Muito tem sido posto em causa nestas últimas semanas. Quem
sou; quem fui; quem sou com o que sou depois de tudo o que já fui. O que quero da
vida. Onde e como me sinto feliz. O que ganhei. O que perdi. São questões que
me assolam hoje, neste momento. E dei por mim a pensar que estou a viver no
presente, tentando fazer as pazes com o passado e sem imaginar qualquer futuro.
Não faço ideia do que vai ser. Nunca lá fui verdadeiramente e sempre que o tento
visitar ele apresenta-se-me múltiplo. Num momento estou aqui, solidamente
acompanhada. No outro, num país distante, livre no meio do mundo. Num momento
estou viva. No outro nem por isso. Num momento sou uma no meio de tanta gente. No
outro, sou única. Sou eu. E no meio deste turbilhão vou descobrindo que ainda
há muito por fazer mas que também muito já foi feito e que, portanto, posso
aplacar esta ansiedade que se fez companheira de mim ao longo de tanta vida.
Posso aplacá-la e até, quem sabe, despedi-la. Talvez eu possa, finalmente,
aceitar o hoje com um sorriso. E pouco importa de que hoje falo. É hoje e isso
basta.
Todos nós somos antagónicos. Todos procuramos, incessantemente, dentro e fora de nós. Todos somos múltiplos. Neste espaço, é a minha multiplicidade que se manifesta.
quinta-feira, 14 de março de 2013
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Notícias de última hora e, à pressa...
Unhas numa lástima; dois dedos com cortes; vias
respiratórias numa notável resistência ao pó, sucumbindo apenas aqui e ali –
nunca pensei que funcionassem tão bem em tempos de crise. O cabelo!...enfim…se
em condições normais sabe Deus…
É o pior acampamento de sempre! Nunca uma mudança de casa
proporcionou um estado intermédio acampamento/armazém como esta! E tudo indica
que se prolongará por mais tempo do que o desejável.
A biblioteca sofreu mais uma razia. Nada como um recomeço para empandeirar aqueles que afinal
não interessam a ninguém, mais aqueles que afinal não merecem ser revisitados.
Sem internet ou telefone, aguarda-se pacientemente o
regresso dos técnicos cuja autonomia deixa muito a desejar.
Entretanto, e para não cair no esquecimento, vou aproveitando
os pequenos intervalos fora de casa para textos como este – telegráficos.
Saudades da normalidade.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Uma história dos diabos
E pronto. Cumpriu-se qualquer coisa a que se poderia chamar
destino, já que fado transporta uma conotação pesarosa, arrastada e algo
triste. Destino é mais leve, traz sempre agarrado a si o livre arbítrio, que é
como quem diz – é o que nós quisermos. Ou desígnio. Desígnio talvez seja mesmo
o melhor – cumpriu-se o desígnio e amanhã lá me mudo para o pé dele.
Há coisas que nem se pensa revelar por não se saber bem como.
Se se diz isto as pessoas podem ficar a pensar aquilo e se o dito for aquilo,
nada garante que as pessoas não se fixem no isto.
Há cerca de 40 anos os meus pais levaram-me a ver uma peça
de Tchecov, As três irmãs,
representada por um grupo de amadores que mais tarde viria a dar actores de
gabarito ao teatro português. Connosco ia um rapaz, filho de uma família
vizinha e que, por ser aluno interno do Colégio Militar, só víamos aos
fins-de-semana. Foi o meu primeiro namorado. Daqueles que nos vão levar a casa,
nos dão a mão e, num momento de loucura, se atrevem um pouco mais e nos beijam
de uma forma tão estranha que ficamos sem saber se sim, se sopas.
No intervalo da peça, um grupo de curiosos locais muito mais
atrevidos do que nós, invadiu o recinto e um deles encantou-se comigo. Tanto
andou, tanto andou que acabámos por casar. Não durou muito, mas casámos.
Anos mais tarde contraí aquele que considero o meu
matrimónio. Durou cerca de vinte acidentados anos e dele fizeram parte dois
filhos que são a luz dos meus olhos.
Estou só, há sete ou oito anos. Enfim, lá vou namorando que
eu sou de namorar, mas nunca mais partilhei gavetas, e nem armários, com homem
nenhum.
Até amanhã. Amanhã, pelas nove da manhã, hão-de cá vir uns senhores para
me levar a mobília, e as malas, e as loiças, para casa daquele rapaz, filho de
uma família vizinha e que, por ser aluno interno do Colégio Militar, só víamos
aos fins-de-semana.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
C de carniceiro, de cabrão, de cornudo, de capado de tudo o que de pior existir a começar por C. C de câncer
Entrou na família pela porta materna, no tempo dos meus
avós. Apanhou-me o avô e uma tia-avó e, não satisfeito com o resultado, veio
atrás das tias e de uma prima. Tem-se acomodado mais ou menos nos mesmos
lugares ainda que com forças diferentes, o filho da puta, mas em todas tem sido
capaz de comer carne, carniceiro que é.
Tempos houve em que o olhei no rosto e pensei que não tinha
critério. Mais tarde vim a acreditar que afinal talvez embirrasse com os mais
mal dispostos. Hoje confirmo que não tem critério. Não tem critério, nem piedade
nenhuma. Não tem compaixão. É cego e surdo. E na sua cegueira destrói vidas que
eram lindas até à sua chegada.
Tenho por ele uma raiva cega. Percebo-o hoje. Uma raiva
atroz, demente, terrível, imensa, mais do que medonha. Tão grande que só me
apetece desafiá-lo como se desafia um touro. Gritar-lhe que venha, que enfrente
a minha raiva, contanto que nunca mais, mas nunca mais, toque em quem ainda não
viveu.
Família não são apenas os que connosco partilham o sangue.
São também aqueles que vimos crescer ao lado dos nossos filhos e eu hoje estou
destroçada. Mas quero, e posso, pensar em todos aqueles e aquelas que o
venceram, absoluta e totalmente, e acredito que é assim que vai ser, também
agora. Mais uma vez.
Nós, nos olhos dos outros
Corremos sérios riscos de imprecisão quando descontextualizamos
acontecimentos e continuamos a corrê-los quando os contextualizamos
exclusivamente na nossa verdade, na nossa realidade. Qualquer acontecimento
tem, pelo menos, dois contextos, a não ser que seja um acontecimento de um só
protagonista o que é perfeitamente possível. Sempre que adentro (1) no
mar, por exemplo, o que me acontece tem apenas uma verdade. Contudo, no momento
em que alguém me avista, passa a ter duas. E raramente se assemelham.
Creio que nenhum de nós faz a mais pequena ideia do aspecto que
tem quando visto por outros olhos. Não há espelho que nos valha. Nunca o
saberemos, nem através da mais minuciosa descrição ou do mais fiel retrato do
mais exímio dos pintores. Os nossos olhos, ao olhar esse retrato, não são os
mesmos com que o pintor nos viu e nem o nosso entendimento se assemelha à visão
que um outro se esforça por nos dar na sua minuciosa descrição de nós.
A verdade – eis algo que não existe.
Existe, isso sim, a necessidade de abrirmos a nossa
compreensão ao maior número possível de verdades. De nos esforçarmos, o mais
que pudermos, para vermos o mais nitidamente possível verdades que não são as
nossas e que talvez nunca adoptemos como tal mas que não deixam, por isso, de ser verdades. Assim como existe a necessidade de
tomarmos cada vez mais consciência da fragilidade das nossas verdades, que hoje
são umas e amanhã outras, bem como da sua validade – só nos servem a nós e a
quem achar, como eu, que a sapiência está no número de verdades reconhecidas.
(1) Termo inventado por Mia Couto e que se me entranhou pela precisão
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Resposta a um amável leitor que deixou dois comentários que eu não publiquei por estarem fora de contexto
Gosto de literatura. É uma paixão como outra qualquer. Não é
que dela saiba muito. O meu filho, pelo contrário, é um especialista. Conhece
tudo quanto é autor e obra, filosofia, corrente de pensamento… Eu, limito-me a
beber o que escrevem quando com eles me identifico ainda que nem sempre tenha
presente o porquê. Bebo-lhes as palavras e faço-as minhas. Adapto-as às minhas
realidades, às minhas verdades. Vivo com elas as coisas minhas, não as dos
autores que não conheço ou conheci e cujos sentimentos ou estados de espírito
nem me atrevo a imaginar. Aliás, já na faculdade eu embirrava solenemente com
os formalistas que se acreditavam capazes de retratar psicologicamente autores
que já cá não estão para se defenderem.
Assim,
agrada-me sobremaneira sentir que, melhor ou pior, lá vou sendo capaz de
despertar sentimentos com as minhas palavras. Não façam, contudo, confusão –
nem sempre o que digo corresponde ao que vivo porque nem sempre, às vezes quase
nunca, a nossa vida interior está ligada à mundanidade do quotidiano.
Ainda assim, todos temos coisas para contar e por muito que
gostemos de apregoar a ausência de arrependimentos, todos temos de que
nos arrepender e, por isso, todos temos culpas e necessidade de perdão.
A grande diferença, talvez, está na direcção que damos às
nossas zangas. Uns sabem que são os principais responsáveis por elas, outros
gostam de acreditar que a responsabilidade é do mundo. Outros ainda, vão
repartindo responsabilidades de forma mais ou menos harmoniosa.
Eu, por exemplo, considero que fui, na minha infância,
vítima neste ou naquele momento. Vítima da ignorância de uns e da loucura de
outros.
A idade adulta é outra conversa. Existem, creio eu,
personalidades que se prestam à vitimização, tal como outras se prestam à
agressão alheia e umas dependem das outras. Se é verdade que não há vítimas sem
agressores, o contrário não é menos real e, exceptuando aquelas agressões
pontuais e inesperadas que qualquer um pode sofrer se estiver no lugar errado à
hora errada, as outras, quando perpetuadas, só o são se ambos, agressor e
agredido, pactuarem na sua continuidade.
Isto para dizer que eu, ao contrário do que possa ter dado a
entender no meu texto anterior, não tenho alma de vítima e se no passado vivi
momentos mais quentes, participei neles em pé de igualdade pelo que sou tão
responsável como.
Quando falo em perdoar faço-o na convicção de ser a única
via para a libertação de culpas, sejam elas nossas ou alheias. Perdoarmo-nos e
perdoar à vida é aceitarmo-nos e aceitá-la como somos e como ela é, e é,
sobretudo, o passo essencial para que possamos, nós e a vida, ser mais
cordatos, mais harmoniosos, mais livres e muito mais felizes.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Perdoar
Nos momentos em que a reflexão é essencial, tudo me distrai
– a música; as palavras; as imagens; o amor… É precisamente quando mais preciso
de paz que o burburinho teimoso e persistente do coração não me abandona. Exactamente quando precisava que ele parasse, o danado.
Eu, pelo contrário, queria ser capaz de abandonar tudo e todos
sem lamentos. Bem, abandonar talvez não seja o termo ideal, talvez seja
demasiado radical. Prescindir; deixar ir; libertar e libertar-me são termos
mais correctos que traduzem de forma muito mais realista aquilo que eu deveria
ser capaz de fazer e não sou, nem mesmo nos momentos mais dramáticos em que o
impulso é a pena de mim mesma, uma espécie de desejo de vingança – vocês vão
ver o que é viver sem mim. Esses são momentos relâmpago em que a ideia de
suicídio me passa às pressas pela cabeça e recua, quase instantaneamente, com a
lembrança da falta que ainda posso vir a fazer a netos por nascer, a filhos que
me amam e a outros, porque afinal até há quem goste de mim.
Que difícil é crescer! Crescer a sério. Não é amarfanhar
tudo bem amarfanhadinho e atirá-lo sabe-se lá para onde, provavelmente para o vale
que se crê dos esquecidos convencendo-nos que já crescemos só porque deixámos
de pensar nas coisas. Crescer. Sem tiques e sem máscaras. Crescer, com tudo
resolvido. Que difícil que é!
Evidentemente que é mais difícil para quem fica do que para
quem parte. Quem parte dir-se-ia que tem uma nova oportunidade. Um recomeço
novinho em folha, ali mesmo ao seu dispor, para fazer da vida o que quiser. Por
isso é que eu gostava de ser capaz de partir. Mas não sou. Quedei-me por aqui,
agarrada ao que já tinha, esticando o que fui para o transformar no que fui
sendo. Não soube fazer reset. Olhava à minha volta e tudo estava como sempre,
menos eu. E, sem saber o que fazer daquele mim, fui-me deixando ficar, assim.
E o tempo não passa.
Passa para toda a gente menos para mim, porque o tempo só existe
no movimento. Quando se pára, tudo pára, até ele – o tempo -, e eu com ele.
Um dia será dia de seguir viagem. De dizer adeus ao que foi,
de deixar ir o passado mas ai, nada me convence a largar tudo assim, sem mais
nem menos. A carga é demasiado rica para ser abandonada no meio da estrada.
Não, nem pensar. Vai comigo. Faz parte de mim e eu dela e é ela que me vai
ajudar à construção – aquela a que tenho dedicado toda a vida – a minha. E se o
tempo não passou ou eu não dei por ele passar, melhor ainda, mais tempo me
resta pela frente, para o perdão.
Convicções - as minhas.
Não existem coincidências. O acaso foi um conceito que o
Homem inventou para mascarar a ignorância.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Bento XVI. Aquilo a que ele renuncia e aquilo a que ele não renuncia
O discurso que Bento XVI fez da janela do Vaticano alertando os fiéis para "os tentadores" que subtilmente nos empurram para o mal fazendo-nos crer que o bem está no poder e nos bens materiais, crença essa que não só nos afasta de Deus mas que acabará por O anular, i.e., Deus "dissipar-se-á", deixará de existir, foi um belo discurso, um discurso pleno de palavras com sentido.
Contudo, na minha modesta opinião, as palavras proferidas teriam muito mais força se não fossem ditas de um lugar tão alto, tão distante dos fiéis, tão pleno de poder. Que isto de ensinar os outros a viver com pouco quando se vive, e a isso parece que o senhor não renunciou já que conta não sair do Vaticano, rodeado de ouro, é fácil.
Sempre me disseram, e eu acreditei, que não há melhor escola que aquela do exemplo.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Como nos filmes
Os automóveis avançam em câmara lenta e quase que param
quando se cruzam, dando tempo a que os condutores se fixem, troquem olhares e guardem,
talvez para sempre, as imagens daquele momento. Um momento que carrega uma vida
inteira – sonhos, alegrias, amarguras, precipitações, incompreensões,
impossibilidades…
Ignorância! Ei-la! A nossa pior inimiga. Sempre.
Que espécie de força, que tipo de energia transporta a vida
real para imagens cinematográficas? Em que circunstâncias e com que frequência
pode isto acontecer? Esta realidade de filme na realidade da vida?
O que por cá fica quando partimos
A quantidade de obras que vamos deixando pelo caminho é
notável. Fundamentalmente daqueles que por cá andaram o tempo suficiente para
as ir acumulando.
É certo que nem todos fazemos questão de “fazer coisas”. “Coisas”
como construir casas ou escrever livros. Mas basta, contudo, rodearmo-nos de
vida para estarmos, mesmo sem darmos por isso, a “fazer coisas”.
Eu estou prestes a mudar de casa. Nos últimos cinco anos é a
terceira vez que o faço e em cada uma delas entro como se nunca mais de lá
fosse sair – arranjo-a à minha maneira; pinto-a; decoro-a; adapto os móveis ao
espaço. Nem que seja por um ano! É isto a vida. É esta a construção. Ainda que
nos doa depois a partida. Ainda que nunca mais se lembrem de nós porque quem
vem a seguir faz o mesmo – adapta a si aquela casa e apaga, ou vai apagando ao
longo do tempo, os vestígios que por lá deixámos.
Ainda assim, há marcas indeléveis. Marcas que ficam
entranhadas nas paredes; nos muros dos quintais; nos degraus das escadas.
Marcas dos passos de cada um; das mãos que ao subirem as escadas se apoiaram
nas paredes. Memórias escondidas das vozes; das zangas; dos dias felizes. E,
sobretudo, ficam as fotos para provar que tudo aquilo existiu, que não foi um
sonho. Existiu. É nosso. Um pequeno fragmento da nossa vida. Uma marca que um
dia alguém, no meio de todas as invenções, conseguirá desvendar.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Eis uma frase que detesto:
No meu tempo, no tempo das decisões e das tentações, muitos
ficaram para trás, alguns seguiram em frente e poucos, muito poucos, subiram na
vida.
De vez em quando vêm-me à memória pessoas que mais tarde
revi e tento, muitas vezes em vão, associar as escolhas que fizeram ao seu
destino.
Fulana ficou para trás, não porque tenha tomado uma decisão
mal tomada num momento específico, mas precisamente porque nunca as tomou,
porque se foi deixando ir na onda e, quando deu por isso, era tarde de mais –
sim, pode ser tarde de mais para quem tem pouca força, ou porque a gastou ou
porque nunca a teve.
E nesses périplos que faço pelo passado vem-me à memória a
imagem da Clara. A Clara apaixonou-se por um pintarolas. Um tipo sem futuro
aparente, por quem ninguém dava um tostão furado. Nessa época eu estava muito
bem acompanhada e, consequentemente, com um futuro promissor, sem grandes sobressaltos.
Nessa época, eu tinha futuro, a Clara, provavelmente, não.
Passados alguns anos – os suficientes para termos, tanto uma
como outra, procriado -, encontrei a Clara e o pintarolas. Tinham ido viver
para a Suíça; tinham duas crianças lindas e vestiam de vermelho. Digo isto
porque esta é a imagem que deles retive – um casal de cores alegres; feliz;
bem-sucedido na vida. Eu vestia de cinzento. Saída havia pouco de um divórcio
complicado, os ombros descaiam-me e o meu horizonte era o espaço que os meus
pés pisavam. A Clara, ao contrário de mim, era feliz. E eu, que nunca acreditei
muito no que o povo dizia, fiquei feliz de a ver.
Há gente que nasce a saber o que é o amor. E há aqueles,
como eu, que não o identificam dentro de si. Esses, que como a Clara nascem a
saber o que é o amor, pouco se importam com as vozes do mundo e, parecendo
cegos aos outros, são os que mais vêem porque se vêem a si e lutam, mesmo sem
darem por isso, por quem verdadeiramente amam e amarão, sabendo que esse é o
seu destino, assim tenham a sorte de se cruzar e reconhecer, como a
Clara reconheceu aquele que mudou, sem se aperceber, no momento em que com ela
se cruzou.
Provavelmente pouco interessa o que somos. Interessa sim se somos ou não amados, se somos ou não capazes de amar. É ele que molda, é ele o transformador - o amor.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
A vida e a nossa responsabilidade naquilo que nos acontece
Faço parte daquele grupo de pessoas que compreende o papel
que cada um desempenha nas aventuras da vida, que é como quem diz – tem consciência
que a vida muitas vezes se limita a responder, de forma que até pode ser
graciosa, àquilo que lhe pedimos.
Não somos um grupo grande – digo eu, que não tenho qualquer
tipo de estatística a não ser este feeling de quem já cá anda há algum tempo. Grande
parte dos hominídeos crê no acaso, crença essa que facilita, e muito, a
vitimização desresponsabilizadora e sempre sempre muito confortável. Ah e tal, a
vida é uma merda e só me acontecem coisas más.
Não é. É tão só uma excelente oportunidade para nos
conhecermos melhor, para crescermos, enfim, para sermos verdadeiramente livres.
O que pode ser, e por vezes é mesmo, uma merda, é a nossa incapacidade de ver.
De se ver. E é com uma dessas incapacidades que eu ando às voltas, vai já para
alguns meses.
Sei que, tal como em tudo aquilo que me vai acontecendo na
vida, parte da responsabilidade é minha, mas não consigo discernir qual. Há
meses que espero respostas de gente de carne e osso que se queda no silêncio
deixando-me pasma, oscilando indecisa entre a minha responsabilidade – o que é
que fiz de mal, o que tenho eu que leva estas pessoas a ignorarem a minha
existência depois de terem até manifestado interesse no que eu tive para lhes
dizer? -, e a aceitação de que vivo rodeada de gente que, das duas uma, ou anda
de tal maneira transtornada que se incapacitou para o dia-a-dia, ou é,
realmente, muito mal formada. E, para ser franca, custa-me tanto a acreditar
nesta última – de resto é uma hipótese na qual eu não acredito nem que ela se
apresente nua em frente dos meus olhos -, que continuo às voltas com quem sou,
até descobrir o que preciso de fazer para inverter esta tendência de deixar que
outros me larguem, expectante e muda, na esperança sabe-se lá de quê.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Leituras
Tenho andado a ler um livro politicamente incorrecto E digo que o tenho andado a ler porque já o li de fio a pavio e voltei ao princípio para o voltar a ler. Exactamente – é suficientemente politicamente incorrecto para ser lido várias vezes, mastigado, e muito muito reflectido.
Aqui fica um “cheirinho” da coisa:
“Aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais.”
(…)
“Somente no dia em que a traição não ferir o traído ou a tradição, mas despertar ambos para novas possibilidades que se descortinam através dela, surgirá um mundo muito além da tolerância – um mundo de apreciação. O ancião do futuro não perceberá no rompimento de um filho que sai de casa uma traição, mas uma casa que se expande, que se amplia, para conter um lugar não estreito.”
Bonder, Nilton, A Alma Imoral, 1998, Editora Rocco Ltda., Rio de Janeiro
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Amour
Quero isto.
Não exactamente assim. Se não for pedir de mais preferiria a
coisa sem o incómodo dos ataques, das paralisias e de todas as incapacidades
que não estejam directamente ligadas às vicissitudes da idade. Mas quero isto.
Quero este amor, este cuidado, esta amizade sublime que reserva para si tudo o
que é íntimo. Quero esta dignidade. É assim que quero partir.
É claro que isto, exactamente isto – mesmo exceptuando os tais
ataques -, já não poderei ter. Aquele que era suposto ser o companheiro da
minha vida, ou aqueles, ficaram pelo caminho, provavelmente porque tudo
indicava que isto, eu não teria. Mas como para se ter isto não é preciso uma
vida inteira – vinte ou trinta anos podem muito bem bastar -, eu quero isto.
Vou ser avó
Ao que tudo indica, de uma menina, mas é demasiado cedo para certezas. Nascerá lá para os fins de Julho, o que
dá imenso jeito já que o Agosto é aquele mês em que não se faz nada, a não ser,
é claro, ajudar a cuidar da neta, ou neto, ainda que eu tenha por mim, desde o
princípio, que será neta. Enfim, o que for que venha bem, e saudável, e feliz.
Vai ser a minha primeira criança neta. Com a minha idade já a minha mãe era uma
especialista.
Agora não é só a saturação que este Inverno tem depositado
em mim que estou farta de frio e de chuva. É também a ansiedade de ter nos
braços um bebé que também é um bocadinho meu.
Que venha o Verão.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Nós e as moscas
Há momentos em que duvido de tudo. Ponho em causa todas as
certezas e minimizo a importância do
mundo. Não, não se trata de relativizar. É muito mais do que isso. É
desvalorizar tudo aquilo a que nos atracamos na convicção de que tem valor
universal. É desvalorizar todas as certezas, por as acreditar improváveis e
temporâneas. É desvalorizar todos os dramas, por os encontrar insignificantes no
meio desta vastidão que é o universo. É desvalorizar todas as
lutas, por as acreditar pequenas e vãs, incapazes de vencer as forças que têm,
verdadeiramente, mantido o comando – as daquela natureza que também é a nossa
mas que teimamos em incompreender.
Um amigo muito querido, que não via há muito tempo e com quem
hoje almocei, contou-me uma história de um grupo de cientistas que se reuniu
para estudar o voo da mosca. Cada um, na sua especialidade, foi concluindo que
a mosca não pode de forma alguma voar – tem peso excessivo para a envergadura
das asas; não possui o aerodinamismo necessário para o empreendimento… enfim,
este grupo de cientistas concluiu que a mosca não pode voar e toda a gente ficou a saber que a mosca não pode voar.
Toda a gente,
menos a mosca.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Que se lixe a modéstia. Chegou a hora da verdade
Três livros publicados não fazem de mim uma escritora mas 17
de trabalho com jovens fazem de mim uma educadora. Podia até ter descurado a
formação. Quantos professores não existiram por aí, a dar aulas nos liceus sem
uma licenciatura, quantos?! Mas não descurei. Nunca deixei de me atualizar,
envolvi-me com as mais diversas formas de formação, tenho sido uma aluna
constante e persistente, ingressando aqui, saindo de acolá. Participei em
cursos de formação que dariam direito a pós-graduações se eu as tivesse na
altura, as graduações, mas a minha vida tem sido feita ao contrário e a
licenciatura acabou por vir depois dos cursos, pelo que poderei, com
propriedade, dizer que tenho algumas pré-graduações, tão válidas como se fossem
pós-.
Gosto do que faço e, se de nada servisse a simpática média
com que acabei uma licenciatura em educação, teria sempre o ónus dos resultados
que fui obtendo ao longo dos anos e a sabedoria que fui acumulando, porque se
há coisa que sou, e isso ninguém me tira, é inteligente. Exatamente. Sou uma
pessoa inteligente e não tenho vergonha de o dizer. E, se por vezes a
inteligência me traz alguns amargos de boca, outras há em que as vantagens são
grandes. Não fora esta modéstia que cultivo desde sempre por a ter como
excelente alicerce de caráter e eu estaria hoje muito melhor do que aquilo que
estou, na perspetiva geral do que é estar bem.
Pois é, tenho-me mantido no meu canto, dedicada àqueles que
estão ao meu alcance, silenciando os livros que escrevi, os projetos em que
participei, as lutas que venci…por modéstia. E por modéstia aceito algumas
desconsiderações vindas tantas vezes de quem ainda terá de comer muito bife
para me tocar os calcanhares.
No entanto, as ações ficam com quem as pratica e eu vivo
muitíssimo bem com as minhas que são, sem qualquer sombra de dúvida, motivo de
orgulho.
E se hoje quebro este silêncio. Se hoje atiro às urtigas a
minha modéstia. É porque sinto que chegou o momento de chamar a atenção
daqueles que podem para o facto de existir aqui alguém que sabe. É porque sinto
que chegou o momento de chamar a atenção daqueles que podem, que existe aqui
alguém que também pode fazer a diferença. Alguém que está disposto a aplicar
tudo o que tem aprendido, e que é muito, ao serviço de quem precisa e que mais
não pede do que uma vida digna, que é como quem diz, nem cobra sequer o mesmo
que muitos bem menos capazes mas muito mais exigentes. Alguém, pasme-se, para
quem mais importante do que ser abastada é ter a certeza que contribuiu para o
progresso e para o crescimento humanos.
Meus senhores e minhas senhoras, tenho no papel um projeto educativo
inovador, capaz de recuperar para a vida social, escolar e familiar, muitos jovens
que sozinhos não o conseguirão fazer. Tenho na cabeça mais alguns projetos
capazes de aprimorar essa minha intenção – a de ajudar os mais novos porque
deles será, não o reino dos céus, mas este aqui da Terra, e seremos nós,
aqueles que os (des)ajudámos, a usufruir das capacidades que com eles
crescerem. Valerá a pena apostar em mim.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Mudanças profundas estão prestes a acontecer
Mudanças que
acredito determinarão a forma como viverei o resto da minha vida. É claro que
esta é uma afirmação que só por si nada garante - ninguém sabe o dia de amanhã –,
mas também é verdade que a probabilidade de ser verdade aumenta na exata medida
em que o caminho encurta.
A verdade é que estou, creio que como nunca estive, a
preparar-me para isso. Todas as outras foram vividas com a incerteza da passagem
e a segurança do momento. Esta, ou a sua visão, ou o seu anúncio, está a ser
vivida com o receio do momento e a tranquilidade imaginada do futuro.
Talvez por acreditar que é a última sinto profundamente o
vazio deixado por tudo o que ficou pelo caminho.
Talvez por acreditar ser a última sinto o peso de tudo
aquilo que não voltarei a ser.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Mudanças e febre
Todas as mudanças custam. Mesmo que seja para melhor, mudar
começa sempre por ser sinónimo de abandonar. Todas as mudanças doem. Aliás, só
a perspectiva já dói por muito entusiasmo que se ponha nelas. É terrível
aquele período em que ainda não é e já quase que não é. De vez em quando, pela
calada, esbarramos com um pormenor e sentimos um murro no estômago. Vacilamos.
Precisamos de nos sentar, respirar fundo e passar em revista todas as razões
que nos arrastaram para a mudança. Só depois, voltamos a sossegar.
Este vai ser um ano de mudanças. Fundamental mesmo é que
estas se operem ao nível da consciência, do estado de alma, porque as mudanças
doem precisamente por serem, na maioria das vezes, exteriores.
Este vai ser um ano de mudanças. Um ano de libertações. De
alterações. De catarses.
E para começar o processo aí está ela! A gripe! Nada como
uns bons dias de recolhimento em que o corpo se verga ao peso da febre.
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