domingo, 21 de junho de 2015

Dos Arraiais e das Danças


Há muito tempo que não dançava! E não é que não goste de dançar porque gosto, mas tenho mergulhado naquilo que a vida diz que tem para mim, aceitando o frenesim de todos os dias sem me mexer para dizer agora chega, agora vou ver se me divirto um bocadinho. Mesmo que seja num arraial. Mesmo que a música não seja aquela que gosto de ouvir. Aliás, de preferência que não seja aquela que gosto de ouvir porque essa raramente serve para dançar e eu preciso mesmo é de dançar - de me mexer, de saltar, de dar aos pés, de cansar as pernas e ficar com a certeza de que os meus joelhos não estão assim tão maus, que o meu peso não está, ainda (e espero ter a vontade que preciso para que nunca chegue a estar) de modo a não me deixar mexer mais de meia hora sem ficar a arfar de cansaço.

Enfim... há muito tempo que não dançava, mas ontem dancei e fez-me bem.


Obrigada a este grupo dos antigos alunos do Liceu de Almada que se mantém tão activo por via de meia dúzia - se calhar nem tanto - de carolas que não desistem de nos arrastar para este lado da vida. Este lado despreocupado, descontraído, meio louco, onde se vão carregar as baterias para aguentar os mergulhos naquilo que a vida diz que tem para cada um de nós e que insistimos em aceitar sem espernear de vez em quando. Ontem esperneei.

domingo, 14 de junho de 2015

Ir aos Figos


Seja lá de que maneira for, ir aos figos é sempre muito agradável - goste-se  ou não dos ditos.

Neste caso a referência pretende ser literal.  É fruta que, sempre que posso, não dispenso. E viver num lugar onde as figueiras abundam e deixam cair os ramos, e os frutos, para fora dos quintais, é um privilégio.

Todos os dias passo por várias. Observo-os, aos figos, e penso que com ou sem companhia lhes hei-de deitar a mão - assim que amadurecerem.

Já consegui saborear dois. Eu sei, é coisa pouca. Mas prefiro deixá-los amadurecer um pouco mais. Prefiro que absorvam todo o sol que puderem porque a fruta, tal como o amor, é boa quando está madura e alberga, dentro de si, o calor e a energia de um raio de sol.

Mas nem tudo é como se espera e os figos, cujo crescimento tenho vigiado, os figos pelos quais pacientemente tenho esperado, estão a sucumbir a esta chuva fora de horas.


Esta água que cai do céu desprevenida e despropositada retrai os frutos e fecha-os, como aos homens, dentro de cascas mirradas deixando-me sem figos e sem homens mas na esperança, sempre na esperança, que haja quem sobreviva às intempéries e, sem medo, amadureça para mim.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Ditos e Mexericos


Tenho em mim uma incapacidade de crítica às questões públicas que me deixa a oscilar entre a possibilidade de eu ser realmente ignorante, despersonalizada e indecisa, ou simplesmente incapaz de falar sobre aquilo que não conheço verdadeiramente e não gostar, de todo, de especulações baratas.

Não que não goste de mexericos, que gosto, de vez em quando. Mas no privado. Os mexericos fazem parte das coisas que se partilham com os amigos, na intimidade e na cumplicidade das amizades que se querem divertidas porque todos sabemos que não passam disso, de mexericos e que, provavelmente, estarão sempre demasiado longe da verdade que nem sequer entra nesta equação.

Mas expor publicamente a minha ignorância, mesmo que disfarçada de sabedoria, como agora se faz nas redes sociais onde toda a gente opina com certezas absolutas, não está na minha natureza.

Tempos houve em que admirei esse opinadores convictos acreditando que sabiam o que diziam. Mas acabei por perceber que, na verdade, as suas opiniões não passam de formas de extravasar o que lhes vai na alma – aquilo em que acreditam, aquilo em que querem acreditar e ou aquilo em que precisam de acreditar porque lhes acalma as frustrações. 

Com o tempo descobri que não é possível ter uma visão suficientemente global das coisas para poder opinar de forma verdadeiramente democrática, que é como quem diz – isenta.

Nenhum de nós tem o panorama todo. Por isso, as palavras que se vomitam não passam de opiniões mal fundamentadas por visões limitadíssimas das coisas. 

Não passam, ao fim e ao cabo, de verdades particulares, de realidades pessoais que podem, ou não, contagiar quem as ouve, dependendo da convicção com que são transmitidas.




quinta-feira, 4 de junho de 2015

Estado de graça



Estar apaixonado é um estado de graça. Porque não é comum – por muita paixão que tenhamos cá dentro é sempre bom que haja uma motivação externa para que ela se manifeste, um objeto de paixão, um alvo, enfim algo que a mereça -, e porque nos aproxima desse lado místico que transcende o nosso corpo físico relembrando-nos que somos muito mais do que ele. Relembrando-nos que somos, também nós, divinos.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Citroën 2CV



Todas as manhãs era um martírio. Quando chovia então nem se fala, era o descalabro. Não bastava ser empurrado, tinha de se incendiar um bocado de jornal e chegá-lo ao carburador - ou a um outro lugar qualquer junto à grelha da frente e que muito possivelmente teria outro nome - para que o estupor pegasse.

Não havia Bala que valesse e eu, com uma barriga do tamanho do mundo, lá o empurrava rua abaixo até ele se condoer de mim e começar a trabalhar. Primeiro aos soluços, indeciso, e por fim determinado levava-me a Lisboa e trazia-me de volta ao final do dia sem protestar, na maior parte das vezes.

No dia seguinte, às sete da manhã, repetia-se a aventura. A barriga cada vez maior. O meu filho a querer nascer e o estupor do carro que nunca pegava à primeira! e nem à segunda e nem à terceira...
Deixou-me ficar mal tantas vezes!

Uma noite, chovia que Deus a dava e a fila na avenida da ponte era tão grande que o automóvel, cansado, desistiu. Tudo nele se apagou. Telemóveis? Não tinham sido inventados ou, se tinham, não estavam à disposição da plebe.

Tranquei-me dentro do carro à espera que a polícia se apercebesse do caos dentro do caos que já existia.

Como a coisa demorasse, fui pedindo a quem lentamente passava que ligasse para a minha casa. Dei o meu número de telefone a mais de quatro condutores. Façam-me esse favor, pedi eu. Que sim, que fariam. Não fizeram.

O raio do carro, cuja bateria não aguentou estar parada tanto tempo com o rádio, as luzes e o aquecimento ligados, assim que levou um empurrãozito rua acima, pegou e seguiu viagem.

Quando cheguei a casa estava tudo num alvoroço, pensaram que nos tínhamos perdido, eu e o automóvel, na chuva da noite.

Já de Verão era outra coisa!

Deixava-se passear de capota aberta! Qual descapotável! Cabelos ao vento!

Ensinou-me a conduzir, o estupor, com aquela manete de mudanças cheia de curvas e contracurvas.

Vendi-o pouco depois do meu filho nascer. Há cerca de 30 anos.


Encontrei-o hoje, como novo, estacionado frente a um parque de lazer, na Costa da Caparica.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Hoje é sempre melhor do que ontem



Não tem saudades aqui do bairro? perguntou-me ela assim que cheguei. E o curioso é que ainda não tinha chegado a meio da rua quando esse pensamento me ocupou, logo seguido daquela sensação que tenho, sempre que regresso ainda que pontualmente ao lugar que deixei para trás - incómodo.

Ao contrário de muita gente,  sinto-me sempre melhor no lugar onde estou do que me lembro de me sentir no lugar onde estava - seja ele um sítio, uma pessoa ou mesmo um estado de espírito. Tudo o que tenho agora é o melhor que já tive e, mesmo que não seja, é isso que eu sinto.

Voltar ao lugar que deixei, traz-me um desconforto tão grande que antes de lá chegar já estou a pensar em sair e voltar para mim. Creio que tem sido esse o meu percurso, agora que penso nisso, em direção a mim, ao encontro de mim.  Assim, quando morrer, já poderei dizer que me conheci, que cheguei a saber quem fui.

Os retornos não são regressos, são recuos. E eu não gosto de andar para trás a não ser que isso seja imprescindível para continuar em frente.

Não, respondi-lhe. Não sinto saudades. Gosto de viver onde vivo.



terça-feira, 26 de maio de 2015

Feliz aniversário




Pensei em fazer uma reflexão como, de resto, costumo fazer. Mas este ano, ou porque já refleti de mais, ou porque finalmente interiorizei que a vida é para ser vivida no momento em que acontece, decidi que não refletiria.

Não quer dizer que este dia deixe de ser, para mim, um dia muitíssimo importante - o meu dia. Aquele dia que vivo comigo, em segredo. Um segredo que só eu e eu conhecemos - o dia do meu nascimento. O dia que comemora os 57 anos de vida em comum.  De zangas, de arrependimentos, de medos, de dores, de alegrias, de incredulidades, de crescimentos - uns mais voluntários do que outros... enfim, 57 anos de vida em comum! Uma vida plena, cheia! Uma vida de caminhos, estradas lisas, carreiros ásperos, veredas acidentadas, becos sem saída de onde, afinal, se sai porque por muito estranha que nos pareça a realidade que no momento enxergamos, o certo é que ela muda de cara com o tempo, quer a gente queira, quer não.

E ainda que eu já tenha percorrido mais de metade do caminho, espero andar por cá o suficiente para terminar o que aqui vim fazer - encontrar aquela paz que desce sobre nós quando tudo se harmoniza, quando tudo está, exatamente, onde deve estar e nós fizemos, exatamente, o que sentíamos que devíamos fazer.

Parabéns a mim.


sábado, 23 de maio de 2015

Charneca da Caparica inimiga das gentes

Ele é carros por todo o lado. Carros, carros e mais carros. Vêm da direita, da esquerda, do centro, sei lá mais de onde!





Na Rua das Areias, que mais parece uma avenida, como em tantas outras o alcatrão acaba junto às entradas dos quintais e os carros estacionam rente aos muros das casas.






As ruas, poucas, que dão a quem anda a pé a alegria de terem um pouco de passeio, arrependem-se passados poucos metros e estimam-nos tão pouco que deles só sobram as empedradas bermas. O passeio em si é leito de ervas daninhas tão densas e altas que expulsam o caminhante mais afoito.





Eu gosto de andar a pé. Gosto de agarrar na cadela e passear, meia hora, uma hora, hora e meia. Aqui, na Charneca da Caparica, principalmente aos fins de semana, os nossos passeios transformam-se em pesadelos. Cuidado! Cuidado! é a palavra que a Puca mais ouve da minha boca e já sabe que este som diz que tem de se encolher rente ao muro que estiver mais perto se não quiser ser atropelada por uma dessas viaturas que corre atrasada para o almoço de família.



É triste. É triste que numa terra tão plana, tão cheia de verde e ar de mar não se possam dar passeios a sério, daqueles que não ficam confinados aos espaços privilegiados mas que se estendem por toda a charneca. Afinal, é uma charneca, deveria poder ser percorrida a pé!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Cães como flores no jardim!


Vivo num sítio onde as pessoas têm cães como flores no jardim, dia e noite. Há animais que só vejo porque passo aos portões dos quintais e eles ladram, invejosos da Puca que passeia acompanhada, que é acarinhada, que raramente está sozinha e, mesmo quando está - coisa que acontece de vez em quando -, volta para junto das nossas festas e dos nossos sorrisos de felicidade por a vermos.

Vivo num sítio onde vivem cães que não sei a quem pertencem porque vivem sozinhos, isolados, presos nos quintais. Nunca passeiam. Comem, dormem, cagam e mijam no mesmo lugar. Desculpem o vernáculo mas as circunstâncias não permitem outro, é isto mesmo: comem, dormem, mijam e cagam, tudo no mesmo lugar. Já vi donos apanharem as fezes dos respectivos e lançá-las muro acima. Quem quiser que as apanhe!

A Puca, uma cadela que adoptei há cerca de quatro anos, vive connosco e passeia duas vezes por dia. Com a idade tem-se recusado a ir à rua sozinha por isso, quando eu chego mais tarde, tenho de ir com ela.

Hoje cheguei à uma da manhã e fomos passear as duas. Não lhe pus a trela porque ela gosta de correr e quando estou com ela tem por hábito não se afastar muito.

Acontece que os outros infelizes não podem com ela e, quando passamos perto dos portões, ladram desgraçadamente.

Hoje, um velho veio cá fora para me insultar. Diz que vai chamar a GNR porque eu não tenho nada que andar a passear o cão a esta hora!

Não sabia que havia horas para passear os cães! O certo é que o ignorante, que tem um animal, menos animal do que ele, abandonado no quintal a noite toda, acha que eu sou responsável pelo ladrar do dele e dos outros coitados que vivem também abandonados pelos quintais.

A Puca não ladra de noite quando passo por eles. Eu faço o sinal do silêncio e ela obedece. Afinal de contas não tem razões para invejar nada nem ninguém.


Continuamos um país de ignorantes e brutos e, pelo andar da carruagem, a coisa não vai para melhor, o que é de lamentar. Pela parte que me toca, estava convencida que o cinzentismo e o peso da ignorância do Estado Novo tinham acabado. Parece que me enganei. Estão vivos e de saúde. A minha esperança é que morram com os velhos do Restelo. Afinal, nada é eterno.

domingo, 3 de maio de 2015

Sexo e Trouxas D'Ovos


Não é que eu não goste de sexo, que gosto, mas vim o caminho todo a pensar nas trouxas d'ovos só porque ele as esqueceu para se deixar ficar preso ao sexo. Em que é que estás a pensar, perguntei eu, em sexo, respondeu ele, as trouxas d'ovos já eram. A esta hora não me apetecem.

Mas o que é que sexo e trouxas d'ovos têm em comum, perguntam vocês. Nada. Rigorosamente nada, a não ser, talvez , o desejo de alguém que se interessa por ambas, e apenas por ambas, e de tal forma que tanto se lhe dá que venham com hortelã e passas ou a nu, limpinhas, sem nada, só as trouxas feitas d'ovos, como o sexo sem mais nada, sem a confusão do gostas de mim, telefonas-me amanhã ou voltamos a ver-nos. Nada disso a não ser, é claro, se for para partilhar uma ou duas trouxas d'ovos.

Conheço o Francisco há 30 anos e ele foi sempre assim - mais coisa menos coisa. Confesso que a idade tem feito desabrochar o gentleman que vive nele. É um tipo com pinta, lá isso...  Um cineasta. Um romântico acidental que é como quem diz, um romântico capaz de transformar um momento em "aquele momento", desaparecer no dia seguinte e ficar sem dar notícias meses a fio, mesmo que a sua vontade fosse levar-nos com ele.  Um tipo capaz de abanar corações mas que acaba por sair com o dele partido depois de uma série de peripécias e malabarismos difíceis de compreender. Hoje perguntei-lhe o que é que ele queria, o que é que ele realmente queria da vida e ele respondeu-me tout court: sexo e trouxas d'ovos.

Deixou-me de boca aberta não pela surpresa ou desilusão ou seja lá o que for que a resposta pudesse ter despertado em mim, mas pela beleza da frase! Temos isso em comum, creio eu, esse desligamento do que é complicado , essa tendência para ficcionar a vida em imagens, mesmo que essas imagens sejam de palavras e que as palavras, no fim, não queiram dizer grande coisa. Na verdade, se forem harmoniosas pouco importa o que querem dizer, têm de ser usadas - num título, num verso, numa história ou numa crónica desinteressante de conteúdo como esta mas honesta e, espero, fácil de ler. Harmoniosa, como se quer - no ritmo, nas imagens, nos desafios que as palavras, e só elas, nos oferecem.

Sexo e trouxas d'ovos podia muito bem ser o título de um romance ou de um filme. E fossemos nós o país dos subsídios, que já fomos, a esta hora em vez de estar eu para aqui a desencantar palavras para vos dar, estaria o Francisco a desencantar imagens, sequências de imagens, provavelmente sem história - como esta crónica -, para vos oferecer uns minutos de sexo e trouxas d'ovos. Mas os subsídios acabaram, pelo menos aqueles que davam para fazer cinema, principalmente agora que o Manoel de Oliveira já cá não está, e alguém tinha de aproveitar a frase. Aproveitei-a eu.

terça-feira, 17 de março de 2015

Eu, pecadora, me confesso



Não sei lidar com a velhice. Não com a minha que ainda não chegou, mas com a alheia. Não sei acarinhar, tratar como se tratam as crianças, não sei olhar para um velho sem ver alguém que tem, necessariamente, de saber mais do que eu, de ter vivido mais do que eu, mesmo sabendo que isso nem sempre é verdade.

Velhice não é doença.

Não compreendo a necessidade que os velhos têm de juventude. Não compreendo porque não se unem eles, que vivem no mesmo tempo a partilham recordações.

Dentro em breve seremos um país de velhos e terá de ser assim - teremos de olhar uns pelos outros. E não é assim que está certo?

Quanta vida tem um filho de dar para cuidar de um pai, de uma mãe? Não nascem os filhos para voar? Para viverem eles mesmos as suas vidas, crescerem, envelhecerem e morrerem sós ou com os seus pares? Não é isso natural?

Lamentamos os que morrem cedo e lamentamos a velhice! Apetece-me dizer que nós, afinal, lamentamos a vida.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A Verdade - isso é o quê?



Há muitos anos eu estava convencida que existia uma verdade e que ela era, evidentemente, a minha.

Depois, à medida que os meus horizontes se foram expandindo, cheguei a temer uma grave inconsistência da minha pessoa.

Todas as opiniões, por díspares que fossem, que ouvia sobre um qualquer assunto me pareciam lógicas e verdadeiras.

Nessa altura perdi a minha verdade! Eu era, na minha opinião, uma pessoa despersonalizada, meio tonta, sem opinião firme sobre fosse o que fosse.

A qualquer verdade afirmada por terceiros eu encolhia os ombros e o meu olhar tornava-se tão vago quanto a minha opinião - eu não sabia. E, perante a veemência dos outros, eu só conseguia responder: Pois...não sei...talvez...

Hoje, convicta de que a única verdade é que não existe nenhuma verdade única, procuro a minha mais do que a de qualquer outra pessoa e procuro-a com o meu coração e não com a minha razão.

A razão, que geralmente tende, primeiro a acreditar no que é mais fácil para nós e depois a gerar argumentos que sustentem precisamente isso. Isto é, a razão obedece muito mais ao comodismo, que é como quem diz -  joga à defesa, enquanto o coração sabe. Ele é que sabe!

Quantas e quantas vezes a razão puxa para um lado e o estômago dá voltas e voltas? Sabem porquê? Porque o coração sabe que não é por aí. Mesmo quando tudo à nossa volta grita que sim, que é, se o nosso estômago dá voltas, se os intestinos se prendem, ou soltam, se a voz embarga...se calhar é porque não é por aí.

As verdades são tantas e tão convincentes!

Há pouco tempo vi um filme sobre Madre Teresa de Calcutá. Chama-se "A Verdade Sobre Madre Teresa" ou qualquer coisa do género...

Nunca me passou pela cabeça aquele ponto de vista mas, tal como o seu oposto, ele faz sentido. Afinal Madre Teresa foi a mulher que mais dinheiro geriu, em toda a história da humanidade. Então, porque é que os seus pobres continuaram sempre pobres? Parece-me uma pergunta lógica. Aliás, porque é que os seus pobres continuam pobres quando aquelas que ficaram à frente da Congregação dizem que o dinheiro que esta tem é incontável?!

Mas, por outro lado, a senhora dedicou uma vida inteira aos pobres. Afinal, ela recebeu o Nobel da Paz! E nunca ninguém a viu rica! Será que ela foi, como diz o tal filme, mais um instrumento de acumulação de riqueza para o Vaticano?

E quem é que pode responder a isto com verdade?

Ninguém! Só ela o poderia fazer e ela já cá não está!

A verdade é uma propriedade individual! O resto são pontos de vista.

Descubra a sua verdade.

E siga o seu próprio caminho.

Quando o estômago lhe doer, concentre-se nessa dor para ter a certeza de que não é medo. Depois oiça o seu coração e aceite a sua verdade mesmo que ela seja diferente de todas as outras.


Aceite-a porque ela é a SUA VERDADE.



quarta-feira, 4 de junho de 2014

Emoções


Não é bom escrever ao sabor das emoções.

As emoções são o resultado de estados de alma que devem ser vividos até às últimas consequências. 

Devem ser deixados livres para se entranharem em nós até ao âmago, até ao tutano dos ossos, em cada célula do corpo de modo a dissolverem-se por completo. 

E depois, só depois, podem ser ditas.

Até lá, é deixar que doam.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Este texto é para menores de 50 (não estou com disposição para ouvir a lenga-lenga que eu própria costumo fazer sempre que alguém mais novo faz referência à sua provecta idade)



Nasci há 56 anos. Para ser franca hesitei no número o que não me parece um bom sinal.

No entanto, sinto mais orgulho do que lástima.

56!

Há dias em que não sei como é que vim aqui parar. 

Há dias em que não sei como aqui cheguei e nem me interessa. 

Cheguei e pronto. 

Cheguei.

Estou cá e estou bem. 

Na verdade estou cada vez melhor.

Estou mais descontraída.

Não há muito tempo acordava com o coração a saltar-me do peito. 

Tinha ataques de pânico constantes. 

Aliás, a minha vida era um ataque de pânico. 

Agora, olho à minha volta e sei, e sinto, e tenho a certeza, e vivo essa certeza, de que não há nada que me possa acontecer que não seja vida.



terça-feira, 20 de maio de 2014

O mito grego e a realidade tuga





É difícil trabalhar neste país. E como é difícil viver sem trabalhar – ou pelo menos sem ganhar dinheiro -, é difícil viver neste país. O que é triste, porque é um lindo país, mesmo sendo um lugar onde ninguém reconhece o valor de ninguém.

Creio que não estou sozinha quando digo que me sinto como Sísifo quase todos os dias.

Sísifo, para quem não sabe, é um personagem da mitologia grega que está condenado a repetir sempre a mesma tarefa – empurrar uma pedra gigante montanha acima -, o facto é que cada vez que está prestes a chegar ao topo, uma qualquer força irresistível leva a pedra de volta ao ponto de partida anulando completamente todo o esforço despendido pelo desgraçado.

Não é só o dinheiro, mas é também o dinheiro. É o dinheiro, o reconhecimento, o respeito e a gratidão que vem com ele. Trabalhei dois anos na Holanda e apesar de trabalhar mais horas do que as que aqui trabalho, nunca me senti tão cansada como me sinto aqui. Não é o esforço exigido pelo trabalho, é a frustração que vem com a dúvida de competência:

Será que presto para alguma coisa? Em que é que as competências que acredito ter se assemelham àquelas que os outros vêem em mim?


Este país é ingrato. Nós somos ingratos, pedantes, pretensiosos. Olhamo-nos uns aos outros por cima do ombro. Somos um país de gente frustrada e não compreendemos, ainda, que somos simultaneamente vítimas e carrascos.

Voltando ao mito de Sísifo faz sentido referenciar Camus e a sua filosofia de absurdo na qual este mito é evocado – Será que a realização do absurdo exige o suicídio, pergunta Camus e responde, quase de imediato, “Não, exige revolta”.

E o absurdo é, por exemplo, sermos tratados abaixo de cão no nosso próprio país e como profissionais competentes nos países dos outros. O absurdo é sermos pagos abaixo do que é digno no nosso próprio país e com a dignidade que merecemos nos países dos outros. Isto sim, é absurdo.



segunda-feira, 19 de maio de 2014

O que É e o que PARECE


Não faço juízos a priori e nem no imediato porque posso estar a ver mal, posso estar a ser induzida em erro pelos múltiplos factores que nos influenciam a todo o momento. 

Das pessoas vou registando palavras e actos, estados de espírito, olhares – concordância entre uns e outros -, e tiro as minhas próprias conclusões que raramente são definitivas ou levam bastante tempo útil para o ser. 

Dos acontecimentos acabo por não tecer juízos, fico-me pelas ideias, pelas sensações, pelo instinto, porque não existem dois acontecimentos iguais. A verdade é que a vida, ao contrário do que corre em tantas bocas, surpreende-nos a todo o momento a não ser, é claro, que já dela esperemos aquilo que achamos que é o esperado – aí, não haverá lugar a surpresas. Não nos maravilharemos, muito pelo contrário, a maior parte das vezes desiludir-nos-emos porque as expectativas estão sempre além da realidade. 

Fazer de cada momento uma novidade é abrir o coração a surpresas e fechá-lo a desilusões. As coisas serão o que forem e nós poderemos vivê-las com alegria porque não há outra forma de viver o novo. 

Muitos me chamam à atenção para o facto de eu acreditar nas pessoas. Sei que a intenção é boa mas divirto-me a perceber duas coisas: a primeira é que eles acham que é por inocência ou sonho; a segunda porque temem por mim, acreditando que estou mais sujeita a ser enganada. 

Eu nunca sou enganada, porque a única pessoa que me pode enganar sou eu mesma e eu esforço-me, todos os dias, para que isso não aconteça. Para, sem medo, enfrentar dentro de mim o que tiver de ser enfrentado. 

Quanto às mentiras dos outros elas são, grosso modo, falta de coragem e não se pode condenar a falta de coragem, apenas lastimá-la. E quando a intenção é má, verdadeiramente má, ela é tão detectável que a mentira se denúncia na hora com uma tal clareza que a situação, por caricata, acaba por ser divertida. 

Sosseguem pois os que por mim temem. Nada há a temer. Eu sou forte (no bom sentido, claro).


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Hoje foi dia de pendurar quadros.

Já perdi a conta às vezes que pendurei estes quadros. Sempre os mesmos. Quase sempre nos mesmos lugares, obedecendo a uma só filosofia; à mesma lógica ou cultura familiar.

Hoje mudei de estratégia. Até porque está mais do que provado que a habitual não me tem trazido sorte – pelo menos não a sorte que eu esperava. Hoje mudaram de lugar. Enfim, nem todos, mas a maior parte deles.

Para companhia escolhi um cavalo bestial. Li há pouco tempo que é o meu animal de poder. Devia ter também um quadro com um urso, já que é o meu animal de proteção.

Ao que parece, ao cavalo vou buscar poder e liberdade. O poder vem da sabedoria encontrada dentro do Ser, resultado da sua jornada – o que faz todo o sentido.

Quanto à proteção, parece estar ligada ao desejo de hibernação – um desejo antigo, que eu sempre tive -, à necessidade de retiro para recuperar forças.

Infelizmente a vida não se compadece com as minhas necessidades e é por isso que eu estou empenhada em transformá-la de forma a não precisar do seu compadecimento. Já faltou mais e, nessa altura, serei urso sempre que precisar de o ser. Ou ursa, que é mais adequado.

O curioso é que sempre gostei de cavalos e, quanto aos ursos, uma vez tive um namorado que me tratava por ursa, de forma muito carinhosa evidentemente. Sempre acreditei que era por causa do cabelo.

Mas hoje foi dia de pendurar quadros e ao contrário de todos os outros dias de pendurar quadros, não stressei nem me preocupei com a sua distribuição. Ao contrário de todos os outros dias de pendurar quadros, hoje estou descontraída, paciente e confiante.


Aqui para nós que ninguém nos ouve – a minha vida está a mudar. Fechou-se um ciclo. Para a frente, tudo será como eu quiser.


terça-feira, 6 de maio de 2014

Tesouros

Há tesourinhos que mesmo que deprimentes se arrastam pela vida fora nas sucessivas mudanças de casa, ou de lar, que pode não ser exactamente o mesmo.

Os meus, não sendo revisitados com regularidade, não sei já se são ou não deprimentes – ser deprimente é um critério que muda com o avanço do tempo – ontem foi, hoje já não, sendo que o contrário é tão válido quanto este.

Adivinharam – mudei de casa. Novamente. A vida é, preciso de acreditar, mesmo assim – para ser vivida em toda a sua plenitude. E apesar da paz e do sossego serem uma ambição, não podem ser conseguidos a qualquer custo – aliás, não podem custar nada, têm de ser parte integrante do pacote, ou este não valerá a pena.


Nestas minhas andanças tenho arrastado comigo três ou quatro pequenas caixas, dois diários e muitos manuscritos. Mas, importantes mesmo, são as caixas e os diários que me acompanham desde a infância – sim, infância. Não adolescência ou juventude, mas infância. Lá guardo, religiosamente, bilhetes de autocarro de 2$50, capicuas preciosas que dão sorte na vida. Lá guardo uma noz de três quinas e um rabo de coelho que me foi dado por um apaixonado para que, mais uma vez, me desse sorte. Lá guardo cartas e cartinhas de amigas que me marcaram para a vida, ou as suas cartas não fariam parte do rol. E lá guardo mais uma série de pequeníssimas coisas que já não sei, não me lembro, porque nestas andanças nem tempo tenho para as revisitar. Mas que as guardo, guardo, e por muitas que sejam as coisas de que me vou desfazendo, estas ficam, sabe Deus porquê...Provavelmente para me darem sorte.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Este país da Boa-Vontade...

Uma escola de Leça da Palmeira fornece, há 20 anos, voluntários para, na Junta de Freguesia, ajudarem cerca de 80 pessoas por dia a preencher o IRS.

Somos o país do voluntariado – o que só nos ficaria bem, não fossemos também o país dos desempregados e dos mais mal pagos.

O que é que aconteceria se estes voluntários não existissem e estas pessoas – os infoexcluídos que, ao que parece, são ainda muitos -, não entregassem a declaração do imposto por estes motivos? Será que o Fisco os castigava a todos, ou o governo seria obrigado a resolver o problema pagando a quem de direito para os ajudar?

Até que ponto é que esta nossa boa vontade funciona a nosso desfavor? Até que ponto é que estes jovens, sem emprego a maioria, e sem dinheiro, cava a sua própria sepultura com esta predisposição para o voluntariado?

São questões que, ultimamente, me têm assolado bastante, até porque, eu própria sou, de vez em quando – e cada vez menos -, uma voluntária.

É que isto de trabalhar à borla tem duas facetas – a da ajuda a quem verdadeiramente precisa, e a do aproveitamento ilícito de quem não precisa de borlas para nada mas as aproveita para encher, mais ainda, os próprios bolsos. Se calhar convinha começar a separar o trigo do joio. Sempre ouvi dizer que “a quem muito se baixa o cu lhe aparece” e nós somos um povo demasiado habituado a mostrar o dito.


terça-feira, 8 de abril de 2014

E nada de mal me acontecerá

Perco-me na espera de dias melhores que hão de vir na força do calor e da paz que, por andar perdida, tarda em chegar.

Perco-me na esperança de dias melhores que hão de chegar engalanados, garridos, ao som do rufar das peles esticadas dos taróis.

Perco-me na certeza de dias melhores acabados de chegar. Perco-me no seu sabor, não de mel que é espesso, denso, mas de limão doce e fresco, suave, envolto em bolas de sorvete branco enfeitadas com pepitas de chocolate. Perco-me nesses dias mornos, envolta nos teus braços que sei seguros.

E nada de mal me acontecerá. Nunca mais.