quarta-feira, 23 de abril de 2014

Este país da Boa-Vontade...

Uma escola de Leça da Palmeira fornece, há 20 anos, voluntários para, na Junta de Freguesia, ajudarem cerca de 80 pessoas por dia a preencher o IRS.

Somos o país do voluntariado – o que só nos ficaria bem, não fossemos também o país dos desempregados e dos mais mal pagos.

O que é que aconteceria se estes voluntários não existissem e estas pessoas – os infoexcluídos que, ao que parece, são ainda muitos -, não entregassem a declaração do imposto por estes motivos? Será que o Fisco os castigava a todos, ou o governo seria obrigado a resolver o problema pagando a quem de direito para os ajudar?

Até que ponto é que esta nossa boa vontade funciona a nosso desfavor? Até que ponto é que estes jovens, sem emprego a maioria, e sem dinheiro, cava a sua própria sepultura com esta predisposição para o voluntariado?

São questões que, ultimamente, me têm assolado bastante, até porque, eu própria sou, de vez em quando – e cada vez menos -, uma voluntária.

É que isto de trabalhar à borla tem duas facetas – a da ajuda a quem verdadeiramente precisa, e a do aproveitamento ilícito de quem não precisa de borlas para nada mas as aproveita para encher, mais ainda, os próprios bolsos. Se calhar convinha começar a separar o trigo do joio. Sempre ouvi dizer que “a quem muito se baixa o cu lhe aparece” e nós somos um povo demasiado habituado a mostrar o dito.


terça-feira, 8 de abril de 2014

E nada de mal me acontecerá

Perco-me na espera de dias melhores que hão de vir na força do calor e da paz que, por andar perdida, tarda em chegar.

Perco-me na esperança de dias melhores que hão de chegar engalanados, garridos, ao som do rufar das peles esticadas dos taróis.

Perco-me na certeza de dias melhores acabados de chegar. Perco-me no seu sabor, não de mel que é espesso, denso, mas de limão doce e fresco, suave, envolto em bolas de sorvete branco enfeitadas com pepitas de chocolate. Perco-me nesses dias mornos, envolta nos teus braços que sei seguros.

E nada de mal me acontecerá. Nunca mais.


sábado, 29 de março de 2014

Génio Precisa-se

As crendices, mas também o génio, ficam sempre mais arreigados em períodos de grande aflição, de crise profunda, de desnorteio, terror e sofrimento.


Bons exemplos disto são a Idade Média e o Renascimento, sofrivelmente retratados na série “Os Demónios de Da Vinci”. Foi, porém, essa mesma série que me despertou a vontade de escrever sobre isto já que ao observar a ignorância em que se vivia e o terror por ela despertado; ao observar o poder que advém do conhecimento quase exclusivo, senti que nos tempos que correm o medo está a voltar porque a ignorância, ainda que a outro nível, afinal mantém-se. Porque o conhecimento, agora exigentemente muito mais vasto, contínua a ser símbolo de poder e a permanecer quase exclusivo.


De pouco serve, ao que parece, termo-nos transformado em povos mais cultos se a cultura que nos têm vendido nos molda a seu favor. De pouco serve se nos continuam a esconder conhecimento – e continuam. Tal e qual como na Idade Média. Mas, pior do que isso é este retorno vestido de cores um pouco mais garridas. Este retorno do medo; das crendices; das doenças endemoniadas. Este desespero que nos faz recorrer de tudo o que promete alívio – ainda que fugaz. E o desespero que passa por cima do desespero alheio – que esquece moral, que esquece ética, que esquece amor, amizade, virtude, confiança, carinho...que esquece tudo porque só se lembra da dor, do sofrimento e corre, corre por cima de tudo e de todos os que se atravessarem à frente e busca, cheira, como um predador, a aflição alheia para dela se aproveitar.


Se isto não é um regresso ao pior que Idade Média teve para nos oferecer, não sei o que será.

Eu, rezo para que o novo Renascimento chegue - se não a tempo para que eu dele desfrute, ao menos para os meus filhos. Que o novo Renascimento chegue ainda no tempo dos meus filhos. Porque se a História se repete - e tudo indica que sim -, vai haver um dia em que ele chegará.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Toca mas é a acordar!

A História é feita de pequenas histórias que se vão sucedendo num tempo e num espaço que, afinal, nos são alheios ou nos passam despercebidos. Centramo-nos no nosso – tempo e espaço – e lá mumificamos, nascendo, vivendo e morrendo sem nos termos praticamente mexido. Os mesmos. Sempre os mesmos. Crédulos num destino incontornável; conformados com todas as realidades que nos são oferecidas - a maior parte das vezes sem nos consultarem, sem saberem, até, de que é que gostamos, com que é que sonhamos - ; presos por “verdades” que não são as nossas, sendo que essas ou já esquecemos ou nem sequer chegámos a lembrar.

Até que ponto adormecemos nas constantes distracções do dia-a-dia? E se Jesus Cristo tivesse razão? E se nós fossemos muito mais do que isto? E se, dentro de cada um de nós existisse, latente, o divino?


terça-feira, 18 de março de 2014

O grito do Ipiranga em versão tuga

A vida não está nada fácil e o dinheiro, que é cada vez mais escasso, parece composto de matéria volátil que se esvai em menos de nada - não há muito tempo cheguei mesmo a temer bolsos rotos mas depois percebi que nem todas as peças de roupa têm bolsos e que mesmo que os tivessem não é lá que guardo os parcos tostões com que me remedeio até ao final do mês.

Ora, como se isto não fosse suficiente, tenho à perna certas entidades credoras de somenos importância como, por exemplo, a ONEY e o seu cartão Jumbo+ cuja única e verdadeira vantagem é a de me poupar às filas intermináveis das caixas registadoras. Ora, estes simpáticos e prestáveis amigos a quem pago religiosamente todos os meses sem nunca – NUNCA -, em todos estes anos, que já são bastantes, ter deixado de o fazer, dizem-me agora que precisam que volte a preencher os papelinhos porque entendem, depois de uma análise cuidadosa não sei bem a quê, que talvez – TALVEZ -, eu constitua um risco financeiro.


Pois bem, dado que a vida, como comecei por dizer, não está nada fácil e o meu desejo de liberdade é cada vez maior, creio bem que será mais uma entidade à qual fecharei as portas, sendo que, devagarinho e ao ritmo das minhas possibilidades, as fecharei também ao banco com os seus cartões de crédito, de débito e do raio que os parta a todos, eu seja cãozinho se não for capaz de me libertar desta gente.

quinta-feira, 13 de março de 2014

E se...

...de repente, e finalmente, compreendêssemos e manipulássemos todas as possibilidades?

Se, de repente, e finalmente, conseguíssemos moldar o mundo, o nosso mundo, o mundo de cada um de nós, à nossa maneira, à maneira de cada um de nós?

Quão assustador isso seria?! Que monstruosa liberdade! Que insuportável responsabilidade!


O que faria cada um de nós se descobrisse, de repente, essa possibilidade? Descansaria tranquilo? Fugiria? Esconder-se-ia? Enrolar-se-ia sobre si mesmo? 

Ou, com toda a coragem e determinação, mudar-se-ia a si e ao seu mundo?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Vim aqui para falar de orgulho


Não do orgulho que é suposto ter-se quando algo em nós deveras sobressai, mas daquele orgulho teimoso, que prevalece quando tudo à sua volta grita pela razão. Que fica, quando nada mais lhe resta senão ele próprio.

Vim aqui para dizer que reconhecer o disparate que inadvertidamente nos saiu da boca para fora é sinal de inteligência e que, tentar corroborá-lo desalmadamente com outros disparates exponencialmente maiores, não é.

Mas, no caminho para cá, dei de caras com este vídeo que a minha filha postou no blogue dela e, apesar de não querer, de forma nenhuma, deixar de dizer o que aqui vim dizer, tudo em mim gritou a urgência que este pequeno vídeo encerra, nos mais pequenos como nos maiores detalhes.

O mundo ao contrário seria tão mau quanto aquilo que agora é. E a transferência de orgulhos desajustados, reveladores de fraquezas maiores e terrores do que não se conhece, seria tão estúpida quanto aquilo que agora é.

No entanto, e como acredito deveras na humanidade, creio que a dramatização de um mundo ao contrário só serve para tentar, TENTAR, abrir os olhos daqueles que continuam a acreditar que Deus não só os fez primeiro, como o que fez depois foi deles que saiu.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Não tenho nada contra os ricos. Já contra os pobres, não posso dizer o mesmo




Hoje comemora-se o dia mundial da Justiça Social, o que equivale a dizer que se comemora uma coisa que nunca existiu. Talvez seja esse facto que transforma em palhaçada estes Dias Mundiais das Coisas Que Ainda Não Aconteceram E Que Não Se Sabe Se Algum Dia Acontecerão.
Eu, pessoalmente, não tenho nada contra os ricos. Muito pelo contrário – acho que todos deveríamos ser um deles. Já contra os pobres não posso dizer o mesmo – não gosto deles nem um bocadinho e acho, sinceramente, que deveriam ser erradicados o mais rapidamente possível.
Mas, neste universo, passam-se coisas que não nos passam pela cabeça ou, mesmo que o façam, é em forma de anedota, pelo que nós, os mais pequenos e em número maior, andamos não só às aranhas mas também a apanhar bonés, como se costumava dizer há alguns anos atrás.
O raciocínio mais rápido, e fácil, é acreditar que os pobres continuam a existir porque isso faz dos ricos mais ricos, tratando-se assim de uma grande injustiça social (talvez o dia de hoje devesse ser precisamente o Dia Mundial da Injustiça Social). Contudo, há algo que me confunde – dado que o dinheiro não é uma dádiva da natureza mas um recurso inventado por nós para nos facilitar a vida, por que carga de água não se adaptam as suas leis ao crescimento da população e não se zela para que todos possamos ter uma vida boa – note-se que eu escrevi Boa e não Digna. É que Digna é outra coisa. Não basta ser rico para se ser digno.
Esse raciocínio deixa-me sempre uma certa estranheza – se fossemos todos ricos ninguém precisava de andar a olhar por cima do ombro para que nada lhe acontecesse; toda a gente podia gastar dinheiro em barda, pelo que a economia prosperaria, e muito! Dir-me-ão: Mas os ricos perderiam uma coisa que lhes é preciosa – o Poder. A questão é: será que o têm mesmo? Serão eles os seus detentores? Seremos nós, habitantes deste pequeno calhau – o terceiro a contar de um dos milhares de sóis existentes por esse universo fora -, detentores de qualquer tipo de Poder? Ou existirão “mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia”?

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Boçalidades


Já uma vez escrevi aqui sobre aquilo que nos move. Hoje apetece-me escrever outra vez.
Ultimamente tenho andado a fazer um certo esforço para compreender o porquê de defender isto e não aquilo; de pensar isto e não aquilo; de sentir isto e não aquilo. Tenho chegado à conclusão que, se não sempre, pelo menos na maioria das vezes, as minhas filosofias se prendem, tão só, àquilo que eu sou, aos meus interesses. Considerando que sempre que algo me faz mal – me faz, fisicamente mal -, vai contra os meus interesses.
Daí que me tem parecido cada vez mais despropositada esta mania que as pessoas têm de quererem vender o seu peixe ao alheio quando o que o alheio é se distingue de si. E tão mais disparatada é, quanto maior a distinção.
O que nos falta, em grande quantidade, é conhecimento. A uns o conhecimento do mundo, a todos o conhecimento de si.
Perguntarmo-nos o porquê do que nos acontece e da forma como reagimos aos outros e ao ambiente, seria uma atitude deveras inteligente e poderia até constituir um belo de um trampolim para um mundo melhor, mais humano, mais civilizado. Isso, ao invés de optarmos pelo mais simples – a certeza de que tudo o que é mau vem de fora e de que aquilo que nos motiva é um bem maior para o mundo em geral, sem pararmos um bocadinho para pensar que, se calhar, será um bem maior para cada um de nós em particular. Isto, já para não falar nas invejas, nos ódios de estimação ou nos traumas que, de tão afundados, já esquecemos mas nos servem de motor.
Eu, por exemplo, gostaria muito que alguém se mexesse (porque eu não estou para isso) para reabilitar este lugar para onde vim viver e que faz a vergonha de qualquer cidadão mais civilizado. A degradação causada pela profunda ignorância de tudo o que é civilidade, de grande parte daqueles que por cá vivem, transforma um lugar que poderia ter os seus pitorescos encantos, num lugar degradado, sujo, velho e feio. Constituído por algumas quintas consideradas, quer por quem nelas não vive quer por quem as habita, mundos à parte, o resto é lixo, salvo honrosas exceções de menos de uma meia dúzia de pessoas que, como nós, precisam de uma certa harmonia à sua volta.
Ora, porque é que eu gostaria de reabilitar este lugar? Porque sou uma pessoa muito boa e acredito que, uma vez reabilitado, faria mais felizes todas as pessoas que por cá vivem, mesmo aquelas que nem sabem o que isso é?
Claro que não! Eu gostaria de o reabilitar porque é o lugar onde EU vivo. Porque detesto ter de passar por uma rua degradada para chegar à minha e porque não aguento mais à boçalidade de certos vizinhos.
Em suma, o interesse tem, na verdade, uma raiz particular e egoísta como, aliás, todos os interesses. Não quer isto dizer que não sejam interesses válidos, obviamente. Mas é importante que sempre que os manifestemos tenhamos a coragem de assumir a sua proveniência em vez de tentarmos, a toda a hora, atirar areia aos olhos dos outros, e aos nossos – principalmente aos nossos!
 
 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Leve dissertação sobre interesses, justiça e honestidade


“Dar a albarda conforme o burro” é um dito muito antigo. Pelo menos suficientemente antigo para eu o ouvir desde criança da boca da minha mãe.
Nunca o pus em causa. Como, de resto, não pus em causa, ao longo da minha vida, tantos outros ditos antigos. Errado. Devemos pôr em causa tudo o que ouvimos. Partir do princípio que, pelo facto de ser antigo e repetido, corresponde à verdade, é evolutivamente negativo (tantos ivos numa só frase pode parecer descabido, mas não é).
"Dar a albarda conforme o burro" implica adaptarmos os nossos comportamentos aos comportamentos alheios, o que faz com que sejamos apenas sombras.
Imaginem, por exemplo, alguém afirmar que é honesto sempre que, para com ele, há honestidade. Portanto, esta pessoa é honesta exceto quando não é. Onde está então a honestidade? E quem diz honestidade diz outra caraterística qualquer – eu sou paciente, exceto quando não sou. O que eu sou depende, portanto, daquilo que me parece que os outros são para comigo. É que nem depende do que eles na verdade são, mas do juízo que eu faço deles. Porque tudo o que os outros são nos chega turvado pelos juízos que deles fazemos.
“Dar a albarda conforme o burro” é um dito antigo que deve ser aplicado em benefício alheio ou, na melhor das hipóteses, em benefício mútuo. Mas nunca em benefício exclusivamente próprio. Aliás, como todas as coisas que são verdadeiramente honestas, ele deve ser usado justamente e não interesseiramente. Deve ser usado, por exemplo, na comunicação, de modo a que a mensagem chegue o mais intacta possível ao recetor. Aí sim, deve-se “dar a albarda conforme o burro”. No que toca a características humanas, elas devem ser nossas, estar agarradas a nós como lapas às rochas e nenhuma desonestidade alheia deve ser capaz de as mover. Isso sim, é ser-se.
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Em frente ao espelho


Não sei se existe uma tendência geral para insistir nos mesmos passos, como quem quer todos os dias resgatar o passado, ou se sou só eu. Mas creio que não. Não estarei sozinha neste particular, até porque ninguém quer estar sozinho quando se trata de questões mais complexas. Aliás, na verdade ninguém gosta de se sentir único nos defeitos. Já nas virtudes...

Daí que, em frente ao espelho, fixos em imagens que já não existem, desviando os olhos de qualquer sinal de novidade, recriam-se momentos, situações, valores, como quem, estando parado,  finge que anda.

Ignorando, ou supondo ignorar, a verdadeira alma da palavra “novo”, busca-se constantemente o que nunca chegou a ser – destino fatal para tudo o que é imitação. Mesmo que não o saiba, ou sabendo, tanto faz.

Romper com o passado é o caminho para quem procura paz de espírito.

Não um romper romper, de quem vira a cara sempre que se cruzam. Não um romper de quem deixa de falar ou de quem está muito, mas mesmo muito, zangado, não.

Antes um romper tranquilo, de quem ama e acarinha mas sabe que já passou. Um romper de quem agradece mas sabe que é hora de seguir, de avançar para a construção de novos passados.

Um romper de quem perdeu o medo, abriu os olhos, olhou o espelho, e seguiu em frente.

Esse romper.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Trabalho é trabalho


Por muito que se goste daquilo que se faz, e eu gosto, há sempre dias em que nos apetece fazer outra coisa qualquer ou mesmo nada.

Dizer que trabalhamos por amor à camisola, independentemente daquilo que se ganha, é falso, estúpido e serve para alimentar essa mentalidade servil de que o trabalho dá saúde, honra e prestígio. Às vezes dá. Às vezes não. E se não precisássemos de ganhar dinheiro, com certeza não faltariam atividades, às quais não chamaríamos trabalho, que nos dessem prazer e fossem muito mais proveitosas socialmente do que o trabalho que fazemos por não haver outra forma de pagar o supermercado.

Dentro deste contexto, haver quem se ache no direito de beneficiar do trabalho alheio sem para isso ter de pagar o justo custo, desvalorizando não só o trabalho em si como as necessidades primárias de cada um, i.e, a sua inerente condição humana, é não só vergonhoso mas ofensivo e criminoso.

A escravatura, abolida há séculos, renasce assim nos hábitos daqueles que, tendo muito ou menos que isso mas o suficiente, passam por cima de “toda a palha” para satisfazerem as suas necessidades secundárias e manterem, à custa seja lá do que for, o nível de vida ao qual se acham no direito.

A esses, desejo sinceramente que, sem qualquer possibilidade de controle, cada cêntimo que deixam de pagar a quem de direito lhes caia por um qualquer cano e desapareça no espaço. Desejo ainda que essa realidade seja tão imediata que não deixe qualquer tipo de dúvida relativamente à sua causa – não paga, perde -, assim, sem mais nem menos; sem dó nem piedade e na mesma proporção – são cêntimos, perde cêntimos; são milhões, perde milhões. Isto sim, é justiça.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Dos abusos, dos abusados e dos abusadores


Quarenta anos passaram desde aquele momento em que o amigo se abeirou de mim para perguntar, Gostas de alguém?, e eu, sincera, olhei-o naturalmente e respondi, Não, de ninguém. Mas ele tanto insistiu que eu, olhando em redor, acabei por apontar para quem estava mais perto e era, segundo os critérios de então, um dos mais cobiçados. Dele, disse eu. E o amigo, com o desalento estampado no rosto, ainda insistiu, Mas tens a certeza?
Eu encolhi os ombros sem saber que, nesse dia, em frente a ele, o amigo baixaria os olhos e, desolado, abanaria lentamente a cabeça enquanto as palavras lhe sairiam a custo – Não é de ti!

Talvez nesse tempo ainda existisse entre nós um espírito de combate, uma vontade de vencer. Ou talvez ele fosse mesmo assim, um lutador. Ou, talvez ainda, a sua convicção fosse maior do que a minha certeza, porque a verdade é que não desistiu. Esperava-me nos intervalos das aulas; ao final da manhã; ao início da tarde. Acompanhava-me e fazia-me rir. Alto, mais alto do que o comum. Magro, muito magro por causa da asma e feio. Sim, feio. Desengonçava-se todo para me fazer rir. E conseguia.

Mas eu tinha razão. Não gostava de ninguém. A não ser dos meus – do meu pai; do meu irmão; do meu primo…Na minha alma não morava nenhum desejo de paixão. Era um encolher de ombros. Um tanto me faz.

Há acontecimentos que nos marcam para o resto da vida. Que nos fecham a alma. Nos trancam o coração. Acontecimentos que nos roubam, num repente, aquilo que era suposto sermos nós a dar, devagar, com tempo, a seu tempo.

São acontecimentos conhecidos por muitos e reconhecidos por poucos. Acontecimentos que se calam e que, por se calarem, quem por eles passa dificilmente encontra a compreensão e a paciência que as marcas desses acontecimentos exigem.

Acontecimentos que carregamos anos e anos, por vezes toda a vida. Que nos obrigam a navegar ao seu sabor. Que nos incapacitam, nos escondem, nos mudam.

Acontecimentos que são fruto de uma sociedade defeituosa. Repressiva e reprimida. Uma sociedade construída para muitos, por alguns – os que acreditam que são livres mas de liberdade não sabem quase nada.

A liberdade vive dentro de nós. A liberdade, aliada à coragem de ser, liberta-nos verdadeiramente e, por nos libertar, deixa-nos ver o que realmente importa. E o que realmente importa tem muito pouco a ver com o que os nossos apetites mesquinhos e pontuais reclamam.

A repressão, mascarada de ordem, que temos vindo a implementar desde há séculos, para benefício de alguns e prejuízo de muitos, amachuca indelevelmente quem somos – seres de luz e de amor, de corpo e de alma.

A repressão, venha lá ela de onde vier, gera violência. Transforma tudo o que é bom em tudo o que é mau.

Andamos há anos a tapar as nossas bocas para, de vez em quando, criarmos o caos, e não nos apercebemos que, afinal, se calhar, bastaria destapá-las – mesmo que isso não seja assim tão simples.

Afinal, nunca é.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Última Hora!


Gosto de me sentar na bancada da cozinha, de manhã, a tomar o pequeno almoço.
Ligo o pequeno televisor e a box que o acompanha e, à medida que vou mastigando a bola de mistura recheada do que me apetecer, vou mudando de canal na esperança, sempre na esperança, de sentir que estou a par de tudo o que se passa no mundo.
Tarefa cada vez mais difícil, não pelo que acontece por aí mas por ficar sempre com uma estranha sensação de distração, de alheamento. Como se quem me transmite as notícias não as quisesse na verdade transmitir ou não as conheça também e, tal como eu, ande à procura da realidade que foge, cada vez mais, dos olhares de todos nós, ou quase todos.
Ontem, por exemplo, enterneci-me com o vídeo de um chimpanzé fêmea que, tendo sido capturada num estado de saúde muito debilitado, se despede da sua salvadora com um abraço reconhecido e humano. Quem não se enterneceria?! No entanto, após uma busca – fácil e rápida -, no Google, percebo que o vídeo que o jornal da manhã me oferece tem mais de um mês. E, quando finalmente me passou a comoção do abraço, pensei para mim que talvez, talvez, os jornalistas não saibam, não tenham forma de saber, que neste mundo de profundas mudanças todos os dias acontecem coisas. Se calhar não tão importantes quanto a manifestação, afinal humana, de um símio que nos inspira ternura e amor – muito adequado, por necessário, para os tempos que correm -, mas atuais como se querem as notícias – atuais ao jeito de última hora. Tal e qual eram anunciadas, pelos ardinas, nos primórdios do jornalismo quando os jornalistas eram apenas meia dúzia de coscuvilheiros que gostavam de escrever.
 
 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Bons para um lado. Maus para o outro.


Não sou saudosista. Pelo menos não em demasia. Com o tempo tenho-me vindo a adaptar melhor às mudanças, mesmo àquelas que se revelam menos boas. Aprendi que as únicas mudanças que importam verdadeiramente são aquelas que se realizam dentro de nós. As outras, são pontuais – uma vez adaptados, tudo regressa à normalidade, tudo entra no ram-ram do dia-a-dia. É a adaptação que dá trabalho, causa stresses e angústias, principalmente porque a tendência puxa sempre para a transformação do que é no que era, e raramente para o aproveitamento de uma oportunidade única de crescimento. Isto dito assim pode parecer um pouco confuso. Mas não deixa de ser verdadeiro.
A nossa resistência à mudança, seja ela particular ou comum, é histórica e visceral. Veja-se, por exemplo, a reação geral aquando da invenção do comboio – “o diabo de ferro” -, da indústria, ou mesmo dos computadores. Sempre que surge algo de novo as nossas pernas tremem, o coração sobressalta-se – todos sabemos que alguém vai cair para outros se levantarem um pouco mais. É assim a vida. Sempre foi. Dinâmica.
O que importa aqui é que as mudanças privilegiem a maioria e que todos, ou quase todos, possamos crescer com elas – tornarmo-nos mais humanos, nem que para isso seja necessário mudar de caminho numa espécie de retorno que nunca o é. Numa espécie de aproveitamento da filosofia de ontem – se ela for melhor do que a de hoje – e da tecnologia de hoje – se ela for melhor do que a de ontem.
O que importa aqui é que sejamos capazes de aprender verdadeiramente com a experiência e, para isso, não podemos esquecer o passado.
O que importa aqui é que sejamos capazes, através desse passado, de compreender o presente e de, sobre ele, termos uma palavra a dizer.
O que importa aqui é que não nos deixemos adormecer mas que não esqueçamos que o bem maior é sempre o bem comum e que nem sempre, por muito boa vontade que exista, a fronteira entre um e outro é clara. Basta termos a consciência de que a visão do mundo muda com o olhar de cada um de nós.
Por isso, talvez possamos, e devamos, começar pela simplicidade de dividir o mundo em dois, os sentimentos em dois, as vontades em duas – bons para um lado e maus para o outro. É, sem dúvida, um cliché, mas a rejeição dos clichés também é um preconceito.
As mudanças ensinaram-me – estão a ensinar-me -, a crescer. E esse crescimento passa, necessariamente, por eliminar, o mais possível, o que em mim faz mal e alimentar, o mais possível, o que em mim faz bem. É esse o caminho para a nossa humanidade.
 
 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O pato de borracha


 
Enquanto na Índia se tenta encobrir o homicídio de uma garota de dezasseis anos violada em Outubro por seis manfias que deveriam ser encarcerados para todo o sempre mas que, em vez disso, puderam fazer valer os seus direitos ao poder – violá-la uma outra vez e por fim queimá-la que é para aprender a estar calada que as mulheres, na Índia e, vai-se a ver, em muitos outros lugares, são para ser violadas, abusadas, desrespeitadas e postas na linha à força de músculos, tal e qual como nos primórdios da humanidade em que a sobrevivência deles dependia.
Dizia eu que, enquanto na Índia se passa isto que aqui ledes, em Taiwan é notícia o rebentamento de um pato gigante que, apesar de ser considerado obra de arte, não passa de uma versão exageradíssima dos pequenos patos amarelos que costumam servir de incentivo aos banhos dos mais pequenos.
Pois, em Taiwan, as pessoas ficaram quase tão tristes com o rebentamento do pato quanto na Índia com o homicídio da jovem.
Enquanto isto, no Camboja, vivem-se horas de confusão à pala da greve dos trabalhadores têxteis. Quem vir as imagens que de lá chegam perceberá que cada cêntimo que paga por cada peça de roupa não serve, com certeza, para melhorar o nível de vida daquela gente.
Pelo Ocidente não sei o que se passa. Provavelmente, mais ou menos as mesmas coisas mas, enquanto nos entretemos com notícias mais distantes, vamo-nos abstraindo das nossas…
Se calhar o mundo foi sempre assim – o que não abona muito a seu favor -, só que agora tudo se sabe. Até que existem patos gigantes, feitos de borracha, a nadar em grandes lagos para deleite dos transeuntes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O coletivo e o particular


Há algo nas manifestações coletivas que me comove. Provavelmente a sensação de pertença, o sentir que todos somos parte de algo maior. No entanto, colado a este sentimento, vem um outro já antigo, uma necessidade que a minha geração defendia com unhas e dentes – a de nos destacarmos da “carneirada”.

O coletivo remete-me para os “rebanhos” de gente manipulada por forças que se mantêm à parte, empenhadas em minimizar, se possível anular, o que cada um de nós tem de único, aquilo que nos distingue do outro, aquilo que cada um, na verdade, É, e que se destaca apenas naqueles que fazem questão de manter as massas “agrupadas em rebanhos”.

Os grupos são comoventes, e até necessários em determinadas alturas, mas não nos podemos esquecer que aqueles que mudaram a História não faziam parte de nenhum grupo, lutaram sozinhos – gente como Madre Teresa de Calcutá; Martin Luther King, Nelson Mandela; Jesus Cristo ou Mahatman Gandhi.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

No rescaldo do Natal que se quer Feliz

Uma pessoa aborrecida diria que foi mais um que passou; uma entusiasta, que aconteceu de tudo neste Natal. Tanto uma como outra são exageradas mas eu prefiro a segunda, sem dúvida! E, neste Natal, ainda que não tenha acontecido de tudo, porque o tudo é imenso, aconteceu muita coisa. E ainda que as pessoas, na sua maioria, tenham sido as mesmas, este Natal foi diferente.
 
Este Natal tive a minha neta a dormir no meu quarto toda a noite. Levantei-me duas vezes para lhe dar o biberão, dormi com um olho fechado e o outro aberto mas ninguém foi mais feliz do que eu.
 
Este Natal a minha filha resolveu oferecer-me um tablet (sim, eu queria muito um e não, isso não significa que esteja a ficar xexé ou a entrar na terceira idade, que é como quem diz a retornar à infância) e estou encantada com o facto de ter, em grande mas perfeitamente transportável, o que ainda ontem tinha em pequeno (refiro-me ao écran do telemóvel).
 
Este Natal faltou a luz várias vezes, o que nos obrigou a mudar todos os planos que tínhamos para o bacalhau que deixou de ser no forno, para tristeza de alguns, e passou a ser cozido, como manda a tradição que, aliás, estamos prestes a quebrar porque já se percebeu que há muita gente que na verdade não gosta de bacalhau e, se dantes acreditávamos que era por serem crianças, hoje, ao vê-los já adultos a engolir o bicho por obrigação e com os olhos postos nos sonhos, nas filhós, nos coscorões e sabe Deus mais em quê, concluímos que nos enganámos e que o melhor mesmo é arranjar um substituto para o fiel amigo.
 
Este Natal tive o meu filho comigo de manhã à noite, na cozinha, ao meu lado, a amassar filhós e coscorões, a fazer fatias douradas e bolos de Natal.
 
Este Natal tive duas crianças barulhentas ao almoço que me fizeram sentir que era mesmo Natal.
 
Este Natal foi maravilhoso e passou demasiado depressa como tudo o que é maravilhoso, mas não deixou aquele sabor que muitas vezes fica quando algo é bom e passa depressa – o de ficarem coisas por fazer -, e isso faz que este Natal tenha sido ainda melhor.
 
E, por isso mesmo, quando terminou, mesmo há bocadinho, estendi-me no maple, fechei os olhos e dormi, bem umas duas ou três horas.
 
Feliz Natal
 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Feliz Natal


 
Eu sei que é Natal, época da Boa Vontade, da extrema Paciência e, se possível, de alguma Bondade, mas estou tão cansada desta merda deste país, sem querer ofender ninguém, carregado de incompetências, amadorismos, oportunismos e todas as terríveis sombras projetadas por quase meio século de má formação a todos os níveis. Tão cansada!

Desde a companhia de seguros que anda há dois meses para me enviar um cheque de indemnização e que, após instruções mais do que precisas em cartas reais e e-mails, acaba por mo enviar para uma morada que já não existe; a passar pela Zon que cobra serviços de qualidade francamente duvidosa e pela PT que agenda instalações para períodos entre as nove da manhã e a uma da tarde e que a esta hora – são 12:49 – ainda não apareceu e nada disse a não ser informar-me, em resposta a um telefonema meu, que ainda estavam dentro do período agendado apesar de não fazerem ideia de quantas horas, minutos, segundos precisarão para fazer o trabalho. Quem sabe entrarão pela tarde dentro…a mim cabe-me calar e esperar.

Mas a pérola, a pérola são os serviços Tributários e Aduaneiros que me enviam cartas a solicitar pagamentos por conta do IRS baseados num ano em que declarei mais-valias pela venda de uma casa. Uma carta em que se diz que a minha obrigatoriedade cessa “quando verificadas as condições do n.º 4 do artigo 102.º do Código do IRS” que me abrange sem qualquer sombra de dúvida e quando, a título de confirmação não vá o diabo tecê-las, resolvo ligar para o 707******, único número indicado nos mails que teimam em enviar e cujo custo todos nós sabemos que é elevado, a senhora que me atende me vai mostrando, passo a passo, que sabe menos disto do que eu. Fica muda quando lhe leio o n.º 4 do artigo 102.º do Código do IRS e quando eu, incomodada, a questiono sobre os seus saberes, ela me confessa, após vários minutos de conversa, que o seu ramo é mais aduaneiro e que de tributação pouco ou nada sabe, eu fico zangada porque me está a fazer perder tempo e dinheiro e ela desfaz-se em desculpas com voz de quem devia estar já reformada.

Estou tão cansada desta merda deste país!

Mas é Natal. É Natal e em breve será um Novo Ano – sabe Deus o que aí vem!... E eu quero desejar a todos, mesmo aos incompetentes que, se calhar, nem culpa têm de o ser, mesmo aos menos bons, mesmos aos amadores que andam há anos a brincar aos profissionais. Quero desejar a todos – amigos e menos amigos – que eu não tenho importância suficiente para ter inimigos -; conhecidos e desconhecidos; muito ricos, ricos, remediados, pobres e muito pobres um Natal de Paz; um Natal Sereno e Quente. Quero pedir-vos que dediquem alguns segundos, se não puderem ser minutos, ao Silêncio que tão desprezado tem sido e tanto tem para nos dizer. Mas! Atenção! Não é um silêncio de boca - é um silêncio Maior, um silêncio de alma, de mente, de espírito. Só esse é o verdadeiro Silêncio.

FELIZ NATAL.

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O maior bem


Fala-se da juventude como do maior dos bens. Só quem não a viveu em pleno pode desejar o seu prolongamento. Que cansaço!

Arrependimentos? Não creio que haja quem os não tenha. Pelo menos um há de se encontrar quando se olha para trás. E depois?! Qual é o problema?! Não se fez o melhor que se soube naquele momento?! Como seria a vida hoje se não tivesse havido enganos? Que tamanho teríamos sem eles?

A juventude é como tudo na vida – boa quando deixa de existir. Quantos de nós não desejaram que ela passasse depressa? Quem não quis ser adulto para poder dar ordens ou, pelo menos, não ter de as receber, para poder trabalhar para ser independente? Com sonhos de grandezas e vitórias sem fim? Quem?

O maior bem nem sequer é andarmos por cá. O maior bem é sermos capazes de amar e sermos felizes enquanto andamos por cá. Isso sim, é o maior bem.