terça-feira, 16 de julho de 2013

Estar vivo nem sempre é o contrário de estar morto

Habituaram-nos a pensar a vida como uma obrigação, um tem de ser, uma coisa que nos acontece e que temos de cumprir com sacrifício, esforço e espírito de cruzada e acreditar, apesar de tudo, que fomos abençoados só pelo facto de termos nascido como se tivéssemos feito muito mal a alguém e agora estivéssemos a  pagar por isso.
 
Nunca consegui engolir essa história. Ainda que seja obrigada a reconhecer que ela vive entranhada em mim e condiciona certos dias, certos momentos.
 
Curiosamente, condiciona-os muitas vezes pela negativa. Eu explico. Sou tão contrária ao sacrifício que sempre que me disponho a fazer qualquer coisa, não porque goste mas porque aprecio os resultados do depois e não tenho dinheiro para pagar a quem o faça, fico com o mesmo humor dos sacrifícios e das contrariedades apesar de o meu coração se sentir feliz com os resultados.
 
Ontem montei dois móveis e pendurei dez quadros. De dia para dia, e desde que entrei de férias, a casa está a compor-se, a deixar de parecer um acampamento cheio de caixotes e de coisas por fazer, para passar a ser um lar que dá vontade de cuidar. Até já me apetece regar as plantas! É verdade, nem as plantas mereciam a minha compaixão tal era a desarmonia! Não me dou bem com desarrumação. Não gosto de viver no caos. Gosto de ter as coisas no seu lugar e dá-me um prazer imenso vê-las cuidadas à minha volta e isso, só por si, deveria ser motivo de alegria e o suficiente para me aliviar o semblante que durante todo o processo se deixa pesar julgando ser sacrifício o que não passa de opção, escolha consciente e voluntária.
 
E não o são todas e sempre?
 
Não, nem todas são conscientes e muito menos voluntárias. Montámos uma máquina que não trabalha sem nós e quisemos acreditar que somos nós que não funcionamos sem ela. E como ela é, na verdade, contrária à nossa natureza – que nos impele à liberdade, ao desprendimento e à preguiça -,  resolvemos mudar, teoricamente, a tal natureza e espalhámos por aí que somos seres predestinados ao sacrifício e à dor.
 
Assim, à excepção de uma meia dúzia de sortudos que podem pagar a quem de direito para arrumar o seu pequeno mundinho. Os outros, como eu, suam as estopinhas para o fazer. Mas uma coisa é certa – o gozo que eu hoje sinto quando olho para os móveis e para as paredes, eles desconhecem.
 
E posto isto, estou quase a chegar à conclusão que afinal os sacrifícios valem a pena. Foi assim que nos enganaram. Se eu tivesse podido, já tinha as coisas mais que prontas e a esta hora estava, com certeza, a fazer algo muito mais interessante e a sentir-me ainda mais feliz, que isto de estar vivo tem que se lhe diga – sem os mínimos, na minha opinião, não vale a pena.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O que me apeteceu e o que não me apeteceu

O que é que vais fazer hoje? Perguntou ele antes de sair. O que me apetecer, respondi com a mesma convicção com que se afirma que, naquele momento, se está com sede.
 
De facto tudo indicaria que sim que, tendo o dia por minha conta, dele faria o que muito bem me aprouvesse. Em parte assim aconteceu, noutra não e cheguei aqui, praticamente ao fim do dito, com um rol de cumprimentos de meter inveja a um vulgar dia de trabalho.

 
É pena que exista uma fdp de uma regra que sempre me acompanhou, pelo menos desde que me lembro – um dia que começa bem, nem sempre acaba da mesma forma. Muito pelo contrário.

 
E se hoje me levantei cheia de energia e de vontade. Deitar-me-ei, por certo, com uma disposição bem diferente.

 
Amanhã, deixo-me ficar a fazer, só, o que me apetecer.

 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Do Pessimismo

Sem dúvida uma perspectiva diferente de ver a vida. Mas não é disso que se precisa? de perspectivas diferentes?
 
Esta está com muita graça e, apesar da existência de um ou outro argumento menos sólido e da dúvida sobre aquilo que a sustém - eu preciso de perceber a base de todas as teorias. Sem isso não sou capaz de as corroborar. Trata-se daquela minha mania da importância da dualidade e da subsequente crença na existência de um Bem e de um Mal maiores que disputam a hegemonia aqui e ali (o ali fica ao vosso critério) e que, tanto um como outro, utilizam tácticas muitas vezes contrárias a si mesmos. Afinal é uma mania como outra qualquer. Apesar de disto, dizia eu, contribui em muito para algo que considero fundamental - a capacidade de distinguir o que é, daquilo que parece ser.
 
E posta que está esta introdução, fiquem-se com o discurso que vale a pena.
 
 

sábado, 6 de julho de 2013

Respirar de alívio, o tanas!

E pronto, digam lá que não sentiram um certo alívio na reposição do normal e até lhes passou pela cabeça que do mal o menos e que até talvez quem sabe as coisas estivessem a andar e mais vale ficarem lá eles do que gerar uma crise política que como se viu num único dia vai dar cabo disto tudo por causa dos tais mercados? Hem?!
 
O meu companheiro está a construir uns canteiros elevados aqui no quintal. O que já está pronto é para uma pequena horta (quando tiver hortículas, prometo fotos) e o outro, que ainda está em construção, vai transformar um dos cantos do quintal numa espiral de aromáticas. Só o nome é convidativo! É claro que vamos ter de arranjar manobras de diversão que tanto podem passar pela criação de um ambiente equilibrado onde, por exempo, aves insectívoras façam os seus ninhos para nos comerem as moscas e as lagartas que eventualmente nos possam visitar. Como podemos tentar resolver todos os problemas com a exposição de espantalhos e esperar que todos os seres indesejáveis se assustem na sua presença.
 
Mas nem sempre os espantalhos são eficazes. Nem toda a gente se assusta assim e, mais cedo ou mais tarde, os rabos que ficam de fora deixam-nos a pensar nas coisas.
 
Por exemplo. Ontem noticiou-se o encerramente da Maternidade Alfredo da Costa.
 
Ora, a minha neta está a pensar nascer lá porque, para além de estar sempre cheia e de já termos reservado espaço para ela, a MAC está equipada com a melhor tecnologia que por aí se vê.
 
Então, por que carga de água vai chegar?! Vamos lá pensar um bocadinho! Quem beneficia com o seu encerramento? O Hospital D. Estefânia que nem lhe chega aos calcanhares?! Claro que não! Os privados! Ora bem! Os privados!
 
E, meus caros, é isso que nos andam a fazer, a tentar eliminar tudo aquilo a que temos direito – porque o conquistámos. Exactamente. Conquistámos. E quem tem comido a sopa que nos querem enfiar pela garganta abaixo de que temos andado a viver acima das nossas possibilidades, espreite aqui, ou noutro sítio qualquer, porque o problema prende-se com manipulação de massas através de informação tendenciosa.
 
Bom, seja como for, eu quero que a minha neta nasça na MAC e farei todo o ruído que puder para que isso aconteça.
 
Já agora, deixo aqui registada uma outra dúvida que me tem assolado. Das tretas, truques e enganos com que nos tentam manipular, a gente lá se vai apercebendo de um ou de outro. Mas que truques, tretas e enganos tem quem de direito vendido aos nossos, e aos dos outros, supostos governantes? – e digo supostos porque já estamos todos carecas de perceber que não passam de meros espantalhos pregados na horta para nos assustar. Será que o fim do mundo está próximo e lhes prometeram lugar na poucas naves que, escondidas, os levarão para um novo mundo?!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ana Drago e Raquel Varela, ou vice versa, tanto faz

Numa altura em que quase todos os políticos me causam náuseas, estas duas mulheres têm-se destacado. No bom sentido, evidentemente. Quando as oiço sinto que talvez haja esperança, que, num futuro, não sei se próximo se longínquo, pode ser que isto se endireite. Pode ser que elas não se corrompam. Pode ser que consigam singrar.
Esta:

E esta: E, já agora, oiçam-na aqui.

Os sovinas das notas

Não, não são notas de música e muito menos daquelas com que se compram as bananas, e todas as outras coisas que gostamos, ou gostaríamos, de comprar. São notas classificatórias estas de que vos falo, e os sovinas são alguns dos velhos professores que acreditam que ficam mais pobres se as derem e nem sequer percebem que, ao guardá-las para si, estão a limitar a concorrência dos nossos jovens às universidades internacionais.
 
Eu explico. Por exemplo, alguns dos professores do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, mais conhecido por ISCSP – outra coisa que não se compreende muito bem já que custa tanto a pronunciar -, principalmente na licenciatura em Ciências Políticas, acham que 14 é uma nota extraordinária. Tão extraordinária que dá direito a bolsa de mérito!! E quem não acredita pode ir lá espreitar. Estão lá os nomes daqueles que, tendo terminado a licenciatura com média de 14, foram agraciados com uma bolsa de mérito.
 
Ora, meus senhores, 14 é um cocó de uma nota em qualquer cidade europeia. Se querem ver os nossos jovens a frequentar mestrados nas melhores universidades da Europa, têm de ser menos sovinas. Até porque, se alguém merece bolsa de mérito, merece um 18 ou um 19.
 
Mas…espera! Se calhar não querem! Tu queres ver que é isso! Os fulanos não querem ver os nossos jovens nas melhores universidades da Europa porque eles também estão vendedores de mestrados! Tão queridos estes tugas! Depois de formados até podem andar à procura de um trabalhinho qualquer lá fora. Pode até ser a servir à mesa. Mas, para gastar em mestrado que o façam por cá.
 
Outra coisa que não deixa de ser curiosa é o facto de se tratar de política e de políticos. Sim, porque muitos do professores do referido Instituto, que é público para quem não sabe, são tipos que estão, ou já estiveram, ligados ao governo - a este ou a outro qualquer. E correm por aí vários boatos que esta gente não é de fiar, que coça para dentro, que tem enchido os bolsos à nossa custa. Enfim...da fama não se livram e quando uma pessoa que, como eu, que sabe tão pouco disto, se põe a pensar, surge-lhe logo um quadro duvidoso, nada favorável às boas intenções e seriedade dos referidos.
 
Contudo, e por muita maldade que circule por aí, a vida segue o seu próprio rumo e muitos dos nossos jovens, quer vocês queiram, quer não, estão determinados a procurar reconhecimento e mérito por outras paragens. Paragens mais fiáveis, mais sérias, mais isentas de interesses próprios e, mesmo que não consigam entrar, como gostariam, nas universidades de topo, entram noutras e piram-se daqui para fora.
 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A eterna luta entre o Bem e o Mal

Têm-se desprezado certas banalidades acusadas de serem exatamente isso - banalidades -, embora as próprias nem tenham conhecimento do que delas pensam certas pessoas. Aliás, as mesmas que espalharam o que muitas vezes não são mais do que boatos. E um boato, por mais inocente que seja ou possa parecer, é sempre iniciador de uma mudança se for capaz de agradar primeiro a este, depois àquele, e mais tarde ao outro. Assim se mudam valores.
 
Assim se mudam valores.
 
E não quero com isto dizer que tudo se deva manter como inicialmente. Mesmo que não se saiba quando foi esse inicialmente. Ficarmos atidos a coisas antigas, dizeres milenares ou tradições que só faziam sentido em determinados contextos que já não existem, não faz sentido nenhum.
 
Contudo, há valores humanos que por serem isso mesmo constituem as nossas bases. E os boatos que os transformaram em banalidades, fazendo de quem deles fala alguém que abre a boca para falar de lugares comuns, não são inocentes.
 
Se calhar era bom que recomeçássemos todos a dizer certas banalidades como, por exemplo, as mudanças fazem-se a partir de dentro, e, não faz sentido querer mudar o mundo quando ainda não nos mudámos a nós, ou mesmo, cá se fazem, cá se pagam e a vida é curta há que fazer com ela o melhor que se sabe não vá o diabo tecê-las e a alma ser mesmo imortal…
 
Estas e outras banalidades que nos recordem a nossa verdadeira dimensão e lugar, bem como as nossas obrigações morais e éticas, só podem ter sido conspurcadas por quem defende interesses que não são, não de perto nem de longe, os comuns.
 
Pensemos em Walt Disney e na sua crença de que a sabedoria do mundo era simples porque era dual – o bem e o mal e a sua eterna luta. Quem sabe o homem tinha razão? Quem sabe as coisas afinal até são simples e o problema maior reside nos indecisos que as duas fações da vida disputam incessantemente?

terça-feira, 2 de julho de 2013

Viver no campo #2 ou O circo continua

Sem inspiração nenhuma, sento-me à frente do computador e deixo os textos  correrem, mais por hábito do que por interesse. A noite mal dormida, ou pouco dormida, o que vai a dar no mesmo, transtornou-me o resto do dia e sinto-me pior do que quando saímos de um lugar a uma hora e chegamos a outro umas horas antes. Até porque não sou pessoa de sofrer de jet lag. Se reina a Lua, durmo, se reina o Sol, estou acordada. Sou bastante primitiva nesse campo, e provavelmente noutros também, por isso não me afetam as viagens e os desnortes. Agora, o que me afeta e, ao que parece, cada vez mais, são as trocas horárias. As necessidades de trabalhar com a Lua e dormir depois mais um bocadinho quando o Sol está tão acordado. Isso sim, desnorteia-me. E foi isso que aconteceu hoje – trabalhei pela noite dentro e como não fui capaz de dormir a manhã toda, deixei-me cair no sofá depois do almoço e ferrei de tal maneira que quando finalmente consegui espreitar pelo canto do olho, já se tinha ido o dia praticamente todo e estava aí a hora do jantar.
 
Certo é que acordei quando ele entrou ou, para ser mais precisa, espreitei pelo canto do olho quando ele entrou porque para acordar precisei de mais meia hora, mesmo com ele a tentar chamar a minha atenção com as notícias, frescas para quem passou a tarde a dormir – o Portas demitiu-se! De imediato me senti desgovernada, sentimento que, aliás, já tinha tido ontem aquando da demissão do Gaspar mas, ainda assim, nada que se compare com a aflição que me deu quando soube quem é que o ía substituir. Então ainda no domingo eu tinha estado a ler uma coisa qualquer com swaps e uma Maria Luís e agora a gaja ía para ministra?!
 
Há pouco, após a tal sensação de desgoverno, dei por mim a pensar que o Portas é bem capaz de ter em mente um protagonismo maior para a sua pessoa e por isso é que se demitiu. Ou então é verdade que ficou agoniado, como eu, com a tal Maria Luís. Uma coisa é certa, sinto-me feliz por viver no campo. Para quem não sabe, é uma forma milenar de nos mantermos mais ou menos alheios a certas movimentações de gente que não interessa nem ao menino Jesus. O grande senão é que viver no campo já não é bem o que era e eu, apesar de ainda estar sob o efeito da troca de horas, não posso deixar de me sentir angustiada quando me ponho à procura de soluções em forma de substitutos e não consigo vislumbrar ninguém.

Nota de última hora: Ao que parece o Passos recusa-se a entregar ao PR a demissão do Portas. Começo a sentir o mesmo frenesim que senti há muitos anos, quando o Scolari nos convenceu a pôr bandeiras nas janelas e a apoiar a selecção. Agora sim, compreendo todos estes laços, quase nós cegos diria mesmo, entre o futebol e a política. Estou em pulgas para ver o resultado dos próximos jogos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Viver na Margem Sul

A cadela mal se mexe. Deitada no sofá que ocupou selvaticamente desde o dia em entrou cá em casa, não diz ai nem ui a não ser quando a desafio para sair e, mesmo assim, a meio do caminho já leva a língua pendurada e olha-me com olhos de quem suplica o regresso porque já não aguenta o calor.
 
Tosquiei-a há três dias. Parece um rato pelado. Um vizinho aqui da rua admirou-se com a elegância do bicho. Parecia tão gordinha! Afinal é toda elegante! Elegante é um eufemismo. A criatura ficou com patas tão altas e magras que parece que a qualquer momento se vai desconjuntar. Cada vez que a olho lembro-me dos saltos que costumava usar e da agilidade com que corria em cima deles. Agora…nem dois passos daria. A idade modera-nos os exageros.
 
Quanto a mim, sinto-me bem dentro de casa embora me apeteça sair. Pensei em dar início à época balnear já que tenho o privilégio de viver a cinco minutos das praias e de não trabalhar durante a semana. Provavelmente vou pôr essa ideia em marcha. É bem capaz de me fazer bem. Levanto-me cedo, desço a rua e vou a banhos. À tarde posso até dormir uma sesta depois do almoço. Roiam-se de inveja aqueles que têm de enfrentar filas intermináveis debaixo de um sol abrasador.
 
Ainda ontem, quando regressava a casa depois de sete longas horas de trabalho fechada numa redação sem ar condicionado, os vi a todos. Às onze da noite entupiam o IC20, a A33 e a A2. Os acessos à Ponte 25 de Abril estavam atulhados! Faço ideia a que horas chegaram a casa! Bem, pelo menos viajaram pela fresca. Ou mais ou menos, porque mesmo a essa hora ainda estava calor. O idiota que disse um dia que esta margem era o deserto devia estar naquela fila a ver-me passar, ligeira, a rir-me deles, a caminho de casa.
 
E se acham que isto é ser má, é porque ainda não se debruçaram bem sobre as notícias que por aí se passeiam. Boa semana de trabalho, para quem ainda não está de férias.
 
 

domingo, 30 de junho de 2013

A génese dos grupos, partidos, clubes, associações e afins

O homem destaca-se da multidão. Sente-se injustiçado com certas decisões tomadas pela maioria e, em tom que se assemelha à queixa, desabafa com outros que se mantiveram igualmente afastados, uns por se sentirem como ele, outros porque o que sentem é o desinteresse que mora em quem não tem sentido de pertença e se julga, por isso mesmo, único no mundo.

Rapidamente encontra concordantes que, agora unidos, se sentem mais fortes e cuja razão cresce à medida que o número de adeptros cresce também. Contra a manipulação das massas! Gritam eles em resposta à palavra de ordem do primeiro homem que naturalmente se auto-elegeu líder daquele grupo.

Já não estão sozinhos. O seu ânimo alegra-se. Sentem, cada vez mais, que podem fazer a diferença, que a razão está do seu lado e esquecem, quase de imediato, a primeiríssima causa que os levou a juntarem-se para, na sequência lógica do processo, elaborarem todos os documentos que alterarão a vida de todos, inclusive da maioria de quem, inicialmente, se destacaram, para melhor. E isso, nem se questiona, é para melhor. Eles é que sabem. Eles sentem o que é não pertencer a lado nenhum. Eles já foram daqueles que não se deixaram manipular.

E, na ânsia de mostrar ao mundo a solução mágica para todos os problemas, vão gritando as suas razões, arrastando o maior número possível de adeptos, desprezando qualquer um que não partilhe das suas ideias .

O seu desejo é, agora, o de serem, eles próprios, uma maioria.

 

sábado, 29 de junho de 2013

Curiosidades

A Quinta da Fonte Santa, em Caneças, outrora pertença de um dos irmãos Quina, o Miguel, casado, à época, com uma filha dos Condes da Covilhã, continua a ser um lugar privilegiado, apesar de ter mudado de mãos pelo menos duas vezes após o 25 de Abril de 1974.
Os seus antigos proprietários davam, por lá, festas mais poulares do que deslumbrantes. Era gente dos toiros, do fado e dos cavalos e o Quina gostava de reunir tanta gente quanta por lá coubesse, para comer e beber. Foi lá que aprendi a andar a cavalo e foi lá, também, que recolhi importantes referências que têm pesado nas escolhas que tenho feito ao longo da vida.
Na sequência da Revolução dos Cravos a quinta foi ocupada e permaneceu, durante um tempo que não sei determinar, nas mãos da população da zona que dela fez escola de equitação para o povo, acabando por dar prejuízo, coisa que eu prefiro não comentar.
Mais tarde, não faço ideia de que forma, foi entregue, como pagamento de dívidas – de quem, não sei -, ao Banco de Portugal e é nesse pé que agora está – transformada numa colónia de férias para familiares e amigos de todos os que trabalham na instituição.
Ao fim de todos estes anos voltei lá e levei comigo a Puca, que desde ontem se encontra nua de cabelo, não sei se humilhada, mas estranha, sem dúvida alguma, porque eu, inexperiente nestas coisas de cabeleleireiros, a tosquiei à máquina zero.
Voltei lá dizia eu, e levei-a comigo. O bosque continua deslumbrante, a quinta com a mesma dimensão que eu conheci. Os edifícios relativos à colónia de férias são bonitos como, aliás, todas as infraestruturas construídas para esse fim. Trata-se de um espaço maravilhoso, cheio de árvores e carreiros que faz as delícias de qualquer amante da natureza e, sem dúvida nenhuma, de qualquer canídeo.
Contudo, para grande espanto meu, não é permitida a entrada a cães no recinto – atenção que não se trata de “um recinto” mas do espaço que acabei de descrever. Porquê? Não faço a mínima ideia, parece que tem qualquer coisa a ver com as doenças. Tu queres ver, pensei eu de mim para comigo, que trazem para aqui crianças com maleitas que ainda me pegam uma traquitana qualquer à cadela?

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Mitos

Tempos houve em que se acreditava que aos bebés se deveria alimento e bom descanso. Tocar só o necessário. E beijar… era coisa a evitar por causa dos germes.
Muitos cresceram assim. Sem grandes demonstrações de afeto. Sem toque. Sem beijos. Sem abracinhos ou carícias.
Esses bebés, os que cresceram assim, tornaram-se adultos desajeitados. Não que não sintam afeto, mas não sabem como o demonstrar e sofrem, muitas vezes, de uma falta qualquer que não identificam. Contudo, conseguiram dar aos filhos um pouco mais do que aquilo que receberam dos progenitores. Ainda assim, muito pouco.
A coisa foi-se repetindo de geração em geração até se atenuar o suficiente para que os danos não se tornassem completamente irreparáveis e, hoje, podemos dizer que existiu uma geração que deu à luz gentinha mais ou menos saudável.
Mais ou menos…
Os adultos que cresceram sem demonstrações de afeto, os primeiros aqui referenciados, ainda existem. Velhinhos, mas existem. Com a idade refinaram as carências e são agora pessoas que nunca foram realmente adultas e que, por isso, se sentem traídas pelo seu próprio corpo. Algumas dessas pessoas até tiveram a sorte de não precisarem assim por aí além de se responsabilizar, nem por si nem por os outros – tiveram quem fizesse isso por eles. Esses são os piores. Vivem como se todos lhes devessem e ninguém lhes pagasse. Só estão felizes quando o mundo se põe, como que por magia, de acordo com a sua vontade e, por isso mesmo – porque o mundo raramente se põe conforme a nossa vontade -, andam quase sempre trombudos, responsabilizando fulano, cicrano e beltrano pelos seus infortúnios que podem ir desde a avaria do televisor ao sol que entra pela janela.
A todos aqueles que estão agora em idade, e predispostos, a serem pais e mães, por favor não se esqueçam de abraçar muito as vossas crianças. Beijem-nas até ao sufoco. Encham-nas de mimos. Não acreditem em mitos, sejam eles urbanos ou rurais não deixam de ser mitos e, como tal, capazes de fabricar mais um batalhão de vencidos. E isso é coisa que não nos faz falta nenhuma.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

1979

Lembro-me perfeitamente. Amesterdão debatia-se sob o gelo de um Inverno pesado que tardava em acabar.
À sua volta, a maior parte dos lagos, pelo menos os maiores, serviam de pista para os inúmeros adeptos de aeromodelismo e eu, novata naquelas andanças, embrulhava-me num casaco forrado a pelo de carneiro e desaparecia numas botas feitas com a pele de um animal da mesma espécie.
Todas as casas tinham aquecimento, até mesmo o minúsculo apartamento que alugámos à última hora num Aparthotel de uma daquelas ilhas minúsculas separadas da cidade por canais minúsculos atravessados por uma espécie de jangadas suficientemente fortes para levar dois ou três carros e uma dúzia de pessoas. Era um percurso engraçado – ficávamos sempre com a sensação que um dos lados da jangada já estava a atracar quando o outro ainda não tinha começado a navegar.
Estávamos num outro mundo. Não, num outro universo. Estávamos em 1979 e Portugal ainda respirava o mesmo ar que o alimentou ao longo de 48 longos anos. Tínhamos saído da província, fechada, pequenina, mesquinha, e tínhamos mergulhado na vida.
Quando o Inverno finalmente levantou âncora fomo-nos encaixando em bares e restaurantes, todos na mesma ilha. Trabalhávamos cerca de doze horas diárias e tínhamos um descanso semanal. Recebíamos à semana, e o dinheiro era tanto que dava para estoirar no dia de folga e juntar as sobras para trazer para Portugal.
Uma vez por semana íamos a Amesterdão e, por vezes, aventurávamo-nos numa ou noutra noite mais afoita e acompanhada. Afinal de contas ficava a quinze minutos de caminho, nem tanto, e era uma cidade absolutamente fascinante.
Estávamos em 1979 e éramos felizes. Nada nos cansava. Trabalho e diversão confundiam-se e o dinheiro que trouxemos alimentou-nos durante meses.
Nunca mais vivi assim.
 

sábado, 22 de junho de 2013

eu e as sombras

Não se adquire facilmente consciência de si e os afazeres e circunstância da vida desviam-nos, naturalmente, para longe de nós.
Contudo, uma vez isolados do mundo, tornamo-nos visíveis para nós próprios e capazes de o compreender quase como um todo, por mais complexo que esse todo possa ser, e é.
Diz-se que o mundo faz parte de nós e nós dele. Pode até ser que sim. Mas eu não posso deixar de sentir que ele não passa de uma criação nossa e que, na verdade, nós existimos para lá desta materialidade a que chamamos mundo.
De vez em quando, sou capaz desse isolamento, dessa concentração, e, de vez em quando, relembro aquilo que julgo ser.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O cão pelo qual me apaixonei # 2

O cão pelo qual me apaixonei, este aqui, passou de Moo a Tommy. Pois é, os futuros donos pensaram bem, reconheceram o erro de se chamar Moo ao animal e passaram a chamar-lhe Tommy, um nome muito mais digno do bicho.
Pois hoje foi o dia da viagem. Depois de ter sido castrado, vacinado, shipado e desparasitado, após mês e meio de quarentena na quinta da Cristina, fomos levá-lo ao aeroporto e seguiu viagem, rumo a Amesterdão.
Sendo esta a época da muda, os pelos do Tommy tomaram conta dos bancos, dos vidros, do tablier, da manta que levei para proteger os estofos mas que acabou por não proteger nada e ser mais uma coisa para lavar, das nossas roupas, dos nossos cabelos, dos nossos narizes, da nossa paciência e quanto mais stressado, mais pelo o animal largava mas, apesar de tudo, portou-se que nem um gentleman. Esperou, pacientemente, uma hora dentro do carro, para nós podermos almoçar e recebeu as senhoras das instituições e hospedeiras de terra, de cauda a abanar e olhar meigo. A maior dificuldade foi mesmo enfiá-lo dentro da caixa de transporte, voltar a tirá-lo de lá porque a caixa, para passar no raio X tem de ir vazia, e voltar a metê-lo lá dentro.
Depois de três horas nestas andanças, lá seguiu viagem. Ficámos nós por cá com uma lagrimita ao canto do olho mas felizes porque, afinal, não sairá da família e pode até ser que o voltemos a ver se a crise nos deixar voar, mais uma vez, até ao Mar do Norte.
 
 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Do ativismo e do seu contrário que não é indiferença, nem preguiça, antes uma forma diferente de estar

Ele é um ativista. Não sei se nato se adquirido, mas um ativista ainda assim. Acredita piamente na forte influência que a sociedade exerce sobre cada um de nós, na impossibilidade de lhe fugir e na urgência de mudar leis e procedimentos de forma a que todos tenhamos, pelo menos, as mesmas oportunidades.
Dito assim tudo isto soa a perfeito. Aliás, dito assim ou dito assado. Não posso deixar de corroborar.
Contudo, não tenho veia de ativista. A minha veia, que é como quem diz, o que me move, está mais no individual do que no coletivo. Eu sou aquela estúpida que se o mundo estiver todo a arder e houver alguém preso no meio dos escombros corre para lá sem pensar duas vezes. Sou os braços e as pernas que agem em caso de emergência mas que não têm vontade que os leve a uma vida de luta. Bastam-me as minhas, as pequeninas, aquelas que tenho mesmo de travar se não quiser ser engolida.
Sou aquela que não acredita em grandes mudanças a não ser a longo prazo, na sequência das pequenas. E como sei, de fonte segura, que os seres humanos nunca atingirão o mesmo estágio de evolução, não acredito na equidade. Haverá sempre quem veja mais adiante e quem só consiga olhar o seu próprio umbigo.
No entanto, e mais uma vez, sei que os ativistas são fundamentais neste mundo de diferenças e que todos nós lucramos com a sua persistência e credulidade. Sei que, se não fossem eles, as lutas seriam ainda mais negras, mais duras, mais cruéis – como, aliás, já foram em tempos. Sei que lhes devemos muito e não posso, por isso mesmo, deixar de me sentir orgulhosa por ter um ao meu lado.
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Quo Vadis, ou a hipótese de estarmos, mesmo, todos fodidos

Quo Vadis foi publicado em 1895 e, tendo como trama central uma história de amor, fala-nos da perseguição aos cristãos, levada a cabo pelos romanos. O seu autor, Henryk Sienkievicz, foi um polaco que viveu entre 1846 e 1916.
Li este livro quando era miúda. Mais tarde vi o filme que se repete ano após ano, principalmente na altura da Páscoa, na televisão portuguesa. A leitura do livro deixou-me impressionada, na época. O filme, de tão repetido, fez-me esquecer a expressão que o autor usou para definir a sua obra - Quo Vadis?
Foi esta expressão que me veio à memória esta manhã ao recordar as notícias que ontem li sobre a Grécia. Não se tratou de nenhum destaque. Antes uma daquelas notícias a que chamam breves, que enchem as margens de certas páginas e às quais eu gosto de dar importância porque, ao manter-me afastada dos noticiários – sim, é o que tenho feito -, é lá, nas breves, que encontro por vezes o que importa mas que, porque já passou, deixou de ser principal. Refiro-me ao encerramento da estação pública de televisão, na Grécia, e aos elogios que a troika fez ao presidente grego, semelhantes àqueles que os professores, ou os pais, fazem aos filhos quando eles se portam bem. Foi essa sucessão de breves notícias, que, aparecendo separadas podem criar, a quem anda cego, uma certa ilusão de não ter nada a ver o cú com as calças mas que me deixou, a mim, agoniada e me trouxe, esta manhã, à memória, a expressão com que me apeteceu batizar este desabafo e a subsequente história da perseguição aos cristãos.
Quo Vadis? Nós? Onde vamos? Para onde vamos? O que é isto meu Deus?! Quem são estas criaturas que entram assim pela casa dos outros adentro e mudam os móveis?! E depois, por um breve instante, veio-me à cabeça algo ainda mais elaborado, assim ao jeito da teoria da conspiração – e se isto anda a ser planeado há uma série de anos? E se, no meio de gente séria, honesta, carregada de boas intenções, houve sempre um diabo manipulador que, à laia das artes marciais, tem utilizado a força do adversário para lhe cavar a sepultura? E se estivermos, mesmo, todos fodidos?

domingo, 16 de junho de 2013

Viver no campo

Devagarinho alteram-se as rotinas, relaxam os músculos – do corpo e do cérebro que também é corpo mas é mente e tudo aquilo que nós ainda não conhecemos-, adaptam-se os membros a esta nova vida, mais pacífica, mais campestre, mais feliz.
Devagarinho aumenta a vontade de não fazer nada, ou de não ter nada que fazer – que o descanso está nos apetites. Ceder a eles é descansar. Mas ainda é cedo para isso. Ainda é cedo para o descanso. As férias estão quase aí e o poder fazer-se de escassas horas horas de descanso é já um privilégio.
Bom domingo.
 

sábado, 15 de junho de 2013

Passar por cá sem deixar rasto

Continuo resistente às mudanças. Mesmo que seja para melhor, resisto. Mesmo que sejam pequenas, resisto. Mesmo que sejam insignificantes, resisto. Mudar é difícil e todas as artimanhas servem para que fique nem que seja uma coisinha minúscula que, ilusoriamente, me aconchegue na segurança do passado.
A questão é que segurança? Que passado? Não me recordo de um passado verdadeiramente seguro, sem sobressaltos, a não ser o mais remoto, aquele que antecedeu a minha adolescência. O passado anterior a Fevereiro de 75 e, mesmo assim, até desse tenho sobressaltos, terrores, desproteções.
Então que resistência é esta? Talvez seja a resistência da descrença. A resistência de quem se acomodou ao que existe e receia o que virá. A quantos não acontece isto? Esta incapacidade de avaliar a vida que se leva, este habituar-se ao inabituável, este sentar-se comodamente no incomodável?
A predisposição para a mudança treina-se ao longo da vida. Especialmente se não nasceu connosco. E é indispensável que nos tornemos mestres na aceitação da mudança já que é a única forma de evolução. Engana-se quem acredita que evoluiu só porque por cá andou muitos anos. Se nasceu, viveu e morreu no mesmo lugar, nunca passou da cepa torta. Foi como se não tivesse existido e, acreditem, há gente assim. Gente que por cá passa  sem deixar rasto.