Não quero pensar no amanhã. Não
quero. Ainda que o meu cérebro teime em avançar para o desconhecido, eu
repudio-o. Sei lá o que vai acontecer amanhã! Sei lá quantos mais anos vou
andar por cá!
Sim, é certo que ninguém sabe mas
a verdade é que, quando somos jovens, sabemos mais – ou pelo menos esperamos
mais - legitimamente.
A partir de uma certa idade, o
tempo deixa de ser importante. Sabemos que temos menos, muito menos, e que
passa depressa, muito depressa – o que não é mau -, é uma forma de adiar certas
incapacidades. Temos a sensação que estamos sempre na mesma. Cada dia é um dia
para ser cuidado – por incrível que pareça, podemos mesmo criar a impressão de estarmos
parados no tempo, tal é a velocidade dos dias.
E sempre que nos aparece um daqueles dias em que apetece dar cabo de tudo, temos sempre o dia a seguir em que voltamos a cuidar e é como se nada se tivesse passado – esquecem-se os 450 gramas de Häagen-Dazs de chocolate belga; limpa-se aquele pacote de batatas fritas e aquele bife cheio de azeite, no ginásio, e é como se nada se tivesse passado. Tudo volta ao normal, e a esperança de viver mais 20 anos “em forma” para ter tempo para desfrutar da paupérrima reforma e ter cabeça para ir fazendo um trabalho ou outro - para equilibrar minimamente a balança – volta como que por milagre. Até porque não há nada mais assustador do que a velhice. A verdadeira velhice. Aquela carregada de incapacidades, que nos obriga a recolhermo-nos na concha para que os filhos não se apercebam que chegou a altura de nos enfiarem numa instituição onde, por muita imaginação que haja, nos recolhemos para esperar.
Se é para esperar, que espere de
pé! De pé como as árvores, como dizia a atriz – será que ela morreu mesmo de
pé?! Ou não teve outro remédio senão curvar-se, como todos aqueles que não
determinam a hora da partida?

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