Sem darmos por isso tomamos conta de vidas que não nos
pertencem, porque vida nenhuma pertence a alguém que não ao próprio que a
carrega, pondo e dispondo delas tão naturalmente como se estivesse escrito em
pedra nos termos da lógica mais pura, do sentido mais natural deste, por vezes
tão longo, caminhar.
Sem darmos por isso tomamos como certo e adquirido tudo o
que conseguimos agarrar e chegamos mesmo a acreditar que a isso temos direito.
Somos até capazes, tantas vezes, de chorar e lamentar a pouca sorte de não
termos conseguido exactamente tudo o que gostávamos que tivesse sido, incapazes
de reconhecer o tanto que afinal conseguimos quando a pouco mais de nada temos
direito, já que os direitos maiores, aqueles que se estendem para além dos
básicos, são coisas que se conquistam, muitas vezes a pulso, com algum sangue,
muito suor e outras tantas lágrimas.
E assim vamos pesando, em ombros que deveríamos ser capazes
de aliviar. E assim vamos ganhando manhas perniciosas que nos alimentam uma
certa surdez que é também uma forma de nos agarrarmos à vida.
E é indescritível a dor que sentimos quando por entre os
dedos nos fogem essas posses, esses direitos não conquistados. É como se o
mundo desabasse mesmo à nossa frente, diante de toda a nossa impotência Como se
o coração nos fosse arrancado do peito e, surdos mais uma vez, acreditamos
ouvir o que não foi dito, ver o que não existiu, sofrer o que não foi nunca
infligido. É nesses momentos que o Id toma conta de nós e cegos para além de
surdos corremos a castigar os que mais amamos. Todas as armas servem, desde que
estejam ao nosso alcance. Mas a culpa e o medo são sempre as mais eficazes.