Eis uma pequeníssima parcela daquilo que nos deixou um homem que pensou por todos nós:
"Sempre que penso uma cousa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela,
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma cousa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existo directamente para o pensamento e não para os olhos.
Olho, e as cousas existem.
Penso e existo só eu."
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) (1888-1935)
Todos nós somos antagónicos. Todos procuramos, incessantemente, dentro e fora de nós. Todos somos múltiplos. Neste espaço, é a minha multiplicidade que se manifesta.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Educação
Como é que se explica àqueles que ainda estão a crescer, que ainda agora aqui chegaram, o significado da palavra educação quando acordam sozinhos, almoçam sozinhos, lancham sozinhos, jantam sozinhos e mais, são eles que elaboram as refeições que comem, sozinhos, em casa?!
Existem crianças que em dez anos de vida já viveram mais do que outros em dezasseis ou dezassete com a agravante de não estarem preparados para tal.
Existem crianças cujos pais trabalham horas sem fim, em horários que não lembram a Cristo, para lhes poderem deixar comida no frigorífico. Comida que só é confeccionada pelos progenitores no dia de folga que, na maior parte dos casos, nem coincide com o fim-de-semana.
Estas crianças não conhecem os limites, nem do respeito, nem da educação. Se não os conhecem como é que os podem respeitar? Estas crianças não são mal educadas, são in-ducadas e nós temos de reformular todas as técnicas se as queremos recuperar. Porque uma coisa é re-educar, uma outra, bem diferente, é educar quem já tanto viveu e julga que tudo sabe e acredita que tudo pode...
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
A minha costela de Gaulesa ou de como as senhas numeradas podem muito bem não servir para nada
No passado dia cinco, dia em que se deu, oficialmente, início a este novo ano, tirei da minha caixa de correio um aviso para ir levantar, na estação dos CTT mais próxima da residência, uma carta registada. Virei o postal várias vezes e o único nome que vi foi o nome do meu senhorio.
- Pronto - pensei de imediato, - ou é para rescindir o contrato ou é aumento de renda. Entre um e outro, venha o diabo e escolha.
Já mal dormi nessa noite.
No dia seguinte, como quem não quer a coisa, atirei com o aviso para dentro da mala e fiz todos os possíveis para me esquecer dele. O estupor gritou de lá de dentro o dia inteiro!
- Pronto - pensei de imediato, - ou é para rescindir o contrato ou é aumento de renda. Entre um e outro, venha o diabo e escolha.
Já mal dormi nessa noite.
No dia seguinte, como quem não quer a coisa, atirei com o aviso para dentro da mala e fiz todos os possíveis para me esquecer dele. O estupor gritou de lá de dentro o dia inteiro!
Sem alternativa de jeito, rumei esta manhã para a tal estação.
Seriam talvez umas dez e meia quando por lá entrei. Aproximadamente setenta metros quadrados de sala. Cinco postos de atendimento divididos por uma coluna. Dois para um lado. Três para o outro.
Tiro uma senha. É o setenta e três.
Olho o mostrador. Vai no setenta e um. Passa rapidamente para o setenta e dois.
Setenta e três. Sigo com o olhar a linha do número - posto dois. Contorno a coluna. Apresso o passo para o posto dois. Olho. Uma senhora está a ser atendida e várias notas estão espalhadas pelo balcão.
- Desculpe. Não chamou o setenta e três? - perguntei cheia de boa vontade.
- Chamei mas ninguém apareceu! - responde-me a funcionária.
De olhos esbugalhados e em toda a minha incredulidade exclamei:
- Mas eu estou aqui!
Diz a outra que estava a ser atendida:
- Eu sou o setenta e um.
- Mas então se é o setenta e um porque é que chamou o setenta e três?!
E foi no meio desta troca de impressões que o aviso sonoro se fez ouvir e eu olhei para o painel donde sorria, feliz, o número setenta e quatro. Num rápido e já prático relance alcanço com a vista o número do posto de atendimento - quatro. Corro para o lado de lá da coluna. É claro que o setenta e quatro já tinha começado a ser atendido. Obrigada! Aquilo é chegar, estender o papel e lá vai o funcionário ao armazém buscar o que for preciso.
- Eu sou o setenta e três - reclamo já pelos cabelos.
- Agora tem de esperar um pouco. Tem de ter paciência. Já comecei a atender este senhor.
Danada, começo a tentar explicar que é a eles que lhes cabe a organização imposta pelos tiqués no momento em que a campainha volta a soar. Setenta e cinco. Posto número dois. Saio disparada, de papel em punho e quase grito:
- Não me diga que ainda não é desta?!
- É preciso paciência. Tem de se ter um pouco de paciência - murmurava o funcionário do posto dois, como que a pôr à prova a minha capacidade de resistência.
Foi no momento em que elevei mesmo a voz que uma senhora atrás de mim exclama:
- Mas tem toda a razão. Eles não dão tempo a nada! Tem toda a razão!
Eu estendo o aviso ao funcionário.
- Assine aqui - pede-me ele.
Eu assino.
Ele pede-me o b.i., volta a estender-me o aviso e diz:
- Preciso da assinatura deste senhor.
"Este senhor", é o meu senhorio.
-Porquê?! - exclamo.
- Porque a carta é para ele - responde o funcionário.
O meu filho diz que eu ultimamente ando com o complexo gaulês.
- Estás sempre à espera que o céu te caia em cima - diz ele.
Religião
Ontem foi-me pedida ajuda para elaborar um texto, ao nível do 9º ano de escolaridade, em que, supostamente, Deus escreveria uma carta aos Homens mostrando o seu desapontamento e a sua desilusão. Foi dado como mote um pequeníssimo extracto de uma declaração, ou conversa talvez, de José Saramago.
O deus daquela carta lamentava a falta de humanidade e, consequentemente, de religiosidade, de todas as religiões. É claro que aquele deus não tinha, ainda, ouvido este discurso porque, se tivesse sido esse o caso, seguramente a sua fé nos homens se renovaria.
O deus daquela carta lamentava a falta de humanidade e, consequentemente, de religiosidade, de todas as religiões. É claro que aquele deus não tinha, ainda, ouvido este discurso porque, se tivesse sido esse o caso, seguramente a sua fé nos homens se renovaria.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Acordar Tarde
Dei por mim a pensar que acordei demasiado tarde. Deveria ter acordado mais cedo. Tudo seria, hoje, mais fácil.
Dei por mim a pensar que gostaria de poder transmitir a todos os jovens com quem trabalho, a importância do despertar. Do despertar no tempo da força e da vontade.
Dei por mim a pensar que deve haver, tem de haver, uma forma de lhes transmitir isso...
Amor Eterno
Pronto, é oficial. Cientistas americanos (claro) provaram que o amor eterno, esse grande desconhecido, afinal existe.
Monitorizaram casais que já nem se lembram quando é que se conheceram e que estão juntos, portanto, há um ror de tempo, e verificaram que a sua libertação de endorfinas, quando estão perto um do outro, é equiparada àquela libertada pelos casais mais jovens e apaixonados. A única diferença é que não se regista a ansiedade juvenil, o que é uma vantagem.
Esse mesmo estuda atira-nos com uma estatística na ordem de um para dez.
Um em cada dez casais encontra o amor eterno.
Vamos lá malta, vamos lá a encontrar-mo-nos. Vamos lá a acabar com os desencontros. Vamos lá a não desistir. Ele afinal existe e eles andam por aí, todos trocados, há espera de serem encontrados.
Um para dez é uma vergonha!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Medo
Quantas vezes olhamos sem ver.
Quantas vezes ouvimos sem escutar.
E por medo desacreditamos.
Quantas vezes?
Hoje foi um dia cheio de surpresas.
Preciso de me alhear.
Quantas vezes ouvimos sem escutar.
E por medo desacreditamos.
Quantas vezes?
Hoje foi um dia cheio de surpresas.
Preciso de me alhear.
O Passado
Por vezes agarramo-nos ao passado com tanta força que mascaramos o presente. Vivemos na ilusão de que o arrastamos connosco para onde quer que vamos mas, na verdade, o presente tem sempre uma cara nova.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Evolução
Para haver equilíbrio os contrários deveriam ser imediatos.
Por exemplo, a um dia de chuva dever-se-ia suceder um dia de sol; a um dia de guerra dever-se-ia suceder um dia de paz; a um dia de ódio dever-se-ia suceder um dia de amor; a um dia mau dever-se-ia suceder um dia bom; a um dia de trabalho dever-se-ia suceder um dia de descanso.
Isso seria uma coisa equilibrada.
O problema é que tudo seria previsível, e todos nós sabemos que nada evoluímos ou aprendemos quando podemos, facilmente, prever o que vai acontecer.
Logo, a evolução no equilíbrio é impossível.
Logo, só poderemos, realmente, evoluir, no desiquilíbrio.
Vai-se a ver e é por isso que somos desiquilibrados...
Quanto ao Conhecimento
Quanto ao Conhecimento, para quem estiver minimamente interessado, obviamente, e na sequência do texto anterior, é meu dever informar que se trata duma substância essencial ao Desenvolvimento e que se adquire no final duma sequência destilatória em que estão envolvidos, por esta mesma ordem, os seguintes elementos:
A Coisa - A Complicação - A Descomplicação - A Simplificação
O resultado, como se disse acima, será - O Conhecimento.
Escusado será dizer que quem se ficar pela Coisa, alegando que desde logo se apercebe da sua Simplicidade, mais não faz do que tentar atirar Areia para os Olhos dos que se metem no seu caminho.
Simplificar
Segundo o dicionário a palavra simplificar significa tornar mais simples.
No entanto ela é composta por simpl(es) + ficar.
A diferença entre tornar e ficar é, na minha opinião, enorme.
Senão vejamos:
O que fica não se mexe.
O que torna vem de algum lado.
Se não se mexe, deixa-se estar assim, simples. Como as gentes simples da província. Ou uma simples carícia.
Se vem de algum lado só pode vir do seu oposto, do complicado.
Depreendendo-se assim que para simplificar é preciso, primeiro, descomplicar.
Digo descomplicar porque entendo que passar directamente do complicado para o simples, sem descomplicar primeiro, deve ser muito difícil. Deve ser como começar a tricotar a partir de uma meada. Ora toda a gente sabe que quem quiser tricotar tem, primeiro, de transformar em novelo, a meada...
A Guerra
Há dois motivos pelos quais faz sentido tomar partidos.
Um é a simpatia. Eu torço pelo Sporting, não porque o Sporting jogue sempre melhor do que os outros mas porque gosto do equipamento, gosto dos jogadores, do treinador, do director...
O outro é a lógica que nos é dada pelo conhecimento dos factos. O verdadeiro conhecimento. Eu torço pelo Sporting porque ao longo dos anos tem demonstrado ser o melhor clube português, senão vejamos: blábláblá....(factos que comprovam a afirmação). (Quem me dera que fosse verdade).
Por estranho que pareça, embora com mais algum decoro, o sentimento de quem está longe em relação às duas (ou mais) facções de uma guerra, não é muito diferente. Lá no fundo, por este ou por aquele motivo, simpatiza-se com este ou com aquele povo e, claro, deseja-se para esse a vitória.
Eu aconselho a que espreitem aqui.
Ainda que a História tenha sido, ao longo dela, vítima das mais diversas interpretações que sempre nos permitem "puxar a brasa à nossa sardinha", o saber não ocupa lugar e poderemos sempre tomar partido com mais substância.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Pais e Filhos
E veio a filha e veio o pai e veio a mãe e veio o filho.
E foi-se a apreensão, a depressão e a tristeza.
Encheu-se a mesa.
E estou feliz.
E foi-se a apreensão, a depressão e a tristeza.
Encheu-se a mesa.
E estou feliz.
Os Que Se Inibem E Os Que Se Deixam Inibir
Há os que se inibem e os que se deixam inibir.
Eu inibo-me.
Inibo-me para não inibir.
Inibo-me porque gosto.
E detesto porque me inibo.
Eu inibo-me.
Inibo-me para não inibir.
Inibo-me porque gosto.
E detesto porque me inibo.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
A Um Astro Desconhecido
Na minha varanda, a sudeste da Lua, está um astro grande de mais para ser uma estrela, brilhante de mais para ser planeta. Interrogava-me eu sobre o seu nome quando uma outra estrela, esta cadente, atravessou o imaginário eixo que une Lua e Astro. O meu coração, de repente, desatou a palpitar.
Alguém me sabe dizer que nome tem este astro? Que estrela é esta? Se será um planeta e, se sim, será Vénus? É que não é a primeira vez que o vejo no céu e já me disseram que podia ser Vénus. Mas com tanta luz?!
Gosto de ver em tudo sinais. Acredito que se os virmos talvez se tornem realidade.
Sinais ou não, foi um lindo momento. A Lua; o Astro e a Estrela Cadente a atravessar, determinada, o eixo imaginário que os une.
Um lindo momento...
Será possível parar a vida?
Se ficarmos muito sossegados, quietos, imóveis, reduziremos as hipóteses das coisas correrem mal?
Ou será que mesmo sem nós a vida não pára e amanhã, quando acordarmos, verificaremos que apesar de nada termos feito, ou precisamente por isso, a merda se acumulou?
Ou será que mesmo sem nós a vida não pára e amanhã, quando acordarmos, verificaremos que apesar de nada termos feito, ou precisamente por isso, a merda se acumulou?
Conhecer os Outros - Conhecermo-nos a Nós
Já lhes aconteceu colocar os outros num determinado pedestal e depois chegarem à conclusão de que estão no pedestal errado?
Por vezes distanciamo-nos dos outros porque achamos que estamos demasiado longe deles. Sem darmos por isso fechamo-nos numa redoma e impossibilitamos qualquer aproximação por nos julgarmos imerecedores. Por medo do ridículo. Por falta de confiança, em nós.
Assim que abrimos os olhos e os vemos, a eles, vemo-nos a nós também.
Pode até ser um lugar comum mas não sei de melhor forma de conhecimento do que aquela de nos re-conhecermos nos outros.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Cultura de cauda
Estão enganados os que pensam que a cultura vem apenas dos livros que se lêem, das escolas que se frequentam, dos espectáculos a que se assiste.
A cultura vem, em catadupa, das vivências que se têm, das viagens que se fazem, dos conhecimentos que se cruzam.
Se fizéssemos um inquérito ficaríamos surpreendidos com o número de pessoas que nunca se afastaram mais de meia dúzia de quilómetros do local onde cresceram.
Se fizéssemos um outro inquérito ficaríamos ainda mais surpreendidos com o número de crianças que nunca viajaram. Que só sabem da existência de outros lugares pela televisão ou pelos livros da escola. Que nunca cheiraram outras terras. Nunca sentiram outros ventos. Nunca provaram outras iguarias. Nunca passearam noutros passeios.
São outras realidades que nos abrem os horizontes, que nos afastam do provincianismo. E é "de pequenino que se torce o pepino".
Não criar condições para que as nossas crianças possam "sair de casa" é adiar a cultura.
E uma cultura adiada marchará sempre na retaguarda. E, como todos nós sabemos, à retaguarda fica a cauda.
Teremos, portanto, uma cultura de cauda.
Primeiras Impressões de um Ano Novinho Em Folha
Entrei o ano a comer muito bem e a beber melhor ainda em lugares até então desconhecidos (por muito que se conheça nunca se conhece tudo) que recomendo. A saber:
A Travessa, no antigo convento das Bernardas na Madragoa.
A Toca do Javali, em Sintra.
Quanto à chuva que não deu tréguas vejo-a como um excelente augúrio. Primeiro porque a água é e sempre será uma forma de purificação. Leva o que não presta e lava o que está sujo, dando ao pequeno novo ano um ar limpinho e aprazível. Depois porque dá à quadra aquela vontade de recolhimento que lhe fica bem, e a Sintra um ar tão diáfamo que a obriga a transcender-se na sua beleza, se é que isso é possível...
Depois de tanta comezaina sinto-me em paz, comigo e com o mundo. Só espero que esta paz perdure ainda que as comezainas tenham, porque têm, de ser dispensadas...
Mais uma vez: Um Feliz 2009.
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