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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Com que idade deveríamos morrer?




Com que idade deveríamos morrer?

Qual é o momento, da descida, em que deveríamos partir sem dor para quem parte, sem dor para quem fica?

Aqui estou eu. Mãe. Avó. A bater à porta dos sessenta. Quem, com a minha idade, tem ainda pai ou mãe? Eu tenho os dois. E estou sozinha.

Que sorte! Dirão aqueles que os perderam no tempo das boas recordações. Aqueles que sentem saudades, não daquilo que eles seriam hoje se ainda fossem vivos, mas do que foram ontem, muito antes disso.

Com que idade deveríamos morrer?

Em que momento da descida, da perda de faculdades que só os outros vêem, deveríamos partir?

E quem cá fica? E quem cá está? Com que olhos deve olhar para o que é, sem despedaçar o coração?

Com que coração há-de suportar os olhares de acusação?
 – Não estás a tratar de mim! Não é isto que eu quero! Não estou bem! Nunca estou bem! Sou a pessoa mais infeliz do mundo porque envelheci!

Com que olhos se olha, sem que o coração se parta? Com que braços se abraça, sem sentir a impotência?

Tenho momentos em que detesto a minha mãe. Acho-a má. Infantil. Incompetente. Egoísta…

Tudo isso lhe vejo no olhar. Na indiferença ao meu esforço. No esquecimento de que também sou gente.


E depois, logo a seguir, o meu coração desfaz-se em culpa. Enche-se-me o peito de uma angústia tão profunda que só a memória da minha filha, a abraçar carinhosamente a minha neta, me acalma. Só a certeza desse amor manifestado me tranquiliza. Afinal, nem tudo foi em vão.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Feliz Natal e um Ano Novo cheio de Prosperidade

Presépio feito por um grupo de escuteiros da paróquia da Imaculada Conceição, 
Charneca da Caparica

O Natal está mesmo aí. Mais um Natal! E, logo a seguir, fecha-se um ano mais.

A vida passa a correr e, ao contrário de nós que nos vamos alentando, ela corre mais depressa de ano para ano.

Não me estou a queixar. Apenas a relembrar que há que viver. Há que aproveitar, não no sentido do esbanjamento, mas no do crescimento, no da ascensão, no do conhecimento e das boas práticas que é para isso que por cá andamos, para nos melhorarmos como pessoas, como humanos que somos, como gente de bem.

É costume, nesta quadra, deixarmos os nossos votos a todos os que nos são queridos. Eu tento estar o ano inteiro o mais junto deles possível, por isso, nesta quadra, deixo os meus votos a todos os outros – os que conheço, os que talvez venha a conhecer e os que me são completamente estranhos. É para todos eles esta mensagem. E para mim, este balanço.

Deus ajuda quem se ajuda e não quem perante Ele se ajoelha mas nada faz. Eis o que aprendi este ano. Ele quer ver-nos felizes e proactivos. Actuantes. Alegremente actuantes. Quem Nele confia liberta-se de medos porque se entrega.

Ter fé é ser capaz de confiar na vida, em Deus, no Universo, em si mesmo… de corpo e alma. Ser capaz de o fazer, incondicionalmente, apesar do medo. E, se já os antigos diziam que a fé é que nos salva, eu reitero essa máxima porque só ela nos liberta. Sem fé, ficamos presos aos nossos medos e toda a gente sabe que os medos encerram o pior que há em nós.

Desejo-vos, pois, um Natal de muita Paz, de muito Amor e de muita Harmonia. Desejo-vos uma noite de Luz porque é dela, da Luz, que o medo foge.

Desejo que o Novo Ano seja de reflexão e que a Fé nos liberte a todos, para que a Felicidade entre pelas nossas portas adentro, já que a Prosperidade é isso mesmo – uma vida cheia de Luz, de Fé e de Amor. Uma vida verdadeiramente Feliz.

Bem hajam


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Puca


Não foi uma semana fácil. No domingo, quando a levei ao veterinário, foi-lhe detectado uma espécie de colapso do fígado. Da barriga tiraram-lhe três litros de água e ela, coitada, feliz por estar mais leve, parecia que tinha renascido – dava saltos, abanava a cauda… estava tão feliz! Tão feliz!

Saímos de lá para um passeio um pouco maior do que o habitual. Era preciso que ela obrasse. Já não o fazia havia vários dias. Aliás, eu estava mesmo convencida que era esse o seu mal – prisão de ventre -, e que logo que estivesse resolvido ela voltaria a ser a minha cadela alegre que saltava para nós por tudo e por nada, que nos cumprimentava de manhã como se a noite tivesse durado meses e nos recebia em casa como se a nossa ausência tivesse sido de anos. Mas ela não obrou. Não no domingo, não nos dias seguintes. Nunca mais. Até ontem, quando nos encaminhávamos para o veterinário. Como se tivesse pressentido o que ia acontecer. Como se tivesse compreendido a luta dentro de mim, a hesitação, o não saber o que fazer. E as fezes eram negras, tão negras, a dizerem-me não te preocupes, vais fazer o que está certo, o que tem de ser feito.

E fiz.

E hoje ando p’raqui, como uma mosca tonta sem saber para onde ir – e o nosso passeio? E o meu bom-dia? E aquele olhar tão doce que me faz sentir a pessoa mais importante do mundo? Onde está? P’ra onde foi?

E à Amália? O que é que eu vou dizer à minha neta quando ela entrar por esta porta e procurar pelo cão Puca?

Ontem, enquanto lhe segurava a cabeça e a olhava nos olhos para me despedir, prometi-lhe que, embora não tenha sido a primeira, haveria de ser a última.

Mas não sei se vou conseguir cumprir...