segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Geração fiambre


Sei que já feri suscetibilidades com coisas que aqui deixei mas, por enquanto, vivemos em democracia e parece-me importante a ilusão de liberdade que ela nos dá, mesmo que nem sempre, aos olhos de outros, dela façamos o melhor uso. Para mim, o melhor uso é o simples uso que advém da ausência de medo de ser e dizer o que em determinado momento entendemos ser verdade, sendo que ninguém, em seu perfeito juízo, acredita que a virtude está na estática, que é como quem diz – é virtuoso aquele que diz o mesmo durante toda a vida em relação a uma mesma coisa. É desejável que as pessoas mudem, quer de atitudes, quer de opiniões – faz parte do próprio processo de crescimento, embora muitos de nós nunca cheguem a crescer.

Posto isto, vou avançar com mais uma ideia politicamente incorreta mas sentida, ainda que despropositada no que respeita ao timing que se vive neste país – onde a assistência do Estado está pelas ruas da amargura sem perspetivas de grandes melhorias, muito pelo contrário.

Ainda assim, não posso deixar de dizer que a sobrecarga exigida aos mais novos nos cuidados, cada vez mais prementes, dos mais velhos altera, necessariamente, as ações, as reações e, consequentemente, as relações.

Num mundo perfeito – que infelizmente estamos longe de atingir -, a comunidade, na pessoa do Estado, disporia de todas as condições de assistência adequadas às necessidades dos idosos de forma a aliviar a carga dos mais novos para que estes pudessem desfrutar da companhia dos seus ancestrais sem, com isso e por isso, porem em causa a sua vida profissional, familiar e afetiva.

Avançámos muitíssimo no aumento da esperança média de vida mas não garantimos aquilo que é fundamental para nos mantermos por cá – a qualidade da mesma. Assim, deparamo-nos com gente que, já perto da idade da reforma, com bicos de papagaio, vista cansada e ouvido mouco, ampara pelos corredores dos hospitais outros que os conceberam e que ainda por cá andam. São gerações que passaram a vida a tratar da vida dos outros sempre à espera de um tempinho para tratar da deles. Gente que criou filhos, que já tem netos e que é, muitas vezes, o único amparo dos pais com mais de noventa anos.  

Eu, para eles tenho um nome – a geração fiambre mas, se quiserem, também pode ser queijo, mortadela ou salsichão, desde que viva bem apertada entre duas fatias de pão.



domingo, 27 de outubro de 2013

Tesourinhos deprimentes (os meus)

Março de 2006. Londres estava tão fria e húmida quanto costuma estar nessa altura do ano.
 
Conseguimos dois bilhetes para a primeira fila do Duque of York’s Theatre. A peça, “Embers”, baseada numa obra de Sandor Marai, tinha como protagonista Jeremy Irons.
 
E ali estava eu, sentada na primeira fila, a levar com os perdigotos de um dos melhores actores de sempre e a beber as suas palavras (as palavras, não os perdigotos, note-se), como quem bebe um copo de água fresca depois de uma tarde de secura, ao sol.
 
Foi a melhor peça que vi em toda a minha vida. Apaixonei-me pelo texto quase de imediato e, quando a primeira parte terminou, os meus olhos estavam lacrimejantes e a bexiga, não sei se de emoção se de outra coisa qualquer, a pedir toda a minha atenção. Imagino que tenha passado toda a primeira parte da peça a fazê-lo, mas eu não dei por nada – só me lembro dos gestos, das expressões, das palavras.
 
Assim, logo que o pano caiu e as luzes se acenderam, corri para o wc. Não me recordo se havia fila mas imagino que sim. Toda a minha atenção se mantinha naquele palco pelo que todos os meus movimentos se encontravam em modo automático.
 
Quando chegou a minha vez, entrei. Baixei as calças e fiz todo o esforço que sempre faço por me manter mais ou menos de pé, mais ou menos sentada, sem nunca, Deus me livre, tocar seja com o que fôr na tampa da sanita.
 
Sei que demorei mais do que o habitual – e só esse facto me leva a crer que a minha aflição já tinha horas. E como me conheço bem, decidi que não sairia dali sem ter a certeza de não precisar de lá voltar outra vez – a peça era demasiado importante para eu me distrair com fraquezas próprias da minha condição animal. Tudo naquele palco gritava pela minha humanidade. Pela grandeza da nossa humanidade.
 
Foi quando me inclinei para o lavatório que senti o frio junto à perna direita. Estranhei. Olhei as calças - abaixo do joelho, pela parte de dentro, estavam encharcadas. Uma grande parte do líquido que a minha bexiga guardava com tanta discrição tinha-se depositado na perna das calças.
 
Corri para o exterior do teatro e deixei-me ficar, virada para o vento, na esperança de secar antes do sino tocar. Fiquei gelada e as calças continuaram molhadas. Sentei-me, envergonhada e preocupada com o cheiro que, eventualmente, poderia emanar. Ninguém se queixou, nem mesmo quem me acompanhava.
 
Escusado será dizer que depressa me esqueci das calças.
 
Só quando a peça terminou, os aplausos estoiraram e eu me levantei, é que o cheiro se fez sentir. Para mim era tão forte que só a discrição exímia dos britânicos me foi convencendo de que ele existia só para mim.
 
Assim que cruzei as portas do teatro não vi o momento de chegar a casa e nem a figura do actor, de pé na saída dos artistas, a dar autógrafos a meia dúzia de espectadores, me desacelerou o passo. O que foi pena - perdi a oportunidade de lhe dizer que gostei tanto da peça que os resultados estavam ali, para quem os quisesse cheirar.
 
 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Acções e reacções

Aborrece-me a arrogância, ou a falta de humildade que é quase a mesma coisa. A sobranceria, aquele “olhar de cima para baixo” de quem está convencido que mede mais qualquer coisa do que o outro, sejam centímetros ou metros, aborrece-me. E mesmo que eu imagine que toda aquela postura esconde o medo e, por vezes a solidão, não sou capaz de a relativizar e, pimba, fico igual – todo o desprezo que consigo sentir vem ao de cima e, cá dentro, cresço ainda mais, sobranceiramente, sem um pingo de fraternidade ou complacência.
 
É o mesmo com a agressividade. Tenho-lhe um horror tão grande que, perante ela, antecipo-me sempre que posso, basta que a cheire, nem preciso de a sentir.
 
Perante isto, seria natural uma pequena introspeção e talvez, quem sabe, uma tentativa franca de olhar no outro o mesmo medo, a mesma solidão.
 
Talvez um dia. Talvez no dia em que for capaz de “atrasar” esses meus sentires o suficiente para me dar tempo a pensar. Até lá…

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Acumulam-se os sinais de regresso ao passado

E como não há fome que não dê em fartura (ahahahahaah antes assim fosse…), não bastam os problemas que a equipa de piquetes dos SMAS está a enfrentar, também a PT (este é o momento em que uma lágrima ameaça saltar-me do olho direito) enfrenta estoicamente (ahahahahahaah mais uma vez – isto hoje é só rir) o resultado das fortes intempéries que se fazem sentir por estes lados.
 
Assim, para além da falta de água, que quando vier vai fazer andar o contador de tal maneira que pagaremos pela água que não gastámos o mesmo que outros pagam pelo enchimento das piscinas que têm nos quintais, estamos sem sinal televisivo que, já agora, também continuaremos a pagar.
 
Um dos atendedores da PT, com quem acabei de conversar, atribui as constantes intermitências às condições atmosféricas adversas e diz que, dada a impossibilidade de enviar um técnico - que terá de subir ao telhado para mudar o lugar da antena o qual, ao que parece, não é o melhor mas é aquele que eles entenderam aquando da instalação -, por causa, precisamente, das condições adversas, isto é, da p* da chuva que não pára de cair, o melhor será eu esperar que o tempo melhore para voltar a telefonar e, se nessa altura os sinais – que estão fracos por causa do mau tempo -, ainda se mantiverem baixos, eles vêm. Caso contrário, isto é, se eles melhorarem – que é o que se espera já que a causa é o mau tempo -, eles não virão.
 
Confusos? Não estejam. O que o senhor da PT me disse, grosso modo, foi que o mais certo é termos de passar o Inverno a ver televisão aos soluços.
 
Este é o momento com que todos sonhamos – o do regresso aos nossos tempos de juventude, em que tudo era mais fácil para alguns sem nunca ser verdadeiramente fácil para ninguém. De resto, a única variável que pesa neste regresso é o facto de nós, agora, já termos experimentado outras coisas. Caso contrário, se calhar, até lambiamos o prato como fizémos, sabe Deus porquê, durante cerca de cinco décadas.

Está confirmado o nosso regresso ao passado.

Se outros indicadores não existissem, bastava-me este – estou sem água desde ontem à tarde. E não, não é um caso isolado! Desde que me mudei, há cerca de nove meses, que este acontecimento é recorrente – volta não volta rebenta a conduta principal aqui ou ali. Os motivos são vários mas a chuva é fatal – se chove, rebenta. Por vezes a intervenção é rápida, por vezes é lenta ao ponto de nos permitir uma viagem ao passado quando o país era pobrezinho. E a viagem é tão perfeita que hoje, pelas oito da manhã, ouvi o piquete dos SMAS a aconselhar-me a descontração (vá lá que não fez referência à estupidez natural), com aquele tom com que se ouvia dizer “pobretes, mas alegretes”.
 
Já pensei colocar uns alguidares lá fora mas temo que a chuva não se encontre no seu melhor estado ou, pelo menos, tenha feito aquilo que nós não soubemos fazer – deixar o passado para trás. Que é como quem diz, enquanto andámos a brincar aos desafogados a chuva evolui no mau sentido e agora, que podia substituir a água que corre por condutas obsoletas, deixa-nos assim, de pé atrás com ela.
 
E é na consciência desta viagem de regresso, que quero agradecer a quem de direito o facto de me ter proporcionado uns anos de vida na ilusão de que o meu país tinha evoluido sem hipótese de retorno (há sempre uma hipótese de retorno, está visto). Foram anos que permitiram baixar consideravalmente a taxa de mortalidade infantil; aumentar, consideravelmente, o número de letrados; reduzir, quase a zero, o analfabetismo; aumentar, consideravelmente, a esperança média de vida, bem como a sua qualidade, provando a importância da medicina preventiva. Foram anos sem faltas de água – tirando uma ou outra ocorrência pontual e sem significado. Anos em que a escola até funcionou, os hospitais e os centros de saúde também, bem como a maior parte das instituições. Anos de crescimento, eu diria até, de grande crescimento, no que diz respeito à qualidade de vida. Anos de que eu já começo a sentir saudades porque o meu corpo treme nesta viagem de regresso ao cinzentismo do antigamente, lugar onde eu preferia não ter de voltar porque me custa – vá lá saber-se porquê – viver com faltas de água; com escolas degradadas; com gente mal disposta; com doentes sem tratamentos…enfim…com coisas do passado.
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Pequenas vitórias que dão, à vida, uma certa côr

Por entre panelas de sopa divago sobre os cinzentos e de como servem para complicar quando aquilo que faz falta é a simplificação - sendo claro que esta se torna falsa por absolutamente superficial se a ela recorrermos sem antes complicarmos tudo bem complicadinho.
 
Talvez eu tenha passado a fase da complicação. Talvez esteja, também para isso, velha de mais. E é, com certeza por isso, que o mundo se me começa a aparecer em dois tons: branco e preto.
 
Branco e preto – duas cores para olhar uma mesma coisa e, eis o ex-líbris da razão, à la carte ! que é como quem diz: escolho aquilo que me apetece, sendo que o que me apetece é o que me faz melhor, o que é bom para mim.
 
Nem sempre funciona mas tenho feito progressos nesse sentido e as vitórias acumulam-se. Quanto ao outro empreendimento, o da recuperação da forma, também segue o seu caminho – mais lento do que a ansiedade mas de acordo com a sensatez – já lá vão cinco quilos. Na fila estão nove. Hei-de lá chegar.
 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Velha de mais

Existe um preconceito qualquer em relação à idade que leva as pessoas a acreditar que é de bom tom exclamar AH! Que disparate! Mas ainda é tão nova! Cada vez que digo que já não tenho idade para certas coisas. E não tenho. Não tenho, não porque haja quem o diga, até porque na cabeça de muita gente isso não existe – as idades são todas próprias para fazermos tudo, que é como quem diz, se eu quiser posso continuar a fazer o  que me dava na real gana aos 15 anos! (mal de mim, digo eu, se me apetecesse fazer as mesmas coisas que fazia em idades já passadas!), mas porque não me apetece. Há coisas que já não me apetecem, ainda que não me recorde em que momento é que deixaram de me apetecer, e há coisas que não me apetecem e que sei exactamente o momento em que isso aconteceu.
 
Por exemplo, lembro-me perfeitamente do dia em que fiz a minha última roda. Estava na praia com os meus filhos, deitei as mãos ao chão, levantei as pernas – mal esticadas com certeza -, e depois de as rodar, levantei-me do outro lado com a certeza, absoluta, que aquela tinha sido a minha última roda. E foi. Eu, que andei na ginástica anos a fio, que participei em campeonatos de ginástica desportiva, fiz a minha última roda aos trinta e poucos anos – altura em que fiquei velha de mais para essas coisas, isto é, altura em que essas coisas deixaram de me apetecer, de me dar gozo.
 
Com cerca de quarenta e cinco anos andei, pela última vez, numa montanha russa. Foi na Disney, em Paris, o meu filho queria andar no Indiana Jones Backward – um comboio ao ar livre que sobe um penhasco literalmente na vertical e depois se deixa cair por ele dando um luping logo a seguir – tudo de costas. Eu, adepta incondicional desse tipo de diversões, não me fiz rogada. Quando o comboio parou o meu filho pensou que eu estava morta de tão branca. Tive de ser levada para um restaurante para ser reanimada. Soube, de imediato, que tinha sido a minha última montanha russa. Aliás, soube-o assim que caí de costas e me vi obrigada a concentrar-me nas batidas cardíacas para não deixar o coração parar.
 
Na sexta-feira passada fui dar a minha última caminhada nocturna. Andei três horas por montes e vales, apanhei uma chuvada que me deixou tão encharcada quanto o dia em que caí, completamente vestida e calçada, dentro da piscina da casa onde vivia, levei com vento e mal consegui ver as paisagens, seguramente maravilhosas, por onde passei. O meu coração protestou com o esforço e as minhas pernas, em certos momentos, quase se recusaram a obedecer. Tive, enfim, todos os indicadores da última caminhada. Quando me perguntaram se tinha gostado, tive de responder que não – foi mais o sacrifício do que o prazer.
 
Porque é disso que se trata, de tirarmos prazer das coisas – ficamos velhos para elas, exactamente no dia em que nos deixam de dar prazer. E só não sabe isto quem ainda não viveu o suficiente, tenha lá a idade que tiver.
 
Por isso, por favor, quando eu me referir à minha idade, tenham pelo menos o respeito de consentir, porque se eu digo que estou velha não me estou a queixar – estou a dizer que tenho a barriga cheia e que por nada deste mundo voltaria atrás, já que esta é, para mim, a melhor idade de sempre. É que eu nunca fugi à vida e, por isso, não me faltam histórias para contar. Agora, apetecem-me outras coisas porque a riqueza da vida mede-se mais pela variedade do que pela quantidade. E, se a aproveitarmos bem, somos capazes de ir saboreando o tempo à medida que ele passa, em vez de insistirmos, por vezes quase estoicamente, em não o deixar passar.
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Saudades

Esta nova vida tem-me roubado tempo de escrita mas, sobretudo, algum tempo de reflexão. São poucos os momentos em que me posso dar ao luxo de abraçar o silêncio e a solidão e, sem eles, as palavras fogem-me envergonhadas ou tementes do tudo que à minha volta não sossega.
 
Desde que criei este pequeno espaço, nunca o tive tão abandonado como o tenho agora e, contudo, todos os dias penso nele e vacilo e lastimo sobre o meu afastamento, a minha incapacidade de o alimentar. Será que, na vida, não se pode mesmo ter tudo? ou, para que sim, o trabalho é tanto que, sobreviventes como eu, se encolhem com medo de implodir?
 
Gostaria de dizer que estou de volta mas temo uma certa insinceridade. Repare-se que, mesmo agora, a atrapalhar-me as palavras que vêm ao meu encontro, está o alerta das horas que passam e o risco no atraso dos compromissos.
 
Mesmo assim, todos os dias alimento a esperança de que, para a semana, o meu mundo abrande e eu terei, novamente, os meus pequenos momentos e aí…aí sim, regressarei.

domingo, 22 de setembro de 2013

A dieta da Ágata Roquette

Chateada com o excesso de peso, dei, anteontem, início à já famosa dieta da Ágata Roquette. Preciso de perder doze quilos. Não é tão pouco quanto isso. Ela garante que no primeiro mês nos coseguimos ver livres de cinco. Se assim for, vale a pena. Até porque fome, não se passa. A Ágata tem receitas verdadeiramente capazes de satisfazer o palato mais requintado e deixar satifeito o estômago mais exigente.
 
Ando assim entretida, ou melhor, concentrada, nesta minha nova conquista – a de recuperar a forma. E, se já antes me sentia afastada destes meus desabafos, agora a coisa é bem capaz de piorar. Ou não. Nunca se sabe ou eu, pelo menos, nunca sei, nem quero saber, o que o futuro me reserva. Preocupada, preocupada, ando eu com o presente. A esse, é que eu não sei o fazer. Mas alguma coisa há-de surgir. De momento os meus esforços estão concentrados em mim, no todo de mim, porque se alguma coisa tenho aprendido com a puta da vida é que, ao contrário do que parece, é de mim que ela depende.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Facebook

Eu sei que há demasiada informação. Demasiada gente a utilizar as redes sociais para promover isto e aquilo, dizer o que pensa, desabafar, tornar público, até, o que dantes era privado.
 
Antigamente, e este antigamente vai até onde cada um quiser, as nossas preocupações ficavam-se por aquilo que nos era próximo – a nossa família, os nossos amigos, o nosso local de trabalho. Agora elas estendem-se aos confins do mundo. Agora elas são sociais, universais, demasiadas… e o espaço que dentro de nós lhes dedicamos é cada vez menor. Já não há pachorra mas, fundamentalmente, não há estrutura – afligimo-nos sabendo que pouco ou nada podemos fazer ou, pelo contrário, acreditamos que a nossa participação é importante, acreditamos que podemos fazer a diferença se nos mantivermos activos o que, muitas vezes, pode ser um factor acrescido de frustração quando verificamos que, afinal, as coisas acontecem independentemente de nós e é aí que temos vontade de regressar ao lugar que muitos não conheceram mas que persiste na nossa memória – aquele das preocupações mais nossas, mais próximas, mais leves até mas, sobretudo, centradas na fonte de onde brotam, também, as maiores alegrias.
 
Contudo, os meios-termos existem. Ainda há coisas que podemos fazer. Que, não fazendo parte do nosso círculo mais estreito, nos pertencem e podem alterar, para melhor ou para pior, o nosso pequeno mundo. Há decisões nas quais podemos ser úteis ajudando os pequenos mundos dos outros.
 
Existem ferramentas que circulam por aí e que terão o valor que terão mas que, na minha modesta opinião, valem sempre a pena utilizar se acreditarmos que aquilo que defendem é o que devem defender. Falo das petições; das páginas do Facebook; das cartas abertas.
 
Por muita vontade que as cúpulas tenham em tomar decisões independentemente de nós, uns milhares de assinaturas fazem a diferença. Podem, realmente, impedir qualquer coisa mas, quando mais não seja, deixam-nos cientes de que fizémos a nossa parte.
 
Aqui vos deixo uma que me é querida. Para ela, peço a vossa ajuda. Partilhem-na com os vossos amigos porque, para nós que por cá vivemos, já nos bastam os silos para estragar o que estava, não precisamos de contentores. O que queremos mesmo é praia e areia branca; pesca artesal e turismo - tudo o que existe por estas bandas e a que temos direito.

sábado, 31 de agosto de 2013

Futilidades e coisas que não interessam a ninguém

Não sou propriamente uma pessoa fútil. Bom, pelo menos não todos os dias. Mas hoje, ao passear a vista pelas “manchetes” do Facebook sem preocupações de espécie alguma, parei numa e só essa me apeteceu ler do princípio ao fim.
 
Trata-se de um artigo do i escrito pela Rosa Ramos, sobre uma mulher a quem chamam a dona de Espanha e de quem eu nunca tinha ouvido falar.
 
Parece que a senhora, que já vai nos sessenta e um e parece ter quarenta, a cabra, é uma das pessoas mais ricas do país vizinho apesar de ter conseguido manter-se sempre, ou quase sempre, invisível, que é como quem diz protegida dos media por homens, segundo o artigo, de confiança. E veio agora à ribalta porque há coisa de um ano que namora o Pais do Amaral.
 
Mas isto, na verdade, não interessa para nada. O que interessa, isso sim, é compreender porque é que eu no meio de tantas palavras mais ou menos sábias e eruditas que nos esclarecem sobre esta crise (só a palavra me dá voltas ao estômago. Aliás, estou desconfiada que já lhe devo uma úlcera); sobre a melhor, ou antes – as melhores formas de viver nestes tempos tão complicados, fui escolher para ler de fio a pavio exactamente uma coisa que não interessa para nada. Vai-se a ver e é porque decidi pôr em prática os ensinamentos dos que andam por aí a vender as melhores formas de ultrapassarmos isto.
 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Incapacidades

Ontem, uma amiga chamou-me a atenção para a hipótese de eu me encontrar “presa” num determinado paradigma que me impede de mudar verdadeiramente o rumo à minha vida, pelo menos no que diz respeito a um vector muito específico.
 
Fiquei a pensar no assunto e conclui que ela tem, provavelmente, razão. A nossa mente pára por vezes num “frame” do filme que protagonizamos – principalmente se for um daqueles mesmo fortes -, e ali se acomoda convencida que é essa a sua realidade.
 
Por exemplo, sempre que sonho com casas, as ditas ou estão em ruínas, ou em obras, ou simplesmente desfeitas, avassaladas sabe Deus por o quê. A propósito disto, e porque hoje pela primeira vez em muitos anos sonhei com uma casa linda, luminosa, toda mobilada e construída à beira do mar, lembrei-me de um poema que um amigo teve a amabilidade de musicar e que escrevi já lá vão alguns anos – “Dessarumaram-me a casa” -, e é verdade que sim, mas também é verdade que apesar de todos os esforços que tenho feito para a arrumar não deixo de a ver desarrumada como se fosse essa a sua natural condição.
 
Todos sabemos da importância dos amigos nas nossas vidas mas, importâncias à parte, uma tarde passada em conversa com almas que respiram em sintonias muito próximas pode fazer milagres. Quem sabe a partir de hoje a minha mente passará a olhar a casa, e tudo o que ela significa, com outros olhos – olhos de quem vê uma realidade bem mais positiva do que aquela que se acomodou, há anos, na minha mente e me engana, dia após dia, fazendo-me crer parada num “frame” de um filme que terminou há muito.
 
“Desarrumaram-me a casa”, aqui.
 
Não prometo - não gosto de fazer promessas que depois poderei não cumprir -, mas, quem sabe se daqui a uns tempos não escreverei um outro poema carregado de luz e de fadas, um poema onde não haverá lugar para o abandono, para a escuridão ou para as bruxas - principalmente para as bruxas...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Vivemos na ilusão de sermos capazes quando, afinal, não abandonámos, ainda, a mesma estrada

Tudo, ou praticamente tudo, aquilo que existe alimenta o que é, mesmo quando aparenta o oposto.
 
Os partidos políticos alimentam, todos eles, esta forma de estar, criando a ilusão de liberdade num mundo onde ela nunca foi mais escassa.
 
Os comentários de ataque alimentam a ilusão de que existem livres pensadores, ou opositores credíveis e capazes, quando as mazelas que conseguem fazer, por muito que escarafunchem, são mais difíceis de encontrar do que uma agulha num palheiro.
 
A terminologia esquerda/direita alimenta a ilusão de que podemos tanto quanto podíamos há meio século atrás, quando o mundo, que nunca foi o que era, cada vez o é menos – qualquer semelhança é pura coincidência e teimar em métodos obsoletos é, evidentemente, uma forma indirecta, e por vezes inconsciente, de manter o mesmo estado de coisas.
 
E agora que já fiz o mesmo que tantos outros – vomitei o que acho de forma inconsequente e leviana -, posso dizer o que sugiro – exactamente da mesma maneira.
 
Sugiro que cada um de nós se afaste o mais possível do vampirismo. Que cada um de nós aprenda, cada vez mais, todas as possibilidades que existem de viver longe de tudo aquilo que fomos criando na crença de que um dia todos iríamos desfrutar plenamente dessa criação.
 
Sugiro que percamos o medo, que estejamos prontos para tudo, que tenhamos fé – uma fé inabalável -, seja no que fôr desde que não seja nesta sociedade. Uma fé inabalável, por exemplo, em nós e na nossa capacidade de mudar os nossos pequenos mundos.
 
Sugiro que estejamos prontos para tudo, que percamos o medo. Sim, eu sei que já disse isto mas não disse o que quero dizer a seguir – estar pronto para tudo não é estar prevenido. Quem se previne para o que nem sabe se vai acontecer guarda em casa o medo do que possa acontecer. Estar pronto para tudo é estar nu, de peito aberto e mãos abertas. Estar pronto para tudo é ser capaz de abdicar de tudo e saber, de fonte segura, que não morrerá disso. E se morrer, tanto pior (ou melhor). Estar pronto para tudo é não ter medo de nada, muito menos da morte. Nem que, para isso, tenhamos de acreditar que ela não existe. É que, só quando todos estivermos prontos para tudo é esta construção fundada no medo se desmoronará.

Eduardo Galeano e Jean Ziegler

Hoje é dia de Eduardo Galeano e de Jean Ziegler. Dia de pensar um pouco nas possibilidades. Dia de acreditar que é possível combater este medo que nos assola e tende a crescer. Este medo que nos entrou pela casa adentro e com o qual vamos  aprendendo a viver acreditando que ele é tão natural como a fome ou a defecação. Hoje é dia de acreditar.
 
 
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Judite, o Lorenzo e o que eu penso, mesmo que não interesse a ninguém

A classe média é, em grande medida, o garante dos ricos. Enquanto os do meio estiverem felizes, os de cima são deixados em paz e os de baixo na crença de que um dia, se estudarem e trabalharem muito, se forem bons meninos, podem subir um escalão ou dois e credibilizar a mobilidade social.
 
Por outro lado, se a classe média começar a sofrer baixas substanciais, os ricos começam a ficar isolados – eles em cima, os pobres em baixo e um grande vazio no meio. Quanto maior for o vazio, mais perigosa se torna a existência dos poucos que constituem o topo da pirâmide e mais necessidade eles têm de se defender, isolando-se, protegendo-se, criando, até, manobras de diversão.
 
Numa época como esta que atravessamos, em que a classe média está cada vez mais pobre e em que a sociedade se agita para o lado dos poucos ricos (poucos, e não pouco, note-se), entrevistas como a que a Judite de Sousa fez ao jovem Lorenzo vêm mesmo a calhar – levanta-se o povo, esse mesmo que está cada vez mais pobre, em defesa dos ricos que aos 13 anos já têm carro e aos 17 Ferraris.
 
E a jornalista, que todos sabemos ganhar mais do que a maioria dos portugueses, pode descansar do alto dos seus Louboutin porque ajudou na defesa de uma classe à qual, se ainda não pertence, aspira a pertencer enquanto a maioria de nós anda para trás, ou para baixo – depende do ponto de vista.
 
Ele há estratégias para tudo e nós caimos nelas, todos os dias, que nem uns patinhos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Dia de desfrute

Canceladas as visitas com a antecedência conveniente e por motivos sobejamente compreensíveis, aproveita-se o dia para um merecido e raro, muito raro, relaxe.
 
Ouvem-se ao longe pássaros e cigarras. O espanta espíritos, pendurado no alpendre, solta sons ténues e doces que em conjunto com a brisa que entra pela porta escancarada nos invadem os sentidos desabituados já a tamanho silêncio.
 
 E, embalados, vamos dormitando. Eu por entre as palavras de Proust, ele de coisas mais sérias – se é que existe alguma coisa mais séria que Proust!
 
É o seu último dia de férias e eles querem-se assim, descontraídos, relaxados, descansados – tão descansados que o descanso canse e, findo o dia, volte a vontade de fazer coisas, tão necessária ao espírito de quem não pode, ainda, contornar essa coisa a que se chama trabalho.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Pais e filhos

Os filhos são uma benção. Os pais, às vezes, uma chatice, um fardo até, quando não crescem o suficiente para saberem quando chegou a altura de se absterem. Não quer isto dizer que não se amem. Amam-se, claro. Amam-se tanto que lhes é dado o terrível poder da chantagem emocional e da atribuição de culpa.
 
Somos inteiramente dependentes dos nossos progenitores enquanto não crescemos, e tanto tempo levamos a crescer que desenvolvemos neles o vício da dependência. Poucos são capazes de prescindir dela e fazer como os índios do antigo continente - retirarem-se para dar lugar à descendência.
 
Essa é, quer se queira quer não, a maior dor de ser pai ou mãe. Essa é a maior responsabilidade do cargo – a capacidade de nos anularmos, de nos mantermos em standby apenas para aquilo que for preciso e mediante solicitação dos interessados, para que os nossos filhos possam crescer em liberdade, seguir o seu caminho sem qualquer espécie de culpa, sabendo que estão no trilho certo porque é o deles e que apenas deles depende a decisão de ficar,  ir,  virar à esquerda ou à direita.
 
Durante séculos impingiram-nos mentiras. Está na altura de mostrarmos que somos homenzinhos. Está na altura de crescer. Significa isto que está na altura de pensarmos nos nossos pais e no nosso sentimento por eles, sempre que pensarmos nos nossos filhos, para que possamos concentrar-nos no possível sentimento que os nossos filhos têm por nós e não naquele que nós nutrimos por eles. É que não são a mesma coisa. Não são a mesma coisa.

domingo, 11 de agosto de 2013

Ser avó

Não, não vejo a minha filha quando nasceu, ou o meu filho. Nem tão pouco me vejo a mim, à minha mãe ou ao meu pai que apenas imagino através de imagens a preto e branco pouco nítidas e cada vez  mais envelhecidas. Não vejo os avós, os tios ou os primos. Vejo-a a ela, em toda a sua particularidade. A ela, um ser único cheio de personalidade, sem pruridos nas exigências e perfeita na sua compleição física. A ela, linda porque é também um pedacinho meu e linda porque acredito que o será muito para além do que já é – se os nossos são os mais bonitos nem sempre é porque realmente o sejam mas porque nos transportam com eles e mal seria se não fossemos capazes de lhes ver a beleza.
 
Vejo-a a ela, e amo-a tanto quanto amo os meus filhos porque não sou capaz de medir um amor que é incondicional e o meu amor por eles é isso – incondicional.
 
Tenho o peito a transbordar graças a eles. Graças a ela, neste momento e, se alguma coisa me entristece ou zanga, penso nela e tudo se compõe – o mundo volta a ser um local maravilhoso onde acontecem coisas maravilhosas. Não sei o que é ser avó, mas sei que se me pedissem eu poderia ficar todo o dia junto a ela sem me cansar e que não me custa nada entregá-la nos braços dos que a conceberam porque é esse o seu papel e essa a minha sabedoria – não preciso dela para a amar, como não preciso dos meus filhos – amo-os. Estejam onde estiverem, estarão sempre comigo e eu com eles. Talvez seja isto ser avó.
 
Amália
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Querida Amália

Nasceu hoje. Às seis e pouco da manhã. Ainda não a vi senão em fotografia, mas, quando a olho, o coração transborda de falta de espaço. Não há alegria maior do que esta de ver nascer uma criança que é nossa também. Não há alegria maior.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O tempo. O que é isso? o tempo?

Estou prestes a ser avó. É mais hora menos hora e o meu estado altera-se, assim – progredindo, avançando no tempo e no espaço como se estes existissem verdadeiramente, como se fossem reais. Há bem pouco tinha dezasseis anos e o sol de Fevereiro brilhava. Lembro-me perfeitamente – as plantas do jardim refletiam a luz. As folhas grandes e grossas dos jarros encadearam-me quando abri o portão e entrei, antecipando o sabor do doce de tomate feito há dois dias. Um copo de leite fresco, sem açúcar, e uma carcaça a transbordar de doce de tomate…
Não havia ninguém em casa nesse dia. E nem nos dias que se lhe seguiram.
Como cheguei até aqui? Que força é esta que me tem empurrado ao encontro da vida?
Estou prestes a ser avó e, neste momento, não imagino alegria maior.