sábado, 31 de agosto de 2013

Futilidades e coisas que não interessam a ninguém

Não sou propriamente uma pessoa fútil. Bom, pelo menos não todos os dias. Mas hoje, ao passear a vista pelas “manchetes” do Facebook sem preocupações de espécie alguma, parei numa e só essa me apeteceu ler do princípio ao fim.
 
Trata-se de um artigo do i escrito pela Rosa Ramos, sobre uma mulher a quem chamam a dona de Espanha e de quem eu nunca tinha ouvido falar.
 
Parece que a senhora, que já vai nos sessenta e um e parece ter quarenta, a cabra, é uma das pessoas mais ricas do país vizinho apesar de ter conseguido manter-se sempre, ou quase sempre, invisível, que é como quem diz protegida dos media por homens, segundo o artigo, de confiança. E veio agora à ribalta porque há coisa de um ano que namora o Pais do Amaral.
 
Mas isto, na verdade, não interessa para nada. O que interessa, isso sim, é compreender porque é que eu no meio de tantas palavras mais ou menos sábias e eruditas que nos esclarecem sobre esta crise (só a palavra me dá voltas ao estômago. Aliás, estou desconfiada que já lhe devo uma úlcera); sobre a melhor, ou antes – as melhores formas de viver nestes tempos tão complicados, fui escolher para ler de fio a pavio exactamente uma coisa que não interessa para nada. Vai-se a ver e é porque decidi pôr em prática os ensinamentos dos que andam por aí a vender as melhores formas de ultrapassarmos isto.
 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Incapacidades

Ontem, uma amiga chamou-me a atenção para a hipótese de eu me encontrar “presa” num determinado paradigma que me impede de mudar verdadeiramente o rumo à minha vida, pelo menos no que diz respeito a um vector muito específico.
 
Fiquei a pensar no assunto e conclui que ela tem, provavelmente, razão. A nossa mente pára por vezes num “frame” do filme que protagonizamos – principalmente se for um daqueles mesmo fortes -, e ali se acomoda convencida que é essa a sua realidade.
 
Por exemplo, sempre que sonho com casas, as ditas ou estão em ruínas, ou em obras, ou simplesmente desfeitas, avassaladas sabe Deus por o quê. A propósito disto, e porque hoje pela primeira vez em muitos anos sonhei com uma casa linda, luminosa, toda mobilada e construída à beira do mar, lembrei-me de um poema que um amigo teve a amabilidade de musicar e que escrevi já lá vão alguns anos – “Dessarumaram-me a casa” -, e é verdade que sim, mas também é verdade que apesar de todos os esforços que tenho feito para a arrumar não deixo de a ver desarrumada como se fosse essa a sua natural condição.
 
Todos sabemos da importância dos amigos nas nossas vidas mas, importâncias à parte, uma tarde passada em conversa com almas que respiram em sintonias muito próximas pode fazer milagres. Quem sabe a partir de hoje a minha mente passará a olhar a casa, e tudo o que ela significa, com outros olhos – olhos de quem vê uma realidade bem mais positiva do que aquela que se acomodou, há anos, na minha mente e me engana, dia após dia, fazendo-me crer parada num “frame” de um filme que terminou há muito.
 
“Desarrumaram-me a casa”, aqui.
 
Não prometo - não gosto de fazer promessas que depois poderei não cumprir -, mas, quem sabe se daqui a uns tempos não escreverei um outro poema carregado de luz e de fadas, um poema onde não haverá lugar para o abandono, para a escuridão ou para as bruxas - principalmente para as bruxas...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Vivemos na ilusão de sermos capazes quando, afinal, não abandonámos, ainda, a mesma estrada

Tudo, ou praticamente tudo, aquilo que existe alimenta o que é, mesmo quando aparenta o oposto.
 
Os partidos políticos alimentam, todos eles, esta forma de estar, criando a ilusão de liberdade num mundo onde ela nunca foi mais escassa.
 
Os comentários de ataque alimentam a ilusão de que existem livres pensadores, ou opositores credíveis e capazes, quando as mazelas que conseguem fazer, por muito que escarafunchem, são mais difíceis de encontrar do que uma agulha num palheiro.
 
A terminologia esquerda/direita alimenta a ilusão de que podemos tanto quanto podíamos há meio século atrás, quando o mundo, que nunca foi o que era, cada vez o é menos – qualquer semelhança é pura coincidência e teimar em métodos obsoletos é, evidentemente, uma forma indirecta, e por vezes inconsciente, de manter o mesmo estado de coisas.
 
E agora que já fiz o mesmo que tantos outros – vomitei o que acho de forma inconsequente e leviana -, posso dizer o que sugiro – exactamente da mesma maneira.
 
Sugiro que cada um de nós se afaste o mais possível do vampirismo. Que cada um de nós aprenda, cada vez mais, todas as possibilidades que existem de viver longe de tudo aquilo que fomos criando na crença de que um dia todos iríamos desfrutar plenamente dessa criação.
 
Sugiro que percamos o medo, que estejamos prontos para tudo, que tenhamos fé – uma fé inabalável -, seja no que fôr desde que não seja nesta sociedade. Uma fé inabalável, por exemplo, em nós e na nossa capacidade de mudar os nossos pequenos mundos.
 
Sugiro que estejamos prontos para tudo, que percamos o medo. Sim, eu sei que já disse isto mas não disse o que quero dizer a seguir – estar pronto para tudo não é estar prevenido. Quem se previne para o que nem sabe se vai acontecer guarda em casa o medo do que possa acontecer. Estar pronto para tudo é estar nu, de peito aberto e mãos abertas. Estar pronto para tudo é ser capaz de abdicar de tudo e saber, de fonte segura, que não morrerá disso. E se morrer, tanto pior (ou melhor). Estar pronto para tudo é não ter medo de nada, muito menos da morte. Nem que, para isso, tenhamos de acreditar que ela não existe. É que, só quando todos estivermos prontos para tudo é esta construção fundada no medo se desmoronará.

Eduardo Galeano e Jean Ziegler

Hoje é dia de Eduardo Galeano e de Jean Ziegler. Dia de pensar um pouco nas possibilidades. Dia de acreditar que é possível combater este medo que nos assola e tende a crescer. Este medo que nos entrou pela casa adentro e com o qual vamos  aprendendo a viver acreditando que ele é tão natural como a fome ou a defecação. Hoje é dia de acreditar.
 
 
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Judite, o Lorenzo e o que eu penso, mesmo que não interesse a ninguém

A classe média é, em grande medida, o garante dos ricos. Enquanto os do meio estiverem felizes, os de cima são deixados em paz e os de baixo na crença de que um dia, se estudarem e trabalharem muito, se forem bons meninos, podem subir um escalão ou dois e credibilizar a mobilidade social.
 
Por outro lado, se a classe média começar a sofrer baixas substanciais, os ricos começam a ficar isolados – eles em cima, os pobres em baixo e um grande vazio no meio. Quanto maior for o vazio, mais perigosa se torna a existência dos poucos que constituem o topo da pirâmide e mais necessidade eles têm de se defender, isolando-se, protegendo-se, criando, até, manobras de diversão.
 
Numa época como esta que atravessamos, em que a classe média está cada vez mais pobre e em que a sociedade se agita para o lado dos poucos ricos (poucos, e não pouco, note-se), entrevistas como a que a Judite de Sousa fez ao jovem Lorenzo vêm mesmo a calhar – levanta-se o povo, esse mesmo que está cada vez mais pobre, em defesa dos ricos que aos 13 anos já têm carro e aos 17 Ferraris.
 
E a jornalista, que todos sabemos ganhar mais do que a maioria dos portugueses, pode descansar do alto dos seus Louboutin porque ajudou na defesa de uma classe à qual, se ainda não pertence, aspira a pertencer enquanto a maioria de nós anda para trás, ou para baixo – depende do ponto de vista.
 
Ele há estratégias para tudo e nós caimos nelas, todos os dias, que nem uns patinhos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Dia de desfrute

Canceladas as visitas com a antecedência conveniente e por motivos sobejamente compreensíveis, aproveita-se o dia para um merecido e raro, muito raro, relaxe.
 
Ouvem-se ao longe pássaros e cigarras. O espanta espíritos, pendurado no alpendre, solta sons ténues e doces que em conjunto com a brisa que entra pela porta escancarada nos invadem os sentidos desabituados já a tamanho silêncio.
 
 E, embalados, vamos dormitando. Eu por entre as palavras de Proust, ele de coisas mais sérias – se é que existe alguma coisa mais séria que Proust!
 
É o seu último dia de férias e eles querem-se assim, descontraídos, relaxados, descansados – tão descansados que o descanso canse e, findo o dia, volte a vontade de fazer coisas, tão necessária ao espírito de quem não pode, ainda, contornar essa coisa a que se chama trabalho.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Pais e filhos

Os filhos são uma benção. Os pais, às vezes, uma chatice, um fardo até, quando não crescem o suficiente para saberem quando chegou a altura de se absterem. Não quer isto dizer que não se amem. Amam-se, claro. Amam-se tanto que lhes é dado o terrível poder da chantagem emocional e da atribuição de culpa.
 
Somos inteiramente dependentes dos nossos progenitores enquanto não crescemos, e tanto tempo levamos a crescer que desenvolvemos neles o vício da dependência. Poucos são capazes de prescindir dela e fazer como os índios do antigo continente - retirarem-se para dar lugar à descendência.
 
Essa é, quer se queira quer não, a maior dor de ser pai ou mãe. Essa é a maior responsabilidade do cargo – a capacidade de nos anularmos, de nos mantermos em standby apenas para aquilo que for preciso e mediante solicitação dos interessados, para que os nossos filhos possam crescer em liberdade, seguir o seu caminho sem qualquer espécie de culpa, sabendo que estão no trilho certo porque é o deles e que apenas deles depende a decisão de ficar,  ir,  virar à esquerda ou à direita.
 
Durante séculos impingiram-nos mentiras. Está na altura de mostrarmos que somos homenzinhos. Está na altura de crescer. Significa isto que está na altura de pensarmos nos nossos pais e no nosso sentimento por eles, sempre que pensarmos nos nossos filhos, para que possamos concentrar-nos no possível sentimento que os nossos filhos têm por nós e não naquele que nós nutrimos por eles. É que não são a mesma coisa. Não são a mesma coisa.

domingo, 11 de agosto de 2013

Ser avó

Não, não vejo a minha filha quando nasceu, ou o meu filho. Nem tão pouco me vejo a mim, à minha mãe ou ao meu pai que apenas imagino através de imagens a preto e branco pouco nítidas e cada vez  mais envelhecidas. Não vejo os avós, os tios ou os primos. Vejo-a a ela, em toda a sua particularidade. A ela, um ser único cheio de personalidade, sem pruridos nas exigências e perfeita na sua compleição física. A ela, linda porque é também um pedacinho meu e linda porque acredito que o será muito para além do que já é – se os nossos são os mais bonitos nem sempre é porque realmente o sejam mas porque nos transportam com eles e mal seria se não fossemos capazes de lhes ver a beleza.
 
Vejo-a a ela, e amo-a tanto quanto amo os meus filhos porque não sou capaz de medir um amor que é incondicional e o meu amor por eles é isso – incondicional.
 
Tenho o peito a transbordar graças a eles. Graças a ela, neste momento e, se alguma coisa me entristece ou zanga, penso nela e tudo se compõe – o mundo volta a ser um local maravilhoso onde acontecem coisas maravilhosas. Não sei o que é ser avó, mas sei que se me pedissem eu poderia ficar todo o dia junto a ela sem me cansar e que não me custa nada entregá-la nos braços dos que a conceberam porque é esse o seu papel e essa a minha sabedoria – não preciso dela para a amar, como não preciso dos meus filhos – amo-os. Estejam onde estiverem, estarão sempre comigo e eu com eles. Talvez seja isto ser avó.
 
Amália
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Querida Amália

Nasceu hoje. Às seis e pouco da manhã. Ainda não a vi senão em fotografia, mas, quando a olho, o coração transborda de falta de espaço. Não há alegria maior do que esta de ver nascer uma criança que é nossa também. Não há alegria maior.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O tempo. O que é isso? o tempo?

Estou prestes a ser avó. É mais hora menos hora e o meu estado altera-se, assim – progredindo, avançando no tempo e no espaço como se estes existissem verdadeiramente, como se fossem reais. Há bem pouco tinha dezasseis anos e o sol de Fevereiro brilhava. Lembro-me perfeitamente – as plantas do jardim refletiam a luz. As folhas grandes e grossas dos jarros encadearam-me quando abri o portão e entrei, antecipando o sabor do doce de tomate feito há dois dias. Um copo de leite fresco, sem açúcar, e uma carcaça a transbordar de doce de tomate…
Não havia ninguém em casa nesse dia. E nem nos dias que se lhe seguiram.
Como cheguei até aqui? Que força é esta que me tem empurrado ao encontro da vida?
Estou prestes a ser avó e, neste momento, não imagino alegria maior.
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Em defesa do reino vegetal

"Não como cadáveres". Já não é a primeira nem a segunda pessoa de quem oiço esta frase, sempre dita com um ar sobranceiro e carregada da mesma importância com que se diria que matar é crime. Claro que é. Toda a gente sabe isso. Mas, por enquanto, só é crime matar seres que não fazem parte da cadeia alimentar de qualquer animal saudável e bem intencionado.
 
Mas o que me parece importante deixar claro é que a frase que certos vegetarianos gostam de ostentar com aquele ar de quem se distingue fortemente do mais comum dos mortais, não faz sentido nenhum.
 
Primeiro, porque um cadáver, para o ser, tem de estar inteiro ou quase inteiro, portanto para comermos cadáveres teríamos de ter a vaca na mesa, ou o porco ou o carneiro...quanto às galinhas, patos e peixes, se não gostam de comer cadáveres basta cortá-los às postas e está o problema resolvido.
 
Em segundo lugar as plantas, ainda que não pertencendo ao reino animal, são seres vivos. Aliás, algumas delas até são carnívoras, mas isso não faz mal porque como apanham os alimentos vivos, não comem cadáveres.
 
Eu já estive na presença de uma planta que se encolhia cada vez que eu lhe tocava. Numa reação tão imediata como qualquer ser do reino animal. Portanto, se não comem cadáveres, não podem pôr no prato cenouras, batatas, cebolas ou mesmo tomates, inteiros.
 
Sabem que há um estudo, muito antigo e pouco divulgado, que afirma que uma planta ligada a um sensor é capaz de identificar, por exemplo, um assassino se o assassínio tiver ocorrido na sua presença? Ah! pois é! Ó senhores do “não como cadáveres”.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

J.J. Cale

Ligavam-nos músicas como Cocaine ou After Midnight que ouviamos muitos decibéis acima do recomendável ainda antes de entrarmos no recinto do 2001, no Autódromo do Estoril. Não tinha rosto porque não eram dele as performances. Só tinha nome. À época não existiam computadores e os poucos canais de televisão, nacionais como eram, não transmitiam essas músicas malucas que a malta nova gostava de ouvir. Ficávamo-nos, assim, com as fotos que conseguiamos encontrar em revistas como “Salut les Copains”, que nem todos liam porque não trazia uma palavra em português e o francês era, à semelhança do que continua a ser para muita gente, uma dor de cabeça - não para mim, registe-se -, ou pelas capas dos álbuns onde se exibiam os músicos mas não os compositores. Esses eram nomes, e o dele ficou na memória por ter sido muito bem escolhido. Quem o fez sabia da poda.
 
Ora um nome sem rosto, principalmente um nome que cria sons como os que vibram no mais profundo de nós, facilmente se transforma num mito. São os rostos que nos humanizam. Um homem sem rosto pode muito bem ser um deus.
 
Morreu no sábado, aos 74 anos. A sua foto circula agora pela Internet, exibindo toda a sua humanidade. E foi a olhar para essa humanidade que me comovi com uma das suas mais dignificantes características – a humildade. Aqui está um homem, pensei eu, que viveu para nos enriquecer, sempre, ou quase sempre, escondido atrás dos panos que separam os bastidores das luzes da ribalta, e foi feliz.
 
J.J. Cale, aqui.

sábado, 27 de julho de 2013

Já dizia Sartre - O Inferno são os outros

Cada vez há mais pessoas sedentas de protagonismo. Eu existo; Eu conto; Eu tenho uma palavra a dar e essa palavra é importante.
 
E pode até ser. Pode até ser. Mas só a necessidade desse reconhecimento tira-lhe a importância. Só essa incapacidade de autovalorização tira-lhe a importância. Essa exigência daquilo que é dos outros tira-lhe essa importância.
 
Cansam-me as pessoas que directa ou indirectamente me exigem atenção e reconhecimento. Quem sou eu para importar?! Ninguém! A minha opinião não interessa nada. Só é importante para mim, para mais ninguém. Os outros terão as deles e é com elas que devem viver. Com elas e com a certeza de que cada um tem as suas e de que todas, sem excepção, devem ser respeitadas.
 
Odeio dependências. Odeio mesmo. Odeio toda a fraqueza que se esconde atrás da frustração, do exibicionismo, da presunção e do ataque. Odeio. Odeio toda a fraqueza que se esconde atrás das queixas, dos lamentos e da maledicência. Odeio. Odeio gente que não sabe crescer.
 

Pronto. Talvez odiar seja uma palavra demasiado forte. Agora, que já a escrevi tantas vezes, reconheço que sim. Sei lá eu odiar!
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

O respeitinho é muito bonito

Gostamos de acreditar que lemos para ficar mais informados mas, na verdade, lemos apenas o que nos interessa, que é como quem diz – lemos tudo o que podemos para corroborar aquilo que acreditamos saber já.
 
E isto acontece principalmente a quem estudou. Não, não me baseio em nenhum estudo. Aliás, nem sei se há estudos sobre o tema. Baseio-me naquilo que vejo à minha volta, que não é menos do que aquilo que outros, com a mesma idade que eu, já viram também e, por muito que isso moa certas pessoas, vale tanto ou mais do que as leituras que fiz e continuo a fazer.
O que separa a experiência pessoal de certos estudos é a ausência de registo, de submissão às estatísticas e de aprovação oficial. De resto, depende apenas da intensidade com que cada um vive e das voltas que a vida vai dando – a uns mais do que a outros. Desprezar esse conhecimento só pode ser ou inveja ou ignorância.
Estou em crer que o ser humano tem um limite de armazenamento que, uma vez atingido, faz com que passemos a recusar o novo que vem dos outros, salvaguardando assim um pequeno espaço para as surpresas que a vida nos vai pregando pelo caminho.
É óbvio que tudo isto não impede que continuemos a querer acreditar que a nossa experiência, conhecimento e sabedoria ultrapassam grandemente os do vizinho do lado quando no fundo, cá bem no fundo, sabemos que quanto mais agitamos a bandeira do eu é que sei mais revelamos as nossas incertezas e uma necessidade primordial de sermos aceites e respeitados, sobretudo, respeitados.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Fresquinho e brejeiro (proibido a intelectuais)


Do alto da minha rua
Vejo a rua onde ele mora
E quando  passa um navio
Sei que a sua alma chora
 
Foi com mágoa que partiu
Para terra tão distante
Foi com mágoa que assumiu
O estatuto de emigrante
 
Mas a vida é mesmo assim
Quem sabe até faz sentido
Quer a terra de cada um
Não seja um sonho perdido
 
E se a terra onde se nasce
Não sabe cuidar de nós
Que a alma não descanse
Enquanto não tiver voz.

domingo, 21 de julho de 2013

Dos sonhos, das guerras e da inocência

Existe no sonhador uma certa inocência que permite aos destruidores de sonhos  tomar nas suas próprias mãos o poder da realização ou não realização dos mesmos.
 
Não basta sonhar para que as coisas aconteçam. Não é verdade que “sempre que um homem sonha o mundo pula e avança” e muito menos verdade é que isso aconteça com a mesma facilidade com que uma bola, colorida ou não, se deixa manipular pelas mãos seja de quem for.
 
Não é que não goste do poema. Muito pelo contrário – sei-o de cor e sempre que posso canto-o a plenos plumões. Acreditar na possibildade do sonho é ainda maior do que sonhar e os poetas têm esse poder – o de nos fazer acreditar na possibilidade dos sonhos.
 
Contudo, para quem quer mesmo transformar sonhos em realidade, é bom que saiba que só o poderá fazer se os seus sonhos coincidirem com os interesses dos controladores de sonhos, individuos que existem longe, muito longe, do alcance das comuns vistas e que têm o poder de matar todo e qualquer sonho que se interponha entre eles, os seus interesses egónicos e as suas crenças mesquinhas.
 
Assim, convém empenharmo-nos a ensinar às nossas crianças o Bem. Ensinar-lhes todas as vantagens e extrema importância do Bem. Porque é dentro desse Bem que mora a vergonha que impede, por exemplo, a corrupção e é dentro desse Bem que mora o Amor por tudo o que existe e o prazer de sentir que à nossa volta todos, ou quase todos, são felizes.
 
Desta forma, talvez daqui a muitos anos tenhamos colocado lá em cima, no lugar dos controladores de sonhos, gente que não precisa de provar, nem a si nem a ninguém, o seu poder de controlar mas antes a sua capacidade de Amar e espalhar esse Amor pelo mundo.
 
De outra forma, tudo o que se fizer de pouco ou nada servirá. Muitas guerras são perdidas por tácticas erróneas e aquelas que movimentam muita gente não têm segredos para um inimigo que é exímio em guerra de guerrilha.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Crescer

é basicamente libertarmo-nos, independentizarmo-nos, autonomizarmo-nos.
 
Pelo menos para mim.
 
A maturidade passa pela transformação do eu preciso para o eu amo; do eu preciso para o eu estou porque gosto de estar, porque isso me dá prazer.
 
A libertação, o desapego de tudo aquilo que não poderemos nunca levar connosco, é fundamental para um verdadeiro crescimento e, dado que não é fácil, é raro. A maior parte de nós faz o percurso inverso – vai-se agarrando cada vez mais à terra, mesmo sabendo que está por cá provisoriamente -, e arranja como justificação para essa incapacidade de libertação, a necessidade de deixar legado, esquecendo-se que a maior parte das vezes, se não todas, os filhos desprezam o que lhes é deixado, por preferirem, tal como os seus antecessores, viver a sua própria vida e acumular as suas próprias merdas.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Pedro Bidarra - Filhos do 25 de Abril

Duras estas palavras do Pedro Bidarra. Esta é a minha geração e sei que há excepões. Conheço-as. São elas que confirmam a regra. Mas de uma coisa o Pedro se esqueceu - quem decretou as passagens administrativas não foram os estudantes, foram os professores e os responsáveis da altura - os velhos que ele quer ressuscitar e que cresceram num regime pequeno e mesquinho, fechado ao resto do mundo e que, por isso mesmo, fizeram uma revolução mas não souberam cuidar dos filhos adolescentes que, sem qualquer tipo de preparação, ficaram por sua conta e risco, ao sabor da tão sonhada liberdade.
 
Nenhuma geração existe separada da anterior. Não vale a pena, por isso, responsabilizar uns sem responsabilizar os outros. Somos todos responsáveis seja lá por o que for.
 
O percurso, o nosso - de todos -, é feito por todos e é com ele que vamos aprendendo - com as vitórias e com os erros. Responsabilizarmo-nos a nós directamente, pode parecer uma atitude de consciência, mas não passa de um desvario em tudo igual ao sacudir a água do capote.
 
Ter consciência da realidade é compreender o papel de todos no processo. Ver os papéis separados é falta de humildade ou falsa humildade, o que vai dar no mesmo.

terça-feira, 16 de julho de 2013

O que é isso - preparar os filhos para o amanhã?!

Uma criança nasce num determinado contexto socio-cultural. Os pais, porque a amam, tudo fazem para que ela se insira nesse contexto e tenha sucesso. Empurram-na, apoiam-na, incentivam-na... É esse o dever dos pais.
 
Contudo, só serão bem sucedidos se o contexto socio-cultural se mantiver mais ou menos inalterável. Mas se ele mudar, se ele mudar radicalmente, lá se vai a integração, lá se vai  o sucesso, lá se vão as ferramentas tão apropriadas ao contexto anterior.
 
E a verdade é que nunca sabemos o que vai acontecer. Não quer isto dizer que não devamos preparar as nossas crianças, muito pelo contrário – temos o dever, num mundo que muda a toda a hora, como este em que vivemos, de as preparar para o improvável, para aquilo que ainda não é mas pode vir a ser, para os preparar, dentro dos possíveis, para quase tudo.