segunda-feira, 28 de setembro de 2015

DANTE OU A SERVENTIA DA ARTE



É alto, magro e tem os olhos azuis.

Na boca três dentes.

O quintal onde se move é um depósito de desperdícios amontoados entre as casotas dos dois cães e alguns canteiros onde crescem folhas não sei de quê.

Um tanque de lavar traz à cena o pormenor rústico. As janelas da casa que não é pintada há muitos anos estão cobertas de pó e, por entre as grades ferrugentas, descortinam-se panos amarelados pela força do sol.

Os dois cães que ele mantém presos por curtas correntes às respectivas casotas são de tamanho médio e pequeno. Ambos de feições afáveis e de rabo no ar – ou não é preciso muito para se sentirem felizes ou a nossa passagem dá-lhes alegria.

Ele vem sempre espreitar para ver a Puca, a minha cadela que passeia com uma trela mais comprida do que as correntes com que ele amarra os cães. Espreita para confirmar que ela vem presa e nunca perde a oportunidade de me alertar para o animal feroz que tem no quintal. “Ele é que está preso! Porque se estivesse solto! Ai meu Deus! Dava cabo dela”. E sempre que ele diz isto eu não consigo desviar o olhar do simpático animal que, se não fosse a corrente, correria para nós para que lhe fizéssemos festas. Tivesse eu a mesma certeza no número da sorte grande…

Hoje, quase nem nos cumprimentou. Estava demasiado ocupado.

Ouvi os gritos assim que dobrei a esquina. Lá dentro, ameaçada de “não tarda nada levas uma galheta que nem t’aguentas” estava uma mulher de rosto deformado por um tumor duas vezes maiores do que cara dela. Não lhe consegui ver os olhos, não se virou para mim, só de lado vi o gigantesco tumor que a mulher transporta. Nem sei como é que a cara não lhe cai para o lado.

Na rua não há passeio. Os carros tentam abrandar quando me vêem. Principalmente se a cadela decide que se quer aliviar ali, à beira da estrada, num fio de terra. Ou quando eu me baixo para apanhar o que ela faz.

Sinto a alma encarquilhar-se sempre que dobro essa esquina. Mas é ali que a cadela gosta de ir e, na verdade, as alternativas não são muitas.

Volto para trás. Curvo à direita e na primeira à esquerda. Um reduto de bom gosto num jardim cuidado tranquiliza-me. Demoro um pouco mais na passagem. Paro para lhe absorver as cores. Foi arranjado há pouco tempo. Uma pequena obra de arte. Respiro fundo e esqueço rapidamente as vozes e os cheiros da rua de trás.

Não sei como é que há gente capaz de afirmar que a arte não tem serventia!



DAS AUTO.

Anda uma pessoa a educar crianças para depois ser confrontada com este tipo de comportamentos.

A Volkswagen enganou 11 000 000, assim mesmo – com seis zeros -  de clientes e vários Estados por este mundo fora, isto para não falar nos prejuízos inerentes ao facto de, afinal, os veículos serem mais poluentes do que deveriam ser, ou mesmo totalmente poluentes, o que é ainda mais grave, a não ser que esta história do que é ou não poluente seja também uma conveniência deste ou daquele grupo económico, deste ou daquele lobby. Tudo é possível.

É que os universos paralelos onde nós, comuns mortais, não contamos para nada, existem mesmo. São universos onde tudo se passa de acordo com uma lógica  que nada tem a ver com aquela que pessoas como eu tentam explicar às crianças. Tudo se passa de acordo com a necessidade de manter em equilíbrio algo superior, transcendente mesmo, muito mais importante do que a corja de ignorantes que habita a base desta pirâmide onde o que realmente interessa está lá em cima, no alto, bem longe das nossas vistas e só desce cá abaixo quando alguém, por qualquer rebate de consciência ou por um interesse muito privado, bate com a língua nos dentes. Aí a coisa abana um bocadinho. Mas nada de demasiado sério.

Foi o que aconteceu com a Volkswagen que anda há anos a enganar o pessoal deliberadamente mas onde tudo corria bem, e poderia continuar a correr se não houvesse alguém, lá está, a espernear sabe Deus em prol de quê.

Não sei quem foi o parvalhão, ou parvalhona que se lembrou de pôr a boca no trombone porque agora quem vai pagar as favas são os suspeitos do costume.

O CEO já foi de carrinho com um “prémio” de despedida de 30 milhões de euros - 2,73 milhões por cada automóvel boicotado. Assim, sim, vale a pena ser vigarista. 

(Temos mesmo de repensar os valores que estamos a ensinar às crianças. Será que as estamos a preparar para o futuro?)

Mas tudo se vai compor porque a empresa, mais do que idónea, vai-se reestruturar. E se está a pensar que vão ser apuradas responsabilidade e punidos os responsáveis, é melhor pensar outra vez. 

Evidentemente vão rolar cabeças. Cabeças pequenas, de preferência. Talvez uma ou outra um pouco maiorzinha mas que não exija muito porque o grosso da coisa já foi com o CEO. 

Provavelmente vai-se falar em indemnizações mas os processos vão ser tão morosos que acabarão por cair no esquecimento. 

É preciso um plano para mostrar ao mundo que a Volkswagen assume os seus erros e, por isso, há que tratar dos 11 milhões de veículos “defeituosos” de forma a acalmar as hostes ou a vencê-las pelo cansaço. 

Pelo menos as tácticas já nós temos obrigação de conhecer. São sempre as mesmas...




sábado, 12 de setembro de 2015

Pretérito mais-que-perfeito

Acabei de passar à porta dos escritórios de uma empresa especializada em portas de luxo, modernas e originais, tal e qual os candeeiros lá na rua da Vitória [não se preocupe mais...].

Não, não se preocupe, porque se tiver menos de 50 anos provavelmente não perceberá o paralelismo e isso não tem importância nenhuma. O que interessa aqui é que os ditos escritórios estão ao abandono. Faliram. Eles, a firma e mais umas poucas que aqui na zona vendiam materiais de construção de primeira água.

Como é que eu sei disso? É fácil, foram eles que nos forneceram todos os materiais que usámos nas obras de remodelação da casa de família.

O tempo passa. Inexoravelmente, passa. E tudo o que é novo será velho, ou morto. 

No entanto, tudo o que passa merece lamento. Porquê? Porque tudo o que passa foi perfeito, foi bom, foi belo. Na nossa memória evidentemente.

É claro que nada do que acontece agora se pode comparar ao que já passou. 

Porque ainda não passou.

Perfeitos? só os pretéritos. Os presentes não passam de momentos que até podiam ser mas não são e, mesmo que fossem, não os veríamos.

E como poderíamos, se os nossos olhos apontam sempre noutra direcção?

Aqui para nós que ninguém nos ouve: não me fez grande mossa o abandono das portas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Descendentes de Viriato

Dos refugiados sírios


Há coisas que não podem ser levadas de uma forma leviana e esta é uma delas.

Esta gente anda a fugir de uma guerra sem quartel. Anda a fugir da morte, da maior das misérias, do horror que uma guerra semeia, e fá-lo com os filhos às costas.

Esta gente luta para salvar a prole da guerra e da fome. Há até quem defenda que esta guerra começou exactamente com uma seca sem antecedentes na história da Síria que transformou a zona agrícola num verdadeiro deserto.

A Síria era um país estável. Onde se vivia normalmente apesar da ditadura. As pessoas  trabalhavam, alimentavam-se, divertiam-se e criavam os filhos pacificamente.


Dos portugueses



Por cá não há guerra. Mas também não abunda o trabalho. O desemprego cresceu consideravelmente e as pessoas passaram a ganhar menos e a pagar mais impostos. O número dos sem-abrigo aumentou e desconhece-se o número real daqueles que passam fome porque continua a existir, por aí, muita pobreza envergonhada.

Somos um povo que viveu uma ditadura de quase 50 anos de que poucos se lembram mas que continua  no nosso imaginário colectivo, deixando-nos de pé atrás. Afinal de contas, e apesar dos pesares, somos hoje um povo livre que pode rezar a quem quiser, vestir o que quiser, dizer o que quiser mesmo que sejam disparates, e não queremos perder essa liberdade. Aliás, não o saberíamos fazer. Pelo menos eu, pela parte que me toca, estaria disposta a morrer por ela.

As mensagens que recebemos sobre o povo muçulmano em geral, venham elas de onde vierem, não são as melhores. A forma como esta religião trata as mulheres é, em certas zonas do mundo, absolutamente escabrosa; o fundamentalismo de certas facções muçulmanas é medieval, e as notícias constantes sobre terroristas que entram disfarçados na Europa onde montam, muitas vezes, quartel, leva muitos de nós a questionar até que ponto corremos riscos com esta entrada em massa, não apenas no nosso país mas na União Europeia.

Da humanidade

Cristãos, islâmicos, hindus, budistas, jainistas, confucionistas e mais as outras centenas de fés que eu não conheço, têm uma coisa em comum – são humanos. Pertencemos todos à mesma espécie e, apesar de ser creio que a única a matar-se a ela mesma ao ponto do genocídio, é também a única capaz de coisas extraordinárias como a extrema humanidade onde se alberga o amor infinito e a compaixão.

Do medo

Eis o único mal que pode dar cabo de toda essa humanidade! O Medo! O Medo é, tantas vezes, a nossa desgraça. Aquilo que nos impede de sermos maiores, de irmos mais longe. Pensem em todos aqueles que o conseguiram e vejam o que é que eles deixaram de ter: Medo.

Nós não estamos em guerra. Não sabemos sequer o que é ter a guerra instalada no nosso país, ver as cidades e os campos destruídos, as nossas crianças mortas nas ruas.

Estes refugiados, estes migrantes vêm de uma situação pior do que a nossa. Uma situação que eles próprios não previram como nós não previmos aquela em que estamos agora e não podemos prever aquela em que estaremos amanhã. Sejamos então humanos. Sejamos fiéis à fama que sempre tivemos de povo acolhedor, de bom anfitrião. Afinal de contas não é a primeira vez que nos entra gente pelo país adentro e nós continuamos por cá.

E se, por qualquer estranho acaso, no meio deles entrarem terroristas, nós estamos aqui para lhes fazer frente. Afinal somos ou não somos descendentes de Viriato?



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O IMPOSSÍVEL NÃO EXISTE. EXISTEM, SIM, VONTADES FRACAS

Obrigada a quem não descansou enquanto não inventou o avião


Sempre quis dizer isto. Aliás, sempre soube que isto é verdade. Não foram poucas as vezes que me lamentei perante terceiros sabendo muitíssimo bem que se a coisa não tinha acontecido era tão só porque a minha vontade que acontecesse não era assim tão grande.

Querer é Poder não é treta nenhuma. É verdade. A gente é que quer pouco porque querer dá muito trabalho ou, se calhar, porque afinal não somos seres de grandes quereres, de fortes vontades – somos assim mais fraquinhos, mais pequeninos, mais de gostares. Ah! E tal, eu gostava que me saísse o euromilhões; Eu gostava de encontrar a minha alma gémea; Eu gostava…

Mas nunca acreditando mesmo que uma coisa dessa dimensão possa acontecer! Bolas! E se me sair mesmo o raio do euromilhões?! O que é que eu faço a tanto dinheiro? Será que vou voltar a ter descanso na vida? E essa coisa da alma gémea? Se me engano e passados uns anos dou por mim a viver num inferno? Ná… deixa-me mas é estar assim que para complicações já basta o que basta.

E pronto. Não passamos da cepa torta.

Excepto, claro, aqueles raros que querem mesmo muito uma coisa qualquer e não sossegam enquanto não a conseguem. Esses são uns sortudos. Uns gajos que nasceram com o cu virado para a Lua.

Eu também acho que sim, mas não por terem conseguido o que queriam. Antes por terem descoberto o que era.

sábado, 22 de agosto de 2015

Sol e Sombra – Dos touros e das touradas


Cresci a ver touradas. A estar presente na feira da Golegã. A ver embolar touros dez vezes mais pesados do que eu. Conheci pessoalmente os toureiros Alfredo Conde e  José Mestre Baptista. O primeiro cavalo que montei era grande e branco e pertencia a um deles – não me recordo qual.

Nessa época, nas histórias que se contavam de morte e sangue, os protagonistas eram os toureiros – homens valentes, capazes de fazer frente a um animal feroz. Nunca assisti a uma tourada no país vizinho. Nunca vi matar um touro. A maior emoção que senti numa corrida foi ver o touro saltar a cerca semeando o pânico nos espectadores.

Havia, não sei se ainda há, em Lisboa, um clube para aficionados onde serviam refeições e se falava de touros e de cavalos. De toureiros e criadores.

Cresci a amar e a respeitar as tradições que alguém, que não eu, fez chegar até mim. Hoje sei que não existem tradições imortais. Que não existe tradição que não morra, mais cedo ou mais tarde.

Hoje sei que as tradições podem ser, e são na maior parte das vezes, forças que nos mantêm estáticos contrariando a dinâmica da própria vida.

Há que analisar muito bem aquilo que se defende. Há que reavaliar se a tradição em causa é ou não útil para o crescimento humano e as touradas, por muito que me custe dizer isto – e já me custou  mais – não são.

Tenho assistido a cenas de uma crueldade terrível. Uma crueldade que nunca vi antes porque nunca vi crueldade nos animais. Os animais não são cruéis. São só animais. E se um toureiro morria ou saía da arena mal tratado, eram ossos do ofício. A responsabilidade só a ele poderia ser imputada.

O mesmo não se pode falar do sangue que corre dos animais – quer dos touros quer dos cavalos. Esse é de uma crueldade sem igual porque é infligido, directa ou indirectamente, por quem não é apenas um animal. Ou não deveria ser.

Está na hora de acabar com esta tradição. A não ser que haja, como em tantas outras, capacidade de adaptação à nossa presente humanidade que, pelos vistos e contra certas más línguas, está em franco crescimento.
Bem haja.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Abandonos de mim


Às vezes abandono-me.

Por tristeza ou por preguiça, um abandono de mim como quem deixa o pó apoderar-se da casa para depois ter o prazer de a ver limpa.


Às vezes abandono-me sem pensar se vou ter força para me renovar, sem calcular o limite desse meu abandono, e como mal, durmo mal, rejeito-me prazeres fechando-me ao mundo só para ter o derradeiro prazer de me ver renovar, como as águias, como a fénix, acreditando que todos estes abandonos me protegerão do tempo que passa.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Ninguém me liga nenhuma


Não tem idade este sentimento. Esta terrível frustração de não ser para os outros o que se acha que se deveria ser.

Não tem direcção. Tanto faz se estamos a falar de quem nos é próximo, de quem nos é menos próximo ou daqueles que julgamos conhecer só porque todos os dias nos deixam algumas palavras, tantas vezes arrancadas à solidão, nas redes sociais.

Nem tem sentido. Porque só pode ser fruto das baixas auto-estimas com que a sociedade, cada vez mais, nos presenteia.

Não é, por tudo isto, uma razão vectorial. Mas existe. Vive em nós e é real.

Ninguém me liga nenhuma!


E, se ninguém me liga nenhuma é porque eu não presto para nada. Mas como, cá no fundo, às vezes muito no fundo, eu até sinto que presto. Eu até quero prestar. Então são os outros que não prestam porque não olham, não vêem e não merecem que eu fique. E, numa desgarrada tentativa, serei inconveniente, agressivo, insultuoso até. Ou, simplesmente, virarei costas para voltar, logo a seguir, quando ouvir o público que tanto anseio bater as palmas por um encore.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Não Tenho Medo de Nada


"Não tenho medo de nada". E ouvi-la era ouvir-me a mim há alguns anos. Não sei  exactamente o que muda, se cada um de nós se a própria vida mas o medo parece ter fases. Fases e preferências.

Aos nove anos eu morria de medo de tudo o que me rodeava - o vento, o mar, os cães, o macaco que a vizinha tinha preso a uma corda que o deixava chegar ao muro rente ao qual eu tinha de passar, o bode que pastava atado a um poste e que um dia fugiu, o homem que se atravessava, ébrio, no meu caminho... Enfim, tudo ou quase tudo o que existia constituía uma ameaça que me obrigava a correr, a fugir, a tremer que nem varas verdes, a espreitar, a hesitar, a escolher os caminhos por onde passar.

Depois tudo isso se foi e eu tornei-me, creio que por força das circunstâncias, numa corajosa - numa Maria Sem Medo. Ai de quem me ameaçasse! fosse cão, gato ou gente. Ai de quem entrasse sem ser convidado no espaço que era o meu!

E para provar e comprovar essa minha coragem adquirida, a vida tratou de me oferecer vários momentos de alimento egónico. Momentos de glória e garbo que consolidaram ainda mais a minha capacidade de enfrentar qualquer ameaça, de liquidar qualquer inimigo.

A seguir fiquei só e o medo ganhou coragem. Primeiro devagarinho, como quem não quer a coisa, depois determinado, paralisante, sufocador. Não era o mesmo medo de antes, era um medo maior, mais vasto, mais profundo. Era um medo que não desaparecia mesmo que eu corresse. Um medo do qual não se pode fugir porque ele vive dentro de nós e não nos larga assim do pé para a mão. Segue-nos para onde formos, o estupor.

Escusado será dizer que este me deu muito mais trabalho. Um trabalho interior e diário. Um trabalho muito mais profundo e, verdade seja dita, muito mais profícuo. A este medo devo o meu maior crescimento. Mas na vida nada se sabe. Ela é, só por si, uma surpresa constante e os meus velhos medos estão agora, saberá Deus porquê, a voltar.

Ainda ontem foram pernas para que vos quero! Eu e a cadela a fugirmos de três outras, grandes, potentes, zangadas. E as minhas pernas a tremerem outra vez e o meu coração a querer saltar do peito e eu sem saber se fugia por mim ou por ela - a pequena cadela que nem esperou que eu puxasse a trela para desatar a correr ao meu lado, como que sentindo o meu medo ou, quem sabe, o dela.


Hoje, a propósito dessas outras que por aí andam completamente desvairadas e que, fiquei a saber, guardam no ninho cerca de vinte rebentos que dentro em breve correrão pelas ruas ao lado das mães reclamando alimento e território, as minhas pernas tremeram mais ainda e da boca saiu-me a confissão do medo. Desse medo quase irracional que me leva a agir. Esse medo das coisas. Esse medo tão mais pequeno do que outro que há bem pouco tempo consegui combater. Esse medo que,  mais depressa do que o outro, voltará a despertar em mim essa Maria Sem Medo e, tal como a corajosa que habita na mesma rua que eu, voltará a pôr na minha boca palavras que já foram minhas e que por enquanto são só dela: "Não tenho medo de nada."

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Apego e a Traição



"O apego fere a alma da mesma forma que a traição fere o corpo. Ambas as exacerbações ou desequilíbrios geram violências. A violência à alma é contra a própria vida, e responde pela depressão; ao corpo, por sua vez, se expressa contra o mundo externo, no ódio e na vingança."

                                                                                                 Bonder, Nilton, A Alma Imoral

E quem é que se pode gabar de nunca ter sentido uma e outra coisa?! O apego é a forma mais primitiva de amor, a mais brutal, aquela que leva infalivelmente à traição, já que nunca é correspondida porque só pede, só exige, e pouco ou nada dá. Quem ama assim é sempre atraiçoado, mesmo que não seja.

Poucas coisas são tão difíceis na vida como a conquista de um equilíbrio entre a depressão, o ódio e a vingança, de forma a podermos caminhar rumo ao desapego e à aceitação da inevitabilidade, e até da importância, da traição. Sem ela não há evolução. Sem eles - o desapego e a traição -, não há evolução.

Só quando traio o status quo, quando tenho a coragem de questionar a ordem vigente é que me liberto, é que saio do meu conforto para o desconhecido. Só traindo cresço e, para isso, tenho de aprender a amar, tenho de sair de mim, do meu papel, daquele papel que atribui a mim mesma ao longo da vida pela forma como me fui vendo, a mim, aos outros e ao mundo.

Tenho de sair de mim e olhar tudo com um novo olhar. Tenho de reescrever a minha história. Só assim crescerei. Só assim serei feliz e farei feliz quem me rodeia.


domingo, 12 de julho de 2015

A Minha Filha - À Minha Filha


Nunca me senti verdadeiramente importante, disse-me ela ao fim de 35 anos como se disso dependesse o mundo. E dependia. O facto é que dependia. O dela. O mundo dela.

Em que momento das nossas vidas estamos preparados para ser pais ou mães? provavelmente em nenhum, mas há sempre quem consiga superar o desafio de forma mais harmoniosa, mais segura, mais madura até.

Dependerá da idade? Também.

Eu era muito nova quando decidi, pela primeira vez, que seria mãe. Mais nova ainda quando soube que não poderia deixar de o ser. E fui. E teria sido muito mais se tivesse conseguido ultrapassar sozinha - porque foi como sempre me senti, sozinha -, todos os obstáculos que a vida se foi empenhando em colocar-me no caminho.

Se mudaria alguma coisa podendo voltar atrás? Muita! Muita coisa! O que sei hoje é exponencialmente mais do que aquilo que sabia então.


Mas uma coisa é certa - apesar dos pesares, ela ainda vai sendo capaz de me dizer estas coisas. E isso é bom.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Memórias de Gabriela


Passei hoje pela tua antiga casa tiazinha. Aquela onde viveste durante mais de cinquenta anos a despeito da vontade do senhorio. Aquela onde lutaste contra o tempo. Aquela onde acabaste por vencer tantas adversidades mal sabendo que a maior estava para vir.

Passei hoje pela tua antiga casa tiazinha. Mudaram-lhe a porta e as janelas. Agora são brancas, daquele material novo e frigorificamente branco que em nada condiz com a rusticidade da casa.

O pequeno limoeiro que se deixava cair pelo peso dos limões já não existe. Aquele pequeno jardim cuja cancela nos separava da estrada cada vez mais barulhenta, já lá não está. Agora quem passa no passeio roça essa outra porta de um branco despropositado, violando a intimidade de quem a habitou.

Vieram-me à memória os degraus de madeira, a porta de postigo, o quintal das traseiras. O cheiro do soalho, lustroso de tantos cuidados. Os móveis nórdicos da Helina. A carpete do corredor. Aquela casa de banho onde facilmente nos perdíamos. A banheira de pés altos. O lava loiça de mármore, o fogão em cima da chaminé.


E pensei que gostava de voltar a entrar nessa casa. Não nesta, de porta e janelas despropositadamente brancas, mas nessa outra onde também eu fui crescendo. Pensei que talvez o proprietário estivesse à espera da tua morte para que esse despropositado branco não te ofendesse. E pensei que talvez a Helina quisesse lá entrar, comigo, só para bisbilhotar, para ver até que ponto as coisas mudam. E foi então que me lembrei que ela partiu ainda antes de ti tiazinha e que foi essa a tua maior provação, aquela que nunca conseguiste ultrapassar.


domingo, 21 de junho de 2015

Dos Arraiais e das Danças


Há muito tempo que não dançava! E não é que não goste de dançar porque gosto, mas tenho mergulhado naquilo que a vida diz que tem para mim, aceitando o frenesim de todos os dias sem me mexer para dizer agora chega, agora vou ver se me divirto um bocadinho. Mesmo que seja num arraial. Mesmo que a música não seja aquela que gosto de ouvir. Aliás, de preferência que não seja aquela que gosto de ouvir porque essa raramente serve para dançar e eu preciso mesmo é de dançar - de me mexer, de saltar, de dar aos pés, de cansar as pernas e ficar com a certeza de que os meus joelhos não estão assim tão maus, que o meu peso não está, ainda (e espero ter a vontade que preciso para que nunca chegue a estar) de modo a não me deixar mexer mais de meia hora sem ficar a arfar de cansaço.

Enfim... há muito tempo que não dançava, mas ontem dancei e fez-me bem.


Obrigada a este grupo dos antigos alunos do Liceu de Almada que se mantém tão activo por via de meia dúzia - se calhar nem tanto - de carolas que não desistem de nos arrastar para este lado da vida. Este lado despreocupado, descontraído, meio louco, onde se vão carregar as baterias para aguentar os mergulhos naquilo que a vida diz que tem para cada um de nós e que insistimos em aceitar sem espernear de vez em quando. Ontem esperneei.

domingo, 14 de junho de 2015

Ir aos Figos


Seja lá de que maneira for, ir aos figos é sempre muito agradável - goste-se  ou não dos ditos.

Neste caso a referência pretende ser literal.  É fruta que, sempre que posso, não dispenso. E viver num lugar onde as figueiras abundam e deixam cair os ramos, e os frutos, para fora dos quintais, é um privilégio.

Todos os dias passo por várias. Observo-os, aos figos, e penso que com ou sem companhia lhes hei-de deitar a mão - assim que amadurecerem.

Já consegui saborear dois. Eu sei, é coisa pouca. Mas prefiro deixá-los amadurecer um pouco mais. Prefiro que absorvam todo o sol que puderem porque a fruta, tal como o amor, é boa quando está madura e alberga, dentro de si, o calor e a energia de um raio de sol.

Mas nem tudo é como se espera e os figos, cujo crescimento tenho vigiado, os figos pelos quais pacientemente tenho esperado, estão a sucumbir a esta chuva fora de horas.


Esta água que cai do céu desprevenida e despropositada retrai os frutos e fecha-os, como aos homens, dentro de cascas mirradas deixando-me sem figos e sem homens mas na esperança, sempre na esperança, que haja quem sobreviva às intempéries e, sem medo, amadureça para mim.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Ditos e Mexericos


Tenho em mim uma incapacidade de crítica às questões públicas que me deixa a oscilar entre a possibilidade de eu ser realmente ignorante, despersonalizada e indecisa, ou simplesmente incapaz de falar sobre aquilo que não conheço verdadeiramente e não gostar, de todo, de especulações baratas.

Não que não goste de mexericos, que gosto, de vez em quando. Mas no privado. Os mexericos fazem parte das coisas que se partilham com os amigos, na intimidade e na cumplicidade das amizades que se querem divertidas porque todos sabemos que não passam disso, de mexericos e que, provavelmente, estarão sempre demasiado longe da verdade que nem sequer entra nesta equação.

Mas expor publicamente a minha ignorância, mesmo que disfarçada de sabedoria, como agora se faz nas redes sociais onde toda a gente opina com certezas absolutas, não está na minha natureza.

Tempos houve em que admirei esse opinadores convictos acreditando que sabiam o que diziam. Mas acabei por perceber que, na verdade, as suas opiniões não passam de formas de extravasar o que lhes vai na alma – aquilo em que acreditam, aquilo em que querem acreditar e ou aquilo em que precisam de acreditar porque lhes acalma as frustrações. 

Com o tempo descobri que não é possível ter uma visão suficientemente global das coisas para poder opinar de forma verdadeiramente democrática, que é como quem diz – isenta.

Nenhum de nós tem o panorama todo. Por isso, as palavras que se vomitam não passam de opiniões mal fundamentadas por visões limitadíssimas das coisas. 

Não passam, ao fim e ao cabo, de verdades particulares, de realidades pessoais que podem, ou não, contagiar quem as ouve, dependendo da convicção com que são transmitidas.




quinta-feira, 4 de junho de 2015

Estado de graça



Estar apaixonado é um estado de graça. Porque não é comum – por muita paixão que tenhamos cá dentro é sempre bom que haja uma motivação externa para que ela se manifeste, um objeto de paixão, um alvo, enfim algo que a mereça -, e porque nos aproxima desse lado místico que transcende o nosso corpo físico relembrando-nos que somos muito mais do que ele. Relembrando-nos que somos, também nós, divinos.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Citroën 2CV



Todas as manhãs era um martírio. Quando chovia então nem se fala, era o descalabro. Não bastava ser empurrado, tinha de se incendiar um bocado de jornal e chegá-lo ao carburador - ou a um outro lugar qualquer junto à grelha da frente e que muito possivelmente teria outro nome - para que o estupor pegasse.

Não havia Bala que valesse e eu, com uma barriga do tamanho do mundo, lá o empurrava rua abaixo até ele se condoer de mim e começar a trabalhar. Primeiro aos soluços, indeciso, e por fim determinado levava-me a Lisboa e trazia-me de volta ao final do dia sem protestar, na maior parte das vezes.

No dia seguinte, às sete da manhã, repetia-se a aventura. A barriga cada vez maior. O meu filho a querer nascer e o estupor do carro que nunca pegava à primeira! e nem à segunda e nem à terceira...
Deixou-me ficar mal tantas vezes!

Uma noite, chovia que Deus a dava e a fila na avenida da ponte era tão grande que o automóvel, cansado, desistiu. Tudo nele se apagou. Telemóveis? Não tinham sido inventados ou, se tinham, não estavam à disposição da plebe.

Tranquei-me dentro do carro à espera que a polícia se apercebesse do caos dentro do caos que já existia.

Como a coisa demorasse, fui pedindo a quem lentamente passava que ligasse para a minha casa. Dei o meu número de telefone a mais de quatro condutores. Façam-me esse favor, pedi eu. Que sim, que fariam. Não fizeram.

O raio do carro, cuja bateria não aguentou estar parada tanto tempo com o rádio, as luzes e o aquecimento ligados, assim que levou um empurrãozito rua acima, pegou e seguiu viagem.

Quando cheguei a casa estava tudo num alvoroço, pensaram que nos tínhamos perdido, eu e o automóvel, na chuva da noite.

Já de Verão era outra coisa!

Deixava-se passear de capota aberta! Qual descapotável! Cabelos ao vento!

Ensinou-me a conduzir, o estupor, com aquela manete de mudanças cheia de curvas e contracurvas.

Vendi-o pouco depois do meu filho nascer. Há cerca de 30 anos.


Encontrei-o hoje, como novo, estacionado frente a um parque de lazer, na Costa da Caparica.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Hoje é sempre melhor do que ontem



Não tem saudades aqui do bairro? perguntou-me ela assim que cheguei. E o curioso é que ainda não tinha chegado a meio da rua quando esse pensamento me ocupou, logo seguido daquela sensação que tenho, sempre que regresso ainda que pontualmente ao lugar que deixei para trás - incómodo.

Ao contrário de muita gente,  sinto-me sempre melhor no lugar onde estou do que me lembro de me sentir no lugar onde estava - seja ele um sítio, uma pessoa ou mesmo um estado de espírito. Tudo o que tenho agora é o melhor que já tive e, mesmo que não seja, é isso que eu sinto.

Voltar ao lugar que deixei, traz-me um desconforto tão grande que antes de lá chegar já estou a pensar em sair e voltar para mim. Creio que tem sido esse o meu percurso, agora que penso nisso, em direção a mim, ao encontro de mim.  Assim, quando morrer, já poderei dizer que me conheci, que cheguei a saber quem fui.

Os retornos não são regressos, são recuos. E eu não gosto de andar para trás a não ser que isso seja imprescindível para continuar em frente.

Não, respondi-lhe. Não sinto saudades. Gosto de viver onde vivo.



terça-feira, 26 de maio de 2015

Feliz aniversário




Pensei em fazer uma reflexão como, de resto, costumo fazer. Mas este ano, ou porque já refleti de mais, ou porque finalmente interiorizei que a vida é para ser vivida no momento em que acontece, decidi que não refletiria.

Não quer dizer que este dia deixe de ser, para mim, um dia muitíssimo importante - o meu dia. Aquele dia que vivo comigo, em segredo. Um segredo que só eu e eu conhecemos - o dia do meu nascimento. O dia que comemora os 57 anos de vida em comum.  De zangas, de arrependimentos, de medos, de dores, de alegrias, de incredulidades, de crescimentos - uns mais voluntários do que outros... enfim, 57 anos de vida em comum! Uma vida plena, cheia! Uma vida de caminhos, estradas lisas, carreiros ásperos, veredas acidentadas, becos sem saída de onde, afinal, se sai porque por muito estranha que nos pareça a realidade que no momento enxergamos, o certo é que ela muda de cara com o tempo, quer a gente queira, quer não.

E ainda que eu já tenha percorrido mais de metade do caminho, espero andar por cá o suficiente para terminar o que aqui vim fazer - encontrar aquela paz que desce sobre nós quando tudo se harmoniza, quando tudo está, exatamente, onde deve estar e nós fizemos, exatamente, o que sentíamos que devíamos fazer.

Parabéns a mim.


sábado, 23 de maio de 2015

Charneca da Caparica inimiga das gentes

Ele é carros por todo o lado. Carros, carros e mais carros. Vêm da direita, da esquerda, do centro, sei lá mais de onde!





Na Rua das Areias, que mais parece uma avenida, como em tantas outras o alcatrão acaba junto às entradas dos quintais e os carros estacionam rente aos muros das casas.






As ruas, poucas, que dão a quem anda a pé a alegria de terem um pouco de passeio, arrependem-se passados poucos metros e estimam-nos tão pouco que deles só sobram as empedradas bermas. O passeio em si é leito de ervas daninhas tão densas e altas que expulsam o caminhante mais afoito.





Eu gosto de andar a pé. Gosto de agarrar na cadela e passear, meia hora, uma hora, hora e meia. Aqui, na Charneca da Caparica, principalmente aos fins de semana, os nossos passeios transformam-se em pesadelos. Cuidado! Cuidado! é a palavra que a Puca mais ouve da minha boca e já sabe que este som diz que tem de se encolher rente ao muro que estiver mais perto se não quiser ser atropelada por uma dessas viaturas que corre atrasada para o almoço de família.



É triste. É triste que numa terra tão plana, tão cheia de verde e ar de mar não se possam dar passeios a sério, daqueles que não ficam confinados aos espaços privilegiados mas que se estendem por toda a charneca. Afinal, é uma charneca, deveria poder ser percorrida a pé!