quarta-feira, 8 de junho de 2016

Quem quer viver comigo?




Estão a surgir na Alemanha comunidades seniores.

Gente com mais de 55 anos que junta os trapinhos, compra ou aluga uma casa grande e vai viver em comunidade, garantindo ajuda, companhia, entretenimento, amparo.

Chama-se a isso – envelhecimento activo.

Confesso que a ideia me encantou. A pessoa com quem falei, que é de lá, contou-me a história da mãe que tem duas amigas, que vivem mais ou menos próximas umas das outras mas que são pessoas tão diferentes que acabam por passar a maior parte dos dias fechadas, cada uma na sua concha.

Estas comunidades, diz ela, permitem uma variedade de gostos e de opções tão vasta quanto o número de pessoas que as compõem, não descurando a privacidade – cada um tem o seu quarto -, a partilha – tanto a sala como a cozinha são comuns -, a autonomia e a independência – ajudam-se uns aos outros na medida em que cada um pode. E, mais importante ainda, são uma oportunidade para os menos abastados poderem ter uma vida mais atraente dado que as despesas são partilhadas.

Diz ela que um grupo de doze pessoas se juntou para determinar o que cada uma poderia dar/fazer em prol da comunidade – sem menosprezar o prazer porque a partir de uma certa idade o que não se faz por prazer não traz proveito. Depois de todas as revelações e acordos, decidiram comprar uma casa de campo, rodeada de um jardim e com um outro situado entre os quatros blocos que compõem o quadrado que é a casa.

Entre elas decidiram o que cada uma tinha de melhor para rechear a casa. Aquilo que não serviu, cada uma desfez-se do que era seu – vendendo ou dando a quem precisou.

Nem todas entraram com a mesma quantia para a compra pelo que ficou decidido que quem entrasse com menos compensaria com um qualquer serviço doméstico ou profissional de valor previamente estipulado de forma a ser possível, numa dada ocasião, restabelecer a igualdade.

Diz ela que nunca mais ninguém ficou sem companhia, para ir ao cinema, para dar um passeio pela cidade, para ir às compras ou para viajar. Nunca mais ninguém se sentiu sacrificado e a disposição da comunidade é, grosso modo, saudável.

Parece-me uma excelente solução para o nosso país cada vez está mais envelhecido, cuja Segurança Social dificilmente garante uma velhice digna, cujo número de velhos abandonados em suas casas é cada vez maior.

Aqui fica a sugestão de um modelo consideravelmente adaptável às realidades e necessidades de cada um. 

Mãos à obra.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Não matem os malmequeres


Querida Amália quero dizer-te que, afinal, as flores que andaste a colher para ficarem felizes na jarra - e nos fazerem felizes a nós - não são flores, são ervas! Pelo menos foi o que me disse uma senhora que andou aqui com uma máquina a matá-las a todas.

Durante meses a fio andam os passeios escondidos no meio das ervas que crescem desabridas. De repente, alguém protesta. Vêm os trabalhadores da câmara e arrasam com tudo sem fazerem qualquer distinção entre os espaços de circulação e aqueles que foram concebidos para serem jardins. 

Sim, é certo que estão abandonados. Mas também é certo que a Natureza tem esse extraordinário dom de consertar o que o Homem estraga e, nesta época de abundância que é a Primavera, as flores silvestres invadem esses pequenos espaços dando-lhes cor e vida e fazendo deles o deleite de pessoas que, como eu, gostam de olhar os malmequeres.

Ainda há poucos dias vi a alegria da minha neta a apanhar ramos cheios de cor para colocar numa jarra. Hoje, os trabalhadores da câmara, deixaram um campo devastado. Terra coberta de ervas mortas. Sem cor, sem vida. Quando lhes perguntei porquê, responderam-me que estavam a cumprir ordens. Não cumpram, apeteceu-me dizer-lhes. Mas não disse. Disse apenas que me estavam a partir o coração por estarem a cortar todas aquelas flores.

- Não são flores - disse ela -, são ervas.
- Não minha senhora. São malmequeres. São margaridas. Brancas, roxas e azuis.

terça-feira, 26 de abril de 2016

25 de Abril sempre!


Sim, eu sei que parece muito mal dizer mal do 25 de Abril – é anti qualquer coisa – mas como não há um único acontecimento na vida – particular ou colectiva – que seja inteiramente bom ou inteiramente mau, eu, hoje, um dia depois de mais uma celebração dessa revolução a que chamam dos cravos mas que foi, na verdade, de um grupo de capitães cansado de ver gente a morrer em África, na guerra entenda-se porque fora dela pouco mudou por lá, as pessoas morrem na mesma e mais do que noutro lugar qualquer. Enfim…uma miséria como se sabe. Mas, dizia eu, um dia depois de mais uma celebração dessa revolução erradamente dita dos cravos (ainda por cima até houve tiros e só não houve mais porque apareceu um tipo como há poucos que finalmente vai ser condecorado mesmo depois de morto. Sim, parece que finalmente temos um Presidente que vai condecorar o rapaz que mais do que merece – note-se que estou a falar do Salgueiro Maia e não de um cravo!), a 42.ª (se não percebe de onde vem este número vá lá acima, antes do parêntesis anterior a este), decidi que vou falar mal desse dia.

Em primeiro lugar, foi um dia que trouxe um stresse desgraçado ao meu pobre pai que dez meses depois teve um avc que o incapacitou para o resto da vida deixando-nos a todos sem chão – sim, já consigo falar disto com este desprendimento. Também era melhor! Quarenta e dois anos depois! - ; em segundo lugar levei uma canelada de um polícia marítimo – sim, eles também entraram na dança, em terra mesmo sendo do mar. Nesse dia todos os reforços foram bem vindos, não ficou ninguém de fora - , uma canelada tão grande que ainda hoje, 42 anos depois, tenho a cicatriz a adornar-me a canela.

Não, o 25 de Abril não me trouxe grandes alegrias na época. À parte a excitação do feriado inesperado e a enorme satisfação de ver tudo por terra. À parte a sensação de liberdade. À parte a sensação de poder. À parte aquela extraordinária ilusão de que, a partir dali, tudo seria possível, não me trouxe grandes alegrias.

Ainda assim, gostaria que esse dia não fosse esquecido porque afinal, como mulher, eu pouco representava antes dele. Gostaria que esse dia não fosse esquecido, quando mais não seja para que os meus netos nunca venham a saber o que é viver num país fechado, pequeno e mesquinho.

Mas – há sempre um mas, ou talvez dois. Neste caso dois: Mas, mas que a memória desse dia que aconteceu há 42 anos não ofusque uma outra forma de domínio, quiçá mais perigosa, mais subtil. Que a memória desse 25 de Abril, dessa revolução dos cravos (outra vez os cravos, que romântico!) não sirva para encobrir as várias formas de usurpação da liberdade. É que, quando não somos livres como não éramos antes do 25 de Abril de 1974, sabíamos que não o éramos e a vontade de o ser dava-nos força para criar coisas belas como aquelas que tantos artistas criaram inspirados por aquela necessidade que aguça o engenho. Mas quando não somos livres sem sabermos…quando acreditamos que somos não sendo…aí é que a porca torce o rabo. Porque nesse caso continuamos encarneirados, a fazer o que se espera de nós, a tremer de medo que o desemprego bata à porta ou que o dinheiro não chegue para comer até ao final do mês. A pagar tudo o que nos pedem. A deixarmo-nos roubar por bancos e banqueiros, acreditando que somos livres.

Sim, o melhor mesmo é recordarmos o 25 de Abril de 1974. Recordarmos essa maravilhosa sensação de liberdade, de possibilidade, de abertura.

Mas como o poderemos fazer se só quem conheceu o que houve antes pode compreender o que veio depois?

Ah meus caros! É por estas e por outras que a história não faz senão repetir-se. Constantemente. Insistentemente. Infinitamente. Até os homens crescerem verdadeiramente.


E que tal se recordássemos, por exemplo, um dos mandamentos de Cristo, quem sabe o mais importante, o nos amassemos uns aos outros? Isso sim, seria a liberdade total, plena, maravilhosa. Se conseguíssemos isso, conquistaríamos mais do que o mundo, conquistaríamos a vida! Aí sim, teríamos a verdadeira essência do 25 de Abril para sempre! Olhem lá bem para o Salgueiro Maia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A certeza de que um dia morrerei tranquiliza-me

Ainda bem que morremos todos e que nada disto terá a mínima importância daqui a alguns anos porque, se assim não fosse, estaríamos a viver um verdadeiro Inferno.


Espero não vos aborrecer com este pequeno episódio. Conto-o por acreditar que ele é apenas uma sombra do tanto pior que se passa dentro de cada vez mais casas, e pergunto-me até que ponto é que os responsáveis por esta sui generis realidade se lembram que também morrerão um dia e que, dado que não se sabe o que acontecerá depois disso, convém jogar pelo seguro, digo eu...

Por mim, partirei com a certeza de que me esforcei, todos os dias, por fazer o bem.

Cá vai:

Na sequência das alterações económico-financeiras levadas a cabo pelos governos que se seguiram ao início da crise, passei a ter de pagar IRS apesar dos meus rendimentos não terem aumentado.

Em 2014, consegui fazer o pagamento relativo a 2013 mesmo “à rasquinha” mas, em 2015, já não me safei e tive de esperar por Dezembro para conseguir a quantia que as Finanças me pediam e que tem correspondido, grosso modo, a um mês de salário.

Considerando que ele é baixo, gostaria de saber como é que estas pessoas que fazem as leis dormem tranquilas e cheguei à conclusão que elas não fazem a mínima ideia da luta que pessoas como eu travam diariamente ou então, tal como faz sentido nos dias que correm, estão-se nas tintas para as pessoas. O que interessa, verdadeiramente, são os números. Pena é que sejam tão frios. Os números.

O meu azar foi que quem me paga não o conseguiu fazer antes da primeira semana de Janeiro, pelo que foi nessa altura que eu liquidei o IRS relativo a 2014.

Ora, em 2010, por ocasião da compra de um apartamento que me tem dado água pela barba e que me deixou até hoje intrigada com o que levou um banco a fazer-me um empréstimo, chegando sempre à conclusão que só pode ter sido para me perseguir sem tréguas até ao fim da minha vida – considerando que, se não o vender antes, terei de o pagar até aos 80 e tal anos. Por ocasião dessa compra, dizia eu, entrei com um pedido de isenção do IMI que me foi concedido pelo período de oito anos.

Assim, e tal como está indicado no portal das Finanças, eu estou isenta de IMI até ao ano de 2017.

Imaginem então o meu espanto quando, anteontem, ao abrir o dito portal dou de caras com uma etiqueta vermelha, daquelas com que se marcam os piores dos caloteiros.

O que é que tinha acontecido?

Fácil – como eu não tive dinheiro para pagar o IRS antes do final de 2014 e deixei a coisa arrastar-se até à primeira semana de 2015, levantaram-me a isenção não alterando, contudo, a informação que figura no espaço “isenções” do portal das Finanças.

Desta forma, sou castigada por não ter tido dinheiro para pagar o IRS – sendo-me exigido mais daquilo que não tive!

No rescaldo desta aventura, dou de caras com uma notícia quase extraordinária,


“A paróquia de São Martinho das Moitas, em São Pedro do Sul, foi multada em 6.300 euros por prestar apoio social a mais seis pessoas do que estava habilitada pela Segurança Social. O Centro Paroquial ainda recorreu para o Tribunal de Trabalho de Viseu, que baixou o valor da contra-ordenação para 2.500 euros. Um valor “desproporcional”, considera o padre responsável.”


É a lei, dizem as pessoas. É a lei, dizem as Finanças. É a lei, dizem os tribunais.

A quem servem estas leis? pergunto eu. 

Que legado ficará para os nossos filhos? para os nossos netos?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

AMOR


De nada me serve a paixão desmedida que queima as entranhas.
A pele não a sente.
Eu quero é a paz que se instala tranquila no amor que é profundo.
Que é fogo também, mas não se consome.
Que, tal como a água
não se detém.
Mas quando arrefece,
Tal como ela,
Segura bem firme
tudo o que tem.
Eu quero é a paz que se instala tranquila no amor que é profundo.
Que dá e recebe.
Que cresce e se funde.
E que é vida também.
Eu quero é a paz que se instala tranquila no amor que se tem.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Inteireza, verticalidade, unidade e libertação em 2016


A inteireza, a verticalidade, a busca da unidade interior, da coerência possível entre a minha racionalidade e os meus sentimentos por vezes tão contrários e qui ça incompreensíveis até mesmo para mim, sempre me fascinou. Ser inteira apesar do medo sempre foi um objectivo para o meu crescimento e essa vontade um importante atributo naqueles com quem me dou. Nunca busquei, em momento ou lugar algum, justificação ou apoio para essa importância que a minha alma sempre atribuiu a essa qualidade mas hoje ela surgiu-me nas palavras de Tomé:

"Quando fizerdes de dois um e quando tornardes o interior como o exterior e o exterior como o interior, a parte de cima como a de baixo, e fizerdes do homem e da mulher uma só coisa, de modo a que o homem não seja homem e a mulher não seja mulher, quando tiverdes olhos no lugar dos olhos, mãos no lugar das mãos, pés no lugar dos pés, e cara no lugar da cara, então entrareis no Reino!"

Pensem nisto.

Temos uma semana para decidir se 2016 vai ser um ano de Verdade ou apenas mais 365 dias de um faz-de-conta para agradar a todos menos a cada um de nós.

Lembrem-se que aquilo que aceitamos numa espécie de obediência a outros que não nós mesmos não nos atrasa só a nós mas também a esses outros. Sempre que aceitamos a manipulação alheia, mais ou menos descarada, estamos a aceitar que ela pode existir e a dizer aos manipuladores que podem continuar a manipular.

Naturalmente, são sempre aqueles que mais amamos e que mais nos amam que mais recorrem, por medo de nos perder ou de perder a sua ligação connosco, à manipulação. Servem-se de sentimentos profundos para o fazerem e fazem-no, a maior parte das vezes, inconscientemente. Estou a pensar em pais e mãe, em irmãos, em maridos e mulheres, em todos aqueles de quem acreditamos depender a nossa felicidade e a nossa paz. Tantos de nós que vivem presos em caixas no medo de ferir, de perder, de magoar, libertando-se.

Quem ama amará sempre e a libertação dos oprimidos é uma mensagem de amor porque mostra a quem oprime a sua verdadeira humanidade.

Temos uma semana para decidir se 2016 vai ser um ano de uma condescendência que continua a pôr em causa o verdadeiro crescimento que só existe na Liberdade de Ser e na União de quem Somos, ou um ano de libertação.

Lembrem-se que estamos no ano da Misericórdia e que só a Verdade poderá semeá-la nos corações humanos.




terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Papa Francisco e a Igreja Católica



Eu poderia ficar aqui horas e horas parafraseando o Papa Francisco, citando os seus textos, as suas palavras, que ainda assim muito ficaria por dizer. Poderia até afirmar, ou imaginar, que foi a sua personalidade que me levou de volta à Igreja. Mas estaria a mentir – creio eu. Não conheço o Papa Francisco suficientemente bem e não foram os seus escritos, as suas palavras ou as suas atitudes que me guiaram os passos até à porta da Igreja da Imaculada Conceição e me fizeram entrar e ficar.

Em Deus sempre cri. Desde que me lembro, que estou naturalmente em contacto com Ele. Sempre me senti bem, dentro de espaços espirituais, independentemente da religião professada.

Raramente ignorei a espiritualidade que há em mim. Ela nunca me assustou, pelo contrário, sempre me deu força nos momentos mais difíceis da minha vida. Sempre me valeu no desespero.

No entanto, nunca me senti à vontade na missa. Ia, eventualmente, a uma ou outra para acompanhar alguém ou homenagear alguém mas, à parte o Pai Nosso e a Avé Maria, nunca soube rezar a não ser por minhas próprias palavras.

Aos sete anos pedi para ser baptizada e fizeram-me a vontade mas não baptizei os meus filhos porque a Liberdade é para mim um dogma e cada um tem o direito de escolher o caminho que quer seguir.

Mas, neste Natal, posso afirmar que me converti e que apesar de todos os erros, dos ímpios erros cometidos ao longo da História por homens e mulheres ditos cristãos, há uma verdade no catolicismo que me toca a alma, que me invade o espírito e que torna obsoleta a minha por vezes excessiva racionalidade.


Como comecei por dizer, não creio que o Papa Francisco tenha algo a ver com esta minha conversão mas, por outro lado, não me surpreenderia se tivesse. Porque os mistérios de Deus são insondáveis e é bem possível que um só homem opere milagres, basta que a Força esteja com ele.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Feliz Natal e um Ano Novo cheio de Prosperidade

Presépio feito por um grupo de escuteiros da paróquia da Imaculada Conceição, 
Charneca da Caparica

O Natal está mesmo aí. Mais um Natal! E, logo a seguir, fecha-se um ano mais.

A vida passa a correr e, ao contrário de nós que nos vamos alentando, ela corre mais depressa de ano para ano.

Não me estou a queixar. Apenas a relembrar que há que viver. Há que aproveitar, não no sentido do esbanjamento, mas no do crescimento, no da ascensão, no do conhecimento e das boas práticas que é para isso que por cá andamos, para nos melhorarmos como pessoas, como humanos que somos, como gente de bem.

É costume, nesta quadra, deixarmos os nossos votos a todos os que nos são queridos. Eu tento estar o ano inteiro o mais junto deles possível, por isso, nesta quadra, deixo os meus votos a todos os outros – os que conheço, os que talvez venha a conhecer e os que me são completamente estranhos. É para todos eles esta mensagem. E para mim, este balanço.

Deus ajuda quem se ajuda e não quem perante Ele se ajoelha mas nada faz. Eis o que aprendi este ano. Ele quer ver-nos felizes e proactivos. Actuantes. Alegremente actuantes. Quem Nele confia liberta-se de medos porque se entrega.

Ter fé é ser capaz de confiar na vida, em Deus, no Universo, em si mesmo… de corpo e alma. Ser capaz de o fazer, incondicionalmente, apesar do medo. E, se já os antigos diziam que a fé é que nos salva, eu reitero essa máxima porque só ela nos liberta. Sem fé, ficamos presos aos nossos medos e toda a gente sabe que os medos encerram o pior que há em nós.

Desejo-vos, pois, um Natal de muita Paz, de muito Amor e de muita Harmonia. Desejo-vos uma noite de Luz porque é dela, da Luz, que o medo foge.

Desejo que o Novo Ano seja de reflexão e que a Fé nos liberte a todos, para que a Felicidade entre pelas nossas portas adentro, já que a Prosperidade é isso mesmo – uma vida cheia de Luz, de Fé e de Amor. Uma vida verdadeiramente Feliz.

Bem hajam


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Jornal i – uma morte anunciada



Não faço ideia se é assim com todos os meios de comunicação social mas num jornal a gente afeiçoa-se a tudo – às pessoas; às imagens; ao lugar; ao funcionamento; às regras e desregras e, mesmo que não se esteja lá todos os dias, mesmo que seja só um dia por semana, custa à brava deixar de estar.

Trabalhei no i todos os domingos durante cinco anos, até que deixei de trabalhar mas, ainda assim, o i continuava lá e chamou-me. Voltei mais duas vezes, dias seguidos. Matei saudades e, mesmo voltando só pontualmente, sabia que eles estavam lá. O jornal estava lá. Com aqueles jornalistas do caraças! Com os prémios que recebeu. Com o projeto com que começou. O i ia mudar tudo se vivêssemos num mundo onde vence o que realmente interessa.

Mas não vivemos. E ontem o i acabou. Acabou porque todos os que lá estavam, todos os que acreditaram no projeto quando o i começou,  já lá não estão hoje. E o meu coração está apertado como se alguém que me é querido tivesse partido.


A todos aqueles que conheci no i, a todos com quem tive o privilégio de trabalhar, o meu mais sincero e apertado abraço de obrigada.  Desejo que este país abra os olhos e reconheça o valor de quem o tem. Porque quando isso não acontece as pessoas murcham e podem morrer. E, se duvidam, recuem no tempo e voltem a ler o i de 2009.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

COM TODA A CONVICÇÃO


Cada vez que oiço, ou leio, alguém defender aquilo em que acredita, acho que essa pessoa está cheia de razão. Se eu acreditasse no que ela acredita, também eu defenderia assim a minha posição – com toda a certeza absoluta posta nas palavras. Com toda a convicção.

E é por isso mesmo que a minha opinião sobre as coisas se vai desvanecendo, desvanecendo…até quase desaparecer para o mundo por falta de argumentos – porque as ideias só existem quando há argumentos para as defender -, e fica a opinião guardada cá dentro de mim, com toda a convicção de que qualquer discussão será estéril porque a verdade é que vivemos fechados nas nossas verdades e só a experiência, aquela vivida de corpo e alma, nos pode demover. Nada mais.

Ando assim com a política.

Oiço o meu filho defender veementemente o neoliberalismo, convencido de que não existe no mundo regime mais capaz de trazer justiça e tratar todos por igual, e acredito nele. Acredito que ele tem razão. Acredito que ele defende aquilo em que acredita porque vê o mundo com os olhos dele. Acredito na sua convicção e na sua boa fé e, por isso mesmo, qualquer discussão sobre o assunto transformar-se-ia numa experiência estéril.

Depois oiço a minha filha, mais inclinada para a esquerda, revoltada com o país onde vive. Desiludida com tantas promessas logradas. Revoltada com um mundo onde imperam as injustiças, onde os poderosos, que são menos do que poucos, têm a coragem de exibir os seus galões – ganhos à custa sabe Deus de quê! – perante gente que morre à míngua. À míngua de justiça, à míngua de saúde, à míngua de cultura, à míngua de conhecimento e, tantas vezes, à míngua de comida, de condições básicas de saneamento, de amor, de carinho, de apoio, de companhia…de trabalho. E compreendo-a tão bem! Meu Deus, como a compreendo!

E depois, e este depois é o mais importante de todos, vejo-os defenderem pessoas e partidos, e tremo porque me parece que essas pessoas e esses partidos não têm as mesmas preocupações que os meus filhos. Porque se as tivessem. Se essas pessoas e esses partidos acreditassem, como os meus filhos querem  acreditar que eles acreditam, que muito mais importante do que a satisfação das suas necessidades pessoais, sejam lá elas quais forem, é o bem estar do país – de todos os cidadãos do país -, juntavam-se todos, esqueciam os partidos e lutavam, juntos, para nos tirarem deste buraco onde nos forem enterrando ao longo dos últimos 40 anos.

Se estas pessoas em quem os meus filhos querem acreditar – e eu também -, fossem pessoas em quem se pode confiar,  juntar-se-iam em torno deste governo que está feito e governariam, com todos os poderes que ao parlamento são dados e com um único móbil – o bem estar deste povo que está cansado de míngua e o progresso deste país que já merece melhor sorte.


Governariam. Com os olhos postos em nós que estamos aqui e que carregamos às costas este país que já conta com 870 anos. Governariam. E deixavam-se de merdas de machos que lutam por um território, por ideias, por poder. Governariam. Juntos. E cagavam de muito alto nos partidos que defendem. Não que os largassem. Mas podiam deixá-los em banho Maria, porque nós agora precisamos mesmo é que trabalhem.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Puca


Não foi uma semana fácil. No domingo, quando a levei ao veterinário, foi-lhe detectado uma espécie de colapso do fígado. Da barriga tiraram-lhe três litros de água e ela, coitada, feliz por estar mais leve, parecia que tinha renascido – dava saltos, abanava a cauda… estava tão feliz! Tão feliz!

Saímos de lá para um passeio um pouco maior do que o habitual. Era preciso que ela obrasse. Já não o fazia havia vários dias. Aliás, eu estava mesmo convencida que era esse o seu mal – prisão de ventre -, e que logo que estivesse resolvido ela voltaria a ser a minha cadela alegre que saltava para nós por tudo e por nada, que nos cumprimentava de manhã como se a noite tivesse durado meses e nos recebia em casa como se a nossa ausência tivesse sido de anos. Mas ela não obrou. Não no domingo, não nos dias seguintes. Nunca mais. Até ontem, quando nos encaminhávamos para o veterinário. Como se tivesse pressentido o que ia acontecer. Como se tivesse compreendido a luta dentro de mim, a hesitação, o não saber o que fazer. E as fezes eram negras, tão negras, a dizerem-me não te preocupes, vais fazer o que está certo, o que tem de ser feito.

E fiz.

E hoje ando p’raqui, como uma mosca tonta sem saber para onde ir – e o nosso passeio? E o meu bom-dia? E aquele olhar tão doce que me faz sentir a pessoa mais importante do mundo? Onde está? P’ra onde foi?

E à Amália? O que é que eu vou dizer à minha neta quando ela entrar por esta porta e procurar pelo cão Puca?

Ontem, enquanto lhe segurava a cabeça e a olhava nos olhos para me despedir, prometi-lhe que, embora não tenha sido a primeira, haveria de ser a última.

Mas não sei se vou conseguir cumprir...



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O MAIOR AMOR DO MUNDO






Que me perdoem todas aquelas e aqueles que decidem passar pela vida sem deixar descendência mas aquela sem ela é pouco. É muito pouco. Pouco de tudo. De alegrias, de preocupações, de orgulhos, de realizações, de felicidades extremas e medos disparatados, de frustrações e ansiedades, de amor incondicional, de saudades imensas quando partem, porque têm de partir.

Faz hoje 28 anos que dei à luz o meu filho mais novo e não o tenho aqui para o abraçar. Tenho pena. Mas não tanta quanta teria se aqui o tivesse e o sentisse frustrado, triste, sem saber o que fazer da vida porque era mais ou menos assim que ele andava quando o fazia por cá.

Hoje, no dia dos seus 28 anos, está por Londres, a trabalhar. E eu vejo-o de vez em quando, nas reportagens que faz, e encho-me de orgulho porque o meu filho, que faz hoje 28 anos, encontrou o seu caminho e é feliz.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

DANTE OU A SERVENTIA DA ARTE



É alto, magro e tem os olhos azuis.

Na boca três dentes.

O quintal onde se move é um depósito de desperdícios amontoados entre as casotas dos dois cães e alguns canteiros onde crescem folhas não sei de quê.

Um tanque de lavar traz à cena o pormenor rústico. As janelas da casa que não é pintada há muitos anos estão cobertas de pó e, por entre as grades ferrugentas, descortinam-se panos amarelados pela força do sol.

Os dois cães que ele mantém presos por curtas correntes às respectivas casotas são de tamanho médio e pequeno. Ambos de feições afáveis e de rabo no ar – ou não é preciso muito para se sentirem felizes ou a nossa passagem dá-lhes alegria.

Ele vem sempre espreitar para ver a Puca, a minha cadela que passeia com uma trela mais comprida do que as correntes com que ele amarra os cães. Espreita para confirmar que ela vem presa e nunca perde a oportunidade de me alertar para o animal feroz que tem no quintal. “Ele é que está preso! Porque se estivesse solto! Ai meu Deus! Dava cabo dela”. E sempre que ele diz isto eu não consigo desviar o olhar do simpático animal que, se não fosse a corrente, correria para nós para que lhe fizéssemos festas. Tivesse eu a mesma certeza no número da sorte grande…

Hoje, quase nem nos cumprimentou. Estava demasiado ocupado.

Ouvi os gritos assim que dobrei a esquina. Lá dentro, ameaçada de “não tarda nada levas uma galheta que nem t’aguentas” estava uma mulher de rosto deformado por um tumor duas vezes maiores do que cara dela. Não lhe consegui ver os olhos, não se virou para mim, só de lado vi o gigantesco tumor que a mulher transporta. Nem sei como é que a cara não lhe cai para o lado.

Na rua não há passeio. Os carros tentam abrandar quando me vêem. Principalmente se a cadela decide que se quer aliviar ali, à beira da estrada, num fio de terra. Ou quando eu me baixo para apanhar o que ela faz.

Sinto a alma encarquilhar-se sempre que dobro essa esquina. Mas é ali que a cadela gosta de ir e, na verdade, as alternativas não são muitas.

Volto para trás. Curvo à direita e na primeira à esquerda. Um reduto de bom gosto num jardim cuidado tranquiliza-me. Demoro um pouco mais na passagem. Paro para lhe absorver as cores. Foi arranjado há pouco tempo. Uma pequena obra de arte. Respiro fundo e esqueço rapidamente as vozes e os cheiros da rua de trás.

Não sei como é que há gente capaz de afirmar que a arte não tem serventia!



DAS AUTO.

Anda uma pessoa a educar crianças para depois ser confrontada com este tipo de comportamentos.

A Volkswagen enganou 11 000 000, assim mesmo – com seis zeros -  de clientes e vários Estados por este mundo fora, isto para não falar nos prejuízos inerentes ao facto de, afinal, os veículos serem mais poluentes do que deveriam ser, ou mesmo totalmente poluentes, o que é ainda mais grave, a não ser que esta história do que é ou não poluente seja também uma conveniência deste ou daquele grupo económico, deste ou daquele lobby. Tudo é possível.

É que os universos paralelos onde nós, comuns mortais, não contamos para nada, existem mesmo. São universos onde tudo se passa de acordo com uma lógica  que nada tem a ver com aquela que pessoas como eu tentam explicar às crianças. Tudo se passa de acordo com a necessidade de manter em equilíbrio algo superior, transcendente mesmo, muito mais importante do que a corja de ignorantes que habita a base desta pirâmide onde o que realmente interessa está lá em cima, no alto, bem longe das nossas vistas e só desce cá abaixo quando alguém, por qualquer rebate de consciência ou por um interesse muito privado, bate com a língua nos dentes. Aí a coisa abana um bocadinho. Mas nada de demasiado sério.

Foi o que aconteceu com a Volkswagen que anda há anos a enganar o pessoal deliberadamente mas onde tudo corria bem, e poderia continuar a correr se não houvesse alguém, lá está, a espernear sabe Deus em prol de quê.

Não sei quem foi o parvalhão, ou parvalhona que se lembrou de pôr a boca no trombone porque agora quem vai pagar as favas são os suspeitos do costume.

O CEO já foi de carrinho com um “prémio” de despedida de 30 milhões de euros - 2,73 milhões por cada automóvel boicotado. Assim, sim, vale a pena ser vigarista. 

(Temos mesmo de repensar os valores que estamos a ensinar às crianças. Será que as estamos a preparar para o futuro?)

Mas tudo se vai compor porque a empresa, mais do que idónea, vai-se reestruturar. E se está a pensar que vão ser apuradas responsabilidade e punidos os responsáveis, é melhor pensar outra vez. 

Evidentemente vão rolar cabeças. Cabeças pequenas, de preferência. Talvez uma ou outra um pouco maiorzinha mas que não exija muito porque o grosso da coisa já foi com o CEO. 

Provavelmente vai-se falar em indemnizações mas os processos vão ser tão morosos que acabarão por cair no esquecimento. 

É preciso um plano para mostrar ao mundo que a Volkswagen assume os seus erros e, por isso, há que tratar dos 11 milhões de veículos “defeituosos” de forma a acalmar as hostes ou a vencê-las pelo cansaço. 

Pelo menos as tácticas já nós temos obrigação de conhecer. São sempre as mesmas...




sábado, 12 de setembro de 2015

Pretérito mais-que-perfeito

Acabei de passar à porta dos escritórios de uma empresa especializada em portas de luxo, modernas e originais, tal e qual os candeeiros lá na rua da Vitória [não se preocupe mais...].

Não, não se preocupe, porque se tiver menos de 50 anos provavelmente não perceberá o paralelismo e isso não tem importância nenhuma. O que interessa aqui é que os ditos escritórios estão ao abandono. Faliram. Eles, a firma e mais umas poucas que aqui na zona vendiam materiais de construção de primeira água.

Como é que eu sei disso? É fácil, foram eles que nos forneceram todos os materiais que usámos nas obras de remodelação da casa de família.

O tempo passa. Inexoravelmente, passa. E tudo o que é novo será velho, ou morto. 

No entanto, tudo o que passa merece lamento. Porquê? Porque tudo o que passa foi perfeito, foi bom, foi belo. Na nossa memória evidentemente.

É claro que nada do que acontece agora se pode comparar ao que já passou. 

Porque ainda não passou.

Perfeitos? só os pretéritos. Os presentes não passam de momentos que até podiam ser mas não são e, mesmo que fossem, não os veríamos.

E como poderíamos, se os nossos olhos apontam sempre noutra direcção?

Aqui para nós que ninguém nos ouve: não me fez grande mossa o abandono das portas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Descendentes de Viriato

Dos refugiados sírios


Há coisas que não podem ser levadas de uma forma leviana e esta é uma delas.

Esta gente anda a fugir de uma guerra sem quartel. Anda a fugir da morte, da maior das misérias, do horror que uma guerra semeia, e fá-lo com os filhos às costas.

Esta gente luta para salvar a prole da guerra e da fome. Há até quem defenda que esta guerra começou exactamente com uma seca sem antecedentes na história da Síria que transformou a zona agrícola num verdadeiro deserto.

A Síria era um país estável. Onde se vivia normalmente apesar da ditadura. As pessoas  trabalhavam, alimentavam-se, divertiam-se e criavam os filhos pacificamente.


Dos portugueses



Por cá não há guerra. Mas também não abunda o trabalho. O desemprego cresceu consideravelmente e as pessoas passaram a ganhar menos e a pagar mais impostos. O número dos sem-abrigo aumentou e desconhece-se o número real daqueles que passam fome porque continua a existir, por aí, muita pobreza envergonhada.

Somos um povo que viveu uma ditadura de quase 50 anos de que poucos se lembram mas que continua  no nosso imaginário colectivo, deixando-nos de pé atrás. Afinal de contas, e apesar dos pesares, somos hoje um povo livre que pode rezar a quem quiser, vestir o que quiser, dizer o que quiser mesmo que sejam disparates, e não queremos perder essa liberdade. Aliás, não o saberíamos fazer. Pelo menos eu, pela parte que me toca, estaria disposta a morrer por ela.

As mensagens que recebemos sobre o povo muçulmano em geral, venham elas de onde vierem, não são as melhores. A forma como esta religião trata as mulheres é, em certas zonas do mundo, absolutamente escabrosa; o fundamentalismo de certas facções muçulmanas é medieval, e as notícias constantes sobre terroristas que entram disfarçados na Europa onde montam, muitas vezes, quartel, leva muitos de nós a questionar até que ponto corremos riscos com esta entrada em massa, não apenas no nosso país mas na União Europeia.

Da humanidade

Cristãos, islâmicos, hindus, budistas, jainistas, confucionistas e mais as outras centenas de fés que eu não conheço, têm uma coisa em comum – são humanos. Pertencemos todos à mesma espécie e, apesar de ser creio que a única a matar-se a ela mesma ao ponto do genocídio, é também a única capaz de coisas extraordinárias como a extrema humanidade onde se alberga o amor infinito e a compaixão.

Do medo

Eis o único mal que pode dar cabo de toda essa humanidade! O Medo! O Medo é, tantas vezes, a nossa desgraça. Aquilo que nos impede de sermos maiores, de irmos mais longe. Pensem em todos aqueles que o conseguiram e vejam o que é que eles deixaram de ter: Medo.

Nós não estamos em guerra. Não sabemos sequer o que é ter a guerra instalada no nosso país, ver as cidades e os campos destruídos, as nossas crianças mortas nas ruas.

Estes refugiados, estes migrantes vêm de uma situação pior do que a nossa. Uma situação que eles próprios não previram como nós não previmos aquela em que estamos agora e não podemos prever aquela em que estaremos amanhã. Sejamos então humanos. Sejamos fiéis à fama que sempre tivemos de povo acolhedor, de bom anfitrião. Afinal de contas não é a primeira vez que nos entra gente pelo país adentro e nós continuamos por cá.

E se, por qualquer estranho acaso, no meio deles entrarem terroristas, nós estamos aqui para lhes fazer frente. Afinal somos ou não somos descendentes de Viriato?