Não sou da noite. Nunca fui, de resto. Adoro a manhã e a única oportunidade que tive de assistir a um nascer de sol nunca encontrou igual nas inúmeras despedidas do astro rei a que assisti. O fim da tarde adormece-me enquanto a manhã não se limita a acordar-me – envivece-me. Daí que tenho estranhado este horário para lá do comum que tenho experimentado nestes últimos dias. Chegar a casa às onze da noite é estranho. Não é desagradável – é estranho. Como tudo aquilo que se muda, mesmo que temporariamente.
Mas continuo a não gostar da noite. E por isso dou por mim a zarpar – que é mesmo o termo – a zarpar o mais depressa que posso para chegar depressa a casa, espreitar-vos por aqui e dormir, depressa também que amanhã o dia começa muito cedo.
Creio que hoje não devo ter sido a única com esta pressa que existe sozinha, sem fundamento nem propósito. Em cima do tabuleiro da ponte estavam enfaixados três. Rodas para um lado, carros para outro. Ninguém se magoou mas os estragos eram consideráveis. E a pressa, que todos os dias passa de mim para o carro, recolheu-se em mim e só espero que me deixe dormir porque duas noites seguidas de insónias é que não pode ser.
Pelo sim e pelo não, já bebi um chazinho.
