do estômago. A esses, cujo regresso é tão desejado que basta um cheiro um nome uma imagem, quero dizer que é possível. É possível voltar a sentir essas borboletas, essa confiança, esse conforto que a infância deu, a quem deu. É possível, sim. Mas esse retorno não é gratuito – traz consigo a dor de não saber o que fazer a tudo o que está no meio, entre o que foi e o que é.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Insurreição política desarmada


Há algo neste padre que me entusiasma e algo que me faz ficar expectante. Creio que se trata do entusiasmo do poder e da expectativa das coisas virem a melhorar - aquela que me fez ficar em casa até ao passado dia 15. 

O poder é embriagante, seja para os governantes seja para as massas e eu sou demasiado racional para me deixar levar assim, tão facilmente (?). No entanto, é bem capaz de ser de boa utilidade guardar esta espécie de discurso despertador de sentimentos antagónicos. Quem sabe não será útil num futuro próximo e, para além disso, há nele uma verdade indiscutível - as massas detêm um poder que raramente usam e do qual, muitas vezes, nem têm consciência.

Consciencializemo-nos pois.





quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"Você é tão linda"

seguido de um nome, lugar, número de telefone escrito duas vezes, uma por baixo da outra como se fossem dois, e um pedido de desculpas: "Desculpe se a ofendi", não é, de todo, aquilo que esperamos encontrar preso no limpa pára-brisas. Publicidade; ofertas de compra; multas; admoestações...tudo, menos declarações de opinião(?) muito menos quando já se passou a barreira do meio século.

Não, não me ofendeu. Mas assustou-me. Assustou-me o suficiente para eu andar uns dias a olhar por cima do ombro. 

Esta nova ordem doméstica


Ontem, queixava-se uma amiga da inutilidade do marido. Desempregado de longa duração, exerce uma atividade ligada ao imobiliário que anda, ultimamente e como todos nós sabemos, pelas ruas da amargura.
Ela, lutadora de gema, que sustenta vai para três anos a casa, a empresa, os vícios…, dizia que o que mais lhe custa é a passividade do bicho que, para além de não se mexer em busca de alternativas, se deixa ficar sentado em frente à televisão à espera que ela chegue, cansada por mais um dia de trabalho, para fazer o jantar.
Préstimo, zero. Mais-valias – nenhumas.
Não está sozinha. E se antigamente eram as mulheres a ficar em casa  a servir o marido. Hoje são eles que se vão deixando ficar, sem servir seja quem for.
Não falo, graças a Deus, destas novas gerações que cresceram a ver pai e mãe a trabalhar e cuja mentalidade se encontra a milhas daquela que nos criou a nós – os cinquentões e por aí adiante, habituados a uma mordomia que as mulheres foram alimentando mesmo tendo de trabalhar fora de casa e levando para dentro da mesma alguns trocos, ainda que não os mesmos porque a trabalhos iguais não correspondiam salários iguais, e nem sei, na verdade, se já correspondem mas temo bem que não, pelo que me resta desejar que as diferenças não sejam tão gritantes quanto o eram há trinta anos.
Falo precisamente dos desempregados de meia-idade para quem nada mais resta do que esperar pela reforma, com ou sem direito a subsídio. Falo desses desempregados sortudos cujas mulheres, muitas delas por iniciativa própria, se vão lançando a trabalhar para que não falte o pão na mesa. É desses que falo. E hoje, quando pelo correio eletrónico recebi uma série de fotos da antiga Crónica Feminina com conselhos tão úteis como: “’A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas’ (Jornal das Moças, 1959)”, veio-me à ideia que se calhar estamos na altura de lançar uma Crónica Masculina com conselhos que ajudem os nossos homens, coitados, a sobreviverem neste mundo de mulheres trabalhadoras. Caso contrário, não sei que futuro os aguarda. É que já não é a primeira vez que oiço por aí desabafos de zanga e verdadeira saturação…

Tapar o sol com a peneira


Numa época em que o défice de atenção, o desinteresse e a desmotivação não param de crescer, vêm uns cérebros brilhantes com soluções à distância convencidos de que o que falta são os métodos passíveis de serem transmitidos via internet ou em cardápios de soluções à la carte ao dispor do consumidor em qualquer escaparate.
Vale tudo menos a assunção da responsabilidade que temos na distância cada vez maior que se interpõe entre pais e filhos;  professores e alunos;  adultos e crianças.
É que é essa distância a responsável pelas crises de indisciplina que tanto brado têm dado nos meios educativos. É essa distância a responsável pelo desinteresse e a desmotivação da maior parte das nossas crianças. É essa distância, essa impessoalidade; essa ausência de afeto que os afastam cada vez mais de nós e daquilo que acreditamos ser necessário ao seu crescimento; à sua preparação para enfrentar um mundo que todos os dias muda e de tal forma muda que ninguém sabe, nem prevê, como será aquele que os agora mais do que jovens terão de enfrentar.
Uma coisa é certa – a proximidade, o interesse, o afeto são ferramentas estruturantes preciosíssimas que nenhum ensino à distância poderá algum dia substituir.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A verdade tem muitas caras e esta é, sem dúvida, uma delas

Não sei quem é este senhor, nem sequer sei se existe. Mas o texto é bom e eu dificilmente resisto a um bom texto.

Recebi-o via e-mail, e porque a verdade tem muitas caras e sobre a verdade devemos sempre reflectir, aqui vai,  tal e qual o recebi:



A trapeira do Job
José António Barreiros, advogado
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e umgadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status, como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o Campo se tornou num imensoressort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexisbeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu oNew Yorker?
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, aoleasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermo-nos ao dinheiro, enforcarmo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Beijos e beijinhos


Cheguei à conclusão que não gosto de beijinhos. Irritam-me.
Afinal o que é um beijinho? A escandalosa secundarização, a minimização, a redução de algo verdadeiramente importante e arrebatador que é o beijo.
Beijinhos são para as crianças. A essas sim, dão-se beijinhos. Aos adultos dão-se beijos e apertos de mão. Por mim, ficar-me-ia pelos apertos de mão e guardaria os beijos para outras finalidades o que, a propósito, me leva à realidade da faltinha de jeito da maioria…mas enfim, isso tem cura.
Quanto aos beijinhos velados – dêem-nos às criancinhas.
Beijinhos no lugar dos beijos é que não. Fica tudo muito pequenino.