sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Descendentes de Viriato

Dos refugiados sírios


Há coisas que não podem ser levadas de uma forma leviana e esta é uma delas.

Esta gente anda a fugir de uma guerra sem quartel. Anda a fugir da morte, da maior das misérias, do horror que uma guerra semeia, e fá-lo com os filhos às costas.

Esta gente luta para salvar a prole da guerra e da fome. Há até quem defenda que esta guerra começou exactamente com uma seca sem antecedentes na história da Síria que transformou a zona agrícola num verdadeiro deserto.

A Síria era um país estável. Onde se vivia normalmente apesar da ditadura. As pessoas  trabalhavam, alimentavam-se, divertiam-se e criavam os filhos pacificamente.


Dos portugueses



Por cá não há guerra. Mas também não abunda o trabalho. O desemprego cresceu consideravelmente e as pessoas passaram a ganhar menos e a pagar mais impostos. O número dos sem-abrigo aumentou e desconhece-se o número real daqueles que passam fome porque continua a existir, por aí, muita pobreza envergonhada.

Somos um povo que viveu uma ditadura de quase 50 anos de que poucos se lembram mas que continua  no nosso imaginário colectivo, deixando-nos de pé atrás. Afinal de contas, e apesar dos pesares, somos hoje um povo livre que pode rezar a quem quiser, vestir o que quiser, dizer o que quiser mesmo que sejam disparates, e não queremos perder essa liberdade. Aliás, não o saberíamos fazer. Pelo menos eu, pela parte que me toca, estaria disposta a morrer por ela.

As mensagens que recebemos sobre o povo muçulmano em geral, venham elas de onde vierem, não são as melhores. A forma como esta religião trata as mulheres é, em certas zonas do mundo, absolutamente escabrosa; o fundamentalismo de certas facções muçulmanas é medieval, e as notícias constantes sobre terroristas que entram disfarçados na Europa onde montam, muitas vezes, quartel, leva muitos de nós a questionar até que ponto corremos riscos com esta entrada em massa, não apenas no nosso país mas na União Europeia.

Da humanidade

Cristãos, islâmicos, hindus, budistas, jainistas, confucionistas e mais as outras centenas de fés que eu não conheço, têm uma coisa em comum – são humanos. Pertencemos todos à mesma espécie e, apesar de ser creio que a única a matar-se a ela mesma ao ponto do genocídio, é também a única capaz de coisas extraordinárias como a extrema humanidade onde se alberga o amor infinito e a compaixão.

Do medo

Eis o único mal que pode dar cabo de toda essa humanidade! O Medo! O Medo é, tantas vezes, a nossa desgraça. Aquilo que nos impede de sermos maiores, de irmos mais longe. Pensem em todos aqueles que o conseguiram e vejam o que é que eles deixaram de ter: Medo.

Nós não estamos em guerra. Não sabemos sequer o que é ter a guerra instalada no nosso país, ver as cidades e os campos destruídos, as nossas crianças mortas nas ruas.

Estes refugiados, estes migrantes vêm de uma situação pior do que a nossa. Uma situação que eles próprios não previram como nós não previmos aquela em que estamos agora e não podemos prever aquela em que estaremos amanhã. Sejamos então humanos. Sejamos fiéis à fama que sempre tivemos de povo acolhedor, de bom anfitrião. Afinal de contas não é a primeira vez que nos entra gente pelo país adentro e nós continuamos por cá.

E se, por qualquer estranho acaso, no meio deles entrarem terroristas, nós estamos aqui para lhes fazer frente. Afinal somos ou não somos descendentes de Viriato?



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O IMPOSSÍVEL NÃO EXISTE. EXISTEM, SIM, VONTADES FRACAS

Obrigada a quem não descansou enquanto não inventou o avião


Sempre quis dizer isto. Aliás, sempre soube que isto é verdade. Não foram poucas as vezes que me lamentei perante terceiros sabendo muitíssimo bem que se a coisa não tinha acontecido era tão só porque a minha vontade que acontecesse não era assim tão grande.

Querer é Poder não é treta nenhuma. É verdade. A gente é que quer pouco porque querer dá muito trabalho ou, se calhar, porque afinal não somos seres de grandes quereres, de fortes vontades – somos assim mais fraquinhos, mais pequeninos, mais de gostares. Ah! E tal, eu gostava que me saísse o euromilhões; Eu gostava de encontrar a minha alma gémea; Eu gostava…

Mas nunca acreditando mesmo que uma coisa dessa dimensão possa acontecer! Bolas! E se me sair mesmo o raio do euromilhões?! O que é que eu faço a tanto dinheiro? Será que vou voltar a ter descanso na vida? E essa coisa da alma gémea? Se me engano e passados uns anos dou por mim a viver num inferno? Ná… deixa-me mas é estar assim que para complicações já basta o que basta.

E pronto. Não passamos da cepa torta.

Excepto, claro, aqueles raros que querem mesmo muito uma coisa qualquer e não sossegam enquanto não a conseguem. Esses são uns sortudos. Uns gajos que nasceram com o cu virado para a Lua.

Eu também acho que sim, mas não por terem conseguido o que queriam. Antes por terem descoberto o que era.

sábado, 22 de agosto de 2015

Sol e Sombra – Dos touros e das touradas


Cresci a ver touradas. A estar presente na feira da Golegã. A ver embolar touros dez vezes mais pesados do que eu. Conheci pessoalmente os toureiros Alfredo Conde e  José Mestre Baptista. O primeiro cavalo que montei era grande e branco e pertencia a um deles – não me recordo qual.

Nessa época, nas histórias que se contavam de morte e sangue, os protagonistas eram os toureiros – homens valentes, capazes de fazer frente a um animal feroz. Nunca assisti a uma tourada no país vizinho. Nunca vi matar um touro. A maior emoção que senti numa corrida foi ver o touro saltar a cerca semeando o pânico nos espectadores.

Havia, não sei se ainda há, em Lisboa, um clube para aficionados onde serviam refeições e se falava de touros e de cavalos. De toureiros e criadores.

Cresci a amar e a respeitar as tradições que alguém, que não eu, fez chegar até mim. Hoje sei que não existem tradições imortais. Que não existe tradição que não morra, mais cedo ou mais tarde.

Hoje sei que as tradições podem ser, e são na maior parte das vezes, forças que nos mantêm estáticos contrariando a dinâmica da própria vida.

Há que analisar muito bem aquilo que se defende. Há que reavaliar se a tradição em causa é ou não útil para o crescimento humano e as touradas, por muito que me custe dizer isto – e já me custou  mais – não são.

Tenho assistido a cenas de uma crueldade terrível. Uma crueldade que nunca vi antes porque nunca vi crueldade nos animais. Os animais não são cruéis. São só animais. E se um toureiro morria ou saía da arena mal tratado, eram ossos do ofício. A responsabilidade só a ele poderia ser imputada.

O mesmo não se pode falar do sangue que corre dos animais – quer dos touros quer dos cavalos. Esse é de uma crueldade sem igual porque é infligido, directa ou indirectamente, por quem não é apenas um animal. Ou não deveria ser.

Está na hora de acabar com esta tradição. A não ser que haja, como em tantas outras, capacidade de adaptação à nossa presente humanidade que, pelos vistos e contra certas más línguas, está em franco crescimento.
Bem haja.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Abandonos de mim


Às vezes abandono-me.

Por tristeza ou por preguiça, um abandono de mim como quem deixa o pó apoderar-se da casa para depois ter o prazer de a ver limpa.


Às vezes abandono-me sem pensar se vou ter força para me renovar, sem calcular o limite desse meu abandono, e como mal, durmo mal, rejeito-me prazeres fechando-me ao mundo só para ter o derradeiro prazer de me ver renovar, como as águias, como a fénix, acreditando que todos estes abandonos me protegerão do tempo que passa.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Ninguém me liga nenhuma


Não tem idade este sentimento. Esta terrível frustração de não ser para os outros o que se acha que se deveria ser.

Não tem direcção. Tanto faz se estamos a falar de quem nos é próximo, de quem nos é menos próximo ou daqueles que julgamos conhecer só porque todos os dias nos deixam algumas palavras, tantas vezes arrancadas à solidão, nas redes sociais.

Nem tem sentido. Porque só pode ser fruto das baixas auto-estimas com que a sociedade, cada vez mais, nos presenteia.

Não é, por tudo isto, uma razão vectorial. Mas existe. Vive em nós e é real.

Ninguém me liga nenhuma!


E, se ninguém me liga nenhuma é porque eu não presto para nada. Mas como, cá no fundo, às vezes muito no fundo, eu até sinto que presto. Eu até quero prestar. Então são os outros que não prestam porque não olham, não vêem e não merecem que eu fique. E, numa desgarrada tentativa, serei inconveniente, agressivo, insultuoso até. Ou, simplesmente, virarei costas para voltar, logo a seguir, quando ouvir o público que tanto anseio bater as palmas por um encore.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Não Tenho Medo de Nada


"Não tenho medo de nada". E ouvi-la era ouvir-me a mim há alguns anos. Não sei  exactamente o que muda, se cada um de nós se a própria vida mas o medo parece ter fases. Fases e preferências.

Aos nove anos eu morria de medo de tudo o que me rodeava - o vento, o mar, os cães, o macaco que a vizinha tinha preso a uma corda que o deixava chegar ao muro rente ao qual eu tinha de passar, o bode que pastava atado a um poste e que um dia fugiu, o homem que se atravessava, ébrio, no meu caminho... Enfim, tudo ou quase tudo o que existia constituía uma ameaça que me obrigava a correr, a fugir, a tremer que nem varas verdes, a espreitar, a hesitar, a escolher os caminhos por onde passar.

Depois tudo isso se foi e eu tornei-me, creio que por força das circunstâncias, numa corajosa - numa Maria Sem Medo. Ai de quem me ameaçasse! fosse cão, gato ou gente. Ai de quem entrasse sem ser convidado no espaço que era o meu!

E para provar e comprovar essa minha coragem adquirida, a vida tratou de me oferecer vários momentos de alimento egónico. Momentos de glória e garbo que consolidaram ainda mais a minha capacidade de enfrentar qualquer ameaça, de liquidar qualquer inimigo.

A seguir fiquei só e o medo ganhou coragem. Primeiro devagarinho, como quem não quer a coisa, depois determinado, paralisante, sufocador. Não era o mesmo medo de antes, era um medo maior, mais vasto, mais profundo. Era um medo que não desaparecia mesmo que eu corresse. Um medo do qual não se pode fugir porque ele vive dentro de nós e não nos larga assim do pé para a mão. Segue-nos para onde formos, o estupor.

Escusado será dizer que este me deu muito mais trabalho. Um trabalho interior e diário. Um trabalho muito mais profundo e, verdade seja dita, muito mais profícuo. A este medo devo o meu maior crescimento. Mas na vida nada se sabe. Ela é, só por si, uma surpresa constante e os meus velhos medos estão agora, saberá Deus porquê, a voltar.

Ainda ontem foram pernas para que vos quero! Eu e a cadela a fugirmos de três outras, grandes, potentes, zangadas. E as minhas pernas a tremerem outra vez e o meu coração a querer saltar do peito e eu sem saber se fugia por mim ou por ela - a pequena cadela que nem esperou que eu puxasse a trela para desatar a correr ao meu lado, como que sentindo o meu medo ou, quem sabe, o dela.


Hoje, a propósito dessas outras que por aí andam completamente desvairadas e que, fiquei a saber, guardam no ninho cerca de vinte rebentos que dentro em breve correrão pelas ruas ao lado das mães reclamando alimento e território, as minhas pernas tremeram mais ainda e da boca saiu-me a confissão do medo. Desse medo quase irracional que me leva a agir. Esse medo das coisas. Esse medo tão mais pequeno do que outro que há bem pouco tempo consegui combater. Esse medo que,  mais depressa do que o outro, voltará a despertar em mim essa Maria Sem Medo e, tal como a corajosa que habita na mesma rua que eu, voltará a pôr na minha boca palavras que já foram minhas e que por enquanto são só dela: "Não tenho medo de nada."

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Apego e a Traição



"O apego fere a alma da mesma forma que a traição fere o corpo. Ambas as exacerbações ou desequilíbrios geram violências. A violência à alma é contra a própria vida, e responde pela depressão; ao corpo, por sua vez, se expressa contra o mundo externo, no ódio e na vingança."

                                                                                                 Bonder, Nilton, A Alma Imoral

E quem é que se pode gabar de nunca ter sentido uma e outra coisa?! O apego é a forma mais primitiva de amor, a mais brutal, aquela que leva infalivelmente à traição, já que nunca é correspondida porque só pede, só exige, e pouco ou nada dá. Quem ama assim é sempre atraiçoado, mesmo que não seja.

Poucas coisas são tão difíceis na vida como a conquista de um equilíbrio entre a depressão, o ódio e a vingança, de forma a podermos caminhar rumo ao desapego e à aceitação da inevitabilidade, e até da importância, da traição. Sem ela não há evolução. Sem eles - o desapego e a traição -, não há evolução.

Só quando traio o status quo, quando tenho a coragem de questionar a ordem vigente é que me liberto, é que saio do meu conforto para o desconhecido. Só traindo cresço e, para isso, tenho de aprender a amar, tenho de sair de mim, do meu papel, daquele papel que atribui a mim mesma ao longo da vida pela forma como me fui vendo, a mim, aos outros e ao mundo.

Tenho de sair de mim e olhar tudo com um novo olhar. Tenho de reescrever a minha história. Só assim crescerei. Só assim serei feliz e farei feliz quem me rodeia.


domingo, 12 de julho de 2015

A Minha Filha - À Minha Filha


Nunca me senti verdadeiramente importante, disse-me ela ao fim de 35 anos como se disso dependesse o mundo. E dependia. O facto é que dependia. O dela. O mundo dela.

Em que momento das nossas vidas estamos preparados para ser pais ou mães? provavelmente em nenhum, mas há sempre quem consiga superar o desafio de forma mais harmoniosa, mais segura, mais madura até.

Dependerá da idade? Também.

Eu era muito nova quando decidi, pela primeira vez, que seria mãe. Mais nova ainda quando soube que não poderia deixar de o ser. E fui. E teria sido muito mais se tivesse conseguido ultrapassar sozinha - porque foi como sempre me senti, sozinha -, todos os obstáculos que a vida se foi empenhando em colocar-me no caminho.

Se mudaria alguma coisa podendo voltar atrás? Muita! Muita coisa! O que sei hoje é exponencialmente mais do que aquilo que sabia então.


Mas uma coisa é certa - apesar dos pesares, ela ainda vai sendo capaz de me dizer estas coisas. E isso é bom.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Memórias de Gabriela


Passei hoje pela tua antiga casa tiazinha. Aquela onde viveste durante mais de cinquenta anos a despeito da vontade do senhorio. Aquela onde lutaste contra o tempo. Aquela onde acabaste por vencer tantas adversidades mal sabendo que a maior estava para vir.

Passei hoje pela tua antiga casa tiazinha. Mudaram-lhe a porta e as janelas. Agora são brancas, daquele material novo e frigorificamente branco que em nada condiz com a rusticidade da casa.

O pequeno limoeiro que se deixava cair pelo peso dos limões já não existe. Aquele pequeno jardim cuja cancela nos separava da estrada cada vez mais barulhenta, já lá não está. Agora quem passa no passeio roça essa outra porta de um branco despropositado, violando a intimidade de quem a habitou.

Vieram-me à memória os degraus de madeira, a porta de postigo, o quintal das traseiras. O cheiro do soalho, lustroso de tantos cuidados. Os móveis nórdicos da Helina. A carpete do corredor. Aquela casa de banho onde facilmente nos perdíamos. A banheira de pés altos. O lava loiça de mármore, o fogão em cima da chaminé.


E pensei que gostava de voltar a entrar nessa casa. Não nesta, de porta e janelas despropositadamente brancas, mas nessa outra onde também eu fui crescendo. Pensei que talvez o proprietário estivesse à espera da tua morte para que esse despropositado branco não te ofendesse. E pensei que talvez a Helina quisesse lá entrar, comigo, só para bisbilhotar, para ver até que ponto as coisas mudam. E foi então que me lembrei que ela partiu ainda antes de ti tiazinha e que foi essa a tua maior provação, aquela que nunca conseguiste ultrapassar.


domingo, 21 de junho de 2015

Dos Arraiais e das Danças


Há muito tempo que não dançava! E não é que não goste de dançar porque gosto, mas tenho mergulhado naquilo que a vida diz que tem para mim, aceitando o frenesim de todos os dias sem me mexer para dizer agora chega, agora vou ver se me divirto um bocadinho. Mesmo que seja num arraial. Mesmo que a música não seja aquela que gosto de ouvir. Aliás, de preferência que não seja aquela que gosto de ouvir porque essa raramente serve para dançar e eu preciso mesmo é de dançar - de me mexer, de saltar, de dar aos pés, de cansar as pernas e ficar com a certeza de que os meus joelhos não estão assim tão maus, que o meu peso não está, ainda (e espero ter a vontade que preciso para que nunca chegue a estar) de modo a não me deixar mexer mais de meia hora sem ficar a arfar de cansaço.

Enfim... há muito tempo que não dançava, mas ontem dancei e fez-me bem.


Obrigada a este grupo dos antigos alunos do Liceu de Almada que se mantém tão activo por via de meia dúzia - se calhar nem tanto - de carolas que não desistem de nos arrastar para este lado da vida. Este lado despreocupado, descontraído, meio louco, onde se vão carregar as baterias para aguentar os mergulhos naquilo que a vida diz que tem para cada um de nós e que insistimos em aceitar sem espernear de vez em quando. Ontem esperneei.

domingo, 14 de junho de 2015

Ir aos Figos


Seja lá de que maneira for, ir aos figos é sempre muito agradável - goste-se  ou não dos ditos.

Neste caso a referência pretende ser literal.  É fruta que, sempre que posso, não dispenso. E viver num lugar onde as figueiras abundam e deixam cair os ramos, e os frutos, para fora dos quintais, é um privilégio.

Todos os dias passo por várias. Observo-os, aos figos, e penso que com ou sem companhia lhes hei-de deitar a mão - assim que amadurecerem.

Já consegui saborear dois. Eu sei, é coisa pouca. Mas prefiro deixá-los amadurecer um pouco mais. Prefiro que absorvam todo o sol que puderem porque a fruta, tal como o amor, é boa quando está madura e alberga, dentro de si, o calor e a energia de um raio de sol.

Mas nem tudo é como se espera e os figos, cujo crescimento tenho vigiado, os figos pelos quais pacientemente tenho esperado, estão a sucumbir a esta chuva fora de horas.


Esta água que cai do céu desprevenida e despropositada retrai os frutos e fecha-os, como aos homens, dentro de cascas mirradas deixando-me sem figos e sem homens mas na esperança, sempre na esperança, que haja quem sobreviva às intempéries e, sem medo, amadureça para mim.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Ditos e Mexericos


Tenho em mim uma incapacidade de crítica às questões públicas que me deixa a oscilar entre a possibilidade de eu ser realmente ignorante, despersonalizada e indecisa, ou simplesmente incapaz de falar sobre aquilo que não conheço verdadeiramente e não gostar, de todo, de especulações baratas.

Não que não goste de mexericos, que gosto, de vez em quando. Mas no privado. Os mexericos fazem parte das coisas que se partilham com os amigos, na intimidade e na cumplicidade das amizades que se querem divertidas porque todos sabemos que não passam disso, de mexericos e que, provavelmente, estarão sempre demasiado longe da verdade que nem sequer entra nesta equação.

Mas expor publicamente a minha ignorância, mesmo que disfarçada de sabedoria, como agora se faz nas redes sociais onde toda a gente opina com certezas absolutas, não está na minha natureza.

Tempos houve em que admirei esse opinadores convictos acreditando que sabiam o que diziam. Mas acabei por perceber que, na verdade, as suas opiniões não passam de formas de extravasar o que lhes vai na alma – aquilo em que acreditam, aquilo em que querem acreditar e ou aquilo em que precisam de acreditar porque lhes acalma as frustrações. 

Com o tempo descobri que não é possível ter uma visão suficientemente global das coisas para poder opinar de forma verdadeiramente democrática, que é como quem diz – isenta.

Nenhum de nós tem o panorama todo. Por isso, as palavras que se vomitam não passam de opiniões mal fundamentadas por visões limitadíssimas das coisas. 

Não passam, ao fim e ao cabo, de verdades particulares, de realidades pessoais que podem, ou não, contagiar quem as ouve, dependendo da convicção com que são transmitidas.




quinta-feira, 4 de junho de 2015

Estado de graça



Estar apaixonado é um estado de graça. Porque não é comum – por muita paixão que tenhamos cá dentro é sempre bom que haja uma motivação externa para que ela se manifeste, um objeto de paixão, um alvo, enfim algo que a mereça -, e porque nos aproxima desse lado místico que transcende o nosso corpo físico relembrando-nos que somos muito mais do que ele. Relembrando-nos que somos, também nós, divinos.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Citroën 2CV



Todas as manhãs era um martírio. Quando chovia então nem se fala, era o descalabro. Não bastava ser empurrado, tinha de se incendiar um bocado de jornal e chegá-lo ao carburador - ou a um outro lugar qualquer junto à grelha da frente e que muito possivelmente teria outro nome - para que o estupor pegasse.

Não havia Bala que valesse e eu, com uma barriga do tamanho do mundo, lá o empurrava rua abaixo até ele se condoer de mim e começar a trabalhar. Primeiro aos soluços, indeciso, e por fim determinado levava-me a Lisboa e trazia-me de volta ao final do dia sem protestar, na maior parte das vezes.

No dia seguinte, às sete da manhã, repetia-se a aventura. A barriga cada vez maior. O meu filho a querer nascer e o estupor do carro que nunca pegava à primeira! e nem à segunda e nem à terceira...
Deixou-me ficar mal tantas vezes!

Uma noite, chovia que Deus a dava e a fila na avenida da ponte era tão grande que o automóvel, cansado, desistiu. Tudo nele se apagou. Telemóveis? Não tinham sido inventados ou, se tinham, não estavam à disposição da plebe.

Tranquei-me dentro do carro à espera que a polícia se apercebesse do caos dentro do caos que já existia.

Como a coisa demorasse, fui pedindo a quem lentamente passava que ligasse para a minha casa. Dei o meu número de telefone a mais de quatro condutores. Façam-me esse favor, pedi eu. Que sim, que fariam. Não fizeram.

O raio do carro, cuja bateria não aguentou estar parada tanto tempo com o rádio, as luzes e o aquecimento ligados, assim que levou um empurrãozito rua acima, pegou e seguiu viagem.

Quando cheguei a casa estava tudo num alvoroço, pensaram que nos tínhamos perdido, eu e o automóvel, na chuva da noite.

Já de Verão era outra coisa!

Deixava-se passear de capota aberta! Qual descapotável! Cabelos ao vento!

Ensinou-me a conduzir, o estupor, com aquela manete de mudanças cheia de curvas e contracurvas.

Vendi-o pouco depois do meu filho nascer. Há cerca de 30 anos.


Encontrei-o hoje, como novo, estacionado frente a um parque de lazer, na Costa da Caparica.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Hoje é sempre melhor do que ontem



Não tem saudades aqui do bairro? perguntou-me ela assim que cheguei. E o curioso é que ainda não tinha chegado a meio da rua quando esse pensamento me ocupou, logo seguido daquela sensação que tenho, sempre que regresso ainda que pontualmente ao lugar que deixei para trás - incómodo.

Ao contrário de muita gente,  sinto-me sempre melhor no lugar onde estou do que me lembro de me sentir no lugar onde estava - seja ele um sítio, uma pessoa ou mesmo um estado de espírito. Tudo o que tenho agora é o melhor que já tive e, mesmo que não seja, é isso que eu sinto.

Voltar ao lugar que deixei, traz-me um desconforto tão grande que antes de lá chegar já estou a pensar em sair e voltar para mim. Creio que tem sido esse o meu percurso, agora que penso nisso, em direção a mim, ao encontro de mim.  Assim, quando morrer, já poderei dizer que me conheci, que cheguei a saber quem fui.

Os retornos não são regressos, são recuos. E eu não gosto de andar para trás a não ser que isso seja imprescindível para continuar em frente.

Não, respondi-lhe. Não sinto saudades. Gosto de viver onde vivo.



terça-feira, 26 de maio de 2015

Feliz aniversário




Pensei em fazer uma reflexão como, de resto, costumo fazer. Mas este ano, ou porque já refleti de mais, ou porque finalmente interiorizei que a vida é para ser vivida no momento em que acontece, decidi que não refletiria.

Não quer dizer que este dia deixe de ser, para mim, um dia muitíssimo importante - o meu dia. Aquele dia que vivo comigo, em segredo. Um segredo que só eu e eu conhecemos - o dia do meu nascimento. O dia que comemora os 57 anos de vida em comum.  De zangas, de arrependimentos, de medos, de dores, de alegrias, de incredulidades, de crescimentos - uns mais voluntários do que outros... enfim, 57 anos de vida em comum! Uma vida plena, cheia! Uma vida de caminhos, estradas lisas, carreiros ásperos, veredas acidentadas, becos sem saída de onde, afinal, se sai porque por muito estranha que nos pareça a realidade que no momento enxergamos, o certo é que ela muda de cara com o tempo, quer a gente queira, quer não.

E ainda que eu já tenha percorrido mais de metade do caminho, espero andar por cá o suficiente para terminar o que aqui vim fazer - encontrar aquela paz que desce sobre nós quando tudo se harmoniza, quando tudo está, exatamente, onde deve estar e nós fizemos, exatamente, o que sentíamos que devíamos fazer.

Parabéns a mim.


sábado, 23 de maio de 2015

Charneca da Caparica inimiga das gentes

Ele é carros por todo o lado. Carros, carros e mais carros. Vêm da direita, da esquerda, do centro, sei lá mais de onde!





Na Rua das Areias, que mais parece uma avenida, como em tantas outras o alcatrão acaba junto às entradas dos quintais e os carros estacionam rente aos muros das casas.






As ruas, poucas, que dão a quem anda a pé a alegria de terem um pouco de passeio, arrependem-se passados poucos metros e estimam-nos tão pouco que deles só sobram as empedradas bermas. O passeio em si é leito de ervas daninhas tão densas e altas que expulsam o caminhante mais afoito.





Eu gosto de andar a pé. Gosto de agarrar na cadela e passear, meia hora, uma hora, hora e meia. Aqui, na Charneca da Caparica, principalmente aos fins de semana, os nossos passeios transformam-se em pesadelos. Cuidado! Cuidado! é a palavra que a Puca mais ouve da minha boca e já sabe que este som diz que tem de se encolher rente ao muro que estiver mais perto se não quiser ser atropelada por uma dessas viaturas que corre atrasada para o almoço de família.



É triste. É triste que numa terra tão plana, tão cheia de verde e ar de mar não se possam dar passeios a sério, daqueles que não ficam confinados aos espaços privilegiados mas que se estendem por toda a charneca. Afinal, é uma charneca, deveria poder ser percorrida a pé!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Cães como flores no jardim!


Vivo num sítio onde as pessoas têm cães como flores no jardim, dia e noite. Há animais que só vejo porque passo aos portões dos quintais e eles ladram, invejosos da Puca que passeia acompanhada, que é acarinhada, que raramente está sozinha e, mesmo quando está - coisa que acontece de vez em quando -, volta para junto das nossas festas e dos nossos sorrisos de felicidade por a vermos.

Vivo num sítio onde vivem cães que não sei a quem pertencem porque vivem sozinhos, isolados, presos nos quintais. Nunca passeiam. Comem, dormem, cagam e mijam no mesmo lugar. Desculpem o vernáculo mas as circunstâncias não permitem outro, é isto mesmo: comem, dormem, mijam e cagam, tudo no mesmo lugar. Já vi donos apanharem as fezes dos respectivos e lançá-las muro acima. Quem quiser que as apanhe!

A Puca, uma cadela que adoptei há cerca de quatro anos, vive connosco e passeia duas vezes por dia. Com a idade tem-se recusado a ir à rua sozinha por isso, quando eu chego mais tarde, tenho de ir com ela.

Hoje cheguei à uma da manhã e fomos passear as duas. Não lhe pus a trela porque ela gosta de correr e quando estou com ela tem por hábito não se afastar muito.

Acontece que os outros infelizes não podem com ela e, quando passamos perto dos portões, ladram desgraçadamente.

Hoje, um velho veio cá fora para me insultar. Diz que vai chamar a GNR porque eu não tenho nada que andar a passear o cão a esta hora!

Não sabia que havia horas para passear os cães! O certo é que o ignorante, que tem um animal, menos animal do que ele, abandonado no quintal a noite toda, acha que eu sou responsável pelo ladrar do dele e dos outros coitados que vivem também abandonados pelos quintais.

A Puca não ladra de noite quando passo por eles. Eu faço o sinal do silêncio e ela obedece. Afinal de contas não tem razões para invejar nada nem ninguém.


Continuamos um país de ignorantes e brutos e, pelo andar da carruagem, a coisa não vai para melhor, o que é de lamentar. Pela parte que me toca, estava convencida que o cinzentismo e o peso da ignorância do Estado Novo tinham acabado. Parece que me enganei. Estão vivos e de saúde. A minha esperança é que morram com os velhos do Restelo. Afinal, nada é eterno.

domingo, 3 de maio de 2015

Sexo e Trouxas D'Ovos


Não é que eu não goste de sexo, que gosto, mas vim o caminho todo a pensar nas trouxas d'ovos só porque ele as esqueceu para se deixar ficar preso ao sexo. Em que é que estás a pensar, perguntei eu, em sexo, respondeu ele, as trouxas d'ovos já eram. A esta hora não me apetecem.

Mas o que é que sexo e trouxas d'ovos têm em comum, perguntam vocês. Nada. Rigorosamente nada, a não ser, talvez , o desejo de alguém que se interessa por ambas, e apenas por ambas, e de tal forma que tanto se lhe dá que venham com hortelã e passas ou a nu, limpinhas, sem nada, só as trouxas feitas d'ovos, como o sexo sem mais nada, sem a confusão do gostas de mim, telefonas-me amanhã ou voltamos a ver-nos. Nada disso a não ser, é claro, se for para partilhar uma ou duas trouxas d'ovos.

Conheço o Francisco há 30 anos e ele foi sempre assim - mais coisa menos coisa. Confesso que a idade tem feito desabrochar o gentleman que vive nele. É um tipo com pinta, lá isso...  Um cineasta. Um romântico acidental que é como quem diz, um romântico capaz de transformar um momento em "aquele momento", desaparecer no dia seguinte e ficar sem dar notícias meses a fio, mesmo que a sua vontade fosse levar-nos com ele.  Um tipo capaz de abanar corações mas que acaba por sair com o dele partido depois de uma série de peripécias e malabarismos difíceis de compreender. Hoje perguntei-lhe o que é que ele queria, o que é que ele realmente queria da vida e ele respondeu-me tout court: sexo e trouxas d'ovos.

Deixou-me de boca aberta não pela surpresa ou desilusão ou seja lá o que for que a resposta pudesse ter despertado em mim, mas pela beleza da frase! Temos isso em comum, creio eu, esse desligamento do que é complicado , essa tendência para ficcionar a vida em imagens, mesmo que essas imagens sejam de palavras e que as palavras, no fim, não queiram dizer grande coisa. Na verdade, se forem harmoniosas pouco importa o que querem dizer, têm de ser usadas - num título, num verso, numa história ou numa crónica desinteressante de conteúdo como esta mas honesta e, espero, fácil de ler. Harmoniosa, como se quer - no ritmo, nas imagens, nos desafios que as palavras, e só elas, nos oferecem.

Sexo e trouxas d'ovos podia muito bem ser o título de um romance ou de um filme. E fossemos nós o país dos subsídios, que já fomos, a esta hora em vez de estar eu para aqui a desencantar palavras para vos dar, estaria o Francisco a desencantar imagens, sequências de imagens, provavelmente sem história - como esta crónica -, para vos oferecer uns minutos de sexo e trouxas d'ovos. Mas os subsídios acabaram, pelo menos aqueles que davam para fazer cinema, principalmente agora que o Manoel de Oliveira já cá não está, e alguém tinha de aproveitar a frase. Aproveitei-a eu.

terça-feira, 17 de março de 2015

Eu, pecadora, me confesso



Não sei lidar com a velhice. Não com a minha que ainda não chegou, mas com a alheia. Não sei acarinhar, tratar como se tratam as crianças, não sei olhar para um velho sem ver alguém que tem, necessariamente, de saber mais do que eu, de ter vivido mais do que eu, mesmo sabendo que isso nem sempre é verdade.

Velhice não é doença.

Não compreendo a necessidade que os velhos têm de juventude. Não compreendo porque não se unem eles, que vivem no mesmo tempo a partilham recordações.

Dentro em breve seremos um país de velhos e terá de ser assim - teremos de olhar uns pelos outros. E não é assim que está certo?

Quanta vida tem um filho de dar para cuidar de um pai, de uma mãe? Não nascem os filhos para voar? Para viverem eles mesmos as suas vidas, crescerem, envelhecerem e morrerem sós ou com os seus pares? Não é isso natural?

Lamentamos os que morrem cedo e lamentamos a velhice! Apetece-me dizer que nós, afinal, lamentamos a vida.