segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Palavrões

Sei que há quem defenda a utilização de palavrões. O Miguel Esteves Cardoso escreveu uma vez sobre eles, dizendo que, bem contextuados, faziam todo o sentido. Acho que tem razão. Bem contextuados fazem todo o sentido.
Palavrão, tal como a palavra indica, é uma palavra grande, poderosa. Tal como tudo o que existe, há palavrões bons e palavrões maus. Sendo que os bons servem para os bons momentos, e os maus para os maus.
Amo-te é um palavrão, tal como foda-se é outro palavrão.
Aquilo com que eu não consigo, não posso, concordar, é com a vulgarização do seu uso. Tenho por mim que as palavras perdem a sua força quando usadas por tudo e por nada, fora de contexto. As palavras fortes merecem contextos fortes. Só assim as respeitamos e só assim lhes conservamos o seu verdadeiro significado, a sua força. Usadas vulgarmente, tornam-se vulgares e, das duas uma, ou ficamos mudos nos momentos altos, ou teremos de inventar outras para substituir aquelas que vulgarizámos.

Finalmente!

Vá lá! Parece que agora acertei! Já há contador!
Isto quando dá para o torto é complicado. Na verdade, na maior parte das vezes, somos nós os obstáculos...

Contadores de visitas para blogs

Uma pessoa cria um blog e adiciona-lhe um contador de visitas. Para quê? Para ter uma noção de quantas pessoas têm paciência para ler o que lá se escreve.Então e não é que, de repente, assim, sem mais nem menos, o contador que já ia perto dos 1400, desaparece. Desaparece porque o site desapareceu!

Mas não há quem reja isto?!

Já andei à procura de outros, outros que me permitissem começar a contagem a partir do momento em que ela desapareceu. Não encontro! Ele diz lá que sim, que começa onde eu quero. Mentira! Não começa coisa nenhuma!

Isto hoje é, definitivamente, o dia das incompetências!
Até já me esqueci do canário...

Platão e o amor (o tal de platónico...)

Não gosto de ver pássaros em gaiolas. Nem peixes em aquários. Nem cães em espaços diminutos.
Já tive pássaros, muitos, em gaiolas. Mas acabo sempre por os pôr em liberdade. Uma vez andei semanas a ensinar um a voar.
Quanto aos peixes, acabam sempre por morrer, coitados. Creio que da loucura própria de quem anda, interminavelmente, às voltas e voltas…
Há alguns meses o meu filho aceitou uma prenda da namorada – um canário cantador. Não é um canário qualquer. Parece que tem pedigree. Canta que se desunha. E é amarelo. Baptizámo-lo de Ernesto.
É um passarinho alegre, delicado e, na ausência do filhote, a minha companhia. Gosto de o ouvir e gosto de o olhar. Dou por mim a falar com ele e, sempre que penso que devo estar a ficar doida, olho-o e vejo-lhe a cabecita de lado e os olhitos redondos a olharem para mim. Por momentos acredito que me ouve e que aprecia a minha companhia.
Acabei, inevitavelmente, por desenvolver afeição pelo animal. De resto é sempre assim. Depois acabam por ir primeiro do que eu e é uma chatice. Desde pequena que passo por isso. A casa da minha mãe parecia um jardim zoológico e, pelas lágrimas que acabo sempre por deitar, digo – Nunca mais!
Não serve de nada. Os bichos perseguem-me.
Hoje, estava eu numa animada conversa com o Ernesto quando dei por mim a sentir uma ternura tão grande por ele que só me apetecia agarrá-lo, apertá-lo e dar-lhe beijinhos. Foi aí que pensei que, se calhar, os pássaros existem para nos ensinar o amor platónico. Aquele amor que só pode ser manifestado por actos que não impliquem qualquer espécie de contacto físico. O amor à distância.
Platão dizia que era o mais puro. Sempre achei que o homem, nesse aspecto, não batia bem da bola mas, se calhar faz algum sentido. Se calhar é capaz de ser útil o seu conhecimento. Se calhar…

Segundas-Feiras Para Quê?!

Alguém que me diga para que servem as segundas-feiras!
Uma pessoa levanta-se cedo, disposta a tratar de uma série de coisas que são, pasme-se, importantes.
Chega-se ao banco. O gerente? Ah, e tal, não é hoje. Como não é hoje? disseram-me na semana passada que chegaria hoje. Pois...se for hoje só lá mais para a tarde. Então e o outro? o sub? Ele andava por aí mas saiu, acho que foi ao café. Daqui a uns dez minutos.........
..........Dez minutos depois........Quinze minutos depois....Bom, o melhor é voltar amanhã.
Pois...se calhar...
Entro no carro. Pego no telefone. Note-se que o assunto é outro completamente diferente.
O dito toca, toca, toca. Qual caixa de mensagens, qual quê! Toca até se cansar, ele e eu. Desligo.
Desisto.
Segundas-feiras?! Mas isso existe para quê?!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Da felicidade

Quando eu era miúda havia uma expressão muito engraçada para designar todos aqueles a quem nada acontecia ou que simplesmente iam passando pela vida sem sofrer alterações ou mudanças – andar cá para ver passar os carros eléctricos. Que é como quem diz deixar-se ir na corrente, sendo que a corrente é mansa e estável.
Ao longo da minha atribulada vida, momentos houve em que invejei esses sortudos a quem a vida poupa. Mais tarde apercebi-me, sem qualquer sombra de dúvida, que a sortuda era eu.
Não há outra forma de crescer, não há outra maneira de evoluir, a não ser aquela que nos vai estendendo obstáculos pelo caminho. É, sem dúvida nenhuma, na ultrapassagem desses obstáculos que está contida a possibilidade de nos virmos a tornar seres unos, inteiros. Seres que possam chegar ao fim da vida e dizer, com um sorriso nos lábios e paz no coração, felizes – Valeu a pena.
Contudo, não chegam os obstáculos, senão aquilo que com eles fazemos.
Não falta gente que nesses obstáculos veja motivo de revolta, de raiva, de dor. Não falta gente a quem os obstáculos mais não fazem do que distanciá-los de si mesmos e do mundo.
Há que aproveitar as rasteiras da vida para nos centrarmos no nosso interior e aprendermos o perdão, a benevolência, a compreensão e a aceitação do outro, tal como é, com todas as suas limitações e defeitos, reconhecendo que cada um nós dá sempre o seu melhor nesta curta passagem.
Só assim, semeando bons sentimentos, tiraremos verdadeiro proveito desses obstáculos que somos, tantas vezes, obrigados a transpor. Só assim nos poderemos tornar naqueles seres felizes com que todos sonhamos. Assim. E não de outra maneira. A felicidade não anda por aí. Está cá dentro. É uma capacidade, não um achado.

Finanças

Acabei de descobrir a causa dos meus problemas financeiros.
É que sempre que o meu horóscopo diz que é um bom dia para melhorar a minha situação financeira, vai-se a ver e...é domingo!

Generosidades

Ontem estive a ver um filme em que uma das personagens, uma jovem apaixonada, se despe com uma descontração comovente, à frente do homem a quem ama. Lembrou-me a generosidade e a descontração que existem no amor jovem e que se vão atenuando à medida que a vida se estica.

Maratona

Acabou de passar uma maratona mesmo por baixo da minha varanda!
Um corpo de gente vestida de todas as cores a correr para chegar sabe-se lá onde.
Continuam a passar. São tantos que a avenida encheu .
Também para isso servem certos domingos.

Acordar ao domingo

Gosto de acordar ao domingo e não ter nada para fazer. Nem casa para limpar ou arrumar; nem roupa para lavar ou passar.
Gosto de acordar ao domingo com espaços por preencher.
Gosto de ter este dia em que faço exactamente o que me vai apetecendo.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Tu e Eu - No Teatro Aberto

Pegue-se na Alegoria da Caverna de Platão, substitua-se as sombras por um livro aos quadradinhos e a caverna por uma caixa. Em vez de vários homens, encaixote-se GarcEu e TUninho, este ainda por nascer, e teremos Tu e Eu, em exibição no Teatro Aberto. Nesta peça ninguém morre. Ninguém é forçado a abandonar a caixa. GarEu abandona-a porque quer conhecer o mundo que da pequena abertura lhe parece lindo e imenso. TUninho tem medo e fica.
Uma vez cá fora GarcEu conhece o Níquel e tudo se complica. O risco que corre de desaparecer é enorme. Salvo por TUninho, adopta o medo que este acabou por perder.
Uma hora e qualquer coisa, sem intervalo, que nem se dá por passar. Divertida e bem interpretada, esta peça deixa-nos com um final auspiciosamente feliz pela mensagem de libertação, de possibilidade de vôo, que nos transmite.
Recomendo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Desabafos

Com esta história da internet todos os dias me entram pela casa dentro conselhos, pontos de vista, filosofias de vida.
Frases que me chamam a atenção para a suposta sabedoria, e todas as vantagens que ela acarreta, da minha idade. Outras que me dizem que ainda agora estou a meio do percurso já que a esperança de vida aumentou consideravelmente.
Se der ouvidos às primeiras fico com a sensação que pouco mais há para fazer, crescer ou aprender.
Se der ouvidos às segundas dou por mim a pensar que ainda agora comecei. E não sei se isso me agrada. Quando olho para trás vejo tanta vida vivida que temo não ter imaginação para outro tanto.
Diz-se que o Homem sempre sonhou com a imortalidade. A mim parece-me que esses são sonhos próprios de quem ainda mal começou. Não sei se serão sonhos de velhos…
Quando penso em imortalidade lembro-me dos elefantes e da forma como se arrastam por este planeta. Claro que também me vem à memória o Manuel de Oliveira. O problema é que a maior parte de nós não concretiza os seus sonhos pelo que se torna mais penosa e mais cansativa esta, até aqui breve, passagem.
Assim, por um lado me alegro pensando no manancial de hipóteses que ainda tenho. Por outro me canso só de pensar que ainda tenho de andar por cá outro tanto. Enfim…desabafos…

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Quando se está prestes a rebentar...

Quem me conhece sabe que eu nunca digo o que não penso. Mas o que talvez não saibam é que nem sempre o que penso, digo.
Ou porque não acrescentará nada de novo ou de bom ao que já existe, ou porque não é o momento certo, a altura própria, às vezes sinto e penso coisas que guardo para mim, que não partilho.
Algumas dessas coisas tendem a crescer como ar dentro de um balão e há momentos em que nem todos os suspiros do mundo me conseguem convencer que, mais cedo ou mais tarde, não rebentarei.
Nessas alturas, é procurar um sítio isolado e gritar a plenos plumões.
Assim como assim não se diz a ninguém, diz-se ao mundo...

Conselhos

Sempre, ao longo da minha vida, me deparei com pessoas bem intencionadas que tinham, para todos os meus problemas, soluções óbvias que nunca hesitavam em partilhar. Elas sabiam exactamente o que eu deveria fazer fosse em que circunstâncias fosse.
Amiúde eu ia verificando que, se tinham soluções para os meus problemas, lhes faltavam completamente as soluções para os delas. Como se os problemas dos outros fossem de simples resolução, enquanto que os próprios tivessem uma complexidade incontornável.
Isto é uma "doença" que todos nós contraímos e que pode durar mais ou menos tempo dependendo da nossa capacidade de aprendizagem. É que não são os que nos dão conselhos a toda a hora que sabem muito. Não são aqueles que pensam saber exactamente o que fariam se estivessem no nosso lugar que sabem muito. São antes aqueles que sabem que nunca poderiam estar no nosso lugar porque as leis da Física nunca o permitiriam, e nem as do Universo já que cada um tem o seu próprio percurso e a sua própria bagagem para carregar.
Por outro lado é bem verdade que a distância, se não for em demasia, beneficia o campo de visão. É portanto natural que aqueles que nos olham, a nós e aos nossos problemas, fiquem com uma panorâmica bem diferente da nossa que estamos metidos no meio deles, engalfenhados neles, amalgamados com eles.
Daí que o que me parece realmente útil, não são os conselhos mas essa tal visão distanciada. É ela que nos ajuda a encontrar a solução certa para cada um dos nossos casos.
Fiquemo-nos, portanto, com as nossas soluções para os nossos problemas e partilhemos apenas as visões que temos dos problemas alheios. E, já agora, com o Jorge Leiria. Pensei em escolher o Carlos Mendes, sempre é o original, mas há que dar força à criançada e este miúdo é giro que se farta.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Do egoísmo e do altruísmo

Quando colocamos os nossos interesses à frente dos interesses de outrem, somos egoístas.
Quando colocamos os interesses de outrem à frente dos nossos, somos altruístas.
Parece simples mas não é.
Senão vejamos:
Que tipo de altruísmo praticamos se, na verdade, a alegria e o bem-estar de outros nos proporcionar uma alegria e um bem-estar maiores do que a nossa própria alegria e o nosso próprio bem-estar?
Eu estou em crer que Madre Teresa de Calcutá foi feliz. Teria ela sido tão feliz quanto foi se não tivesse dedicado a vida à causa a que dedicou?
Se a minha felicidade depender da felicidade dos outros, eu tentarei a todo o custo fazê-los felizes já que essa é a condição necessária para que eu mesma seja feliz. Estou a ser altruísta ou egoísta?
Na minha opinião um verdadeiro altruísta terá de sacrificar, realmente, a sua felicidade em prol da dos outros, e isso tem de ser doloroso. Para se ser altruísta tem de se sofrer. Tem de se amarfanhar o que se é, sem tirar daí prazer absolutamente nenhum. Ora um comportamento desses levará, mais cedo ou mais tarde, à depressão. O que me leva a crer que ninguém é altruísta por muito tempo.
O que me leva a crer que o egoísmo só é mau quando não se ama.
Quando se ama há que ser egoísta. É o que eu penso.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Dinheiro

Para muita gente o dinheiro é um impecilho e o facto dele ser necessário para tudo na vida, um peso desgraçado.
O que se queria, realmente, era viver no meio da natureza, onde tudo estivesse à mão de semear...
...mas com todas as comodidades, evidentemente.

Exijo. EXIJO e pronto.

Eu EXIJO que se coloquem câmaras na via pública que permitam identificar todos os "passeadores" de cães responsáveis pelos dejectos com que me deparo todos os dias e abundantemente em qualquer passeio português.
Eu EXIJO que se obrigue todas essas pessoas a pagar multas exorbitantes. Tão exorbitantes, mas tão exorbitantes, que só de as ouvir os dejectos desapareçam.
Criaturas, nós não vivemos num país de terceiro mundo.
Ó gentinha porca e mal-educada, vamos lá a apanhar o cócozinho que o cão faz e metê-lo num saquinho porque ninguém merece andar a pisar m...de cão a toda a hora.
E quanto à quantidade de animais que por aí beabulam, abandonados, espero sinceramente que quem teve a coragem de os abandonar arda nos quintos dos infernos.
Quanto àqueles que já nasceram sem abrigo, ó senhores das Câmaras Municipais, ó senhores das Juntas de Freguesia vejam lá se fazem alguma coisa, não vá o Universo virar-se contra vocês e começarem a aparecer, nas vossas ruas, às portas das vossas casas, os maravilhosos montículos castanhos do cãozinho do vizinho do lado.
Irra que é de mais!

Politiquices, Intempéries e sugestões

A West Wing da Casa Branca foi ocupada por um lusodescendente.
David Simas, de 39 anos, nasceu e cresceu nos E.U.. É filho de um açoreano que, em Moçambique, conquistou uma alentejana.
O título escolhido para esta notícia no DN é o seguinte:
Obama escolheu assessor português
No Público deparei com o seguinte título:
Pagamentos a advogados de Fátima Felgueiras são ilegais e deve ser exigida a sua devolução.
De repente veio-me à ideia a imagem desta senhora a rir-se que nem uma perdida desta cambada de pategos que somos nós.
Entretanto a neve não tem dado tréguas à maior parte dos países europeus.
Parece que Londres fechou para férias.
Vou terminar esta minha incursão que, esta semana, vem com um dia de atraso. O que justifica a pobreza e a brevidade das notícias que à segunda-feira são muito mais interessantes. (Isto para quem se atreveu a pensar que o único motivo era a minha preguiça ou indisposição...). Vou terminar, dizia eu, com uma sugestão que me parece pertinente e adequada aos tempos que correm.
Não sei se sabem mas, depois de Bush, foi agora a vez do primeiro-ministro chinês levar com um sapato aquando de uma visita à Universidade de Cambridge. Levar não é o termo correcto porque, ao que parece, o sapato passou ao lado, o que só por si comprova a falta de apontaria e o amadurismo do arremesso. O que me leva ao ponto de fazer a tal sugestão.
Porque não formar um grupo especializado? Chamar-se-ia Os Sapatos Voadores e teria como incumbência correr mundo para assistir a todo e qualquer aparecimento público de todo e qualquer político. Deslocar-se-iam cerca de uma ou duas dúzias (dependeria do número de pessoas que se conseguisse juntar), a cada encontro, comício, reunião...; espalhar-se-iam pelo recinto, misturados com a assistência. Estas pessoas, devidamente treinadas, agachar-se-iam e, no momento exacto, tirariam um dos sapatos, ou os dois dependendo do nível do alvo, que arremessariam com brio e determinação.
Escusado será dizer que se trataria de uma Associação Humanitária Sem Fins Lucrativos.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Pequenos espaços

A minha mãe disse-me uma vez que quando eu e o meu irmão saímos de casa ela a percorria ininterruptamente sem saber onde parar ou para que lado havia de se virar.
A casa da minha mãe era grande.
A minha é pequena.
E a mim, hoje, parece-me uma jaula.

Solidões

Existem três tipos de solidão.
A solidão como estado de facto; a solidão como estado de alma e a solidão como estado de espírito.
A primeira, atrevo-me a dizer, é uma escolha. Uma escolha de eremitas, já que não a considero presente naquelas pessoas que vivendo, como se diz, sozinhas, têm por companhia um ou outro animal doméstico e, mais ou menos regularmente, sempre vai passando alguém por perto.
A segunda, a solidão como estado de alma, é para mim a mais triste, a mais dolorosa e a mais cruel. É uma solidão que nasce e vive cá dentro, independentemente da multidão que nos rodeia. É aquela solidão que se sente mesmo, ou mais ainda, quando se está rodeado de gente. É a solidão dos eternamente transparentes. É a solidão dos idosos que vivem no seio de famílias que nem para eles olham para não se enfadarem. Ou dos cônjuges que, estando casados e vivos, estão na verdade divorciados e mortos.
Depois há a outra, a solidão como estado de espírito. É, talvez, a menos má de todas. É aquela que se sente quando alguém que amamos parte para outras paragens. Sabemos que continua connosco, sabemos que estará sempre connosco, mas estando longe, deixa saudades. Foi este tipo de solidão que deu origem, em tempos, a esta palavra – saudade, que contém todos os bons desejos que se enviam a quem se ama. Saúde, alegria, e a certeza de que lhes sentimos a falta.
Este tipo de solidão não passa com o tempo e não precisa de tempo nenhum para se instalar. Por vezes até joga por antecipação. Por vezes, quase sempre, basta a certeza da partida para ela se instalar. Perde-se o apetite, a barriga dá voltas e aí está ela, instalada. Não se vê o dia do regresso. Quer-se que o tempo voe.
É este tipo de solidão que eu sinto, neste momento em que regressei a uma casa vazia.