sábado, 30 de março de 2013

Há estados aos quais ninguém deveria de ter de se habituar

Há quem acredite que são um grupo frágil, daqueles que cairão em caso de catástrofe, humana ou natural. Há quem acredite nisso. Eu não.
Vejo-os praticamente todos os meses e praticamente todos os meses lhes temo a sorte, mas eles lá estão, de pé ou a cambalear, na fila ou amontoados, à espera da sopa.
Vivem na rua, dentro de caixas de cartão, alguns, em cima de uma espécie de colchões, outros, e outros ainda, nem isso têm, só os cobertores que certas pessoas vão arranjando para lhes dar. Enrolam-se neles como chouriços e muitas vezes nem acordam para comer. Deixa-se o que for, exceto sopa, ao lado e reza-se – quem sabe e quer – para que não o roubem.
Ontem, em frente à estação da Stª Apolónia, recusaram-se a fazer fila. Um homem de meia-idade, cambaleante já, gritava que tinha ficado farto de filas na tropa; que as filas lhe faziam lembrar coisas más e que não, não fazia fila. Tinha sido o primeiro a chegar, deem-me uma sopa que me vou já embora. Outros, muitos, seguiram-lhe o exemplo. A coisa complicou-se, tanto mais que um jovem, gingão e provocador, entendeu que aquele era o seu território e só lá estaria quem ele quisesse. Ao murro e ao pontapé expulsava um negro cambaleante  que voltava sempre, mudo, provocador também, arrastando os pés como se um fio o ligasse àquele lugar. Era ver o outro a empurrá-lo para lá da esquina e vê-lo a ele a surgir dela como do nada, teimoso.
Um olhar mais atento encontraria, de pé, orgulhosa, de prato de sopa na mão, a jovem para quem o Ivo – assim é o nome do gingão – caminhava e se pavoneava, enquanto o outro desgraçado ia semeando pelo chão peças de roupa que os empurrões, os socos e os pontapés lhe iam arrancando. Palavra de honra que tive vontade de mostrar a toda a gente, principalmente à estúpida da rapariga, o que de desgraçado, pobre, imbecil, ignorante e mau habita no corpo magro e gingão do jovem pavão, mas não é essa a nossa missão e, por isso, terminámos o que tínhamos ido fazer e deixámo-los, mais uma vez, entregues às suas vidas.
Um dia, se algo de mais grave acontecer, se uma catástrofe se virar contra nós, penso que muita desta gente será aquela que melhor sobreviverá. Catástrofe é coisa do dia-a-dia. E os que ainda não se habituaram a ela, habituar-se-ão, com o tempo.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A galinha da vizinha, afinal, é tão boa como a minha


Estive a ver uma sequência de imagens extraordinárias. Aliás, há imagens verdadeiramente surpreendentes, muitas delas mistos de natureza e humanidade, construções harmónicas, não necessariamente da autoria de Frank Lloyd Wright mas ainda assim, surpreendentes.
Estive a ver uma sequência de imagens de outros lugares, outras culturas e civilizações. Imagens longínquas que despertam sempre algum desejo. Desejo de estar lá e não aqui. De viver ali, naquelas casas. De me deitar naquelas camas. De pisar aqueles chãos. Sentir a sombra daquelas árvores.
Estive a ver uma sequência de imagens que me transportou aos momentos em que a luz através das cortinas de salas alheias despertavam em mim fantasias impossíveis. Certezas de que dentro daquelas casas, à luz daquelas luzes, por detrás daquelas cortinas a vida só podia ser surpreendente. Muito mais surpreendente do que aquela por detrás das minhas cortinas. E mais acolhedora. Sempre mais acolhedora. Como o são, aliás, todas as casas alheias.
Há um outro exercício, também ele muitíssimo interessante, ao qual me dediquei hoje, enquanto observava uma sequência de imagens extraordinárias. Trata-se de colocar o que é meu naquilo que não é. Por outras palavras, encontrar, não as diferenças, mas as semelhanças. É um exercício extraordinário que, tal como as imagens, me consegue transportar para um estado de espírito fantasioso, talvez, mas de uma fantasia muito mais alcançável.
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Da entrevista - a tal

Não vi, e nem a ouvi. Cá em casa fizemos questão de permanecer nesses canais alienatórios que dão filmes e coisas. Não que estejamos, todos, fartos de política, há quem não esteja (e não sou eu...) mas o certo é que ao imaginar a imagem, a voz, a postura superior do entrevistado (aposto em como não a perdeu, antes pelo contrário) me deu uma espécie de agonia incapaz de se deixar vencer pela curiosidade.
Ao que parece não fui a única. Num rapidíssimo périplo pelo Facebook a ideia com que fiquei é que a tal entrevista não anda nas bocas do mundo. O que pode significar que o tiro saiu pela culatra à RTP.
 

terça-feira, 26 de março de 2013

Saudades de viajar

Viajar não é importante, é essencial. Quem viaja vê os seus horizontes expandidos. Quem viaja cresce, amplia a perceção que tem de si, do mundo e do seu lugar no mundo. Quem viaja relativiza tudo muito mais, ao mesmo tempo que solidifica o seu ser porque nós tendemos a apoderar-nos daquilo que conhecemos e quanto mais conhecermos mais universais nos tornamos, mais sólidos, mais inteiros, mais humanos.
 
Quem se move em pequenas áreas onde tudo é sempre igual, fica pequeno também. Salvo muito raras exceções, como por exemplo Fernando Pessoa que conseguiu explorar o universo entre as paredes apertadas do seu minúsculo apartamento. Mas esse viveu uma parte importante da sua vida na África do Sul, numa época em que viajar, aí sim, não era para todos. Para além disso era um génio.
 
É claro que também existem aqueles que viajam sem darem por isso. Aqueles que se limitam a apanhar aviões, comboios ou estradas para ir de um lugar ao outro, pouco se importando com as distâncias. Aqueles que não olham à sua volta, ou quando o fazem nada veem. Também existem esses, claro. Mas são exceções. Nada mais que exceções.
 
Todos os jovens deveriam ter um programa de viagem antes de completarem os estudos ou imediatamente a seguir a eles. E deveria ser proibido a qualquer pessoa permanecer no mesmo lugar durante toda a sua vida, que é como quem diz, deveriam ser dadas condições a todos para que pudessem viajar, pelo menos uma vez por ano.
Viajar não deveria ser um luxo, mas uma necessidade. O conhecimento só se instala verdadeiramente quando vem agarrado à experiência. Viajem. Saiam daqui.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Inventores, precisam-se

Não me revejo na dicotomia esquerda/direita. Mais – irrita-me solenemente a designação tal como me irritam cada vez mais as politiquices dos partidos. Todas as ações parecem levar à obtenção de interesses partidários. E o povo pá?! Que se lixe o povo.
O estranho no meio de tudo isto é que acabo por me rever muito mais em filosofias que, segundo os especialistas, se encaixam mais à direita. Para mim, não estou nem de um lado nem do outro, sendo que posso até oscilar consoante as ocasiões. Sou, e disso não tenho a menor sombra de dúvida, pela justiça. E sei muito bem o que isso quer dizer, ao contrário de muita gente que anda para aí a apregoar que a justiça está na igualdade de proveitos. Sou pela igualdade, sim, de oportunidades. E depois, cada um que faça o melhor que sabe e quer. É isso a liberdade. Sou pela liberdade. Pela liberdade e pelo respeito. Coisas que cada vez menos vislumbro naqueles que fazem política. Está tudo muito bem, desde que esteja de acordo com as suas ideias. Enfim…
Anda por aí um jornal online que, de vez em quando, diz coisas interessantes. Não as tenho divulgado porque embirro solenemente com o nome. Por causa dele cheguei à conclusão que isto de se ser uma coisa ou outra depende menos de nós do que se poderia supor. Ele há coisas que somos porque sim. Está-nos no sangue como se sempre cá tivesse estado ainda que tenha sido posto. Ao fim de uma série de anos, sabemos lá nós o que é posto ou já cá estava!... A palavra esquerda irrita-me. Associo-a a poucochinho, a pobreza, a ignorância. Depois oiço falar a Ana Drago, por exemplo, ou o Bernardino Soares e não só gosto de os ouvir como posso até concordar com certas coisas que dizem.
Anteontem, numa conferência a que assisti, afirmava-se perentoriamente que não existe democracia sem partidos políticos. Lá está! É também a isto que eu chamo de poucochinho. A esta incapacidade de abrir mão dos modelos existentes. Afinal quem é que inventou os modelos políticos? Não foram aqueles que, sentindo-se irresistivelmente atraídos por uma determinada ideologia tiveram de inventar uma forma de a pôr em prática? Ora novas ideologias não param, com certeza, de assolar as cabeças de quem não dorme à pala de uma crise criada por interesses de quem, provavelmente, ainda não perdeu o sono. Portanto, a matéria-prima está lá. Só falta o know-how.

sábado, 23 de março de 2013

O que me está a faltar

Sabedoria. Sabedoria daquela que já está tão entranhada que não precisa do momento em que se pára para pensar, para passar da teoria à prática. Sabedoria daquela que já se instalou no dia-a-dia, na prática das coisas, das atitudes e das reações. Está a faltar-me muito mais do que aquilo que eu julgava faltar. Presunção minha. Convencimento de que basta o racionalizar da experiência para que as práticas se alterem. Não é verdade. Em circunstâncias semelhantes continuo eu mesma. Quase sem alteração a não ser na consciência de que continuo eu mesma, de que não fui, ainda, capaz de mudar.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Entre o que somos e aquilo que julgamos ser vive um universo inteiro

É extraordinário o número, e o tipo, de porcarias que vamos acumulando na psique ao longo da vida. Porcarias de que nem consciência, na maior parte das vezes, temos. Anos depois, quando se manifestam, vêm disfarçadas e passam por coisas que pouco ou nada têm a ver com a sua verdadeira origem. É preciso tempo, paciência, coragem e alguma sabedoria para discernir as origens dos tiques que acumulamos, muitos deles nas entranhas, porque nem se atrevem a ver a luz do dia.
Desde miúda que tenho comigo uma necessidade que me empurra para agradar a gregos e a troianos. Trata-se de uma força poderosa que me exclui em absoluto da equação, mas lá tenho obedecido apesar de ficar exausta, já que muitas vezes não me apetece nem o caminho de uns e nem o de outros. Por mim seguiria em frente, nem que fosse sozinha. E tenho obedecido convencida de que o faço pelo prazer que sinto em ver os outros felizes.
Perante isto posso pelo menos concluir que no meio da ignorância fui capaz de tirar deste particular algum prazer. Já não é mau. Mas como coragem não me falta e sabedoria também tenho alguma, lá acabei por discernir a origem de tamanho disparate. Pena é que só agora, só agora, a idade e a experiência permitam que todos os dias uma luz se acenda. Mas vale mais tarde do que nunca. É que esse discernimento é fundamental! Sem ele, dificilmente se consegue o abandono de certas atitudes, de hábitos, vícios, medos e manias que nos estreitam o horizonte, nos encolhem a alma e nos fazem acreditar que somos isto, só isto e nada mais do que isto.

domingo, 17 de março de 2013

Chipre

O governo do Chipre, com Christofias à cabeça, entrou em banca rôta. O próximo presidente, saído das mais recentes eleições, Anastasiades, tentará a todo o custo resolver o problema que Panicos, o presidente do banco central cipriota, não consegue - o eurogrupo decidiu resgatar os depósitos bancários dos cipriotas, deixando-os com uma mão à frente e outra atrás fazendo jus aos nomes de todos os intervenientes neste pequeno texto. Eu passo a explicar.
 
Em Portugal, e desde Rafael Bordalo Pinheiro, toda a gente sabe que fiar não é uma coisa boa. Christofias, ao que parece, não sabia disso. Entretanto, não se sabe até que ponto o nome do presidente do banco central daquele país - Panicos -, teve ou não influência no estado de espírito dos cipriotas mas uma coisa é certa, só mesmo alguém de nome Anastasiades, poderá, eventualmente, ter presença de espírito para fazer face a todo o drama que, agora fora de brincadeiras, assola o povo de Chipre.
 
Espreitem aqui. Ponham os olhos nisto e previnam-se. A minha avó sempre me disse que nas costas dos outros, vemos as nossas.

Não gosto da pobreza. De nenhum tipo de pobreza. De coisas pequeninas, comezinhas, feias e pobres. Não gosto de imitações. Não gosto da pobreza.

Fizeram-nos acreditar na nobreza do trabalho braçal e da pobreza enquanto enchiam os bolsos, e as casas, de descendentes ociosos e loiças caras.
Ainda hoje há quem enobreça essa miséria – as artroses incapacitantes e a falta de dentes de quem alancou fardos impossíveis e nunca ganhou para o dentista. Mais!, de quem nunca conseguiu comer decentemente. Esse foi o Portugal dos anos 30, 40, 60, do século passado. Um país pequenino e miserável, de gente esforçada mas ignorante e absurdamente crente nas baboseiras impingidas por uma religião que desde a idade média que faz de tudo, e quando digo de tudo é de TUDO mesmo, para enriquecer mais e mais e mais e cada vez mais. Uma religião que oferece o céu aos pobrezinhos! (Estou capaz de apostar em como há quem dependa tanto dela que chegue a acreditar que os seus membros, ao viverem na opulência, no conforto e na proteção que a maior parte dos povos nem sonha, se sacrificam pela humanidade!...)
Portugal cresceu. O mundo cresceu. E a ignorância, embora subsista, tende a ter cada vez menos voz. Vivemos num país que pode até estar pobre – na verdade nunca foi rico -, mas que se soube munir de instrução, cultura e conhecimento. Um país repleto de gente difícil de enganar e, por isso mesmo, mais difícil de manobrar. Contudo, continua a existir um fator dominador que deve, que tem de ser combatido. E hoje, tal como ontem, só funciona na divisão. O medo de ser despedido; de não encontrar sequer emprego; de não ter meios de subsistência leva à submissão, à aceitação muda de estados ilegítimos, injustos e perniciosos. O medo de seguir em frente; de casar; de ter filhos levará a seu tempo ao desaparecimento de nós.
Ficarão eles. Aqueles que não sabemos bem quem são mas que continuam, ainda que de formas mais subtis, a dominar as massas que somos nós. Mas uma coisa é certa, da forma como temos crescido, cada vez mais terão de aguçar o engenho e, com o tempo, também eles hão de perder poder.

sábado, 16 de março de 2013

Malabarismos

Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência. Eis o segredo. Eis a dificuldade. Eis…ia dizer a dor mas reconheço o exagero. Dor é outra coisa. Dor é coisa que segue desgraça e eu estou a falar de um caminho que se quer de graça. E agora até parece que a mente me fugiu para as despesas. Não. Refiro-me à graça que se opõem à desgraça. Sim, essa, porque a outra não existe. É uma ilusão. Sabemos disso desde os anos 30 do século passado, ainda que se ignore o cérebro que a tal conclusão chegou. Eis então o segredo; eis a dificuldade. Abdicar. Abdicar de coisas que nos acompanham há séculos e que espelham o nosso percurso, só porque não cabem dentro de casa. Abdicar de decisões para nós primordiais e muito muito superiores a outras quaisquer – não tivessem sido elas as nossas companheiras de luta até à data. Abdicar de saberes. Subvalorizar experiências preciosas, só porque (só porque – reparem!) as do outro existem! É isto, também, a vida. A alternância entre a certeza e a incerteza; a revisão dos valores; a adaptação das crenças; a aceitação do outro, tão diferente de nós! Carregado de ideias estranhas, esquisitas, despropositadas porque não são as nossas. E tão mais despropositadas quanto mais delas se afastam.
Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência. Aprendizagens que se fazem com tempo, muita paciência e aos empurrões. Há coisas demasiado empedernidas em almas quase sexagenárias!
Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência. Aprendizagens que se fazem devagar, hora a hora, com muita calma, como se estivéssemos a atravessar um cabo, suspenso q.b., de barra de equilíbrio nas mãos e um pé sempre à frente do outro. Cuidado! É importante que o calcanhar do da frente se una à ponta dos dedos daquele que fica para trás. E vale a pena lembrar que as posições, para que se avance, têm de ser alternadas.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Não é só a capacidade de sonhar, é também aquela de ir alimentando os sonhos aconteça o que acontecer

A minha mãe descobriu, aos 81 anos, que é uma mulher de cidade. Não daquelas cidades demasiado movimentadas e barulhentas, mas de uma cidade calma, contudo com movimento; onde não haja barulho, mas não falte o comércio; onde os prédios não sejam nem demasiado altos que tapem o sol, nem demasiado baixos que deixem passar o vento; onde nunca faça frio e se fizer que poupe os lugares por onde ela é forçada a transitar.
A minha mãe descobriu, aos 81 anos, que a vida afinal não é exatamente como ela sonhou, ainda que na verdade nunca o tenha sido apesar de ela ter conseguido manter a crença de que um dia seria. Agora, parece-me a mim, desenganou-se.
Uma vez ouvi da boca de um médico uma expressão de espanto, ternura e admiração perante o enrubescer da face da minha mãe. Dizia ele que nunca tinha visto alguém com tantos anos, corar! É isso que sinto – uma enorme ternura. Não deixa de ser admirável que alguém que passou por tanto, que sofreu tanta desilusão, tenha conseguido preservar a inocência que nos deixa acreditar que tudo ainda há-de ser como nos sonhos. Os anos que ela poupou ao desalento!
Só espero que recupere a tempo de fazer as pazes com a vida, embora eu esteja convencida que provavelmente não precisará disso, não a sinto zangada, apenas desconfortada com o frio - e quem é que não está?! -, é que nos acontece a todos, mesmo que não nos apercebamos disso a idade ensina-nos muito mas vai-nos tirando a força para aquilo que não chegámos a aprender.
A minha mãe já não tem forças para grandes zangas, nem para grandes desilusões ou desalentos. Todas as forças que tem, guarda para combater este frio que não nos deixa e teima em entranhar-se-nos na pele. Todas as forças que tem, usa para redecorar a casa nova; para a reorganizar; para se adaptar e aprender a lidar com uma situação com que sonhou mas que afinal talvez não seja bem como nos sonhos agora, que se tornou realidade. Mas eu sei que valeu a pena esperar. Sei porque a minha mãe dorme bem, deixou de ter medo e só se encolhe quando sai para a rua e o vento e o frio lhe despenteiam os cabelos brancos, tão brancos como a neve que afinal não chegou a cair por cá.
E sei também que sempre que um sonho se transforma em realidade, apesar de sofrer alterações físicas nessa estranha passagem, continuará a ser sonho enquanto dele nos ocuparmos.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Parece que estou de volta


Muito tem sido posto em causa nestas últimas semanas. Quem sou; quem fui; quem sou com o que sou depois de tudo o que já fui. O que quero da vida. Onde e como me sinto feliz. O que ganhei. O que perdi. São questões que me assolam hoje, neste momento. E dei por mim a pensar que estou a viver no presente, tentando fazer as pazes com o passado e sem imaginar qualquer futuro. Não faço ideia do que vai ser. Nunca lá fui verdadeiramente e sempre que o tento visitar ele apresenta-se-me múltiplo. Num momento estou aqui, solidamente acompanhada. No outro, num país distante, livre no meio do mundo. Num momento estou viva. No outro nem por isso. Num momento sou uma no meio de tanta gente. No outro, sou única. Sou eu. E no meio deste turbilhão vou descobrindo que ainda há muito por fazer mas que também muito já foi feito e que, portanto, posso aplacar esta ansiedade que se fez companheira de mim ao longo de tanta vida. Posso aplacá-la e até, quem sabe, despedi-la. Talvez eu possa, finalmente, aceitar o hoje com um sorriso. E pouco importa de que hoje falo. É hoje e isso basta. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Notícias de última hora e, à pressa...


Unhas numa lástima; dois dedos com cortes; vias respiratórias numa notável resistência ao pó, sucumbindo apenas aqui e ali – nunca pensei que funcionassem tão bem em tempos de crise. O cabelo!...enfim…se em condições normais sabe Deus…
É o pior acampamento de sempre! Nunca uma mudança de casa proporcionou um estado intermédio acampamento/armazém como esta! E tudo indica que se prolongará por mais tempo do que o desejável.
A biblioteca sofreu mais uma razia. Nada como um  recomeço para empandeirar aqueles que afinal não interessam a ninguém, mais aqueles que afinal não merecem ser revisitados.
Sem internet ou telefone, aguarda-se pacientemente o regresso dos técnicos cuja autonomia deixa muito a desejar.
Entretanto, e para não cair no esquecimento, vou aproveitando os pequenos intervalos fora de casa para textos como este – telegráficos.
Saudades da normalidade.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma história dos diabos



E pronto. Cumpriu-se qualquer coisa a que se poderia chamar destino, já que fado transporta uma conotação pesarosa, arrastada e algo triste. Destino é mais leve, traz sempre agarrado a si o livre arbítrio, que é como quem diz – é o que nós quisermos. Ou desígnio. Desígnio talvez seja mesmo o melhor – cumpriu-se o desígnio e amanhã lá me mudo para o pé dele.

Há coisas que nem se pensa revelar por não se saber bem como. Se se diz isto as pessoas podem ficar a pensar aquilo e se o dito for aquilo, nada garante que as pessoas não se fixem no isto.

Há cerca de 40 anos os meus pais levaram-me a ver uma peça de Tchecov, As três irmãs, representada por um grupo de amadores que mais tarde viria a dar actores de gabarito ao teatro português. Connosco ia um rapaz, filho de uma família vizinha e que, por ser aluno interno do Colégio Militar, só víamos aos fins-de-semana. Foi o meu primeiro namorado. Daqueles que nos vão levar a casa, nos dão a mão e, num momento de loucura, se atrevem um pouco mais e nos beijam de uma forma tão estranha que ficamos sem saber se sim, se sopas.

No intervalo da peça, um grupo de curiosos locais muito mais atrevidos do que nós, invadiu o recinto e um deles encantou-se comigo. Tanto andou, tanto andou que acabámos por casar. Não durou muito, mas casámos.

Anos mais tarde contraí aquele que considero o meu matrimónio. Durou cerca de vinte acidentados anos e dele fizeram parte dois filhos que são a luz dos meus olhos.

Estou só, há sete ou oito anos. Enfim, lá vou namorando que eu sou de namorar, mas nunca mais partilhei gavetas, e nem armários, com homem nenhum.

Até amanhã. Amanhã, pelas nove da manhã, hão-de cá vir uns senhores para me levar a mobília, e as malas, e as loiças, para casa daquele rapaz, filho de uma família vizinha e que, por ser aluno interno do Colégio Militar, só víamos aos fins-de-semana.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

C de carniceiro, de cabrão, de cornudo, de capado de tudo o que de pior existir a começar por C. C de câncer


Entrou na família pela porta materna, no tempo dos meus avós. Apanhou-me o avô e uma tia-avó e, não satisfeito com o resultado, veio atrás das tias e de uma prima. Tem-se acomodado mais ou menos nos mesmos lugares ainda que com forças diferentes, o filho da puta, mas em todas tem sido capaz de comer carne, carniceiro que é.

Tempos houve em que o olhei no rosto e pensei que não tinha critério. Mais tarde vim a acreditar que afinal talvez embirrasse com os mais mal dispostos. Hoje confirmo que não tem critério. Não tem critério, nem piedade nenhuma. Não tem compaixão. É cego e surdo. E na sua cegueira destrói vidas que eram lindas até à sua chegada.

Tenho por ele uma raiva cega. Percebo-o hoje. Uma raiva atroz, demente, terrível, imensa, mais do que medonha. Tão grande que só me apetece desafiá-lo como se desafia um touro. Gritar-lhe que venha, que enfrente a minha raiva, contanto que nunca mais, mas nunca mais, toque em quem ainda não viveu.

Família não são apenas os que connosco partilham o sangue. São também aqueles que vimos crescer ao lado dos nossos filhos e eu hoje estou destroçada. Mas quero, e posso, pensar em todos aqueles e aquelas que o venceram, absoluta e totalmente, e acredito que é assim que vai ser, também agora. Mais uma vez.

Nós, nos olhos dos outros


Corremos sérios riscos de imprecisão quando descontextualizamos acontecimentos e continuamos a corrê-los quando os contextualizamos exclusivamente na nossa verdade, na nossa realidade. Qualquer acontecimento tem, pelo menos, dois contextos, a não ser que seja um acontecimento de um só protagonista o que é perfeitamente possível. Sempre que adentro (1) no mar, por exemplo, o que me acontece tem apenas uma verdade. Contudo, no momento em que alguém me avista, passa a ter duas. E raramente se assemelham.

Creio que nenhum de nós faz a mais pequena ideia do aspecto que tem quando visto por outros olhos. Não há espelho que nos valha. Nunca o saberemos, nem através da mais minuciosa descrição ou do mais fiel retrato do mais exímio dos pintores. Os nossos olhos, ao olhar esse retrato, não são os mesmos com que o pintor nos viu e nem o nosso entendimento se assemelha à visão que um outro se esforça por nos dar na sua minuciosa descrição de nós.

A verdade – eis algo que não existe.

Existe, isso sim, a necessidade de abrirmos a nossa compreensão ao maior número possível de verdades. De nos esforçarmos, o mais que pudermos, para vermos o mais nitidamente possível verdades que não são as nossas e que talvez nunca adoptemos como tal mas que não deixam, por isso, de ser verdades. Assim como existe a necessidade de tomarmos cada vez mais consciência da fragilidade das nossas verdades, que hoje são umas e amanhã outras, bem como da sua validade – só nos servem a nós e a quem achar, como eu, que a sapiência está no número de verdades reconhecidas.


(1) Termo inventado por Mia Couto e que se me entranhou pela precisão

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Resposta a um amável leitor que deixou dois comentários que eu não publiquei por estarem fora de contexto


Gosto de literatura. É uma paixão como outra qualquer. Não é que dela saiba muito. O meu filho, pelo contrário, é um especialista. Conhece tudo quanto é autor e obra, filosofia, corrente de pensamento… Eu, limito-me a beber o que escrevem quando com eles me identifico ainda que nem sempre tenha presente o porquê. Bebo-lhes as palavras e faço-as minhas. Adapto-as às minhas realidades, às minhas verdades. Vivo com elas as coisas minhas, não as dos autores que não conheço ou conheci e cujos sentimentos ou estados de espírito nem me atrevo a imaginar. Aliás, já na faculdade eu embirrava solenemente com os formalistas que se acreditavam capazes de retratar psicologicamente autores que já cá não estão para se defenderem.
Assim, agrada-me sobremaneira sentir que, melhor ou pior, lá vou sendo capaz de despertar sentimentos com as minhas palavras. Não façam, contudo, confusão – nem sempre o que digo corresponde ao que vivo porque nem sempre, às vezes quase nunca, a nossa vida interior está ligada à mundanidade do quotidiano.
Ainda assim, todos temos coisas para contar e por muito que gostemos de apregoar a ausência de arrependimentos, todos temos de que nos arrepender e, por isso, todos temos culpas e necessidade de perdão.
A grande diferença, talvez, está na direcção que damos às nossas zangas. Uns sabem que são os principais responsáveis por elas, outros gostam de acreditar que a responsabilidade é do mundo. Outros ainda, vão repartindo responsabilidades de forma mais ou menos harmoniosa.
Eu, por exemplo, considero que fui, na minha infância, vítima neste ou naquele momento. Vítima da ignorância de uns e da loucura de outros.
A idade adulta é outra conversa. Existem, creio eu, personalidades que se prestam à vitimização, tal como outras se prestam à agressão alheia e umas dependem das outras. Se é verdade que não há vítimas sem agressores, o contrário não é menos real e, exceptuando aquelas agressões pontuais e inesperadas que qualquer um pode sofrer se estiver no lugar errado à hora errada, as outras, quando perpetuadas, só o são se ambos, agressor e agredido, pactuarem na sua continuidade.
Isto para dizer que eu, ao contrário do que possa ter dado a entender no meu texto anterior, não tenho alma de vítima e se no passado vivi momentos mais quentes, participei neles em pé de igualdade pelo que sou tão responsável como.
Quando falo em perdoar faço-o na convicção de ser a única via para a libertação de culpas, sejam elas nossas ou alheias. Perdoarmo-nos e perdoar à vida é aceitarmo-nos e aceitá-la como somos e como ela é, e é, sobretudo, o passo essencial para que possamos, nós e a vida, ser mais cordatos, mais harmoniosos, mais livres e muito mais felizes.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Perdoar


Nos momentos em que a reflexão é essencial, tudo me distrai – a música; as palavras; as imagens; o amor… É precisamente quando mais preciso de paz que o burburinho teimoso e persistente do coração não me abandona. Exactamente quando precisava que ele parasse, o danado.

Eu, pelo contrário, queria ser capaz de abandonar tudo e todos sem lamentos. Bem, abandonar talvez não seja o termo ideal, talvez seja demasiado radical. Prescindir; deixar ir; libertar e libertar-me são termos mais correctos que traduzem de forma muito mais realista aquilo que eu deveria ser capaz de fazer e não sou, nem mesmo nos momentos mais dramáticos em que o impulso é a pena de mim mesma, uma espécie de desejo de vingança – vocês vão ver o que é viver sem mim. Esses são momentos relâmpago em que a ideia de suicídio me passa às pressas pela cabeça e recua, quase instantaneamente, com a lembrança da falta que ainda posso vir a fazer a netos por nascer, a filhos que me amam e a outros, porque afinal até há quem goste de mim.

Que difícil é crescer! Crescer a sério. Não é amarfanhar tudo bem amarfanhadinho e atirá-lo sabe-se lá para onde, provavelmente para o vale que se crê dos esquecidos convencendo-nos que já crescemos só porque deixámos de pensar nas coisas. Crescer. Sem tiques e sem máscaras. Crescer, com tudo resolvido. Que difícil que é!

Evidentemente que é mais difícil para quem fica do que para quem parte. Quem parte dir-se-ia que tem uma nova oportunidade. Um recomeço novinho em folha, ali mesmo ao seu dispor, para fazer da vida o que quiser. Por isso é que eu gostava de ser capaz de partir. Mas não sou. Quedei-me por aqui, agarrada ao que já tinha, esticando o que fui para o transformar no que fui sendo. Não soube fazer reset. Olhava à minha volta e tudo estava como sempre, menos eu. E, sem saber o que fazer daquele mim, fui-me deixando ficar, assim.

E o tempo não passa.

Passa para toda a gente menos para mim, porque o tempo só existe no movimento. Quando se pára, tudo pára, até ele – o tempo -, e eu com ele.

Um dia será dia de seguir viagem. De dizer adeus ao que foi, de deixar ir o passado mas ai, nada me convence a largar tudo assim, sem mais nem menos. A carga é demasiado rica para ser abandonada no meio da estrada. Não, nem pensar. Vai comigo. Faz parte de mim e eu dela e é ela que me vai ajudar à construção – aquela a que tenho dedicado toda a vida – a minha. E se o tempo não passou ou eu não dei por ele passar, melhor ainda, mais tempo me resta pela frente, para o perdão.

Convicções - as minhas.


Não existem coincidências. O acaso foi um conceito que o Homem inventou para mascarar a ignorância. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Bento XVI. Aquilo a que ele renuncia e aquilo a que ele não renuncia

O discurso que Bento XVI fez da janela do Vaticano alertando os fiéis para "os tentadores" que subtilmente nos empurram para o mal fazendo-nos crer que o bem está no poder e nos bens materiais, crença essa que não só nos afasta de Deus mas que acabará por O anular, i.e., Deus "dissipar-se-á", deixará de existir, foi um belo discurso, um discurso pleno de palavras com sentido.
 
Contudo, na minha modesta opinião, as palavras proferidas teriam muito mais força se não fossem ditas de um lugar tão alto, tão distante dos fiéis, tão pleno de poder. Que isto de ensinar os outros a viver com pouco quando se vive, e a isso parece que o senhor não renunciou já que conta não sair do Vaticano, rodeado de ouro, é fácil.
 
Sempre me disseram, e eu acreditei, que não há melhor escola que aquela do exemplo.