quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Danos colaterais


A par da forma como vamos sendo capazes de lidar com as circunstâncias da vida, estão os enganos e as desilusões. Os enganos e as desilusões são como danos colaterais. Não representam, por si só, circunstâncias da vida, nem são, na verdade, fruto da nossa sabedoria ou inépcia na forma como as enfrentamos. São, por isso, danos colaterais. São a picada do insecto no meio das árvores, o ruído de fundo num espetáculo ao vivo, os pisões e os encontrões numa qualquer pista de dança – danos colaterais.

E, ao contrário daquilo em que gostamos de acreditar, não acontecem apenas numa determinada idade. Não. Acompanham-nos pela vida toda e atacam-nos pelas costas precisamente quando estamos convictos que já nada nem ninguém nos surpreenderá. Ah! e tal…o tempo das discotecas já lá vai. Pois é. Mas os pisões e os encontrões não acontecem só no meio da multidão.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Vivemos no Big Brother e nem sequer damos por isso


Quando encarrilamos no ram ram da vida, qualquer mudança parece improvável, extremamente difícil, ou mesmo catastrófica. A vida é assim mesmo, dizemos nós, e se deixa de ser parecemos estorninhos a bater asas sem rumo nenhum.

Há contudo momentos históricos, em que as mudanças são tão profundas que se sentem, que se respiram, no dia-a-dia, nas coisas mais pequenas, mais comezinhas, alterando a nossa vida, já não de uma forma subtil, mas de uma forma descarada, quase obscena, que nos dá vontade de fugir para um retiro espiritual em que as portagens das autoestradas, por exemplo, não sejam cobradas à traição, como se o objetivo fosse muito mais vasto do que uma simples portagem – como se o objetivo fosse foder o cidadão que, na total ausência de informação, por elas passa e fica registado sem saber, no entanto, de que forma poderá proceder ao pagamento, ou quando, evitando assim as coimas que de instrumento secundário passaram a principal.

Há momentos históricos em que se cumprem as premonições de certos visionários como, por exemplo, George Orwell de quem já estivemos muito mais longe – se é que não estamos já lá; ou de Saramago, quem sabe?... meu Deus espero que não, não quero – quem quererá?!  - viver num mundo de cegos, ou dentro de cavernas. E, dizendo isto, compreendo o quão fácil é viver já lá e não perceber. Não fossem as árvores e o mar, e a realidade confundir-se-ia com a ficção.

Há, portanto, momentos históricos em que se torna cada vez mais difícil mantermo-nos à margem, seguirmos com as nossas vidinhas, que por muito desinteressantes que sejam são as nossas, sem nos sentirmos violados assim que metemos os pés fora da porta. E são esses momentos históricos que, ao nos imporem mudanças, nos exigem mudança. São momentos históricos como este que estamos a viver que, de tão apertados, nos dão apenas duas alternativas – ou nos juntamos a eles ou estamos contra eles. Mas como eles são tão poucos, estão tão longe e ocupam espaços tão delimitados, é pouco provável que aceitem no seu seio todos nós que somos tantos. Assim, resta-nos o outro lado, aquele em que somos obrigados a mudar e recuamos no tempo, e reaprendemos a viver como viviam, por exemplo, os nossos avós – sem telemóveis, sem carros, sem autoestradas. Porque sem médicos, sem saúde, sem medicamentos e sem educação, estão eles a tratar disso. Confiantes, ainda assim, que continuaremos a alimentá-los com as outras coisas, as supérfluas e mantendo-nos no engano que precisamos delas e que até não custam muito.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Um dia na Tapada da Ajuda

No coração de Lisboa existe um lugar maravilhoso apenas perturbado pelos ruídos dos carros que passam na ponte 25 de Abril, pelos aviões que sobrevoam a entrada da cidade e pelas, creio que milhares, de cigarras que habitam o campo das merendas e insistem em ser a componente musical da paisagem sem se darem ao descanso, sem nos darem descanso - não param, nunca. São horas a fio de ruído de fundo. Ainda assim nada disto chega a incomodar verdadeiramente, tal a extensão e beleza do verde que habita na Tapada da Ajuda, em redor do Instituto Superior de Agronomia.

E é no meio de todo esse verde que vivem as videiras. Longos corredores de videiras arrumadas por castas - Moscatel Galego; Moscatel de Setúbal: Viosinho; Alvarinho...e por aí fora que não cheguei a vê-las todas. É que ontem começaram as vindimas na Tapada e eu fui apanhar uvas, levada por este senhor, mais amante ainda do que eu, da Natureza, das árvores, das flores e de tudo o que é espaço verde - se não mais amante, pelo menos mais actuante, que o meu imenso amor por ela é muito mais meditativo. Mas ontem foi a excepção, fui apanhar uvas e adorei. 









domingo, 19 de agosto de 2012

Isto não é nenhum artigo científico; nenhuma crítica academicamente reconhecida; nenhuma análise ou interpretação erudita. Isto é apenas, e tão só, um desabafo.


Não é a primeira vez que me acontece. Creio até que não é a primeira vez que faço aqui referência a este particular – a erudição desbravada de certos textos, incapacitando ou dificultando enormemente a sua interpretação por parte do público em geral, do vulgar de Lineu.

Como é que se explica que uma possível interpretação de uma obra, por exemplo, de Marx Weber, seja mais complicada do que a obra em si? Que intenções, se é que existem, estarão por detrás desse eruditismo classista? Que limitações?

A cultura e o conhecimento são passíveis de ser consumidos por todos e não podem estar restritos às escolas ou às universidades. A cultura e o conhecimento devem circular numa linguagem simples e acessível até mesmo àqueles que não tiveram a oportunidade de ler os textos mais intricados. Creio, sinceramente, na possibilidade de “tradução” dos textos mais ricos de modo a torná-los acessíveis a todos. Creio até que, se há certos saberes que não circulam por aí, é porque a sua circulação não serve os interesses de uma determinada classe, de uma minoria.

Aos senhores que gostam de interpretar obras de autor, por favor façam-no de modo a que as suas mensagens mais importantes, as suas “revelações” se tornem acessíveis a todos. Desçam dos vossos pedestais e sigam o exemplo do Padre – falem aos peixes.

Ah! E, por favor, se alguma vez acharem que me estou a armar aos cucos, por favor reclamem.

sábado, 18 de agosto de 2012

Somos cada vez mais e nunca estivemos tão sozinhos


Não é difícil perceber quem são as pessoas que se sentem sós. São aquelas que dão gritos surdos, tolos, despropositados. Gritos que dizem palavras que não interessam porque não têm coragem para gritar o que vai na alma. Gritos que não dizem mas querem dizer – eu estou aqui, olha para mim, não me vês? E tudo serve para preencher os espaços entre os vazios que moram nesses gritos – o carro; o sonho; a rapariga que sorriu; o piropo que se ouviu…os mais desesperados nem dizem nada, limitam-se a pôr fotografias em poses estranhas que se confundem, ou se podem confundir, com sensualidade; ou então partilham aquelas frases com bonecos que dizem o que eles não são capazes de dizer.

Tratamos a solidão como se fosse uma doença contagiosa. Só não ficamos de quarentena porque isso seria aceitá-la na sua magnitude, com todo o poder que ela tem para nos destruir. Mas acreditamos, coitados de nós, que somos capazes de a esconder!

Há até quem acredite que quem a traz à luz do dia tem menos possibilidades de a curar, já que ninguém a quer ou ao desespero, nem mesmo os desesperados, nem mesmo os solitários. Porque uma coisa é a minha solidão, outra a alheia. Como posso eu suportar duas?! É que ela entranha-se de tal maneira que chegamos a acreditar na impossibilidade de a matar. Esquecemo-nos que ela morre de morte natural assim que deixamos de estar sós. E esquecemo-nos que para deixarmos de estar sós não basta encontrarmos companhia. Esquecemo-nos que há certas companhias que acentuam ainda mais a solidão. Geralmente são as companhias encontradas na insinceridade, as que vêm ao chamado dos gritos surdos, tolos, despropositados.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Tempos de mudança


Por cá pararam as construções. Um prédio grande, uma escola, deixou-se ficar pelas paredes inacabadas mal separando as largas galerias. O lixo deixa-se acumular nos contentores modernos, redondos e cinzentos, que transpiram higiene, incapazes já de conter sacos e saquinhos que as gentes vão depositando em volta. Os muitos cestos, estrategicamente espalhados pela nova urbanização ladeada de arbustos e plantas secas, acumulam saquinhos pretos com nó na ponta depositados por quem ainda acredita que vale a pena manter uma certa civilidade e não desiste da recolha dos excrementos largados pelos animais de estimação. 

Valem-nos os caminhos pedestres e os bancos de jardim depositados debaixo dos pinheiros altos e que nos levam mata adentro. Vale-nos o cheiro que a caruma que atapeta o chão exala. Vale-nos aquilo que já era, que sempre foi, e que desejamos – sempre será. Pelo menos até ao fim dos tempos. 

Sinto a degradação nas pequenas coisas. Nas coisas dos homens. E volto a refugiar-me nas grandes coisas. Nas coisas dos deuses.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Incapacidade

Volta não volta é um medo terrível de não ser capaz. É um medo que vem da necessidade extrema, da extrema importância que ponho nas coisas, quase uma vitalidade, e depois é isto – um medo tão forte que fico de mãos e pés atados, paralisada. E o medo cumpre-se, com a única variante de ser ele próprio a causa. Ele, e não a minha incapacidade. A não ser essa, evidentemente – a de vencer o medo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Pais e filhos


Frases como, Só após a morte do meu pai é que me tornei homem; ou, Os pais, a gente leva-os para a cova, deixam-me a pensar no papel que os progenitores têm ao longo da vida de cada um. 

É claro que nem todos os ditos são iguais, como não são iguais todos os filhos. Mas é indiscutível a responsabilidade na formação daqueles a quem se dá a vida, e o peso que os problemas mal resolvidos têm na relação entre uns e outros e, consequentemente, no resultado final.

É raro não se escutarem queixas, das filhas em relação às mães, e dos filhos em relação aos pais. Não sou Freud. Não me vou pôr aqui a tecer considerações sobre complexos de Édipo ou de Electra. Mas que as queixas têm, na sua maioria, estas direções, é um facto por mim, e provavelmente por outros, altamente comprovado.

Ora, a não ser que se siga a sugestão de Kant e se contrate um ser superior para educar as gerações vindouras, e nessa impossibilidade, o melhor mesmo é contentarmo-nos com os nossos legados fazendo de tudo para sermos felizes antes de termos filhos ou, para quem nem os chega a ter, o mais depressa possível, considerando que o tempo começa a contar no início da idade adulta, evitando  assim algumas taras e manias que advêm dos rancores e das zangas mal resolvidas. 

Sobretudo é fundamental que se proceda ao perdão antes da morte do progenitor em questão porque, se se prolongam os lamentos para lá dela, já não há volta a dar ou o trabalho será muito mais duro.

A única coisa que me anima é esta sensação de esbatimento, resultado de um cada vez mais vasto conhecimento. É que seres superiores, dificilmente viremos a ser, mas podemos, lá isso podemos, aperfeiçoarmo-nos um pouco mais.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Receita para a eternidade


Comovem-me as manifestações públicas da nossa humanidade. Comove-me a exibição do melhor que há em nós. Porque é que não vivemos eternamente numa qualquer espécie de Jogos Olímpicos? Porque é que não vivemos sempre nesta harmonia, nesta solidariedade, nesta alegria, nesta humanidade? 

Comove-me esta capacidade que temos de criar, de mudar, de melhorar, de transformar a fealdade em beleza, por vezes imensa, por vezes tão grande que nem cabe no peito.

Comove-me esta grandiosidade que transportamos connosco e não percebo porque a ignoramos, porque a esquecemos, porque nos deixamos ir.

Porque é que não vivemos sempre nesta harmonia, nesta solidariedade, nesta nossa humanidade? Quem sabe viveríamos eternamente… 

domingo, 12 de agosto de 2012

Ninharias


Quando se olha em volta, com olhos de ver, corre-se o risco do desinteresse, do despropósito, do real valor das coisas que é, geralmente, muito inferior àquele que gostamos, e temos, de lhes atribuir.

De repente apercebemo-nos que aquilo que julgávamos grave, afinal é nada. Aquilo que criamos importante, é nada, e o nada, se deixarmos, apanha quase tudo – salva-se o coração, o amor, e pouco mais.

Os génios só o foram porque se divertiram com a sua genialidade. Não creio que o tenham sido por vontade de trabalhar ou por amor ao próximo, não – foram-no por entusiasmo, por diversão. E, quase quase que os vejo a evitar o mundo, não fosse o mundo dispersá-los com tanta ninharia.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Uma solução - a derradeira


“A morte por afogamento é rápida e silenciosa”

Esta frase está em todas as caixas multibanco e quem a escreveu pensou que a palavra morte seria o suficiente para intimidar quem a lesse, sem saber que anda para aí muita gente que já não se intimida com ela, muito pelo contrário, a morte aparece-lhes em sonhos como remédio para muitos males. 

Juntar uma palavra que já não intimida, a duas que facilmente se associam a solução e a paz: rápida e silenciosa, é ignorância de macaco.

Se calhar é capaz de ser boa ideia tirar a frasezita dos multibancos antes que comece para aí a desaparecer gente nas praias…é que partir do princípio que quem vai aos multibancos está safo, não é realista. A enorme queda na sua utilização não significa a salvação daqueles que ainda vão resistindo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Não quero ser o homem invisível


“Não há nada pior do que a vida que não é observada.”
Yalom, Irvin D. (2007). Mentiras no Divã. Lisboa: Edições Saída de Emergência (p.124).

Pode estar aqui a resposta para o sucesso dos reality shows. Pode estar aqui a resposta para o mau comportamento de muitas crianças ou para os achaques e manias de muitos velhos.

Por muito vazia que seja a nossa vida, ela é nossa e alguém tem de a testemunhar. Alguém. Seja quem for. Não há nada pior do que a sensação de invisibilidade – se ninguém me vê, então é porque eu não existo e, se não existo, o que ando eu para aqui a fazer?!

Há quem substitua a humanidade pelo divino e se possa dar ao luxo de não precisar de nenhum observador de carne e osso. Aos eremitas chegam-lhes os deuses e podem até exercer a sua misantropia crónica, deixando-nos sem resposta para perguntas como: para que serve tanta religião concentrada num só ser que não só não a partilha como se mostra incapaz de ajudar seja quem for…

Para os descrentes a coisa pia mais fininho – é sempre mais fácil, e equilibrante, acreditar num deus omnipresente do que esperar a atenção de seres com as mesmas características que nós. Até porque sabemos de fonte segura que somos seres altamente falíveis e frágeis, pelo que convém não esperar dos outros mais do aquilo que somos capazes de dar – o que, por vezes, é tão pouco!

O melhor mesmo será conseguir um saudável equilíbrio entre a crença e o amor ao próximo. Assim, uma mão ampara a outra e escusamos de chegar ao fim da vida sofrendo horrores porque todos os nossos amigos se despedem de nós, a família tem outras famílias e os nossos observadores vão rareando, obrigando-nos a um comportamento quase infantil porque precisamos de atenção como de  pão para boca.

Por outro lado devemos, também, e à sombra desta realidade, pensar nos mais jovens que crescem cada vez mais sozinhos e longe dos deuses, a maior parte deles. Esses são os que andam a dar-nos água pela barba com os seus comportamentos agressivos e desestabilizadores porque a atenção que têm em casa não chega; Deus, não sabem quem é; e na escola sentem-se, no meio de tanta gente, o homem invisível. O que até pode ser giro durante um dia ou dois, mas com a continuação deixa de ter graça.

Não há muito tempo recebi um mail que referia esta tendência que a humanidade tem tido para os extremos – ora Deus é tudo e mais alguma coisa, ora se mata e passa a ser a ciência a causa de todos os bens e de todos os males. Na verdade dificilmente escondemos esta tendência para a deificação de seres ou coisas, ou ambos. Mas ainda não conseguimos encontrar um equilíbrio digno de nota que nos permita viver felizes e em harmonia; que nos ensine desde o berço a liberdade e todas as suas restrições – coisas como o amor; a moral e a ética.

Decidimos abandonar Deus e riscámos, sem dó nem piedade, todos os ensinamentos veiculados através de um fanatismo religioso só porque pensámos que nenhum serviria, quando é falso, quando há tantos que tanta falta nos fazem. E agora, perante este caos, não param de surgir fanáticos, mais fanáticos ainda, e vivemos nesta roda do tudo ou nada porque cada vez que fazemos uma revolução não somos capazes de pôr de lado o orgulho e reconhecer o que de bom havia no que acabámos de derrubar.

Bom bom seria recordarmos sempre que o homem invisível só é feliz porque é estrela de cinema. Ou pensam que ele é único?! Se pensam, estão bem enganados. O que há mais para aí são homens invisíveis que nunca conseguiram, e nunca conseguirão, chegar a Hollywood.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A miséria


Tenho passado uma grande parte da minha vida preocupada com coisas práticas – quando é que leio este livro; quando é que acabo este curso; quando é que tenho dinheiro para pagar este serviço, para comprar este sonho…e assim, quase sem dar por isso, tenho resumido a vida a alvos palpáveis, coisificando-a porque é isso que se faz quando nos rodeamos de coisas – transformamo-nos, e à nossa vida, numa delas. Numa coisa.

E pouco importa as frases que se ouvem, dos gurus e dos sábios, ou daqueles que por experiência gritam que o importante são as pessoas. Que o importante são as relações que se estabelecem. Que o importante é o amor. De pouco ou nada serve quando o que manda é o medo de perder a condição; a qualidade de vida; o poder de compra. De pouco ou nada serve quando o que manda é o medo da miséria e esse fantasma – o da miséria – se nos apresenta sempre como uma figura andrajosa e cadavérica, de mão estendida ao sabor da boa vontade alheia e exposta ao frio, ao vento e à chuva.

Até ao dia em que à força de perder nos apercebemos que sobrevivemos, que o mundo não acabou e que há coisas muito mais importantes – as relações que se estabelecem; o amor que se sente; os momentos de paz; a alegria de uma criança… e, de repente, lembramo-nos dos sábios, dos gurus, dos experientes e é como se os olhos da alma se abrissem e, milagre, perde-se o medo. 

Afinal a miséria está na solidão, no desamor, na coisificação da vida.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Saudades


Há certas músicas que me tocam despertando sentimentos de nostalgia apesar de não traduzirem vivências minhas. 

Por vezes, em certos ambientes, principalmente quando estou sozinha no meio da natureza, rodeada de árvores e do cheiro dos pinheiros, sinto saudades de um passado que não foi o meu (confesso que hesitei no tempo do verbo: “não foi” ou “não é”? não fará o passado parte do nosso património e, assim sendo, ele “é”? então porque escolhi eu o “foi”?). Reformulo: sinto saudades de um passado que não é o meu.

E se as saudades que sentimos, aquela melancolia que nos invade a alma sempre que ouvimos aquela música ou cheiramos aquele cheiro; sempre que olhamos uma pintura, ou sentimos a brisa, ou nos envolvemos numa paisagem, não forem saudades do que foi, mas daquilo que podia ter sido, daquilo que gostávamos que tivesse sido?

E se as coisas, os momentos, que realmente se completam, que realmente nos completam, fossem, em si mesmos, o princípio e o fim e, por isso, não pudessem deixar saudades? 

Então as saudades mais não seriam do que desejos por realizar.

domingo, 5 de agosto de 2012

Ambivalência


Há muitos anos já, uma psicóloga minha amiga comentava sobre a minha personalidade, na sequência de uma série de episódios algo destrutivos em que a vida e eu me envolveram. Dizia ela que eu tinha, ou era – já não me recordo bem – uma grande ambivalência.

Hoje, ao ler Yalom – já vou no terceiro livro no espaço de três semanas por isso nem vale a pena perguntar se estou a gostar ou não – volta à baila esse mesmo termo, ao qual, de resto, não dei grande importância nem mostrei curiosidade nessa época distante em que o ouvi pela primeira vez. Provavelmente não estaria preparada para me definir – a mim ou ao termo… ou, mais certo ainda, pareceu-me tão óbvio, tão familiar, o seu significado que não me passou pela cabeça aprofundá-lo. Ambivalente – ambi: de ambos os lados; valência: capacidade. E pronto, estava feito o diagnóstico – eu era uma pessoa com, pelo menos, duas capacidades, o que poderia sugerir independência, autonomia – em suma, o que ela queria dizer era que eu não precisava de ninguém porque tinha, dentro de mim, todas as emoções necessárias. Aquilo que me passou ao lado, provavelmente por conveniência, foram os prováveis, aliás –  incontornáveis – conflitos que essa “duplicidade” provoca e as limitações que, obviamente, encaixa na vida de cada um e, neste caso específico, na minha.

Ser ambivalente significou que durante anos fui estabelecendo com o mundo relações de amor-ódio; agrado-desagrado… numa sucessão de sins e nãos simultâneos que se viravam contra mim,  paralisando-me e impedindo-me de realizar aspectos importantes da vida, para não dizer primordiais não vá cair em depressão…, e forçando-me a esforços, passo a redundância, hercúleos para conseguir ultrapassar os nãos e acreditar nos sins – quase sempre fui ficando pelo caminho e, talvez por isso, tenha experimentado tantas coisas e concretizado tão poucas.

Mas foram, curiosamente, as poucas que fui conseguindo concretizar que me foram libertando dessa tão pouco desejada ambivalência, restituindo-me a confiança que deveria ter cá estado sempre e ajudando-me a compreender que a responsabilidade das escolhas é minha. 

Hoje, se escrevo estas palavras, não é porque tenha lido o termo no livro que tenho em mãos, mas é porque, ao lê-lo, compreendi que não só não tenho medo de conhecer o seu significado, como sinto – e sentir é muito mais do que pensar – que estou, devagar, a deixar de ser isso. E como vale mais tarde do que nunca, estou em vias de me responsabilizar, em absoluto, por todos os passos que dei, na certeza de que o imperdoável só existe na medida em que a responsabilidade de algo é depositada no outro, pelo que, mais dia, menos dia, perdoarei tudo, assumirei todas as minhas escolhas presentes e desenvolverei um certo carinho pelas incapacidades passadas, tomando assim, e sem regrets, as rédeas da minha vida que tem de ser, porque nunca a vi de outro modo, feliz como nos sonhos. 

sábado, 4 de agosto de 2012

Marginalizemo-nos


Quanto mais inserida estou nesta triste sociedade, amorfa, passiva perante todos os abusos que num passado, não sei já se muito ou pouco recente porque há factos que me confundem o tempo com as emoções que geram, eu não via, mais necessidade tenho de me afastar dela, mais anseio as coisas simples – as árvores; os rios; as aldeias; as hortas; os pinhais que ladeiam certos lugares; os pomares; o céu que se abre azul nas manhãs carregadas de uma brisa doce que antecedem os dias quentes de Verão.

Quanto mais inserida tenho de estar nesta sociedade que se degrada nos topos, mais à margem dela me apetece viver e mais acredito na urgência das ideias que dela nos afastem, porque só elas nos podem livrar do contágio.

Não vale a pena sonhar com grandezas e acreditar que se podem combater fantasmas. Os projetos demasiado globalizantes isolam poderes e geram cegueira. Só os deuses podem governar lá do alto. Não os homens. Nunca os homens.

Urge reduzirmos os espaços entre nós. Urgem as pequenas organizações comunitárias capazes de cultivar verdadeiramente aqueles que são o suporte desta aberração em que o mundo se tornou e que nós, porque dele fazemos parte, só agora nos vamos apercebendo. Há quem acredite que isto só lá vai com sangue. Com sangue; com ideias; com ações, seja com o que for, mas que seja. 

Marginalizemo-nos, pois.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

"...a recordação de uma determinada imagem não passa da nostalgia de um determinado momento; e as casas, as estradas, as avenidas, são infelizmente fugazes, como os anos."

Proust, Marcel (1913). Em Busca do Tempo Perdido, Do Lado de Swann. Lisboa: Relógio d'Água Editores.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012