terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Os Maus Contra Os Bons

Dizia-me, hoje de manhã, um miúdo de dez anos:
- Eu quero ser dos Maus.
- Porquê? - perguntei eu.
- Porque são mais fortes do que os Bons e por isso ganham sempre.
- Por acaso até nem é assim. Os Bons são mais fortes e, no fim, ganham sempre.
- Não, não. Ainda ontem dei um murro no estômago do...para ele aprender a não me chamar...
- Agora imagina que ele te está a chamar isso outra vez e que tu, em vez de lhe dares um murro no estômago, olhas para ele e viras-lhe as costas em seguida. O que é que é mais difícil?
Ele fixou em mim uns olhos muito abertos.
- Virar-lhe as costas.
- Pois é - sorri eu. - É muito mais difícil ser Bom. Ser Mau é fácil.
Quedou-se mudo a olhar para mim, sempre de olhos esbugalhados. Passado um bocado perguntou:
- Porque é que mataram Jesus Cristo?
Este é o miúdo que, não sei há quantos posts atrás, nos dava conta do juízo. E dá,claro. Continua a dar. Enfim, talvez um pouco menos. Na realidade tudo se resume à porta de entrada. Assim que se descobre onde está, entra-se e tudo pode melhorar...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Amigos

Poucas coisas há que reconfortem tanto como os amigos.
Amigos daqueles que se gosta porque sim. Daqueles que já fazem parte de nós, mesmo que não estejam connosco tantas vezes como desejaríamos. Daqueles com os quais se podem partilhar alguns silêncios e alguns disparates também. Sim, amigos desses...

O Que Eu Gostava Que o Pai Naltal Me Trouxesse

Acendi a televisão para me fazer companhia ao almoço. No écran Walter Matthau, disfarçado de Albert Einstein, inventava, com a ajuda e o apoio de alguns amigos, todos os estratagemas possíveis para que Meg Ryan, a sobrinha, e Tim Robbins, o eleito, ficassem juntos . Uma comédia romântica em que o génio da Física se transforma no génio do Amor e, no Amor tal como na Física, não sossega enquanto não leva a água ao seu moinho.
Eis o que eu quero que o Pai Natal me traga - o Walter Matthau disfarçado de Einstein.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Menopausa

Menopausa é a capacidade que o nosso corpo adquire de, num abrir e fechar de olhos, absorver todo o calor e todo o frio do universo.
Toda a confiança e todo o medo.
Toda a lógica e toda a confusão.
Todo o desejo e toda a indiferença.
Todas as capacidades e todas as incapacidades.
A menopausa é um bicho que se aloja no nosso cérebro e o torna vulnerável.
A menopausa é um desafio. Uma nova aprendizagem. Um recomeço.
Uma canseira...

sábado, 20 de dezembro de 2008

A Minha Filha

A minha filha foi a primeira.
Não posso dizer que tenha sido planeada. Não foi. Mas desde o primeiro momento em que a senti, senti-a minha e nada no mundo me poderia separar dela.
Se me tivessem perguntado nessa altura como é que eu a queria ou como a imaginava, os meus desejos teriam ficado muito aquém da mulher que hoje ela é. Da pessoa em que se tornou - Linda por fora. Linda por dentro.
Tem uma alma enorme. Uma alma que se alegra na alegria que transmite e dá, incansavelmente, a todos os que ama.
Possui uma rara franqueza que desarma qualquer um e que faz dela alguém em quem se pode confiar em absoluto.
O orgulho e o amor que sinto quando a olho não são diziveis. Não há palavras.
Dizem-na parecida comigo. Ela é muito melhor do que eu. Muito mais bonita, muito mais capaz, muito mais forte.
A minha filha é Autêntica.
É Única e é Adorável por tudo isso.
A minha filha é, e seria mesmo que não fosse minha filha, um Ser Humano muito especial. E, se nada mais eu tivesse para me orgulhar, já é orgulho que baste.

Ó Tempo Volta Para Trás

A primeira vez que ouvi esta expressão foi pela voz do fadista António Mourão e irritou-me bastante o saudosismo implícito.
Os anos foram passando e ainda que continue a achar que saudosismo é doença, aconteceu-me há muito pouco tempo dar comigo a pensar se, acaso fosse possível voltar atrás, faria tudo exactamente como fiz. É claro que faria. Pois se fiz o que fiz como fiz foi porque não soube fazer de outra maneira.
No entanto, de repente, talvez até eu, euzinha, que tanto tenho a mania de quebrar mentalidades, se pudesse voltar atrás, sabendo o que sei hoje (Nossa senhora, aí está! Aí está a tão criticada frase!) enfim, se me fosse dada essa oportunidade, coisas há que eu faria de forma diferente.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Notícias

Um dia destes acordo, ligo o televisor e o notíciário não está lá porque não há notícias daquelas notícias a que os média estão habituados.
E depois, nos dias seguintes, qual morte que tirou férias, o problema manter-se-á e aí, confusos e obrigados a reestruturar toda a filosofia noticiosa, os jornalistas passarão a dar todas aquelas notícias que não podem dar agora porque perderiam audiências. E isso obriga-los-á a puxar pela imaginação e a inventar uma maneira diferente de apresentar notícias e cativar as tais audiências.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Amar

Para amar é preciso ter-se jeito.
A mim sempre me irritaram MUITO os desajeitados dos afectos. Mas é que me irritam mesmo!
Gente que não é capaz de dizer o que sente quando sente, no que ao amor diz respeito. Mas não se ensaiam nada para a crítica! Dizer que gostam e que admiram, está quieto. Para dizer mal ,estão aí para as curvas.
Não haverá por aí uma escola qualquer que ensine isto?
Se alguém souber de alguma, que me diga. Estou a precisar de uma reciclagem.

A Minha Sócia

A minha sócia tem idade para ser minha filha e eu esqueço-me disso tantas vezes quantas me esqueço da idade que os meus filhos ainda têm.
Exijo de todos, e se não exijo dou por mim a esperar, um comportamento conforme à minha experiência e não à deles.
A minha sócia não se apercebe que eu me apercebo do seu nervosismo e do seu medo, só porque eu não lhes dou grande importância. E ela não sabe que não lhes dou importância porque acredito e confio nela, porque sei das suas capacidades mais do que ela.
A minha sócia sente muitas vezes que eu não valorizo o seu esforço - está muito enganada.
A minha sócia pensa que eu não aceito as nossas diferenças quando na verdade eu sei que as diferenças são enriquecedoras, é preciso é que eu as veja como diferenças.
A minha sócia não sabe que aquilo que espero dela é conforme ao respeito que sinto por ela. Como também não sabe do quanto eu gosto dela. Não sabe porque eu nunca lhe digo e, provavelmente, parva como sou, nem nunca lho demonstro.

Zangas

Estou convicta que 99,9% das zangas, ainda que não nos apercebamos disso, são connosco e não com os outros.
A partir de hoje gostaría que, em vez de me perguntarem com quem estou zangada, me perguntem - O que é que fizeste, desta vez?

Mal-entendidos

Dado que a esmagadora maioria dos mal-entendidos são fruto de dessintonias, sugiro que, sempre que se tratar de comunicação oral, o emissor tenha o cuidado de se sintonizar na frequência do receptor.
Assim serão evitados muitos mal-entendidos.

Obesidades

Existem dois tipos de obesidade. Aquele em que as pessoas ocupam fisicamente mais espaço do que o que seria desejável e aquele em que as pessoas ocupam todos os espaços.
O primeiro tipo, a obesidade física, abrange mais de um milhão e meio de portugueses mas trata-se com algumas idas ao nutricionista e uma reaprendizagem do acto de bem se alimentar.
O segundo tipo, a obesidade de carácter, é muito, mas muito mais complicado. Primeiro porque não há estatísticas que nos demonstrem a gravidade do problema e, acreditem, ele é grave -trata-se de uma doença que tende a propagar-se e que se não atingiu já o estatuto de pandemia estará por lá muito próximo. Em segundo lugar, e este está directamente ligado ao primeiro, tratando-se de uma doença tão generalizada as pessoas tendem a considerá-la uma parte dos chamados ossos do ofício de quem é humano.
Mas não é. Não é uma parte dos ossos do ofício de se ser humano porque nas épocas e nos lugares onde a educação e o respeito costumavam ser características importantes e, essas sim, dadas como normais, aqueles que sofriam de obesidade de carácter eram tão constantemente reprovados que cedo acabavam por desistir da prática e, tratando-se de uma doença possível de controlar quando é atacada no início, a coisa nunca se propagava por aí além.
Não se sabe o que aconteceu nem quando aconteceu. Sabe-se porém que, à traição, despercebidamente, as pessoas desataram a ocupar todos os espaços. Talvez tenham começado por deixar marcas nos espaços alheios - roupas espalhadas; pégadas de lama; pequenos objectos a despropósito, e depois tenham pensado que já que deixavam também podiam ir buscar. E foram. E vão.
Mais grave ainda é a aflição que isso causa em toda a gente. É de tal forma que andamos todos a exagerar na nossa individualidade só porque a sentimos ameaçada. Vai daí, é bordoada a torto e a direito. Uns a quererem tirar, os outros a quererem conservar. Uns a quererem ir, outros a quererem estar.
A agravar esta situação temos ainda o facto de uns terem muito e os outros não terem quase nada.
Enfim, ponham-se a pau, podemos estar a caminhar para uma guerra civil...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Conceitos

Amor é a capacidade de nos esquecermos de nós enquanto esperamos que o outro se esqueça de si.

Liberdade é a capacidade de irmos onde nos apetece enquanto somos obrigados a permanecer no mesmo lugar.

O que me faz sentir viva

O calor do Sol.
Um banho de mar.
A Liberdade.
Uma paixão.
O sucesso.
Os meus filhos.

E não necessariamente por esta ordem...

Contradições

Dizia-me ontem um rapaz de onze anos que, por motivos de força maior, passa a maior parte do tempo sozinho:
- Eu venho todos os dias.
E eu a tentar explicar-lhe que todos os dias não seria possível já que nós não iríamos estar abertos todos os dias, porque era Natal, e tal...
- Eu venho todos os dias. A mãe vai estar de serviço no Natal e até nos anos dela...Eu VENHO TODOS OS DIAS. Venho logo de manhã e depois piro-me. Assim fico com o resto do dia para mim. Mas venho todos os dias.
E eu olhava para ele a fingir que não via as lágrimas que teimavam em se mostrar, mesmo à entrada dos olhos.
- Mas olha que todos os dias não vai dar. Fazemos assim...
E ele continuava a olhar para mim sem me ouvir para afirmar depois da minha explicação:
- Eu venho todos os dias, logo de manhãzinha. A que horas abrem?
- Às nove.
- Às nove estou aqui.
- Está bem - acabei eu por dizer. - Logo ligo à tua mãe e a gente combina isso.
Ao fim do dia perguntava a minha colega, com ar de quem não percebe:
- Mas porque é que queres vir logo de manhã?
- Para me despachar depressa - respondia ele.

O Universo a Nosso favor

Resolvam-se as nossas idiossincrasias; ajustem-se os nossos medos; acalmem-se as nossas angústias e todo o universo se conjuga a nosso favor.
Na verdade basta detectar os problemas, encontrar as soluções e tomar a decisão de as pôr em prática, e o mundo à nossa volta muda como que por magia. Se formos a ver os problemas ainda lá estão. Mas é já como se não estivessem. Os estupores desapareceram, substituidos que foram pelos resultados das decisões que acabámos de tomar e, tal como já disse, o universo entra em harmonia connosco:
Amigos que não víamos há muito, aparecem. Almoçamos e jantamos com eles, matamos saudades. Entes queridos, cujas vozes não escutávamos há demasiado tempo, ligam-nos de terras distantes e, à noite, quando regressamos a casa, ainda que sozinhos, trazemos nos lábios, não - na alma, uma palavra: Obrigada. E um sorriso até às orelhas :). Às vezes a vida vale a pena.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Insónias

De vez em quando a vida premeia-nos com momentos de terror que nos tiram o sono. O mais chato destes momentos é o facto de virem disfarçados, o que nos leva a ter más noites sem percebermos muito bem porquê. Chamamos-lhes insónias e ficamos à espera que passem tal como chegaram - de um momento para o outro.
Comigo nunca resulta. Ou dou com o cerne da questão ou estou feita num oito...não durmo ou durmo mal. Acordo cinquenta vezes durante a noite com um aperto terrível no peito. Durmo aos soluços e, de manhã, quando é hora de levantar faço-o com o sacrifício de quem não sossegou, para já não falar do tal aperto que aperta assim que os olhos se abrem...
Eu sei que aquilo que está por detrás destas insónias é o medo. É sempre o medo. Não do que está a acontecer mas do que pode vir a acontecer se nada for alterado.
Quando me lembro disso sossego um pouco. Quando dou início às alterações, sossego mais um pouco e quando volto a pôr tudo no lugar, sorrio porque, para além de saber que vou passar a dormir melhor, volto a sentir-me feliz e a gostar de andar por cá.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Cão de Pavlov

Pegue-se num emigrante requentado e ponha-se-lhe na mão um telefone. Coloque-se a mistura na sua habitação e estabeleça-se uma ligação com o seu país de origem. A língua pátria sairá fluída, sem hesitações e medianamente clara.
Em seguida coloque-se a mesma mistura no seu local de trabalho e estabeleça-se a mesma ligação. É vê-lo a embrulhar as palavras, a misturar duas línguas, enfim a meter os pés pelas mãos...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Diabinhos

Por mais experiência que os anos me dêem não consigo deixar de sentir uma profunda tristeza e um terrível desconforto quando me deparo com uma criança detestável. Porque sim, há crianças detestáveis. Há crianças más e detestáveis. Há crianças más, detestáveis e drasticamente mal educadas.
Há até crianças que nos deixam confusos quando chega o momento de atribuir responsabilidades e que, assim, deitam por terra todas as teorias que apregoam a sua inocência e a culpa dos pais, ou de quem quer que tenha o cargo de as educar. Deixam-nos confusos porque chegamos a colocar a hipótese daquele pai ou daquela mãe simplesmente não poderem fazer nada porque o diabinho já nasceu assim. Não poderem fazer nada porque ele não deixa.
Há até crianças que nos levam a pensar que a maldade é nata.
Mas talvez não seja o caso deste menino de onze anos que nos anda a dar cabo de toda a sanidade mental e a impedir-nos de trabalhar.