quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pais e Filhos

Mais cedo ou mais tarde surge, na vida de quem tem filhos, o momento que testa a nossa credibilidade, a nossa confiança. Até que ponto confio eu neste Ser que criei? Até que ponto confio em mim, no meu trabalho? E é na qualidade e na quantidade do que estou disposto(a) a arriscar que posso medir o meu nível de confiança.
Posso ser alguém que nutre por si mesmo(a) uma média/baixa auto-estima e que, por isso, não confia muito, nem no que fez nem no que fará. Posso ser alguém com uma média/alta auto-estima mas que tem consciência do peso da experiência e que, por isso, exige provas de quem ainda agora mesmo começou (e a experiência necessita de tempo para se manifestar). Ou posso ser alguém que, simplesmente, confia. Confia em si e, por consequência, confia no seu trabalho. Porque, quer se queira quer não e digam lá o que disserem, um filho é uma obra. Mesmo com toda a sua singularidade, ele ou ela, nós - na verdade todos nós - transportamos aquilo que desde cedo nos transmitiram. E estou convicta que, ao fim e ao cabo, é parte disso (uma grande parte) que se manifesta quando se manifesta alguma coisa. Tal como num edifício as fundações são absolutamente essênciais. Quer queiramos quer não, somos filhos dos nossos pais. E os pais que têm filhos, quer queiram quer não, directa ou indirectamente, é para eles que vivem e, no dia em que se forem embora, tudo o que cá fica será deles. Então porque não confiar e colocar já ao serviço deles o que se pode? O que se tem? porque é já que eles precisam e, sei-o por experiência própria, que um voto de confiança faz milagres. E milagres não são precisos para quem tem boas bases, excelentes fundações...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Consentimentos

Levei muito tempo a despertar para o facto dos outros precisarem sempre do nosso consentimento para nos ferir, para nos fazer mal. Levei depois outro tanto para perceber que quando se gosta de alguém, ou mesmo não gostando assim tanto, temos por obrigação o não consentimento das atitudes mais nocivas.
Quando se consente diz-se - Isto está certo, podes continuar.
Ninguém aprende se não lhe for dito - Isto está mal, não podes repetir.
Jovens namoradas deste país ACORDEM. Não só estão a ser mal tratadas, como estão a contribuir para uma géração de homens ainda mais mal preparada do que a dos vossos pais.
Daqui a pouco tempo, cansadas de tanto disparate, batem asas, correm com eles e é mais uma geração de desencontros e frustrações.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Escritores

Um escritor amado por todos, enriquece.
Um que seja amado por uns e odiado por outros, arrisca-se a ganhar o Nobel.
Dos restantes, não reza a História.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Singular vs Plural

Se, por vezes, me expresso no plural é porque não me sinto sozinha na minha singularidade

Fazeres

Agora que já sabemos fazer tudo, vamos aprender a estar sem fazer nada.

Inteligência (como capacidade de adaptação a novas circunstâncias)

Queixamo-nos da rotina como se ela fosse o inimigo público número um, mas quando ela nos escapa, quando surgem as inesperadas alterações à dita, sentimo-nos invariavelmente perdidos, sem saber o que fazer com o tempo que estava já destinado.
Precisamos urgentemente de reabilitar a nossa inteligência...

Dos Textos

Um dos fascínios dos textos é a diversidade de interpretações a que se prestam.
Lê-los é descobrir um mundo de ideias.
Na maior parte dos casos o que Um lê ali, Outro lerá, ali, algo radicalmente diferente.
Quanto mais polémico o texto for, mais caminhos nos dá para desbravar.
Fundamental é ter a consciência de que as primeiras imagens que os textos nos transmitem são aquelas que habitam, há muito, dentro de nós...

Cabaré

As cadeiras do Teatro Maria Matos são desconfortáveis.
A encenação que o Diogo Infante apresenta de Cabaré é boa. Poderia ser muito boa se as cantorias se tivessem ficado apenas pelas cenas do cabaré. É muito raro não sentir incómodo quando as pessoas em vez de falarem, cantam. Quando se trata de actores/actrizes da velha guarda, pior um pouco.
Tem cenas individuais demasiado longas e nem todas se justificam (a não ser talvez para aumentar o tempo de palco). Cheguei a ficar um bocadinho farta de ouvir a Isabel Ruth falar/cantar os lamentos da sua vida sem que isso trouxesse valor acrescentado ao enredo.
Gostei bastante do desempenho da Ana Lucia Palminha e do Bernardo Gama. Gostei do som e da forma como a orquestra foi incluída no cenário. Gostei fundamentalmente das cenas de cabaré.
Aplausos para o elenco. Força para Diogo Infante. Que continue. Almas novas são precisas. É mau sinal deixarmos todo um género (musical) nas mãos de um único (La Féria).

Relatividade

Quanto mais eu cresço, mais o mundo se reduz.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Conto Infantil

Há muitos muitos anos,num pequeno lugar à beira mar, vivia um povo muito simples e unido. Eram tão poucos que formavam uma pequena aldeia. Não necessitavam de líder. Aliás, nem tal coisa lhes tinha passado, nunca, pela cabeça. Trabalhavam a terra, uns; manufacturavam bens, outros. E assim íam progredindo, sem grandes preocupações ou desavenças. Dir-se-ia que, de um modo geral, eram felizes.
Um dia chegou à aldeia um homem alto e em tudo diferente dos demais. Vinha de muito longe e trazia a cabeça cheia de ideias. Ideias para melhorar as habitações; ideias para melhorar a alimentação; ideias para melhorar a saúde (coisa que os habitantes nem sabiam existir...) e, finalmente, as melhores e mais complexas ideias de todas: as ideias para melhorar a produção.
A vida da aldeia nunca mais foi a mesma. É claro que esse homem foi aclamado o primeiro líder da comunidade. O entusiasmo era geral. Alguns dos habitantes passaram a precisar de coisas que nunca tinham visto. Outros nem tanto...
O certo é que a aldeia mudou. Mudou muito.
De aldeia passou a cidade. De cidade a país. De país a império...
E, aos poucos, os habitantes foram-se esquecendo de como costumavam ser felizes.

A Crise

Acabei de me registar no IAPMEI. Decidi acreditar que a vontade política de salvar as pequenas e médias empresas é genuíno. Decidi enfrentar a crise que aí vem de cabeça erguida e peito aberto.
Venham os financiamentos, venham eles que se a gente se aguentar mais um aninho depois é que ninguém nos pára.
Vocês vão ver, assim que os narizes começarem a emergir das turvas águas da crise é que vai ser! Vai ser festa até ser noite(outra vez). Quem sobreviver terá o futuro garantido.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Feridas

Sei de uma criança, uma menina de onze anos, que anda há mais de um mês com um dedo entrapado por causa de um golpe que fez. Foi cosida. Tiraram-lhe os pontos e o golpe não há meio de fechar.
Ele há feridas assim. Fundas. Tramadas. Feridas que levam muito tempo a sarar e outro tanto a dessensibilizar.

O Antónimo de Ciúme

Há poucos dias perguntaram-me qual é o antónimo de ciúme. Apanhada de surpresa ainda hesitei mas depressa concluí que não existe nenhuma palavra que seja antónima de ciúme.
Mas então dá-me uma palavra que possa servir, pedia-me o meu amigo. Voltei a pensar e veio-me à ideia que o contrário de ciúme só poderia ser amor.
A que é que se apela quando se quer combater um sentimento tão destrutivo como o ciúme? Ao amor. Quanto mais amo, menos quero possuir. O amor é um sentimento tão espesso que não deixa lugar a mais nenhum. É, portanto, a maior arma. Difícil de manobrar. Mas a maior.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Do Natal

Diz-se por aí, creio que há vários séculos, que o Natal é a época da Boa Vontade.
Também é costume dizer-se que Natal é Quando Um Homem Quiser.

Se o Natal é a época da Boa Vontade
Se o Natal é Quando Um Homem Quiser
Então a Boa Vontade é Quando Um Homem Quiser

Assim se desfaz uma importante característica desta linda quadra.
O que fica então?
A Festa.
Fica pois a Bela da Festa. Cheia de tradições, de reuniões, de acepipes e de bacalhau.
Bacalhau! Amado por uns. Odiado por outros.
Os que o amaram, amam e amarão, continuam a comê-lo como manda a lei - cozido, com as batatas e as couves, tão portuguesas grrrr.
Os que o odeiam, reinventam-no só porque temem mandar a tradição "às couves". Assim têm nascido alguns interessantes pratos do dito bicho. É claro que quanto mais trabalho se tiver a encontrar o bacalhau, mais interessante o prato se torna, pelo menos para os desapreciadores.
Os que detestam as couves, escolhem os grelos. Os grelos são sempre excelentes substitutos do verde obrigatório. Há ainda aqueles que se calam e vão depenicando só para fazer tempo para a sobremesa e se alguém lhes diz - Só isso?! - Eles respondem, prontamente - É para deixar espaço para o resto...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Gostar ou Não Gostar - Eis a Questão!

Porque de antagonices se trata. Vale a pena clicar no título.

Civilidade

A grosseria e a falta de respeito são absolutamente antagónicas ao bom e são convívio, à vida em sociedade.

Se queremos um povo civilizado e minimamente educado, temos de ter uma escola que eduque verdadeiramente, que instrua.

Sou a favor de uma disciplina específica que ensine todas as leis do convívio; que explique às pessoas onde é que começam os direitos dos outros e que seja rigorosa ao ponto de impedir todos os que não conseguirem ter bom aproveitamento, de: tirar a carta de condução; habitar a menos de 500 metros do vizinho mais próximo; frequentar espaços públicos... e por aí fora...
Não há cu para tanta falta de respeito!

A Nossa Natureza

Como seríamos se seguíssemos a nossa natureza?
Reinventar-nos-íamos a toda a hora ou fixar-nos-íamos num conjunto de características que se acentuariam com a idade?

Há alguns anos atrás em conversa com um amigo disse-lhe que aquilo que serei amanhã pode não ser o que sou hoje. Disse-lhe que o meu dinamismo não me permitia dar garantias de nada. Que o amanhã é sempre uma incógnita, quer em relação aos acontecimentos, quer em relação à nossa reacção a esses mesmos acontecimentos. Mudamos a toda a hora. Somos incapazes de ser rigorosamente os mesmos.
Ele olhou-me espantado. Discordante, claro. Para ele, como para quase toda a gente, é fundamental que nos alicercemos. É fundamental que a nossa personalidade assente sobre sólidos pilares, para que possamos ser fieis. Precisamente - Fieis.
Fieis a quem? Aos outros ou a nós mesmos?
Fieis ao retrato que os outros foram pintando de nós, ou fieis à nossa natureza. Àquela natureza que levamos toda uma vida para descobrir e que, na maior parte dos casos, morremos sem conhecer?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dia Mundial

Ultimamente tenho tido alguma dificuldade em compreender a filosofia emanente ao "Dia Mundial De...". Sempre pensei que a atribuição de uma data específica a algo, tivesse subjacente a intenção de homenagear esse algo.

Temos o Dia do Pai; o Dia da Mãe; agora também o Dia dos Avós. Temos o Dia da Mulher, o Dia da Criança e o Dia do Idoso. Temos o Dia do Trabalhador, o Dia do Estudante e o Dia do Reformado. Temos o Dia da Árvore; o Dia da Água e o Dia da Terra. O Dia do Não Fumador.
E o Dia da Sida.

Indiferenças

Nós não somos, obviamente, indiferentes às desgraças alheias. Se olhamos a miséria de lado é porque ela nos aterroriza e isso, ao contrário do que possa parecer, humaniza-nos.


Lembro-me muitas vezes de uma história que ouvia contar quando era miuda:


Em tempos que já lá vão, um homem percorria, coxeando, a baixa lisboeta. Entrava em todos os estabelecimentos e escritórios. Era reconhecido por todos os que julgavam conhecê-lo e todos, ou quase todos, lhe depositavam o que podiam na palma da mão que ele estendia em concha, mirando-lhe de lado a perna torta e murcha, arrastada por um pé mais morto do que vivo. Vinha sempre à mesma hora - pela manhã, quando tudo estava ainda sonolento. E desaparecia muito antes dos almoços começarem a ser servidos. Muitos se perguntarão porquê, porque é que o homem não aproveitava a hora de ponta. Não se sabe. Não aproveitava. E os empregados dos restaurantes agradeciam, dando-lhe as boas vindas aos pequenos-almoços.


Um dia, nunca se soube porquê, o homem atrasou-se. Batia o meio-dia quando virou a esquina, esbarrando com alguns comensais mais esfomeados, daqueles que fecham as portas dos gabinetes cinco minutos antes da hora. Assustado com o inesperado encontro, o bom homem endireitou a perna torta, fincou bem o pé no chão e desatou a correr como se não houvesse amanhã.


A sorte dele foi ter tido o bom senso de não voltar a aparecer por aquelas paragens onde, durante anos, foi humanamente sustentado por piedosos cristãos, porque sei, de fonte segura, que a indignação foi dando lugar à humilhação e esta à raiva de "ter sido comido" durante tanto tempo sem nunca ter suspeitado sequer! "O sacana dava um excelente actor. Andam por aí muitos talentos perdidos!"


De Gostar De Estar

São raros os momentos em que gostamos verdadeiramente de estar como, onde e com quem queremos estar.
Se estamos sozinhos, o sentimento de abandono tende a crescer exponencialmente transportando-nos para as margens dos rios onde correm a morte da vontade e a muito baixa auto-estima.
Se estamos acompanhados, somos invariavelmente perseguidos pela saturação, que tende a disfarçar-se de quotidiano, de hábito ou de rotina, e que vai crescendo tão exponencialmente quanto crescia antes o sentimento de abandono, do qual nos esquecemos ou que simplesmente não nos queremos lembrar.
Este é o sentimento, ou o estado de espírito, que nos transporta para as outras margens dos mesmos rios. Aquelas onde corre a auto-estima e a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, arranjaremos muito melhor, de que mais vale só do que mal acompanhado e, sobretudo, sobretudo - de que ainda não foi desta que encontrámos o amor da nossa vida, mas que ele virá, sem dúvida virá, se possível até, montado num típico cavalo branco.
É o síndroma do António (o Variações) em todo o seu esplendor.
E é assim que nos "livramos" duma rotina para cairmos, invariavelmente, noutra - a nossa.
Voltam então os momentos em que quase desaparecemos outra vez, sugados pela tristeza de vermos o tempo passar e olharmos para o lado e não vermos ninguém a amparar os nossos desequilíbrios. Aí, juramos amor ao próximo (amor, entenda-se) quando, na verdade, somos incapazes de amar o que temos, quando temos.
Agora digam-me lá - alguma vez ouviram a boca de alguém dizer que não quer ser feliz?