sábado, 24 de junho de 2017

Debaixo dos lençóis



Foi a minha mãe que me ensinou a fazer a cama: resguardo impermeável, com elásticos que o prendem ao colchão; resguardo de turco, com elásticos aos cantos; lençol de baixo, lençol de cima, de preferência iguais; mais ou menos cobertores, conforme a estação do ano, e colcha.

Quer o lençol de cima quer os cobertores deveriam ficar bem entalados no colchão, para não fugirem durante a noite. Quanto ao lençol de baixo, esse deveria ser irrepreensivelmente esticado, mesmo que isso implicasse duas ou três idas a cada um dos lados da cama. O colchão deveria ser levantado, aos pés e à cabeceira, de forma a prender o máximo de lençol possível. E deveria ser baixado lentamente para que se soltasse apenas o necessário para ficar deitado.

“Quem boa cama fizer, nela se há de deitar”, uma verdade indiscutível sempre que a nossa cama é por nós feita. Mas o que é isso de “boa cama”? Uma cama de lençóis esticados ao limite e que nos prendem os pés se nos quisermos deitar de barriga para cima?

Nunca tal questionei! Bem-mandada, fazia a minha cama tal qual me haviam ensinado e continuava a debater-me todas as noites com a prisão em que ela me deixava, sem saber para onde virar os pés – para fora? para dentro? Quando pensava nos joelhos, decidia que o melhor mesmo seria virá-los para fora, pelo menos contrariava a tendência dos “pés p’ra dentro”. Mas uma coisa é certa – nunca acordei com eles de fora. Tortos sim, mas cobertos. E presos.

Depois vieram os edredões. Toda a gente tinha um. Coisas práticas que, pelo menos durante o Inverno, dispensavam o batalhão de cobertores que acumulávamos em cima – alguns tão pesados que o virar na cama se transformava num exercício de estilo e mestria. Claro que continuei a entalar os lençóis e, desta feita, os edredões. Tudo bem apertadinho por baixo do colchão não fossem fugir e dar liberdade aos pés. Sabe-se lá para onde nos podem levar uns pés em liberdade!

A coisa aliviou um pouco porque o peso de um edredão não se compara àquele de dois cobertores, de papa por exemplo. Mas os pés continuavam lá, presos, sem saberem, coitados, para que lado se haviam de virar.

Até ao dia em que dormi em casa de uma amiga brasileira. Os brasileiros são práticos e, diria eu, descomplicados. O edredão foi colocado em cima da cama sem pruridos com a clara mensagem de que eu era livre de lhe fazer o que bem entendesse e dormir como bem me apetecesse. A minha primeira reação foi entalá-lo aos pés da cama. Mas olhei para a cama do lado e gostei de ver aquela liberdade esvoaçante do edredão, cobrindo-a, simplesmente, sem colcha, sem trabalho, sem prisões.

Foi nessa altura que me atrevi a deixar cair por terra as teorias da minha mãe. Estendi o edredão como quem estende um lençol branco no ar e deixei-o cair sobre a cama. Assim, sem mais nada. Tão simples que a vida é, afinal!

Sim, é verdade que acordei a meio da noite com um pé de fora. Mas não era natural que, depois de tantos anos presos, eles ansiassem por gozar da sua liberdade? Não faz sentido o entusiasmo por tudo o que é novo? Principalmente quando é libertador?

Com o tempo eles habituaram-se à leveza das noites, e dos dias, e agora só espreitam quando lhes apetece. Já não obedecem a ninguém a não ser a si mesmos e eu aprendi a inventar as minhas próprias teorias.


Nunca mais entalei lençóis. Nunca mais entalei edredões ou colchas. Nunca mais entalei ideias, crenças ou vontades – a minha liberdade é total! E de tal forma que se estendeu, ao longo dos anos, para as horas do dia em que os meus pés, finalmente livres, decidem para onde e quando querem ir! Ontem, por exemplo, levaram-me até à praia. Amanhã, quem sabe?! O céu é o limite!

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