Não fiz greve. Não que não concorde com esta forma de luta
mas a quem serviria uma greve minha? Quem a veria? Foi nisso que me
pus a pensar antes de decidir. Afinal de contas as pessoas a quem
presto serviços já me pagaram – fazer greve seria pouco leal dado que recebo
antecipadamente. Por outro lado, o meu trabalho é tão solitário, tão retirado,
tão no meio do quase nada que a visibilidade da minha ausência seria quase nenhuma.
Apenas duas ou três famílias se iriam aperceber da minha greve, mais ninguém.
Ora uma greve tem de ter visibilidade. Tem de fazer mossa. A minha
insignificância não me permite fazer mossa em coisa nenhuma.
Todos nós somos antagónicos. Todos procuramos, incessantemente, dentro e fora de nós. Todos somos múltiplos. Neste espaço, é a minha multiplicidade que se manifesta.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Merkel
“Já estou mais
conformada. A D. deu-me força…vai, vai lá para onde quiseres…” diz ela num
tom de voz afectado e cínico, com aqueles trejeitos do “eu sacrifico-me”,
quando o que eu precisava de ouvir era: “não te preocupes, vai que eu fico
óptima”, num tom determinado, claro, sincero. E neste entretanto anda a Merkel
na visita papal! Não, papal não, presidencial. Fez-me lembrar o Salazar
naquelas visitas relâmpago que fazia às então colónias portuguesas só para nos
fazer acreditar que tudo estava bem, que éramos todos felizes, até mesmo as
crianças e as famílias que o esperavam à saída do avião com uma espécie de pompons
nas mãos, blusas brancas e saias azuis escuro.
Nessa altura havia muito quem acreditasse nesses tons
dissimulados velados e cínicos. Tão dissimulados velados e cínicos que havia
quem não lhes detetasse outra característica que não a denotativa. Havia muito
quem não ouvisse sequer o que diziam as palavras quanto mais o que estava por detrás!
Não eu. Nunca eu,
que tenho ouvidos de tísica e oiço sempre o que está para lá das palavras. Oiço
os olhares, os gestos, os tons e fico aflita, responsável e aflita como se me
pertencesse a árdua tarefa de transportar aos ombros a solução para todas as
mágoas. As dela, não as da Merkel que essas não me dizem respeito, nem sei se
as tem. Mas questiono-me se à noite, à cabeceira, lhe afluirão as mágoas do
mundo. Provavelmente não. Afinal de contas tem tanto em que pensar!...
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Classe média
Ao contrário do provérbio antigo, é importante, em termos de
justiça, que se olhe mais ao que se faz do que ao que se diz, até porque, hoje
em dia, tudo se diz e muito do que se diz é da boca para fora – sim, as
palavras já não têm o peso que tinham, já não valem só por si. Um homem já não
se mede pelo valor da sua palavra. O que é uma pena, porque por causa dessa
desvalorização é que subiram as cotas dos Tribunais que afinal se revelam incapazes
para tanta falta de palavra. Daí que o melhor mesmo é medir-se a honra pelo atos
e nem todos merecemos louvores iguais, essa é que é essa.
Que justiça pode existir quando alguém que pouco ou nada faz
ganha tanto ou mais ainda do que aquele que entrega os seus dias ao trabalho
mesmo que não saiba viver de outro modo? Que justiça pode haver quando
enriquece e fica impune o ladrão e empobrece o honesto trabalhador a quem não é
dada abébia para coisa nenhuma? - ai dele que se esqueça de pagar o seguro ou o
imposto do carro, se ainda o tiver.
Creio que entre uns e outros não existem dúvidas. As dúvidas
residem naqueles que estão no meio e que são tantas vezes olhados por uns como
pertencendo ao grupo dos outros e por outros como pertencendo ao grupo dos uns.
Infelizmente, prevê-se que daqui a pouco tempo poucos restarão. Ao que parece
trata-se de uma espécie em extinção e, quando mais não fosse, por isso mesmo,
merece ser aqui homenageada.
Falo de homens e mulheres lutadores, que estudaram enquanto
os outros se divertiam e que agarraram cada emprego como a própria vida, e
olharam por aquilo que era dos outros como se fosse seu, defendendo,
melhorando, capitalizando, progredindo. Criando emprego e riqueza. Falo de
certos gestores, por exemplo, ou arquitetos, ou engenheiros, ou médicos ou
professores, que não contam as horas que trabalham diariamente porque trabalham
aquelas que são precisas, que têm férias aos bocadinhos e para quem os fins de
semana nem sempre existem. Sim, eu sei, isto cheira mais a workholics mas não é
isso que está aqui em causa, o que está em causa é que, workholics ou não, são
pessoas graças às quais outras trabalham, graças às quais algumas empresas
progridem e são, sobretudo, pessoas que vivem anónimas e ganham bem. É verdade
que sim, que ganham bem. Por vezes ganham mesmo muito bem e pagam, em impostos,
o correspondente àquilo que ganham, o que significa que é nas mãos delas que
está a possibilidade de pagar umas quantas reformas e subsídios que suportam
quem não trabalha e até, por vezes, quem nunca soube o que isso é.
Acreditem que estes homens e estas mulheres existem. Eu
conheço alguns e quero, aqui e agora, prestar-lhes homenagem e dizer-lhes que
não se amofinem com os que os olham de lado. É que as pessoas invejam muito e
sonham sempre conseguir, sem esforço, aquilo que só com ele se consegue .
domingo, 11 de novembro de 2012
Isabel Jonet
Mais uma vez são tantas as verdades! Creio que o problema
mesmo é a falta de precisão, de resto impossível a não ser que se usem dados
oficiais, como estatísticas e coisas dessas, tão imprecisos quanto certas
pessoas habituadas a movimentarem-se no seio de um determinado grupo e
convencidas que o mundo é todo assim. Ninguém vê tudo. Ninguém sabe tudo. E
isto não significa que, quando se fala, não se fale verdade. O meio de cada um
é restrito e quando falamos e quando exemplificamos é com base nele que o
fazemos.
Em Portugal sempre existiram pobres, mas há 50 anos atrás
existiam muitos mais do que aqueles que existem agora. Após o 25 de Abril
quisemos acabar com eles. Foi talvez o pensamento, a intenção, mais bonita que
tivemos até hoje, e tratámos de oferecer a todos mais do que aquilo que podíamos.
Talvez, quem sabe, tenhamos ambicionado substituir Salazar como pai da nação e tivéssemos
querido mostrar a todos que todos podemos ser pais de todos e esquecemo-nos
daquela regra básica da economia que dita que as despesas têm de ser inferiores
às receitas se queremos gerir bem a nossa casa.
É claro que esse esquecimento, ao longo destes anos,
mudou-nos a mentalidade e, sobretudo, moldou a mentalidade dos nossos filhos que
nasceram e cresceram numa abundância que todos tomámos como certa. Mais! que
todos tomámos como legítima.
Ontem, em conversa com o meu irmão a propósito de um novo
emprego que ele arranjou e que o vai empurrar, ao fim de 20 anos, para os braços
de uma entidade patronal (é preciso que se saiba que o meu irmão, que vive há
32 anos na Holanda, trabalhava por conta própria, mas a crise chega a todo o
lado e obriga-nos, ou aconselha-nos, a mudar de vida), fiquei a saber, dizia
eu, que na Holanda não existe, nunca existiu, subsídio de Natal e que o de
férias não corresponde a um salário completo mas à poupança que cada
trabalhador faz ao longo do ano com o salário bruto que recebe todos os meses!
Prevenidos estes holandeses!...
Eu trabalho num meio pobre. Num desses meios que
consideramos pobres. Com crianças que vivem em habitações clandestinas, no meio
do mato, sem saneamento básico (não sei já há quanto tempo existem esses
bairros, mas já têm nome e caixa postal). Se os virmos na rua, a sair da
escola, percebemos que a única coisa que lhes falta é, talvez, a consciência da
ilegalidade em que vivem porque, em tudo o resto, são iguais aos outros –
ostentam os mesmos telemóveis, calçam os mesmos ténis e vestem as mesmas
calças, salvo seja, evidentemente…
Alguns pais destas crianças não têm trabalho. Alguns dizem
que são pescadores mas têm de fugir às autoridades sempre que vão à amêijoa
porque lhes falta a autorização necessária para o fazerem. Alguns recebem
subsídios.
Eu, por vezes, saio do meu canto e vou dar uma mãozinha na
distribuição de alimentos aos sem-abrigo de Lisboa. Vou integrada numa
associação que o faz há vários anos e, como é natural, vou ficando ao corrente
do que se passa com este e com aquele que aparece regularmente nos locais
habituais. Aliás, são quase sempre os mesmos e vêm quase sempre no mesmo
estado. A pobreza é uma coisa que se entranha nas pessoas e é tão difícil
sair-se dela como sair de um buraco escuro. Mesmo que alguém nos puxe para cima
encadeamo-nos com a luz e perdemos a segurança que a escuridão nos dava. Muitas
vezes voltamos para lá. Mas de cabeça erguida e voz de comando. Sim, porque nós,
aqueles que lá vão de sopa na mão, não fazemos mais do que a nossa obrigação.
Isso eles não nos deixam esquecer na forma como tantas vezes nos tratam.
À minha volta, neste bairro que habito tão classe média
quanto possível, vêem-se carros de alta cilindrada que foram, e aí eu estava capaz
de apostar o que não tenho, comprados com dinheiro do banco. E ontem num dos
restaurantes da zona, não havia mesas vagas para almoçar. Aliás, não foi a
primeira vez que isso aconteceu. Já no outro dia, quando por lá passei, havia
gente à espera, à porta.
Tenho vários amigos que estão reformados há vários anos. Reformaram-se
antes dos 50. Aproveitaram a oportunidade que lhes foi dada. Eu teria
feito o mesmo se tivesse podido mas hoje, de mão na consciência, tentaria
compreender se realmente mereço o que todos os meses me entra pela porta
adentro sem estar a trabalhar e, provavelmente, estaria mais calada do que
estão muitos que, na verdade, têm recebido mais do que aquilo que têm dado
apesar de nós sentirmos sempre, e cada vez mais, que merecemos, que nos é
devido e, no caso dos nossos filhos, até apenas pelo facto de termos nascido.
É claro que tudo isto é matéria para muita discussão. É
claro que as reações dos sem-abrigo podem ser interpretadas à luz das teorias
comportamentais e justificadas com a necessidade de se defenderem e manterem,
assim, alguma dignidade. É claro que os carros de alta cilindrada e os
empréstimos bancários podem ser justificados com as facilidades que os bancos,
que vivem dos juros que cobram, ofereceram ao longo dos anos fazendo-nos
acreditar que tudo é possível e que todos podemos, independentemente da
dimensão da nossa contribuição. É claro que tudo pode ser justificado. Já temos teorias
suficientes para isso.
Mas uma coisa é certa, e nisso Isabel Jonet tem toda a razão,
– é urgente que aprendamos a viver com o que temos e, já agora, que comecemos a produzir um pouco mais.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Evolução
As coisas têm a importância que lhes damos e muito poucas,
se é que há algumas, têm em si agregado um grau de importância merecedor das
preocupações que lhes dedicamos. Ao fim e ao cabo (eis aqui uma expressão que
uso e abuso precisamente porque tudo tem um fim), todos acabamos da mesma
maneira – de pés para a frente – independentemente da vida que levamos, pelo que
mais vale levá-la bem, evitando preocupações em demasia e nesse particular
podemos, e devemos, ajudarmo-nos uns aos outros.
É precisamente por isso que no respeito pelo outro faz parte
a atenção do que para ele é importante, ainda que o não seja para o próprio. Ora
cai-se muitas vezes no engano do menosprezo por tudo quanto é valor, por vezes
até na ausência absoluta de consideração, o que só pode ser, e é, um sinal de
ausência de educação, confundindo-se descontração com alheamento e alheamento
com egoísmo e prepotência. “Nada disto tem importância para mim. Quero lá saber
se tem ou não importância para alguém!”
E nesta descontração se perde, estou certa, algo de valioso
por ser a única coisa que levamos connosco quando nos despedirmos – a consideração
dos outros, a sua lembrança, a memória que de nós deixamos. Tanto aos que ficam
como, quiçá, aos que partem. A verdade é que a incerteza do que acontece depois
é total e mais vale prevenir do que remediar.
Mas nem isso sequer é o mais grave. Cada um sabe de si e
cabe ao próprio ser responsável pelos seus atos e por eles responder – nesta ou
noutra vida.
O mais grave é o exemplo que disso damos aos mais novos, àqueles
que pretendemos ensinar, perpetuando, e validando, algo que é contrário à nossa
humanização – o desprezo pelo outro, a indiferença ao que nos é, acreditamos
nós, alheio, ignorando que nada vive isolado, que tudo faz parte de um todo e
que cada elemento que o compõe influencia o conjunto, por muito ténue, discreta
ou transparente que essa influência seja.
A nossa falta de visão, a nossa incapacidade para perceber
quais são, de facto, as consequências dos nossos mais pequenos atos, não é uma bênção
porque nos deixa dormir descansados, é uma maldição porque nos impede de evoluir.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
À espera do fim do mundo
Nos EUA anda gente a construir bunkers de todos os tamanhos
e feitios para se precaver contra o fim do mundo.
Pergunto-me que tipo de sentimento, ou instinto, nos leva a
querer sobreviver seja de que forma for. Não será, creio eu, o instinto de
sobrevivência da espécie já que esse, ao que parece, se manifesta em cima do
acontecimento ou sexualmente – ainda que já existam algumas teorias que deitam
por terra o instinto de sobrevivência como motor sexual (e se não existem
deveriam existir).
Assim, que paranóia é essa de levar parte da vida, alguns
uma grande parte dela, a arquitetar uma forma de não morrer?! Não será essa uma
forma de não vida? Porque é que é tão importante que sobrevivamos num cenário
de catástrofe terminal? O que é que a nossa espécie tem assim de tão
fundamental? A capacidade de dar cabo disto? Quando aprenderemos a respeitar a
vida tal como ela se nos oferece e deixamos essa megalomania de controlar tudo excepto,
tantas vezes, nós mesmos?
Por mim, dispenso bunkers. Até porque não me agrada mesmo
nada a ideia de viver num mundo destruído. Ele já como está, sabe Deus!... Se
me tirarem o pouco que ainda existe de natureza sã, de bondade, de respeito, de
ordem, de moral, de ética enfim, de humanidade, prefiro, sinceramente, fazer
parte dos que partem.
domingo, 4 de novembro de 2012
Os homens-golfinho
Não é difícil ao homem invejar as capacidades dos outros
animais. Somos capazes de gastar pequenas fortunas em mecanismos que nos
permitam imitá-los, não para os estudar mas para vivermos as mesmas sensações,
ficando assim mais uns passos à frente daqueles a quem temos tomado, sucessivamente,
território.
Em que momentos se imita o homem? Quando faz humor, quando
se ri de si mesmo.
sábado, 3 de novembro de 2012
Perfumes e companhia
Tão longe da verdade estão aqueles que afirmam que o importante é o corpo, como os outros que gostam de acreditar que é na alma, ou no espírito, que está a salvação, que é como quem diz, o nosso bem-estar – porque é isso que todos e cada um de nós almeja, estar bem, e só está bem quem consegue esse maravilhoso equilíbrio entre essas duas dimensões de que somos feitos.
Assim, quando nos embrenhamos na difícil tarefa de nos conhecermos, é bom que não conheçamos apenas uma delas e que saibamos, e isso é fundamental, ver a passagem entre uma e outra para que possamos compreender a forma como, mutuamente, se influenciam.
Que parte de mim é mais vulnerável ao ambiente? Qual, ou quais, dos meus sentidos tem maior poder para alterar o meu estado de espírito? O que é que me atrai nos outros? E o que é que me repele? Qual o nível de esforço que tenho de fazer sempre que estou perante uma situação que me provoca repulsa?
Eu sou particularmente sensível aos cheiros e aos ruídos. É raro um odor passar-me despercebido e são os cheiros que têm o poder de me despertar memórias – são eles que eu guardo, porque são importantes para mim.
Quanto ao ruído, esse tem a capacidade de me deixar exausta. Sou capaz de trabalhar 12 horas seguidas, se for preciso, desde que não seja perturbada pelo ruído. Não digo que preciso de silêncio, ainda que dele necessite em momentos de abstracção mas o que não consigo suportar é o barulho. O esforço que me obriga a fazer para manter a concentração é tal, que fico exausta.
Já os cheiros têm o poder de me aproximar ou de me afastar das pessoas, e sempre que sou obrigada a suportar odores que sabe Deus há quem transporte, sobe-se-me uma irritação tal que fico completamente inibida de a tratar bem, pelo que me vejo na eminência de simular uma outra fonte qualquer de desconforto só para não ter de mandar, assim à má fila, a criatura tomar banho.
É claro que já me passou pela cabeça aproveitar esses momentos para avançar mais um degrau na escada ascendente, aquela que dizem que nos eleva até aos céus. Apelo a toda a minha paciência e condescendência, mas o facto de não poder respirar fundo atrasa um bocadinho o processo. Já pensei, inclusive, em andar com um saquinho de cheiros no bolso, ou um lenço de pano, daqueles que caíram em desuso, para levar ao nariz e voltar a ser feliz por uns instantes, mas até aqui o mais longe que fui foi levantar um dos braços e aspirar fortemente o odor da parte de dentro do cotovelo – cheira sempre a perfume. O problema é que nem sempre os nossos cheiros são tão evidentes quanto os dos outros, pelo que não tenho sido lá muito bem sucedida na minha ascensão espiritual.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
O Bob é que sabia (o Marley, evidentemente)
É uma chatice quando as pessoas se movem por conveniências,
estados de espírito, preconceitos ou mesmo sentimentos, quando o motor que
as deveria pôr em marcha é aquele do bem maior, o que é comum e universal.
Nada pior do que a mesquinhez (a não ser a estupidez que é
já uma calamidade) para impedir a gente...
...d' andar p'rá frente.
domingo, 28 de outubro de 2012
Da miséria humana
Se há coisa à qual os supostamente fortes não se podem dar ao luxo de manifestar, é o sofrimento. Principalmente no seio dos supostamente fracos. Aos supostamente fortes não lhes é permitido sofrer ou, na pior das hipóteses, manifestar esse sofrimento. E não lhes é permitido, não porque o mundo lhes aponte um dedo com uma das mãos enquanto a outra segura a barriga que se arrisca a cair de tanto riso, mas porque os supostamente fracos não aguentam o sofrimento de ninguém, nem mesmo o deles. E dado que os supostamente fortes também não conseguem suportar o sofrimento dos outros, calam-se e fingem, para não os ver sofrer.
Assim andam, fracos e fortes, fortes e fracos, engolindo lágrimas e palavras, uns porque preferem que os outros não sofram, outros porque dizê-las os faz sofrer.
O amor
Há sentimentos mais difíceis de digerir do que certos
alimentos que nos moem o estômago e nos entopem as entranhas. Há sentimentos
inomináveis, extremados, antagónicos, bipolares, que nos semeiam culpas
escusadas e irreais, que nos provocam agonias de incapacidade e vertigens de
desventura. Sentimentos que nos arrancam a alma e com ela o estômago e o
coração aos quais, afinal, está agarrada.
Há sentimentos devastadores, que precisam de grande mestria
da parte de quem os sente e de quem os sofre. Mas nenhum, nenhum capaz de nos
arruinar se nós não quisermos. Nenhum maior do que nós. Porque o único que vale
a pena – o amor – ao contrário do que diz o poeta, que como tantos o confundiu,
é incapaz de devastar. Incapaz de levar ou entupir entranhas. Incapaz de semear
culpas ou de provocar agonias de incapacidade.
O amor é extraordinário, brilhante,
majestoso, gloriosamente humilde e generoso. O amor só é feliz na dádiva.
O amor regozija-se perante a alegria e a felicidade de quem se ama, venha ela
de onde vier. O amor é sábio. É livre. É poderosíssimo. E é uma pena que nós,
simples, mesquinhos e vis humanos, sejamos tão incapazes de o sentir.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Aos novos endireitas. Um grande Ámen para eles
São osteopatas na maior parte dos casos. Embora alguns
fisioterapeutas sigam já um percurso mais liberto da medicina tradicional e,
digamos assim, mais ativo, o facto é que usam menos as mãos do que estes “novos
endireitas” que delas fazem os seus instrumentos de trabalho.
Ontem tive um cá em casa. Pegou-me na mão direita, fincou-me
os dedos nas costas da dita e exclamou: Como é que a senhora fez isto?! Tem os
tendões todos entrelaçados! Sei lá eu como fiz isso! só sei que as dores são
tantas que o braço, tal como a mão, deixou de ter préstimo.
Cerca de meia hora depois estava tudo no lugar com o aviso
que ainda haveria de doer. Não disse quanto, e eu acordei às três da manhã
convencida que me estavam a arrancar o braço a sangue frio. Não sou maricas,
não sou. Sou até daquelas pessoas que sofre em silêncio porque acha que se
gritar, ou se se queixar, todas as energias fogem para o grito, ou para a
queixa, e lá se vão as possibilidades de alívio. Mas, esta madrugada, as dores
foram alucinantes. Amaldiçoei o osteopata, pensei em telefonar-lhe – até porque
ele teve o cuidado de referir que o seu telefone está à disposição 24 sobre 24 –
para o insultar, para que me explicasse porque carga de água tinha vindo cá a
casa para aumentar ainda mais o meu sofrimento.
Agora, algumas horas depois desta primeira intervenção, nem
acredito que estou aqui a escrever, que consigo, ao contrário de há escassos
momentos, segurar no telefone com a mão direita e até, espantem-se, abrir a porta
com essa mão! Não estou curada, mas a mim parece-me milagre e hei de dizer-lhe
isso amanhã, quando ele cá voltar para a segunda sessão.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Dores
Tenho dores alucimantes no braço direito! Eu! que já sofri em silêncio e por duas vezes, as dores de parto. Eu, que há anos que me habituei a viver num limbo permanente de pequenas e constantes dores por conta dos prolapsos cervicais que me enrijecem o pescoço e me tolhem os movimentos, dei por mim a chorar de dores, esta manhã.
Uma tendinite mal curada e um movimento mais brusco ao despir, foram os causadores de tamanho sofrimento. Tenho momentos em que a respiração me falta. Mas vim trabalhar, ainda assim. Algumas mudanças meti-as com a mão esquerda. O computador é um suplício e, no entanto, escapo bem aos olhares menos atentos daqueles que me rodeiam.
Não há medidores de dor, toda a gente sabe isso, por isso, apesar deste estado transpirar para os mais atentos, que são poucos, não é possível adinhar o que vai na alma de quem está em sofrimento, quando está em sofrimento.
Seria maravilhoso se cada um de nós, antes de tecer qualquer tipo de juizo acerca seja de quem for, tentasse indagar das dores alheias.
Politicamente incorrecto
No domingo passado um amigo confessou-me que não acredita no amor, a não ser, é claro, nesse amor universal que não escolhe objecto, ou no amor filial, também. De resto, dizia ele, isso a que chamam amor e que junta duas pessoas, é outra coisa qualquer, é gostar "como se gosta de sopa, por exemplo".
Achei graça ao pensamento, à comparação que, na verdade, não me pareceu desprovida de lógica. Ao fim e ao cabo, quem gosta de sopa gostará até ao fim da vida e, se num dia ou noutro, a sopa não lhe souber tão bem, será por estado de espírito ou porque a própria sopa não se apresenta como é costume, a gosto próprio. Foi esta a explicação que me foi dada e que me arrancou uma gargalhada, daquelas que se soltam por alívio que é como quem diz, na liberdade de quem se livrou de grilhetas sociais que travam certas manifestações de opinião.
Hoje, através do Facebook, dei de caras com um comentário de um outro amigo, bem mais jovem, também ele sobre o amor, esse amor universal que, supostamente, nos une, ou não. Ou não. Dizia ele:
"caridade não gera senão párias. compaixão não gera mais que invejas. ou são fruto delas. o altruísmo é um egoísta com disfarce e maior necessidade de satisfação pessoal. a diferença é que consegue essa satisfação mais à custa dos outros do que de si próprio. Como uma espécie de fetiche desarranjado ou hedonismo estragado em que o prazer de uma carícia se sente não quando no-las fazem mas quando as fazemos aos outros. E nem sequer pode ser equiparado à generosidade, em que dar, como partilha, é uma coisa que nos serve em conjunto.É uma coisa muito mais mesquinha, pequena, interior, tão escatológica e elementar como lavar o rabo."
É claro que são palavras grossas, pesadas, difíceis de digerir. Mas não o será, também, a verdade? O facto é que, mais uma vez, senti aquela liberdade de poder gritar aos sete ventos uma verdade que pode muito bem sê-lo. Uma possível verdade. Uma muito possível verdade. E quanto mais lia mais me parecia ser exactamente assim, tal e qual como o disse o Miguel, e apeteceu-me ser capaz de decorar as suas palavras porque é tão raro, cada vez mais raro, ouvirem-se opiniões verdadeiramente pensantes, sobre coisas verdadeiramente importantes.
E quando lá voltei, deparei-me com mais um comentário. Este, com que me fico:
"creio que as pessoas vivem com uma série de preconceitos que lhes foram incutidos desde sempre por morais e afins e que aceitam estranhamente como elementares. o grande problema social é a falta de sentido crítico individual. as pessoas aceitam o que lhes é dado e não questionam. a educação não deveria ser ensinar a saber. qualquer macaco aprende a saber. por imitação, por exemplo. a educação devia ser ensinar a pensar. e saber então surge de forma natural mas com uma independência de raciocínio que sabe pôr as coisas em causa para as levar mais além. e para pensar não há macaco que valha, não há imitação que o consiga. pensar é o princípio da criatividade. e a criatividade é o princípio da evolução, do progresso. como o mal, o bem também é uma bola de neve."
P.S. - Mais do Miguel, aqui.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Range Rover
Dei de caras com o velho jeep - chamo-lhe jeep como chamo kispo a todos os casacos acolchoados e impermeáveis que tenham capuz. Manias antigas, do tempo em que as coisas eram tão raras que chegavam sem nome próprio. Só traziam o apelido.
Pois, dizia eu que dei de caras com o jeep. Exatamente o mesmo de há…sei
lá…vinte anos p’rá aí… Esmurrado do lado esquerdo, o farol traseiro
inexistente, a pintura baça. E pensei, Como as coisas mudam!
Recordei aqueles tempos áureos em que transportava pranchas
e para-pentes no tejadilho. Em que carregado de bicicletas rumava ao Parque das
Nações e aguardava pacientemente a família que por lá passava o dia a dar ao
pedal.
Como as coisas mudam! E que triste que é quando mudam para
pior. Quando são os tempos áureos que ficam para trás e não o contrário que
deveria ser sempre a ordem natural das coisas – começa-se de baixo e
ascende-se. É assim que deve ser sempre – começa-se de baixo e ascende-se.
Luta-se. Estuda-se. Trabalha-se. E ascende-se.
Mas não. Não. Nem sempre. Não aqui, neste país. Cada vez
menos. Aqui descende-se. Perde-se. Anda-se “de cavalo para burro” ainda que se
trabalhe mais ainda, que se estude mais ainda, que se lute mais ainda.
Descende-se.
E o velho jeep lá estava, parado, à espera do mesmo dono que
há cerca de vinte anos, mais coisa menos coisa, o conduz. Já não tão feliz, já não cheio
de crianças e pranchas e para-pentes.
domingo, 21 de outubro de 2012
Qual famílias alargadas qual carapuça!
Entornar vinho é alegria. Pisar dejetos caninos, dinheiro. Atribuímos
benfeitorias às coisas chatas e, muitas vezes, avançamos azares a coisas tão
inocentes como passar debaixo de uma escada ou deixar que as facas se cruzem.
Nesta linha de raciocínio, digo eu porque posso, entendemos
encontrar graças e convenientes vantagens naquilo que designámos “famílias
alargadas”. Que giros que são os meus, os teus e os nossos e aqueles que não
são bem irmãos mas irmãos de irmãos e primos de primos, famílias tão extensas e
diversificadas e distantes que dificilmente caberão numa só casa em épocas de
culto como, por exemplo, o Natal.
Graça mesmo só encontram aqueles a quem convém, de uma forma
ou de outra, esse estado de coisas, porque nunca ouvi nenhuma criança ou
adolescente regozijar-se com a separação dos pais e aceitar de ânimo leve
madrasta e padrasto sem um mínimo de resistência ou uma dor bem escondida no
centro do coração. Geralmente dão adultos resignados que não perdem uma
oportunidade de recordar como as coisas eram “quando éramos uma família”.
Para essas pessoas não existem famílias alargadas. Existe perda
e separação. Desmembramento e dor.
Por vezes, quando a coisa se dá muito cedo e cedo se forma
uma outra família que cria e acolhe como se nada, ou quase nada, se tivesse
passado, a coisa compõe-se. Ainda assim, mais ou menos, porque em nenhuma
circunstância se apagam as perguntas sem resposta, os “porquês” e os “comos” –
ninguém substitui um pai e uma mãe que se amam e criam, juntos e até ao fim, os
filhos que geraram.
Posso não ter aprendido muito, mas isso eu aprendi. São
dores que não passam nunca. Despiques que não cessam. Vontade de partir os
filhos ao meio, esta metade é minha, esta é tua. Ciúmes que roem. Invejas que
tentam a todo o custo respirar.
Não, não é verdade que o vinho entornado em dia de festa
seja alegria. Na verdade é uma merda e um trabalhão – uma interrupção; um
corte. E quanto ao pisar dejetos caninos, hão de me dizer quantos ou quantas
enriqueceram depois disso. A não ser que o segredo esteja na conservação dos
mesmos na sola do sapato. Só se for isso. Mas, a julgar pelas pedras que vamos
deixando saltar cá para dentro ao longo da vida, eu diria que essa não é,
seguramente, uma solução credível.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Depressão
Finalmente teve coragem para abrir o talho e espalhar
cartazes, enormes e escritos à mão, pelas redondezas. “Já abriu o talho no
Texugo. Com Tudo” – era o que se lia ao contornar as rotundas e à medida que nos
íamos aproximando do local.
Lá dentro uma panóplia de arrumações, prateleiras, muitas,
balcões, dois e frigoríficos; um fogareiro gigante, daqueles modernos que o
carvão é cancerígeno…um espaço de meter inveja a qualquer comerciante. Tudo
vazio. Apenas um dos balcões exibia algumas peças de carne.
Entrei para uma perna de peru. Nada.
É claro que os próprios cartazes, escritos à mão e cortados
a dentes, só por si já faziam transparecer o esforço hercúleo que o pobre homem
teve de invocar para abrir as portas fechadas havia tanto tempo. E depois ele
mesmo. De cigarro na mão e olhar no chão. Os ombros a descaírem como quem não
acha horizonte nem ao seu nível! Não era para abrir, disse ele. Isto está tudo
tão mau. Até o outro, na outra terra, já tinha fechado. Mas não tinha mais onde
se agarrar e, ainda por cima, doente, dizia ele. Talvez dos cigarros. Talvez da
postura. Depressão é doença. A pior. Tira as forças a qualquer um. Por grandes
que sejam vão-se com a vontade.
Não durou uma semana. Voltou a fechar. Na montra, escrito à
mão, está outro cartaz – “Vendo esta loja” e, por baixo, um número de telefone
que já ninguém descortina porque o tempo levou a tinta.
Nem sabe, o pobre, que mesmo que haja alguém capaz de
comprar tal espaço, não saberá como o contactar…
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
a História por devir
Daqui a um ou dois séculos, quando os tetranetos dos nossos tetranetos estudarem este século, conhecê-lo-ão como o século em que os homens ficaram reféns dos mercados - uma coisa suficientemente vaga para não ter fase; suficientemente grande para os tolher; suficientemente poderosa para os subjugar.
E daqui a um ou dois séculos, os tetranetos dos nossos tetranetos folhearão compêndios, elaborarão teses, perderão noites a tentar compreender porque é que os homens se deixaram subjugar por algo que eles próprios criaram. E não compreenderão o porquê dessa inércia, dessa subjugação, desse baixar de braços.
E, tal como hoje estudamos as crises que nos devastaram no séc. XIV e nas duas grandes guerras, os tetranetos dos nossos tetranetos estudarão a época em que uma grande parte da população europeia se esfumou nas ruas da miséria e de como os que cá ficaram ficaram mais ricos e de como a esta se seguiu mais uma idade de luz e progresso e...
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Medo de vencer
O que mais detesto nos outros é o que mais temo em mim – a fraqueza, a incapacidade de cruzar metas, o terror que de mim se vai apoderando à medida que elas se aproximam. É isso que mais detesto nos outros. É isso que me torna impaciente e intransigente e desapaixonada e impiedosa. E má. Como se a fraqueza se pegasse e a incapacidade fosse uma substância a manter trancada, proibida de respirar o mesmo ar que respiram os vencedores. Uma substância a manter nas trevas a todo o custo – única forma de lhe travar a existência.
Não ma mostrem pois. Não a aflorem sequer que me deixam agoniada.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
