quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sejam generosos

É muito ténue a linha que separa a poupança da avareza. É preciso ter cuidado para não a atravessar já que a poupança nos enobrece, quase tanto como a generosidade, mas a avareza amesquinha-nos e denigre-nos.
 
Mesmo em tempos de crise, cultivar a generosidade, ao contrário do que nos possa parecer, abre-nos espaços que, pelas leis do universo, mais cedo ou mais tarde serão preenchidos com tudo aquilo que precisamos.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Sofra quem quiser. Eu sou feliz.

Enquanto à minha volta o mundo ameaça ruir, eu penso nos meus filhos, no meu genro, na neta que está para vir e sou a pessoa mais feliz do mundo.  

sábado, 6 de abril de 2013

Da criação, da imperfeição e do envelhecimento

A criação está longe da perfeição. Longe. Muito longe. Eu diria mesmo que está às avessas. Ao corpo não deveria ser permitido envelhecer. Já ao espírito, deveria ser dada a virtude de assimilar todos os ensinamentos da vida de forma a com eles poder crescer, crescer até se transformar em algo etéreo, capaz de abandonar o corpo, que nunca o traiu, de livre e espontânea vontade.
Ao corpo não deveria ser permitido o envelhecimento. Este fraquejar constante que o peso dos anos empurra mais e mais em direção à terra quando o espírito ainda mal começou a andar.
Ao corpo não deveria ser dada a permissão para envelhecer porque de momento não me ocorre dor maior do que aquela que acorda, sempre que a boca dos meus pais se abre para se queixarem de todas as limitações que o peso dos anos lhes tem trazido. Não me ocorre dor maior do que aquela que acorda quando nos olhos que me olham reina a confusão, a dificuldade e todas as limitações do mundo. Não me ocorre dor maior.

A não-evolução

Continuamos a insistir naquilo que os outros devem ser e a alimentar expectativas de que um dia serão o mesmo que nós, pensem como nós, sintam como nós, em vez de alimentarmos a capacidade de aceitar o que é diferente, ainda que não o compreendamos.
Continuamos a sentir-nos angustiados com esta incapacidade mas firmes nas nossas convicções. Certos de que o erro está do outro lado – nunca do nosso – porque o nosso cresceu connosco. Tem a apoiá-lo toda uma vida, um mundo de experiências que afinal vivemos apenas com o que somos, e nunca com os olhos postos naquilo que existe de diferente.
Continuamos iguais a nós mesmos.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Verdade

Eu sei que nem devia escrever. Uma pessoa deprimida não deve escrever para os outros para evitar o risco de contágio e, qui ça, epidemia. Mas, compreendam, escrever é para mim uma forma de catarse. Se não o faço rebento, apesar de ter consciência que, nestas circunstâncias, nem sequer o faço bem feito ou digo coisas por aí além, mas vocês, que poderão eventualmente estar aí desse lado, têm melhor remédio do que eu – podem não ler, enquanto eu, se não escrevo...enfim, rebento.
Em boa verdade não sei para que lado me hei-de virar. Toda a gente opina em todo o lado, incluída estou eu no molhe, e cada um desabafa aquilo que vê, que vive, que sente apesar de, como me dizia ontem uma amiga muito querida, os pontos de vista variarem tanto quanto variam as possibilidades de verdade e, acreditem, são inúmeras, o que varia muito pouco é o número de pessoas que tem consciência disso e aceita abrir a mente para possibilidades estranhas aos seus próprios olhos.
Decidi, assim, fazer todos os possíveis por abrir a minha mente embora precise, claro, que me expliquem os pontos de vista tintim por tintim uma vez que serei sempre uma novata naquilo que os meus olhos não veem. Por outro lado, decidi também concentrar-me mais nos meus instintos a fim de tentar conhecer melhor as minhas verdades não ande eu a ser enganada por estímulos pontuais e cega por instintos de sobrevivência sabe-se lá de quê!... É que reagir é mais fácil do que agir, pelo menos para mim, e nem sempre mais delicado…
Para pôr em prática este meu propósito olho o céu, que está azul que se farta, pelo menos agora, pelo menos por aqui, e interiorizo que a Primavera está aí e que essa pode ser a minha verdade de hoje. Verdade, aliás, que me acalenta a esperança da chegada do calor. No entanto, o embaciado das janelas diz-me que a temperatura baixou e que este frio, sempre polar porque o frio é assim mesmo, não há meio de desaparecer. E assim fico na mesma, a braços com uma meia verdade, ou mesmo uma não verdade, que é aquilo com que andamos a viver sei lá há quanto tempo convencidos que não senhor, estamos em poder Da Verdade, aquela, a única, a verdadeira.
E o vento, meu Deus! o vento!
 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O esquecimento de Platão ou, onde raio fica a saída da caverna?!

Estou por um fio. Aliás, creio mesmo que estou por um fio há anos. Provavelmente desde os 16, ou quem sabe, antes ainda. Eu sim, tenho vivido no fio da navalha. Atiro-me para a frente para mostrar que não tenho medo de nada, quando acordo todos os dias com o terror instalado no peito, do lado do coração. Por vezes, quase sempre, apanha-me o estômago e o início da garganta. É um terror que agita tudo o que existe por dentro. Um terror negro, semelhante ao que se sente quando se cai num lugar escuro e frio. Não que alguma vez tenha caído num lugar escuro e frio, mas não me surge outra comparação – é como se já tivesse (caído).
Estou por fio, há anos. O que, provavelmente, implicará que viverei até ao fim assim – por um fio. O mesmo será dizer que todas as minhas investidas não passam de teatralização – crio a ilusão de evolução quando, na verdade, me acautelo o mais possível para que o fio não quebre. É a chamada fuga para a frente. E nem vale a pena pôr-me a pensar em esquemas para me livrar deste estar. O mais certo é que cada um mais não seja do que o prolongamento de todos os outros, a não ser que consiga fazer como aquele tipo da Alegoria da Caverna que resolveu romper com tudo e enfrentar a luz do sol. Acontece que, para isso, preciso de saber onde fica a saída da caverna. Alguém sabe por aí? É que parece que Platão acreditava que bastava a ousadia, a dúvida e a agitação para nos dirigirmos para a saída, mas eu não estou assim tão certa disso…

terça-feira, 2 de abril de 2013

Estou a lutar

Andamos aflitos. Agarrados a boias, lutamos, ainda que cada vez mais descrentes num futuro promissor, lutamos. Talvez seja a inércia a nossa força motriz mas uma coisa é certa – se não estivermos atentos ela tende a afastar-nos uns dos outros.
Hoje falei com amigos com quem não falava há mais de um mês, e isso é muito. Tenho outros com quem não falo há mais de um ano! E outros há quase.
Navegamos, agarrados cada um à sua boia, e deixamos que a corrente nos afaste, tal é a urgência de pescar nos limites das nossas margens. Temos os olhos fixos, o olhar preso. Deixámos de nos ver uns aos outros. E quando a consciência nos alerta e as saudades apertam, sentimos, do outro lado da linha, a urgência dos afazeres misturada com aquela que nos sossega a nós e a eles. Está tudo bem, não te preocupes. Estou a lutar.

As mulheres e as bruxas, ou as bruxas das mulheres

Há uma pequena, às vezes grande, bruxa que habita em todas as mulheres. Sempre que as coisas não correm de feição, sempre que a frustração espreita, a bruxa emerge e ai de quem se lhe atravesse no caminho!
Eu sempre disse que a vida não me venceria mas, ultimamente, ando com a impressão que a bruxa está a levar o melhor de mim.

O que nos move

A profundidade, a riqueza de uma pessoa, revela-se nos motivos que estão por detrás de uma determinada atitude. Assim como a sua mesquinhez. É-se tão mais rico quanto mais profundos forem os motivos e tão mais mesquinho quanto mais superficiais forem os mesmos.
Quem avalia os níveis de profundidade ou de mesquinhez são aqueles que observam e não os atores propriamente ditos. E é por isso que a riqueza e a mesquinhez são grandezas relativas. Porque a avaliação depende do grau de profundidade, riqueza ou mesquinhez do avaliador. A uma pessoa não lhe é dado ver o que não conhece ou identificar o que nunca viu.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Dia das mentiras

Dada a banalidade em que a mentira se deixou cair, o dia de hoje passa a ser o Dia da Verdade por se entender que esta também tem direito à vida, nem que seja para existir apenas uma vez por ano.

sábado, 30 de março de 2013

Há estados aos quais ninguém deveria de ter de se habituar

Há quem acredite que são um grupo frágil, daqueles que cairão em caso de catástrofe, humana ou natural. Há quem acredite nisso. Eu não.
Vejo-os praticamente todos os meses e praticamente todos os meses lhes temo a sorte, mas eles lá estão, de pé ou a cambalear, na fila ou amontoados, à espera da sopa.
Vivem na rua, dentro de caixas de cartão, alguns, em cima de uma espécie de colchões, outros, e outros ainda, nem isso têm, só os cobertores que certas pessoas vão arranjando para lhes dar. Enrolam-se neles como chouriços e muitas vezes nem acordam para comer. Deixa-se o que for, exceto sopa, ao lado e reza-se – quem sabe e quer – para que não o roubem.
Ontem, em frente à estação da Stª Apolónia, recusaram-se a fazer fila. Um homem de meia-idade, cambaleante já, gritava que tinha ficado farto de filas na tropa; que as filas lhe faziam lembrar coisas más e que não, não fazia fila. Tinha sido o primeiro a chegar, deem-me uma sopa que me vou já embora. Outros, muitos, seguiram-lhe o exemplo. A coisa complicou-se, tanto mais que um jovem, gingão e provocador, entendeu que aquele era o seu território e só lá estaria quem ele quisesse. Ao murro e ao pontapé expulsava um negro cambaleante  que voltava sempre, mudo, provocador também, arrastando os pés como se um fio o ligasse àquele lugar. Era ver o outro a empurrá-lo para lá da esquina e vê-lo a ele a surgir dela como do nada, teimoso.
Um olhar mais atento encontraria, de pé, orgulhosa, de prato de sopa na mão, a jovem para quem o Ivo – assim é o nome do gingão – caminhava e se pavoneava, enquanto o outro desgraçado ia semeando pelo chão peças de roupa que os empurrões, os socos e os pontapés lhe iam arrancando. Palavra de honra que tive vontade de mostrar a toda a gente, principalmente à estúpida da rapariga, o que de desgraçado, pobre, imbecil, ignorante e mau habita no corpo magro e gingão do jovem pavão, mas não é essa a nossa missão e, por isso, terminámos o que tínhamos ido fazer e deixámo-los, mais uma vez, entregues às suas vidas.
Um dia, se algo de mais grave acontecer, se uma catástrofe se virar contra nós, penso que muita desta gente será aquela que melhor sobreviverá. Catástrofe é coisa do dia-a-dia. E os que ainda não se habituaram a ela, habituar-se-ão, com o tempo.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A galinha da vizinha, afinal, é tão boa como a minha


Estive a ver uma sequência de imagens extraordinárias. Aliás, há imagens verdadeiramente surpreendentes, muitas delas mistos de natureza e humanidade, construções harmónicas, não necessariamente da autoria de Frank Lloyd Wright mas ainda assim, surpreendentes.
Estive a ver uma sequência de imagens de outros lugares, outras culturas e civilizações. Imagens longínquas que despertam sempre algum desejo. Desejo de estar lá e não aqui. De viver ali, naquelas casas. De me deitar naquelas camas. De pisar aqueles chãos. Sentir a sombra daquelas árvores.
Estive a ver uma sequência de imagens que me transportou aos momentos em que a luz através das cortinas de salas alheias despertavam em mim fantasias impossíveis. Certezas de que dentro daquelas casas, à luz daquelas luzes, por detrás daquelas cortinas a vida só podia ser surpreendente. Muito mais surpreendente do que aquela por detrás das minhas cortinas. E mais acolhedora. Sempre mais acolhedora. Como o são, aliás, todas as casas alheias.
Há um outro exercício, também ele muitíssimo interessante, ao qual me dediquei hoje, enquanto observava uma sequência de imagens extraordinárias. Trata-se de colocar o que é meu naquilo que não é. Por outras palavras, encontrar, não as diferenças, mas as semelhanças. É um exercício extraordinário que, tal como as imagens, me consegue transportar para um estado de espírito fantasioso, talvez, mas de uma fantasia muito mais alcançável.
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Da entrevista - a tal

Não vi, e nem a ouvi. Cá em casa fizemos questão de permanecer nesses canais alienatórios que dão filmes e coisas. Não que estejamos, todos, fartos de política, há quem não esteja (e não sou eu...) mas o certo é que ao imaginar a imagem, a voz, a postura superior do entrevistado (aposto em como não a perdeu, antes pelo contrário) me deu uma espécie de agonia incapaz de se deixar vencer pela curiosidade.
Ao que parece não fui a única. Num rapidíssimo périplo pelo Facebook a ideia com que fiquei é que a tal entrevista não anda nas bocas do mundo. O que pode significar que o tiro saiu pela culatra à RTP.
 

terça-feira, 26 de março de 2013

Saudades de viajar

Viajar não é importante, é essencial. Quem viaja vê os seus horizontes expandidos. Quem viaja cresce, amplia a perceção que tem de si, do mundo e do seu lugar no mundo. Quem viaja relativiza tudo muito mais, ao mesmo tempo que solidifica o seu ser porque nós tendemos a apoderar-nos daquilo que conhecemos e quanto mais conhecermos mais universais nos tornamos, mais sólidos, mais inteiros, mais humanos.
 
Quem se move em pequenas áreas onde tudo é sempre igual, fica pequeno também. Salvo muito raras exceções, como por exemplo Fernando Pessoa que conseguiu explorar o universo entre as paredes apertadas do seu minúsculo apartamento. Mas esse viveu uma parte importante da sua vida na África do Sul, numa época em que viajar, aí sim, não era para todos. Para além disso era um génio.
 
É claro que também existem aqueles que viajam sem darem por isso. Aqueles que se limitam a apanhar aviões, comboios ou estradas para ir de um lugar ao outro, pouco se importando com as distâncias. Aqueles que não olham à sua volta, ou quando o fazem nada veem. Também existem esses, claro. Mas são exceções. Nada mais que exceções.
 
Todos os jovens deveriam ter um programa de viagem antes de completarem os estudos ou imediatamente a seguir a eles. E deveria ser proibido a qualquer pessoa permanecer no mesmo lugar durante toda a sua vida, que é como quem diz, deveriam ser dadas condições a todos para que pudessem viajar, pelo menos uma vez por ano.
Viajar não deveria ser um luxo, mas uma necessidade. O conhecimento só se instala verdadeiramente quando vem agarrado à experiência. Viajem. Saiam daqui.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Inventores, precisam-se

Não me revejo na dicotomia esquerda/direita. Mais – irrita-me solenemente a designação tal como me irritam cada vez mais as politiquices dos partidos. Todas as ações parecem levar à obtenção de interesses partidários. E o povo pá?! Que se lixe o povo.
O estranho no meio de tudo isto é que acabo por me rever muito mais em filosofias que, segundo os especialistas, se encaixam mais à direita. Para mim, não estou nem de um lado nem do outro, sendo que posso até oscilar consoante as ocasiões. Sou, e disso não tenho a menor sombra de dúvida, pela justiça. E sei muito bem o que isso quer dizer, ao contrário de muita gente que anda para aí a apregoar que a justiça está na igualdade de proveitos. Sou pela igualdade, sim, de oportunidades. E depois, cada um que faça o melhor que sabe e quer. É isso a liberdade. Sou pela liberdade. Pela liberdade e pelo respeito. Coisas que cada vez menos vislumbro naqueles que fazem política. Está tudo muito bem, desde que esteja de acordo com as suas ideias. Enfim…
Anda por aí um jornal online que, de vez em quando, diz coisas interessantes. Não as tenho divulgado porque embirro solenemente com o nome. Por causa dele cheguei à conclusão que isto de se ser uma coisa ou outra depende menos de nós do que se poderia supor. Ele há coisas que somos porque sim. Está-nos no sangue como se sempre cá tivesse estado ainda que tenha sido posto. Ao fim de uma série de anos, sabemos lá nós o que é posto ou já cá estava!... A palavra esquerda irrita-me. Associo-a a poucochinho, a pobreza, a ignorância. Depois oiço falar a Ana Drago, por exemplo, ou o Bernardino Soares e não só gosto de os ouvir como posso até concordar com certas coisas que dizem.
Anteontem, numa conferência a que assisti, afirmava-se perentoriamente que não existe democracia sem partidos políticos. Lá está! É também a isto que eu chamo de poucochinho. A esta incapacidade de abrir mão dos modelos existentes. Afinal quem é que inventou os modelos políticos? Não foram aqueles que, sentindo-se irresistivelmente atraídos por uma determinada ideologia tiveram de inventar uma forma de a pôr em prática? Ora novas ideologias não param, com certeza, de assolar as cabeças de quem não dorme à pala de uma crise criada por interesses de quem, provavelmente, ainda não perdeu o sono. Portanto, a matéria-prima está lá. Só falta o know-how.

sábado, 23 de março de 2013

O que me está a faltar

Sabedoria. Sabedoria daquela que já está tão entranhada que não precisa do momento em que se pára para pensar, para passar da teoria à prática. Sabedoria daquela que já se instalou no dia-a-dia, na prática das coisas, das atitudes e das reações. Está a faltar-me muito mais do que aquilo que eu julgava faltar. Presunção minha. Convencimento de que basta o racionalizar da experiência para que as práticas se alterem. Não é verdade. Em circunstâncias semelhantes continuo eu mesma. Quase sem alteração a não ser na consciência de que continuo eu mesma, de que não fui, ainda, capaz de mudar.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Entre o que somos e aquilo que julgamos ser vive um universo inteiro

É extraordinário o número, e o tipo, de porcarias que vamos acumulando na psique ao longo da vida. Porcarias de que nem consciência, na maior parte das vezes, temos. Anos depois, quando se manifestam, vêm disfarçadas e passam por coisas que pouco ou nada têm a ver com a sua verdadeira origem. É preciso tempo, paciência, coragem e alguma sabedoria para discernir as origens dos tiques que acumulamos, muitos deles nas entranhas, porque nem se atrevem a ver a luz do dia.
Desde miúda que tenho comigo uma necessidade que me empurra para agradar a gregos e a troianos. Trata-se de uma força poderosa que me exclui em absoluto da equação, mas lá tenho obedecido apesar de ficar exausta, já que muitas vezes não me apetece nem o caminho de uns e nem o de outros. Por mim seguiria em frente, nem que fosse sozinha. E tenho obedecido convencida de que o faço pelo prazer que sinto em ver os outros felizes.
Perante isto posso pelo menos concluir que no meio da ignorância fui capaz de tirar deste particular algum prazer. Já não é mau. Mas como coragem não me falta e sabedoria também tenho alguma, lá acabei por discernir a origem de tamanho disparate. Pena é que só agora, só agora, a idade e a experiência permitam que todos os dias uma luz se acenda. Mas vale mais tarde do que nunca. É que esse discernimento é fundamental! Sem ele, dificilmente se consegue o abandono de certas atitudes, de hábitos, vícios, medos e manias que nos estreitam o horizonte, nos encolhem a alma e nos fazem acreditar que somos isto, só isto e nada mais do que isto.

domingo, 17 de março de 2013

Chipre

O governo do Chipre, com Christofias à cabeça, entrou em banca rôta. O próximo presidente, saído das mais recentes eleições, Anastasiades, tentará a todo o custo resolver o problema que Panicos, o presidente do banco central cipriota, não consegue - o eurogrupo decidiu resgatar os depósitos bancários dos cipriotas, deixando-os com uma mão à frente e outra atrás fazendo jus aos nomes de todos os intervenientes neste pequeno texto. Eu passo a explicar.
 
Em Portugal, e desde Rafael Bordalo Pinheiro, toda a gente sabe que fiar não é uma coisa boa. Christofias, ao que parece, não sabia disso. Entretanto, não se sabe até que ponto o nome do presidente do banco central daquele país - Panicos -, teve ou não influência no estado de espírito dos cipriotas mas uma coisa é certa, só mesmo alguém de nome Anastasiades, poderá, eventualmente, ter presença de espírito para fazer face a todo o drama que, agora fora de brincadeiras, assola o povo de Chipre.
 
Espreitem aqui. Ponham os olhos nisto e previnam-se. A minha avó sempre me disse que nas costas dos outros, vemos as nossas.

Não gosto da pobreza. De nenhum tipo de pobreza. De coisas pequeninas, comezinhas, feias e pobres. Não gosto de imitações. Não gosto da pobreza.

Fizeram-nos acreditar na nobreza do trabalho braçal e da pobreza enquanto enchiam os bolsos, e as casas, de descendentes ociosos e loiças caras.
Ainda hoje há quem enobreça essa miséria – as artroses incapacitantes e a falta de dentes de quem alancou fardos impossíveis e nunca ganhou para o dentista. Mais!, de quem nunca conseguiu comer decentemente. Esse foi o Portugal dos anos 30, 40, 60, do século passado. Um país pequenino e miserável, de gente esforçada mas ignorante e absurdamente crente nas baboseiras impingidas por uma religião que desde a idade média que faz de tudo, e quando digo de tudo é de TUDO mesmo, para enriquecer mais e mais e mais e cada vez mais. Uma religião que oferece o céu aos pobrezinhos! (Estou capaz de apostar em como há quem dependa tanto dela que chegue a acreditar que os seus membros, ao viverem na opulência, no conforto e na proteção que a maior parte dos povos nem sonha, se sacrificam pela humanidade!...)
Portugal cresceu. O mundo cresceu. E a ignorância, embora subsista, tende a ter cada vez menos voz. Vivemos num país que pode até estar pobre – na verdade nunca foi rico -, mas que se soube munir de instrução, cultura e conhecimento. Um país repleto de gente difícil de enganar e, por isso mesmo, mais difícil de manobrar. Contudo, continua a existir um fator dominador que deve, que tem de ser combatido. E hoje, tal como ontem, só funciona na divisão. O medo de ser despedido; de não encontrar sequer emprego; de não ter meios de subsistência leva à submissão, à aceitação muda de estados ilegítimos, injustos e perniciosos. O medo de seguir em frente; de casar; de ter filhos levará a seu tempo ao desaparecimento de nós.
Ficarão eles. Aqueles que não sabemos bem quem são mas que continuam, ainda que de formas mais subtis, a dominar as massas que somos nós. Mas uma coisa é certa, da forma como temos crescido, cada vez mais terão de aguçar o engenho e, com o tempo, também eles hão de perder poder.

sábado, 16 de março de 2013

Malabarismos

Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência. Eis o segredo. Eis a dificuldade. Eis…ia dizer a dor mas reconheço o exagero. Dor é outra coisa. Dor é coisa que segue desgraça e eu estou a falar de um caminho que se quer de graça. E agora até parece que a mente me fugiu para as despesas. Não. Refiro-me à graça que se opõem à desgraça. Sim, essa, porque a outra não existe. É uma ilusão. Sabemos disso desde os anos 30 do século passado, ainda que se ignore o cérebro que a tal conclusão chegou. Eis então o segredo; eis a dificuldade. Abdicar. Abdicar de coisas que nos acompanham há séculos e que espelham o nosso percurso, só porque não cabem dentro de casa. Abdicar de decisões para nós primordiais e muito muito superiores a outras quaisquer – não tivessem sido elas as nossas companheiras de luta até à data. Abdicar de saberes. Subvalorizar experiências preciosas, só porque (só porque – reparem!) as do outro existem! É isto, também, a vida. A alternância entre a certeza e a incerteza; a revisão dos valores; a adaptação das crenças; a aceitação do outro, tão diferente de nós! Carregado de ideias estranhas, esquisitas, despropositadas porque não são as nossas. E tão mais despropositadas quanto mais delas se afastam.
Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência. Aprendizagens que se fazem com tempo, muita paciência e aos empurrões. Há coisas demasiado empedernidas em almas quase sexagenárias!
Adaptação é a palavra de ordem. Adaptação e cedência. Aprendizagens que se fazem devagar, hora a hora, com muita calma, como se estivéssemos a atravessar um cabo, suspenso q.b., de barra de equilíbrio nas mãos e um pé sempre à frente do outro. Cuidado! É importante que o calcanhar do da frente se una à ponta dos dedos daquele que fica para trás. E vale a pena lembrar que as posições, para que se avance, têm de ser alternadas.