Por muito que se goste daquilo
que se faz, e eu gosto, há sempre dias em que nos apetece fazer outra coisa
qualquer ou mesmo nada.
Dizer que trabalhamos por amor à
camisola, independentemente daquilo que se ganha, é falso, estúpido e serve
para alimentar essa mentalidade servil de que o trabalho dá saúde, honra e
prestígio. Às vezes dá. Às vezes não. E se não precisássemos de ganhar
dinheiro, com certeza não faltariam atividades, às quais não chamaríamos
trabalho, que nos dessem prazer e fossem muito mais proveitosas socialmente do
que o trabalho que fazemos por não haver outra forma de pagar o supermercado.
Dentro deste contexto, haver quem
se ache no direito de beneficiar do trabalho alheio sem para isso ter de pagar
o justo custo, desvalorizando não só o trabalho em si como as necessidades
primárias de cada um, i.e, a sua inerente condição humana, é não só vergonhoso
mas ofensivo e criminoso.
A escravatura, abolida há séculos,
renasce assim nos hábitos daqueles que, tendo muito ou menos que isso mas o
suficiente, passam por cima de “toda a palha” para satisfazerem as suas
necessidades secundárias e manterem, à custa seja lá do que for, o nível de
vida ao qual se acham no direito.
A esses, desejo sinceramente que,
sem qualquer possibilidade de controle, cada cêntimo que deixam de pagar a quem
de direito lhes caia por um qualquer cano e desapareça no espaço. Desejo ainda
que essa realidade seja tão imediata que não deixe qualquer tipo de dúvida relativamente
à sua causa – não paga, perde -, assim, sem mais nem menos; sem dó nem piedade
e na mesma proporção – são cêntimos, perde cêntimos; são milhões, perde
milhões. Isto sim, é justiça.









