Sabedoria. Sabedoria daquela que já está
tão entranhada que não precisa do momento em que se pára para pensar, para passar
da teoria à prática. Sabedoria daquela que já se instalou no dia-a-dia, na
prática das coisas, das atitudes e das reações. Está a faltar-me muito mais do
que aquilo que eu julgava faltar. Presunção minha. Convencimento de que basta o
racionalizar da experiência para que as práticas se alterem. Não é verdade. Em
circunstâncias semelhantes continuo eu mesma. Quase sem alteração a não ser na
consciência de que continuo eu mesma, de que não fui, ainda, capaz de mudar.
Todos nós somos antagónicos. Todos procuramos, incessantemente, dentro e fora de nós. Todos somos múltiplos. Neste espaço, é a minha multiplicidade que se manifesta.
sábado, 23 de março de 2013
segunda-feira, 18 de março de 2013
Entre o que somos e aquilo que julgamos ser vive um universo inteiro
É extraordinário o número, e o tipo, de porcarias que vamos
acumulando na psique ao longo da vida. Porcarias de que nem consciência, na
maior parte das vezes, temos. Anos depois, quando se manifestam, vêm disfarçadas
e passam por coisas que pouco ou nada têm a ver com a sua verdadeira origem. É
preciso tempo, paciência, coragem e alguma sabedoria para discernir as origens
dos tiques que acumulamos, muitos deles nas entranhas, porque nem se atrevem a
ver a luz do dia.
Desde miúda que tenho comigo uma necessidade que me empurra
para agradar a gregos e a troianos. Trata-se de uma força poderosa que me
exclui em absoluto da equação, mas lá tenho obedecido apesar de ficar exausta,
já que muitas vezes não me apetece nem o caminho de uns e nem o de outros. Por
mim seguiria em frente, nem que fosse sozinha. E tenho obedecido convencida
de que o faço pelo prazer que sinto em ver os outros felizes.
Perante isto posso pelo menos concluir que no meio da ignorância
fui capaz de tirar deste particular algum prazer. Já não é mau. Mas como
coragem não me falta e sabedoria também tenho alguma, lá acabei por discernir a origem de tamanho disparate. Pena é que só agora, só agora,
a idade e a experiência permitam que todos os dias uma luz se acenda. Mas vale
mais tarde do que nunca. É que esse discernimento é fundamental! Sem ele,
dificilmente se consegue o abandono de certas atitudes, de hábitos, vícios,
medos e manias que nos estreitam o horizonte, nos encolhem a alma e nos fazem
acreditar que somos isto, só isto e nada mais do que isto.
domingo, 17 de março de 2013
Chipre
O governo do Chipre, com Christofias à cabeça, entrou em banca rôta. O próximo presidente, saído das mais recentes eleições, Anastasiades, tentará a todo o custo resolver o problema que Panicos, o presidente do banco central cipriota, não consegue - o eurogrupo decidiu resgatar os depósitos bancários dos cipriotas, deixando-os com uma mão à frente e outra atrás fazendo jus aos nomes de todos os intervenientes neste pequeno texto. Eu passo a explicar.
Em Portugal, e desde Rafael Bordalo Pinheiro, toda a gente sabe que fiar não é uma coisa boa. Christofias, ao que parece, não sabia disso. Entretanto, não se sabe até que ponto o nome do presidente do banco central daquele país - Panicos -, teve ou não influência no estado de espírito dos cipriotas mas uma coisa é certa, só mesmo alguém de nome Anastasiades, poderá, eventualmente, ter presença de espírito para fazer face a todo o drama que, agora fora de brincadeiras, assola o povo de Chipre.
Não gosto da pobreza. De nenhum tipo de pobreza. De coisas pequeninas, comezinhas, feias e pobres. Não gosto de imitações. Não gosto da pobreza.
Fizeram-nos acreditar na nobreza do trabalho braçal e da
pobreza enquanto enchiam os bolsos, e as casas, de descendentes ociosos e
loiças caras.
Ainda hoje há quem enobreça essa miséria – as artroses incapacitantes
e a falta de dentes de quem alancou fardos impossíveis e nunca ganhou para o
dentista. Mais!, de quem nunca conseguiu comer decentemente. Esse foi o
Portugal dos anos 30, 40, 60, do século passado. Um país pequenino e miserável,
de gente esforçada mas ignorante e absurdamente crente nas baboseiras
impingidas por uma religião que desde a idade média que faz de tudo, e quando
digo de tudo é de TUDO mesmo, para enriquecer mais e mais e mais e cada vez
mais. Uma religião que oferece o céu aos pobrezinhos! (Estou capaz de apostar em
como há quem dependa tanto dela que chegue a acreditar que os seus membros, ao
viverem na opulência, no conforto e na proteção que a maior parte dos povos nem
sonha, se sacrificam pela humanidade!...)
Portugal cresceu. O mundo cresceu. E a ignorância, embora
subsista, tende a ter cada vez menos voz. Vivemos num país que pode até estar
pobre – na verdade nunca foi rico -, mas que se soube munir de instrução, cultura
e conhecimento. Um país repleto de gente difícil de enganar e, por isso mesmo,
mais difícil de manobrar. Contudo, continua a existir um fator dominador que
deve, que tem de ser combatido. E hoje, tal como ontem, só funciona na divisão.
O medo de ser despedido; de não encontrar sequer emprego; de não ter meios de
subsistência leva à submissão, à aceitação muda de estados ilegítimos, injustos
e perniciosos. O medo de seguir em frente; de casar; de ter filhos levará a seu
tempo ao desaparecimento de nós.
Ficarão eles. Aqueles que não sabemos bem quem são mas que
continuam, ainda que de formas mais subtis, a dominar as massas que somos nós.
Mas uma coisa é certa, da forma como temos crescido, cada vez mais terão de
aguçar o engenho e, com o tempo, também eles hão de perder poder.
sábado, 16 de março de 2013
Malabarismos
Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência. Eis o
segredo. Eis a dificuldade. Eis…ia dizer a dor mas reconheço o exagero. Dor é
outra coisa. Dor é coisa que segue desgraça e eu estou a falar de um caminho
que se quer de graça. E agora até parece que a mente me fugiu para as despesas.
Não. Refiro-me à graça que se opõem à desgraça. Sim, essa, porque a outra não
existe. É uma ilusão. Sabemos disso desde os anos 30 do século passado, ainda
que se ignore o cérebro que a tal conclusão chegou. Eis então o segredo; eis a
dificuldade. Abdicar. Abdicar de coisas que nos acompanham há séculos e que
espelham o nosso percurso, só porque não cabem dentro de casa. Abdicar de
decisões para nós primordiais e muito muito superiores a outras quaisquer – não
tivessem sido elas as nossas companheiras de luta até à data. Abdicar de
saberes. Subvalorizar experiências preciosas, só porque (só porque – reparem!)
as do outro existem! É isto, também, a vida. A alternância entre a certeza e a
incerteza; a revisão dos valores; a adaptação das crenças; a aceitação do
outro, tão diferente de nós! Carregado de ideias estranhas, esquisitas, despropositadas
porque não são as nossas. E tão mais despropositadas quanto mais delas se
afastam.
Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência.
Aprendizagens que se fazem com tempo, muita paciência e aos empurrões. Há
coisas demasiado empedernidas em almas quase sexagenárias!
Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência.
Aprendizagens que se fazem devagar, hora a hora, com muita calma, como se estivéssemos
a atravessar um cabo, suspenso q.b., de barra de equilíbrio nas mãos e um pé sempre
à frente do outro. Cuidado! É importante que o calcanhar do da frente se una à
ponta dos dedos daquele que fica para trás. E vale a pena lembrar que as posições,
para que se avance, têm de ser alternadas.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Não é só a capacidade de sonhar, é também aquela de ir alimentando os sonhos aconteça o que acontecer
A minha mãe descobriu, aos 81 anos, que é uma mulher de
cidade. Não daquelas cidades demasiado movimentadas e barulhentas, mas de uma cidade
calma, contudo com movimento; onde não haja barulho, mas não falte o comércio;
onde os prédios não sejam nem demasiado altos que tapem o sol, nem demasiado
baixos que deixem passar o vento; onde nunca faça frio e se fizer que poupe os
lugares por onde ela é forçada a transitar.
A minha mãe descobriu, aos 81 anos, que a vida afinal não é exatamente
como ela sonhou, ainda que na verdade nunca o tenha sido apesar de ela ter
conseguido manter a crença de que um dia seria. Agora, parece-me a mim,
desenganou-se.
Uma vez ouvi da boca de um médico uma expressão de espanto,
ternura e admiração perante o enrubescer da face da minha mãe. Dizia ele que
nunca tinha visto alguém com tantos anos, corar! É isso que sinto – uma enorme
ternura. Não deixa de ser admirável que alguém que passou por tanto, que sofreu
tanta desilusão, tenha conseguido preservar a inocência que nos deixa acreditar
que tudo ainda há-de ser como nos sonhos. Os anos que ela poupou ao desalento!
Só espero que recupere a tempo de fazer as pazes com a vida,
embora eu esteja convencida que provavelmente não precisará disso, não a sinto
zangada, apenas desconfortada com o frio - e quem é que não está?! -, é que nos
acontece a todos, mesmo que não nos apercebamos disso a idade ensina-nos muito mas vai-nos tirando a força para aquilo que não chegámos a aprender.
A minha mãe já não tem forças para grandes zangas, nem para
grandes desilusões ou desalentos. Todas as forças que tem, guarda para combater
este frio que não nos deixa e teima em entranhar-se-nos na pele. Todas as
forças que tem, usa para redecorar a casa nova; para a reorganizar; para se
adaptar e aprender a lidar com uma situação com que sonhou mas que afinal talvez
não seja bem como nos sonhos agora, que se tornou realidade. Mas eu sei que
valeu a pena esperar. Sei porque a minha mãe dorme bem, deixou de ter medo e só
se encolhe quando sai para a rua e o vento e o frio lhe despenteiam os cabelos
brancos, tão brancos como a neve que afinal não chegou a cair por cá.
E sei também que sempre que um sonho se transforma em
realidade, apesar de sofrer alterações físicas nessa estranha passagem, continuará
a ser sonho enquanto dele nos ocuparmos.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Parece que estou de volta
Muito tem sido posto em causa nestas últimas semanas. Quem
sou; quem fui; quem sou com o que sou depois de tudo o que já fui. O que quero da
vida. Onde e como me sinto feliz. O que ganhei. O que perdi. São questões que
me assolam hoje, neste momento. E dei por mim a pensar que estou a viver no
presente, tentando fazer as pazes com o passado e sem imaginar qualquer futuro.
Não faço ideia do que vai ser. Nunca lá fui verdadeiramente e sempre que o tento
visitar ele apresenta-se-me múltiplo. Num momento estou aqui, solidamente
acompanhada. No outro, num país distante, livre no meio do mundo. Num momento
estou viva. No outro nem por isso. Num momento sou uma no meio de tanta gente. No
outro, sou única. Sou eu. E no meio deste turbilhão vou descobrindo que ainda
há muito por fazer mas que também muito já foi feito e que, portanto, posso
aplacar esta ansiedade que se fez companheira de mim ao longo de tanta vida.
Posso aplacá-la e até, quem sabe, despedi-la. Talvez eu possa, finalmente,
aceitar o hoje com um sorriso. E pouco importa de que hoje falo. É hoje e isso
basta.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Notícias de última hora e, à pressa...
Unhas numa lástima; dois dedos com cortes; vias
respiratórias numa notável resistência ao pó, sucumbindo apenas aqui e ali –
nunca pensei que funcionassem tão bem em tempos de crise. O cabelo!...enfim…se
em condições normais sabe Deus…
É o pior acampamento de sempre! Nunca uma mudança de casa
proporcionou um estado intermédio acampamento/armazém como esta! E tudo indica
que se prolongará por mais tempo do que o desejável.
A biblioteca sofreu mais uma razia. Nada como um recomeço para empandeirar aqueles que afinal
não interessam a ninguém, mais aqueles que afinal não merecem ser revisitados.
Sem internet ou telefone, aguarda-se pacientemente o
regresso dos técnicos cuja autonomia deixa muito a desejar.
Entretanto, e para não cair no esquecimento, vou aproveitando
os pequenos intervalos fora de casa para textos como este – telegráficos.
Saudades da normalidade.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Uma história dos diabos
E pronto. Cumpriu-se qualquer coisa a que se poderia chamar
destino, já que fado transporta uma conotação pesarosa, arrastada e algo
triste. Destino é mais leve, traz sempre agarrado a si o livre arbítrio, que é
como quem diz – é o que nós quisermos. Ou desígnio. Desígnio talvez seja mesmo
o melhor – cumpriu-se o desígnio e amanhã lá me mudo para o pé dele.
Há coisas que nem se pensa revelar por não se saber bem como.
Se se diz isto as pessoas podem ficar a pensar aquilo e se o dito for aquilo,
nada garante que as pessoas não se fixem no isto.
Há cerca de 40 anos os meus pais levaram-me a ver uma peça
de Tchecov, As três irmãs,
representada por um grupo de amadores que mais tarde viria a dar actores de
gabarito ao teatro português. Connosco ia um rapaz, filho de uma família
vizinha e que, por ser aluno interno do Colégio Militar, só víamos aos
fins-de-semana. Foi o meu primeiro namorado. Daqueles que nos vão levar a casa,
nos dão a mão e, num momento de loucura, se atrevem um pouco mais e nos beijam
de uma forma tão estranha que ficamos sem saber se sim, se sopas.
No intervalo da peça, um grupo de curiosos locais muito mais
atrevidos do que nós, invadiu o recinto e um deles encantou-se comigo. Tanto
andou, tanto andou que acabámos por casar. Não durou muito, mas casámos.
Anos mais tarde contraí aquele que considero o meu
matrimónio. Durou cerca de vinte acidentados anos e dele fizeram parte dois
filhos que são a luz dos meus olhos.
Estou só, há sete ou oito anos. Enfim, lá vou namorando que
eu sou de namorar, mas nunca mais partilhei gavetas, e nem armários, com homem
nenhum.
Até amanhã. Amanhã, pelas nove da manhã, hão-de cá vir uns senhores para
me levar a mobília, e as malas, e as loiças, para casa daquele rapaz, filho de
uma família vizinha e que, por ser aluno interno do Colégio Militar, só víamos
aos fins-de-semana.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
C de carniceiro, de cabrão, de cornudo, de capado de tudo o que de pior existir a começar por C. C de câncer
Entrou na família pela porta materna, no tempo dos meus
avós. Apanhou-me o avô e uma tia-avó e, não satisfeito com o resultado, veio
atrás das tias e de uma prima. Tem-se acomodado mais ou menos nos mesmos
lugares ainda que com forças diferentes, o filho da puta, mas em todas tem sido
capaz de comer carne, carniceiro que é.
Tempos houve em que o olhei no rosto e pensei que não tinha
critério. Mais tarde vim a acreditar que afinal talvez embirrasse com os mais
mal dispostos. Hoje confirmo que não tem critério. Não tem critério, nem piedade
nenhuma. Não tem compaixão. É cego e surdo. E na sua cegueira destrói vidas que
eram lindas até à sua chegada.
Tenho por ele uma raiva cega. Percebo-o hoje. Uma raiva
atroz, demente, terrível, imensa, mais do que medonha. Tão grande que só me
apetece desafiá-lo como se desafia um touro. Gritar-lhe que venha, que enfrente
a minha raiva, contanto que nunca mais, mas nunca mais, toque em quem ainda não
viveu.
Família não são apenas os que connosco partilham o sangue.
São também aqueles que vimos crescer ao lado dos nossos filhos e eu hoje estou
destroçada. Mas quero, e posso, pensar em todos aqueles e aquelas que o
venceram, absoluta e totalmente, e acredito que é assim que vai ser, também
agora. Mais uma vez.
Nós, nos olhos dos outros
Corremos sérios riscos de imprecisão quando descontextualizamos
acontecimentos e continuamos a corrê-los quando os contextualizamos
exclusivamente na nossa verdade, na nossa realidade. Qualquer acontecimento
tem, pelo menos, dois contextos, a não ser que seja um acontecimento de um só
protagonista o que é perfeitamente possível. Sempre que adentro (1) no
mar, por exemplo, o que me acontece tem apenas uma verdade. Contudo, no momento
em que alguém me avista, passa a ter duas. E raramente se assemelham.
Creio que nenhum de nós faz a mais pequena ideia do aspecto que
tem quando visto por outros olhos. Não há espelho que nos valha. Nunca o
saberemos, nem através da mais minuciosa descrição ou do mais fiel retrato do
mais exímio dos pintores. Os nossos olhos, ao olhar esse retrato, não são os
mesmos com que o pintor nos viu e nem o nosso entendimento se assemelha à visão
que um outro se esforça por nos dar na sua minuciosa descrição de nós.
A verdade – eis algo que não existe.
Existe, isso sim, a necessidade de abrirmos a nossa
compreensão ao maior número possível de verdades. De nos esforçarmos, o mais
que pudermos, para vermos o mais nitidamente possível verdades que não são as
nossas e que talvez nunca adoptemos como tal mas que não deixam, por isso, de ser verdades. Assim como existe a necessidade de
tomarmos cada vez mais consciência da fragilidade das nossas verdades, que hoje
são umas e amanhã outras, bem como da sua validade – só nos servem a nós e a
quem achar, como eu, que a sapiência está no número de verdades reconhecidas.
(1) Termo inventado por Mia Couto e que se me entranhou pela precisão
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Resposta a um amável leitor que deixou dois comentários que eu não publiquei por estarem fora de contexto
Gosto de literatura. É uma paixão como outra qualquer. Não é
que dela saiba muito. O meu filho, pelo contrário, é um especialista. Conhece
tudo quanto é autor e obra, filosofia, corrente de pensamento… Eu, limito-me a
beber o que escrevem quando com eles me identifico ainda que nem sempre tenha
presente o porquê. Bebo-lhes as palavras e faço-as minhas. Adapto-as às minhas
realidades, às minhas verdades. Vivo com elas as coisas minhas, não as dos
autores que não conheço ou conheci e cujos sentimentos ou estados de espírito
nem me atrevo a imaginar. Aliás, já na faculdade eu embirrava solenemente com
os formalistas que se acreditavam capazes de retratar psicologicamente autores
que já cá não estão para se defenderem.
Assim,
agrada-me sobremaneira sentir que, melhor ou pior, lá vou sendo capaz de
despertar sentimentos com as minhas palavras. Não façam, contudo, confusão –
nem sempre o que digo corresponde ao que vivo porque nem sempre, às vezes quase
nunca, a nossa vida interior está ligada à mundanidade do quotidiano.
Ainda assim, todos temos coisas para contar e por muito que
gostemos de apregoar a ausência de arrependimentos, todos temos de que
nos arrepender e, por isso, todos temos culpas e necessidade de perdão.
A grande diferença, talvez, está na direcção que damos às
nossas zangas. Uns sabem que são os principais responsáveis por elas, outros
gostam de acreditar que a responsabilidade é do mundo. Outros ainda, vão
repartindo responsabilidades de forma mais ou menos harmoniosa.
Eu, por exemplo, considero que fui, na minha infância,
vítima neste ou naquele momento. Vítima da ignorância de uns e da loucura de
outros.
A idade adulta é outra conversa. Existem, creio eu,
personalidades que se prestam à vitimização, tal como outras se prestam à
agressão alheia e umas dependem das outras. Se é verdade que não há vítimas sem
agressores, o contrário não é menos real e, exceptuando aquelas agressões
pontuais e inesperadas que qualquer um pode sofrer se estiver no lugar errado à
hora errada, as outras, quando perpetuadas, só o são se ambos, agressor e
agredido, pactuarem na sua continuidade.
Isto para dizer que eu, ao contrário do que possa ter dado a
entender no meu texto anterior, não tenho alma de vítima e se no passado vivi
momentos mais quentes, participei neles em pé de igualdade pelo que sou tão
responsável como.
Quando falo em perdoar faço-o na convicção de ser a única
via para a libertação de culpas, sejam elas nossas ou alheias. Perdoarmo-nos e
perdoar à vida é aceitarmo-nos e aceitá-la como somos e como ela é, e é,
sobretudo, o passo essencial para que possamos, nós e a vida, ser mais
cordatos, mais harmoniosos, mais livres e muito mais felizes.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Perdoar
Nos momentos em que a reflexão é essencial, tudo me distrai
– a música; as palavras; as imagens; o amor… É precisamente quando mais preciso
de paz que o burburinho teimoso e persistente do coração não me abandona. Exactamente quando precisava que ele parasse, o danado.
Eu, pelo contrário, queria ser capaz de abandonar tudo e todos
sem lamentos. Bem, abandonar talvez não seja o termo ideal, talvez seja
demasiado radical. Prescindir; deixar ir; libertar e libertar-me são termos
mais correctos que traduzem de forma muito mais realista aquilo que eu deveria
ser capaz de fazer e não sou, nem mesmo nos momentos mais dramáticos em que o
impulso é a pena de mim mesma, uma espécie de desejo de vingança – vocês vão
ver o que é viver sem mim. Esses são momentos relâmpago em que a ideia de
suicídio me passa às pressas pela cabeça e recua, quase instantaneamente, com a
lembrança da falta que ainda posso vir a fazer a netos por nascer, a filhos que
me amam e a outros, porque afinal até há quem goste de mim.
Que difícil é crescer! Crescer a sério. Não é amarfanhar
tudo bem amarfanhadinho e atirá-lo sabe-se lá para onde, provavelmente para o vale
que se crê dos esquecidos convencendo-nos que já crescemos só porque deixámos
de pensar nas coisas. Crescer. Sem tiques e sem máscaras. Crescer, com tudo
resolvido. Que difícil que é!
Evidentemente que é mais difícil para quem fica do que para
quem parte. Quem parte dir-se-ia que tem uma nova oportunidade. Um recomeço
novinho em folha, ali mesmo ao seu dispor, para fazer da vida o que quiser. Por
isso é que eu gostava de ser capaz de partir. Mas não sou. Quedei-me por aqui,
agarrada ao que já tinha, esticando o que fui para o transformar no que fui
sendo. Não soube fazer reset. Olhava à minha volta e tudo estava como sempre,
menos eu. E, sem saber o que fazer daquele mim, fui-me deixando ficar, assim.
E o tempo não passa.
Passa para toda a gente menos para mim, porque o tempo só existe
no movimento. Quando se pára, tudo pára, até ele – o tempo -, e eu com ele.
Um dia será dia de seguir viagem. De dizer adeus ao que foi,
de deixar ir o passado mas ai, nada me convence a largar tudo assim, sem mais
nem menos. A carga é demasiado rica para ser abandonada no meio da estrada.
Não, nem pensar. Vai comigo. Faz parte de mim e eu dela e é ela que me vai
ajudar à construção – aquela a que tenho dedicado toda a vida – a minha. E se o
tempo não passou ou eu não dei por ele passar, melhor ainda, mais tempo me
resta pela frente, para o perdão.
Convicções - as minhas.
Não existem coincidências. O acaso foi um conceito que o
Homem inventou para mascarar a ignorância.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Bento XVI. Aquilo a que ele renuncia e aquilo a que ele não renuncia
O discurso que Bento XVI fez da janela do Vaticano alertando os fiéis para "os tentadores" que subtilmente nos empurram para o mal fazendo-nos crer que o bem está no poder e nos bens materiais, crença essa que não só nos afasta de Deus mas que acabará por O anular, i.e., Deus "dissipar-se-á", deixará de existir, foi um belo discurso, um discurso pleno de palavras com sentido.
Contudo, na minha modesta opinião, as palavras proferidas teriam muito mais força se não fossem ditas de um lugar tão alto, tão distante dos fiéis, tão pleno de poder. Que isto de ensinar os outros a viver com pouco quando se vive, e a isso parece que o senhor não renunciou já que conta não sair do Vaticano, rodeado de ouro, é fácil.
Sempre me disseram, e eu acreditei, que não há melhor escola que aquela do exemplo.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Como nos filmes
Os automóveis avançam em câmara lenta e quase que param
quando se cruzam, dando tempo a que os condutores se fixem, troquem olhares e guardem,
talvez para sempre, as imagens daquele momento. Um momento que carrega uma vida
inteira – sonhos, alegrias, amarguras, precipitações, incompreensões,
impossibilidades…
Ignorância! Ei-la! A nossa pior inimiga. Sempre.
Que espécie de força, que tipo de energia transporta a vida
real para imagens cinematográficas? Em que circunstâncias e com que frequência
pode isto acontecer? Esta realidade de filme na realidade da vida?
O que por cá fica quando partimos
A quantidade de obras que vamos deixando pelo caminho é
notável. Fundamentalmente daqueles que por cá andaram o tempo suficiente para
as ir acumulando.
É certo que nem todos fazemos questão de “fazer coisas”. “Coisas”
como construir casas ou escrever livros. Mas basta, contudo, rodearmo-nos de
vida para estarmos, mesmo sem darmos por isso, a “fazer coisas”.
Eu estou prestes a mudar de casa. Nos últimos cinco anos é a
terceira vez que o faço e em cada uma delas entro como se nunca mais de lá
fosse sair – arranjo-a à minha maneira; pinto-a; decoro-a; adapto os móveis ao
espaço. Nem que seja por um ano! É isto a vida. É esta a construção. Ainda que
nos doa depois a partida. Ainda que nunca mais se lembrem de nós porque quem
vem a seguir faz o mesmo – adapta a si aquela casa e apaga, ou vai apagando ao
longo do tempo, os vestígios que por lá deixámos.
Ainda assim, há marcas indeléveis. Marcas que ficam
entranhadas nas paredes; nos muros dos quintais; nos degraus das escadas.
Marcas dos passos de cada um; das mãos que ao subirem as escadas se apoiaram
nas paredes. Memórias escondidas das vozes; das zangas; dos dias felizes. E,
sobretudo, ficam as fotos para provar que tudo aquilo existiu, que não foi um
sonho. Existiu. É nosso. Um pequeno fragmento da nossa vida. Uma marca que um
dia alguém, no meio de todas as invenções, conseguirá desvendar.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Eis uma frase que detesto:
No meu tempo, no tempo das decisões e das tentações, muitos
ficaram para trás, alguns seguiram em frente e poucos, muito poucos, subiram na
vida.
De vez em quando vêm-me à memória pessoas que mais tarde
revi e tento, muitas vezes em vão, associar as escolhas que fizeram ao seu
destino.
Fulana ficou para trás, não porque tenha tomado uma decisão
mal tomada num momento específico, mas precisamente porque nunca as tomou,
porque se foi deixando ir na onda e, quando deu por isso, era tarde de mais –
sim, pode ser tarde de mais para quem tem pouca força, ou porque a gastou ou
porque nunca a teve.
E nesses périplos que faço pelo passado vem-me à memória a
imagem da Clara. A Clara apaixonou-se por um pintarolas. Um tipo sem futuro
aparente, por quem ninguém dava um tostão furado. Nessa época eu estava muito
bem acompanhada e, consequentemente, com um futuro promissor, sem grandes sobressaltos.
Nessa época, eu tinha futuro, a Clara, provavelmente, não.
Passados alguns anos – os suficientes para termos, tanto uma
como outra, procriado -, encontrei a Clara e o pintarolas. Tinham ido viver
para a Suíça; tinham duas crianças lindas e vestiam de vermelho. Digo isto
porque esta é a imagem que deles retive – um casal de cores alegres; feliz;
bem-sucedido na vida. Eu vestia de cinzento. Saída havia pouco de um divórcio
complicado, os ombros descaiam-me e o meu horizonte era o espaço que os meus
pés pisavam. A Clara, ao contrário de mim, era feliz. E eu, que nunca acreditei
muito no que o povo dizia, fiquei feliz de a ver.
Há gente que nasce a saber o que é o amor. E há aqueles,
como eu, que não o identificam dentro de si. Esses, que como a Clara nascem a
saber o que é o amor, pouco se importam com as vozes do mundo e, parecendo
cegos aos outros, são os que mais vêem porque se vêem a si e lutam, mesmo sem
darem por isso, por quem verdadeiramente amam e amarão, sabendo que esse é o
seu destino, assim tenham a sorte de se cruzar e reconhecer, como a
Clara reconheceu aquele que mudou, sem se aperceber, no momento em que com ela
se cruzou.
Provavelmente pouco interessa o que somos. Interessa sim se somos ou não amados, se somos ou não capazes de amar. É ele que molda, é ele o transformador - o amor.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
A vida e a nossa responsabilidade naquilo que nos acontece
Faço parte daquele grupo de pessoas que compreende o papel
que cada um desempenha nas aventuras da vida, que é como quem diz – tem consciência
que a vida muitas vezes se limita a responder, de forma que até pode ser
graciosa, àquilo que lhe pedimos.
Não somos um grupo grande – digo eu, que não tenho qualquer
tipo de estatística a não ser este feeling de quem já cá anda há algum tempo. Grande
parte dos hominídeos crê no acaso, crença essa que facilita, e muito, a
vitimização desresponsabilizadora e sempre sempre muito confortável. Ah e tal, a
vida é uma merda e só me acontecem coisas más.
Não é. É tão só uma excelente oportunidade para nos
conhecermos melhor, para crescermos, enfim, para sermos verdadeiramente livres.
O que pode ser, e por vezes é mesmo, uma merda, é a nossa incapacidade de ver.
De se ver. E é com uma dessas incapacidades que eu ando às voltas, vai já para
alguns meses.
Sei que, tal como em tudo aquilo que me vai acontecendo na
vida, parte da responsabilidade é minha, mas não consigo discernir qual. Há
meses que espero respostas de gente de carne e osso que se queda no silêncio
deixando-me pasma, oscilando indecisa entre a minha responsabilidade – o que é
que fiz de mal, o que tenho eu que leva estas pessoas a ignorarem a minha
existência depois de terem até manifestado interesse no que eu tive para lhes
dizer? -, e a aceitação de que vivo rodeada de gente que, das duas uma, ou anda
de tal maneira transtornada que se incapacitou para o dia-a-dia, ou é,
realmente, muito mal formada. E, para ser franca, custa-me tanto a acreditar
nesta última – de resto é uma hipótese na qual eu não acredito nem que ela se
apresente nua em frente dos meus olhos -, que continuo às voltas com quem sou,
até descobrir o que preciso de fazer para inverter esta tendência de deixar que
outros me larguem, expectante e muda, na esperança sabe-se lá de quê.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Leituras
Tenho andado a ler um livro politicamente incorrecto E digo que o tenho andado a ler porque já o li de fio a pavio e voltei ao princípio para o voltar a ler. Exactamente – é suficientemente politicamente incorrecto para ser lido várias vezes, mastigado, e muito muito reflectido.
Aqui fica um “cheirinho” da coisa:
“Aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais.”
(…)
“Somente no dia em que a traição não ferir o traído ou a tradição, mas despertar ambos para novas possibilidades que se descortinam através dela, surgirá um mundo muito além da tolerância – um mundo de apreciação. O ancião do futuro não perceberá no rompimento de um filho que sai de casa uma traição, mas uma casa que se expande, que se amplia, para conter um lugar não estreito.”
Bonder, Nilton, A Alma Imoral, 1998, Editora Rocco Ltda., Rio de Janeiro
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