domingo, 29 de janeiro de 2017

Uma questão de Fé


Ele há coisas que todos vimos e há coisas que ninguém vê.

Nada disto é novo e todos estamos plenamente conscientes do facto.

No entanto, raramente estamos de acordo – quer em relação ao que vemos, quer em relação àquilo que não somos capazes de ver.

Isto porque o nosso cérebro interpreta o que os olhos lhe enviam e fá-lo à luz da cultura, do conhecimento, da experiência, qui ça das capacidades de cada um.

No entanto, essa é a realidade pela qual cada um de nós está disposto a morrer (e, muitas vezes, a matar) – aquilo que os nossos olhos veem! Quem é que nunca ouviu a expressão: “Eu vi! Vi com estes olhos que a terra há de comer! E, se eu vi, está visto e ninguém tem o direito de duvidar. E se tu, por um qualquer acaso, viste algo de diferente, então viste mal. Estás enganado”.

É ou não, esta, a atitude generalizada por nós, humanos?

Imagine-se, agora, o que não será em relação àquilo que ninguém vê! É um desentendimento tão grande, mas tão grande, que tem estado, ao longo de séculos, na origem de muitas guerras – ainda que haja quem afirme que essa é a origem da treta porque tudo se resume a interesses bem visíveis. Permitam-me discordar. Pode até ser, e creio bem que é, essa a intenção de quem as provoca – sim, há sempre alguém que provoca as guerras e não é uma mão cheia de gente -, mas aqueles que as alimentam, às guerras, aqueles que realmente as combatem, que se deixam convencer da sua justiça e necessidade, fazem-no para defender aquilo que ninguém vê. Fazem-no em nome da Fé, da Liberdade, da Justiça e de outros valores não palpáveis e relativos às culturas e crenças de cada um.

Relativamente ao que se vê, não vale a pena discutir porque já se percebeu o quão difícil é levar as pessoas a compreender que as interpretações daquilo que os olhos veem se alteram consoante a quantidade e qualidade das variáveis implicadas no processo – tais como a cultura, o conhecimento, e coisas assim…sem importância…(apetece-me ser irónica).

No entanto, relativamente àquilo que não se vê, gostaria de deixar aqui uma ressalva que, valendo pouco por ser minha, é aquela em que acredito: Tanto valor existencial tem a existência como a não-existência de tudo o que não se vê.

Na verdade, a existência de Deus, do espírito, da alma, e por aí fora, bem como a sua não-existência, dependem exclusivamente da Fé. Ter Fé em Deus é acreditar na sua existência e é, portanto, ter Fé na sua existência. Não ter Fé em Deus é não acreditar na sua existência e é, portanto, ter Fé na sua não-existência.

Tudo é, portanto, uma questão de Fé.

E, convenhamos, que tão arreigados são alguns defensores do SIM, como do NÃO. 

Ainda que nenhum deles consiga provar ao outro a sua razão na medida em que ainda não somos totalmente capazes de transformar o invisível em visível. Ainda…

Há contudo, algo que me tranquiliza ao mesmo tempo que me perturba. É que aqueles que SABEM que Deus existe, já o SENTIRAM, de uma forma ou de outra. Já o ENCONTRARAM dentro de si e nos outros. Já COMUNICARAM com Ele. Enquanto aqueles que SABEM que Ele não existe, nunca tiveram contacto com nada que lhes tivesse comunicado isso mesmo. Simplesmente, nunca tiveram contacto com Ele – ou pensam que não tiveram -, e limitam-se a NÃO ACREDITAR. E isto faz uma grande diferença. E faz uma grande diferença porque Ele está dentro de todos e de cada um de nós e só não o SENTE, e só não o ESCUTA, e só não o VÊ quem anda distraído com o imediato, quem anda distraído com o supérfluo, com o temporário. Ou quem faz disso um verdadeiro cavalo de batalha porque acredita que tudo o que é verdade terá de ser reconhecido pela razão.

Nada disto seria problemático se não fosse fonte de tantas discórdias e, sobretudo, de tanta ânsia de aproveitar ao máximo tudo o que há porque um dia acaba e mais vale aproveitar enquanto por cá se anda.

Nada disto seria problemático se não exaltasse o egoísmo e não virasse de pernas para o ar todos os valores que são verdadeiramente HUMANOS – aqueles que nos distanciam dos animais que trazem à flor da pele a necessidade de satisfazer os seus instintos, como o de sobrevivência, e os seus chamados sensoriais.

A diferença. A grande diferença. Entre aqueles que SABEM que Deus existe e aqueles que SABEM que Ele não existe é o comportamento de uns e de outros.

Quem SABE que Deus existe já sentiu o Seu AMOR e SABE que não há nada mais poderoso no Universo que essa LUZ, essa ENVOLVÊNCIA, essa VERDADE que é o AMOR de Deus.

Quem SABE que Deus não existe, NÃO SABE nada disto, porque nunca se deu a si próprio a oportunidade de se auscultar no mais profundo do seu ser, de viajar até ao interior da sua alma para falar com Ele.

E não, não estou a falar de religiões. Estou a falar da existência de Deus.

Infelizmente há, no interior das várias instituições religiosas, os que SABEM que Ele existe e aqueles que FINGEM SABER. Por isso é que as coisas são como são.

Não vale a pena entrar para uma instituição religiosa à procura de Deus. Ele não está lá. Ele está dentro de cada um de nós.

Só depois de o encontrarmos aí, é que vale a pena ingressar numa instituição – aquela para onde Ele nos chamar. Porque Ele chama, não tenham dúvidas. Ele chama quem o ENCONTRA. Quem o ENCONTRA dentro de si. Porque não vale a pena procurá-Lo com a razão – nunca O encontrarão. Ele está muito para além disso – Ele está nos númenos de Kant. Está na nossa alma. Está na nossa fé porque, afinal, é tudo uma questão de Fé. Tudo. Por mais contas que se façam, é tudo uma questão de Fé.

E porque haveriam vocês, os não crentes, de andar à procura de algo que SABEM que não existe?

Bom, quando mais não seja para poderem provar isso mesmo.

Quem tem certezas não tem medo de nada e, portanto, entrega-se à vida de alma e coração.

Ser capaz de “olhar para dentro” de nós mesmos; de refletir sobre a nossa vida; de questionar o que nos aconteceu e a forma como lidámos com o que nos aconteceu. Ser capaz de “desviar” os olhos do que é palpável e tentar ver para além disso, como quem vê para além da ténue neblina que se forma ao longo do alcatrão num dia quente de Verão ou o que está para lá da luz do sol refletida pela neve. Tudo isso faz parte de uma entrega total à vida.

O tempo gasto freneticamente com “coisas” é uma fuga à própria vida.

Quem se recusa a refletir. Quem não é capaz de se isolar por algumas horas para ouvir a voz que lhe vem de dentro foge freneticamente da vida.

Quem é capaz de fazer isso. Quem faz dessa reflexão uma prática constante. Mais cedo ou mais tarde, encontrará Deus.






terça-feira, 27 de setembro de 2016

Com que idade deveríamos morrer?




Com que idade deveríamos morrer?

Qual é o momento, da descida, em que deveríamos partir sem dor para quem parte, sem dor para quem fica?

Aqui estou eu. Mãe. Avó. A bater à porta dos sessenta. Quem, com a minha idade, tem ainda pai ou mãe? Eu tenho os dois. E estou sozinha.

Que sorte! Dirão aqueles que os perderam no tempo das boas recordações. Aqueles que sentem saudades, não daquilo que eles seriam hoje se ainda fossem vivos, mas do que foram ontem, muito antes disso.

Com que idade deveríamos morrer?

Em que momento da descida, da perda de faculdades que só os outros vêem, deveríamos partir?

E quem cá fica? E quem cá está? Com que olhos deve olhar para o que é, sem despedaçar o coração?

Com que coração há-de suportar os olhares de acusação?
 – Não estás a tratar de mim! Não é isto que eu quero! Não estou bem! Nunca estou bem! Sou a pessoa mais infeliz do mundo porque envelheci!

Com que olhos se olha, sem que o coração se parta? Com que braços se abraça, sem sentir a impotência?

Tenho momentos em que detesto a minha mãe. Acho-a má. Infantil. Incompetente. Egoísta…

Tudo isso lhe vejo no olhar. Na indiferença ao meu esforço. No esquecimento de que também sou gente.


E depois, logo a seguir, o meu coração desfaz-se em culpa. Enche-se-me o peito de uma angústia tão profunda que só a memória da minha filha, a abraçar carinhosamente a minha neta, me acalma. Só a certeza desse amor manifestado me tranquiliza. Afinal, nem tudo foi em vão.

domingo, 10 de julho de 2016

Ser Bom – um conceito decadente


A Bondade é um conceito claramente ultrapassado.

O que é isso de ser Bom?!

Ah você ajudou um velhinho a atravessar a estrada?

Tratou bem o vizinho, apesar de ele não o deixar dormir de noite? Que simpatia!

Deu lugar a uma grávida no autocarro?

Pediu desculpa por não ter reparado em quem estava à sua frente? Que educação!

Há muitos anos, quando eu ainda tinha alguma vergonha de ser eu, houve alguém que se insurgiu contra mim dizendo, alto e bom som:  Ninguém é assim tão boazinha!

Ao longo da minha vida tenho-me deparado, com uma assiduidade considerável, com desconfianças que oscilam entre o descrédito e a certeza de que por detrás de mim existe uma qualquer intenção maléfica destinada a satisfazer as minhas necessidades, sejam lá elas quais forem.

Tenho uma novidade para todos: essa não sou eu.

Não, não sou premeditada.

Sim, sou genuinamente boa.

E mais, desde que adquiri a consciência de que ser boa é, afinal, algo de extraordinário – consciência aliás que me foi dada por todos quantos sempre duvidaram da existência da bondade ou têm feito da sua vida uma campanha a favor da certeza de que todos os seres humanos são genuinamente maus, o que faz dos Bons seres extraordinários -, desde esse momento, dizia eu, que me tenho empenhado em apurar e aprofundar esta minha característica, de modo a que ela se transforme no “absolutamente mim”, libertando-me gradualmente do maior número possível de sentimentos, pensamentos ou actos típicos dos homens maus.

A sensação de bem-estar, de satisfação e realização pessoal é tal que não me deixa compreender esta aversão quase geral que as pessoas têm à existência, e prática, da Bondade.

Desde quando é que ser bom é um ridículo sinal de fraqueza, debilidade ou mesmo estupidez? Quando é que essa ideia começou e quem é que a espalhou? Não faço a mínima ideia. Sei, de fonte segura, que está na hora de desmistificar a Bondade. De deixar que ela saia da concha. De a olhar como ela merece – um bem preciosíssimo capaz de trazer felicidade à mais desgraçada das criaturas.

Se é fácil? Nem por isso. É talvez mais fácil ser-se mau. Mas muito menos compensador. Garanto-vos.

O que me leva a deduzir que a Maldade, essa sim, é própria dos fracos, dos débeis e dos ignorantes. Dos incapazes e dos verdadeiramente estúpidos que ainda acreditam que a felicidade é um somatório de momentos preenchidos por prazeres tão fugazes que até por quem eles passa pouco recorda no dia seguinte.

A Bondade é um conceito claramente ultrapassado? Pode até ser que sim, que tenha vindo a ser. Mas está na hora de ser ressuscitado. Está na hora de ganhar o seu merecido lugar no teatro da vida.

Por isso, criaturas, encontrem-na dentro de cada um de vós – mesmo que esteja muito escondida, ela está lá. Encontrem-na e tragam-na à superfície. Cultivem-na. Desenvolvam-na e sejam felizes.

Está na hora.



quarta-feira, 8 de junho de 2016

Quem quer viver comigo?




Estão a surgir na Alemanha comunidades seniores.

Gente com mais de 55 anos que junta os trapinhos, compra ou aluga uma casa grande e vai viver em comunidade, garantindo ajuda, companhia, entretenimento, amparo.

Chama-se a isso – envelhecimento activo.

Confesso que a ideia me encantou. A pessoa com quem falei, que é de lá, contou-me a história da mãe que tem duas amigas, que vivem mais ou menos próximas umas das outras mas que são pessoas tão diferentes que acabam por passar a maior parte dos dias fechadas, cada uma na sua concha.

Estas comunidades, diz ela, permitem uma variedade de gostos e de opções tão vasta quanto o número de pessoas que as compõem, não descurando a privacidade – cada um tem o seu quarto -, a partilha – tanto a sala como a cozinha são comuns -, a autonomia e a independência – ajudam-se uns aos outros na medida em que cada um pode. E, mais importante ainda, são uma oportunidade para os menos abastados poderem ter uma vida mais atraente dado que as despesas são partilhadas.

Diz ela que um grupo de doze pessoas se juntou para determinar o que cada uma poderia dar/fazer em prol da comunidade – sem menosprezar o prazer porque a partir de uma certa idade o que não se faz por prazer não traz proveito. Depois de todas as revelações e acordos, decidiram comprar uma casa de campo, rodeada de um jardim e com um outro situado entre os quatros blocos que compõem o quadrado que é a casa.

Entre elas decidiram o que cada uma tinha de melhor para rechear a casa. Aquilo que não serviu, cada uma desfez-se do que era seu – vendendo ou dando a quem precisou.

Nem todas entraram com a mesma quantia para a compra pelo que ficou decidido que quem entrasse com menos compensaria com um qualquer serviço doméstico ou profissional de valor previamente estipulado de forma a ser possível, numa dada ocasião, restabelecer a igualdade.

Diz ela que nunca mais ninguém ficou sem companhia, para ir ao cinema, para dar um passeio pela cidade, para ir às compras ou para viajar. Nunca mais ninguém se sentiu sacrificado e a disposição da comunidade é, grosso modo, saudável.

Parece-me uma excelente solução para o nosso país cada vez está mais envelhecido, cuja Segurança Social dificilmente garante uma velhice digna, cujo número de velhos abandonados em suas casas é cada vez maior.

Aqui fica a sugestão de um modelo consideravelmente adaptável às realidades e necessidades de cada um. 

Mãos à obra.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Não matem os malmequeres


Querida Amália quero dizer-te que, afinal, as flores que andaste a colher para ficarem felizes na jarra - e nos fazerem felizes a nós - não são flores, são ervas! Pelo menos foi o que me disse uma senhora que andou aqui com uma máquina a matá-las a todas.

Durante meses a fio andam os passeios escondidos no meio das ervas que crescem desabridas. De repente, alguém protesta. Vêm os trabalhadores da câmara e arrasam com tudo sem fazerem qualquer distinção entre os espaços de circulação e aqueles que foram concebidos para serem jardins. 

Sim, é certo que estão abandonados. Mas também é certo que a Natureza tem esse extraordinário dom de consertar o que o Homem estraga e, nesta época de abundância que é a Primavera, as flores silvestres invadem esses pequenos espaços dando-lhes cor e vida e fazendo deles o deleite de pessoas que, como eu, gostam de olhar os malmequeres.

Ainda há poucos dias vi a alegria da minha neta a apanhar ramos cheios de cor para colocar numa jarra. Hoje, os trabalhadores da câmara, deixaram um campo devastado. Terra coberta de ervas mortas. Sem cor, sem vida. Quando lhes perguntei porquê, responderam-me que estavam a cumprir ordens. Não cumpram, apeteceu-me dizer-lhes. Mas não disse. Disse apenas que me estavam a partir o coração por estarem a cortar todas aquelas flores.

- Não são flores - disse ela -, são ervas.
- Não minha senhora. São malmequeres. São margaridas. Brancas, roxas e azuis.

terça-feira, 26 de abril de 2016

25 de Abril sempre!


Sim, eu sei que parece muito mal dizer mal do 25 de Abril – é anti qualquer coisa – mas como não há um único acontecimento na vida – particular ou colectiva – que seja inteiramente bom ou inteiramente mau, eu, hoje, um dia depois de mais uma celebração dessa revolução a que chamam dos cravos mas que foi, na verdade, de um grupo de capitães cansado de ver gente a morrer em África, na guerra entenda-se porque fora dela pouco mudou por lá, as pessoas morrem na mesma e mais do que noutro lugar qualquer. Enfim…uma miséria como se sabe. Mas, dizia eu, um dia depois de mais uma celebração dessa revolução erradamente dita dos cravos (ainda por cima até houve tiros e só não houve mais porque apareceu um tipo como há poucos que finalmente vai ser condecorado mesmo depois de morto. Sim, parece que finalmente temos um Presidente que vai condecorar o rapaz que mais do que merece – note-se que estou a falar do Salgueiro Maia e não de um cravo!), a 42.ª (se não percebe de onde vem este número vá lá acima, antes do parêntesis anterior a este), decidi que vou falar mal desse dia.

Em primeiro lugar, foi um dia que trouxe um stresse desgraçado ao meu pobre pai que dez meses depois teve um avc que o incapacitou para o resto da vida deixando-nos a todos sem chão – sim, já consigo falar disto com este desprendimento. Também era melhor! Quarenta e dois anos depois! - ; em segundo lugar levei uma canelada de um polícia marítimo – sim, eles também entraram na dança, em terra mesmo sendo do mar. Nesse dia todos os reforços foram bem vindos, não ficou ninguém de fora - , uma canelada tão grande que ainda hoje, 42 anos depois, tenho a cicatriz a adornar-me a canela.

Não, o 25 de Abril não me trouxe grandes alegrias na época. À parte a excitação do feriado inesperado e a enorme satisfação de ver tudo por terra. À parte a sensação de liberdade. À parte a sensação de poder. À parte aquela extraordinária ilusão de que, a partir dali, tudo seria possível, não me trouxe grandes alegrias.

Ainda assim, gostaria que esse dia não fosse esquecido porque afinal, como mulher, eu pouco representava antes dele. Gostaria que esse dia não fosse esquecido, quando mais não seja para que os meus netos nunca venham a saber o que é viver num país fechado, pequeno e mesquinho.

Mas – há sempre um mas, ou talvez dois. Neste caso dois: Mas, mas que a memória desse dia que aconteceu há 42 anos não ofusque uma outra forma de domínio, quiçá mais perigosa, mais subtil. Que a memória desse 25 de Abril, dessa revolução dos cravos (outra vez os cravos, que romântico!) não sirva para encobrir as várias formas de usurpação da liberdade. É que, quando não somos livres como não éramos antes do 25 de Abril de 1974, sabíamos que não o éramos e a vontade de o ser dava-nos força para criar coisas belas como aquelas que tantos artistas criaram inspirados por aquela necessidade que aguça o engenho. Mas quando não somos livres sem sabermos…quando acreditamos que somos não sendo…aí é que a porca torce o rabo. Porque nesse caso continuamos encarneirados, a fazer o que se espera de nós, a tremer de medo que o desemprego bata à porta ou que o dinheiro não chegue para comer até ao final do mês. A pagar tudo o que nos pedem. A deixarmo-nos roubar por bancos e banqueiros, acreditando que somos livres.

Sim, o melhor mesmo é recordarmos o 25 de Abril de 1974. Recordarmos essa maravilhosa sensação de liberdade, de possibilidade, de abertura.

Mas como o poderemos fazer se só quem conheceu o que houve antes pode compreender o que veio depois?

Ah meus caros! É por estas e por outras que a história não faz senão repetir-se. Constantemente. Insistentemente. Infinitamente. Até os homens crescerem verdadeiramente.


E que tal se recordássemos, por exemplo, um dos mandamentos de Cristo, quem sabe o mais importante, o nos amassemos uns aos outros? Isso sim, seria a liberdade total, plena, maravilhosa. Se conseguíssemos isso, conquistaríamos mais do que o mundo, conquistaríamos a vida! Aí sim, teríamos a verdadeira essência do 25 de Abril para sempre! Olhem lá bem para o Salgueiro Maia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A certeza de que um dia morrerei tranquiliza-me

Ainda bem que morremos todos e que nada disto terá a mínima importância daqui a alguns anos porque, se assim não fosse, estaríamos a viver um verdadeiro Inferno.


Espero não vos aborrecer com este pequeno episódio. Conto-o por acreditar que ele é apenas uma sombra do tanto pior que se passa dentro de cada vez mais casas, e pergunto-me até que ponto é que os responsáveis por esta sui generis realidade se lembram que também morrerão um dia e que, dado que não se sabe o que acontecerá depois disso, convém jogar pelo seguro, digo eu...

Por mim, partirei com a certeza de que me esforcei, todos os dias, por fazer o bem.

Cá vai:

Na sequência das alterações económico-financeiras levadas a cabo pelos governos que se seguiram ao início da crise, passei a ter de pagar IRS apesar dos meus rendimentos não terem aumentado.

Em 2014, consegui fazer o pagamento relativo a 2013 mesmo “à rasquinha” mas, em 2015, já não me safei e tive de esperar por Dezembro para conseguir a quantia que as Finanças me pediam e que tem correspondido, grosso modo, a um mês de salário.

Considerando que ele é baixo, gostaria de saber como é que estas pessoas que fazem as leis dormem tranquilas e cheguei à conclusão que elas não fazem a mínima ideia da luta que pessoas como eu travam diariamente ou então, tal como faz sentido nos dias que correm, estão-se nas tintas para as pessoas. O que interessa, verdadeiramente, são os números. Pena é que sejam tão frios. Os números.

O meu azar foi que quem me paga não o conseguiu fazer antes da primeira semana de Janeiro, pelo que foi nessa altura que eu liquidei o IRS relativo a 2014.

Ora, em 2010, por ocasião da compra de um apartamento que me tem dado água pela barba e que me deixou até hoje intrigada com o que levou um banco a fazer-me um empréstimo, chegando sempre à conclusão que só pode ter sido para me perseguir sem tréguas até ao fim da minha vida – considerando que, se não o vender antes, terei de o pagar até aos 80 e tal anos. Por ocasião dessa compra, dizia eu, entrei com um pedido de isenção do IMI que me foi concedido pelo período de oito anos.

Assim, e tal como está indicado no portal das Finanças, eu estou isenta de IMI até ao ano de 2017.

Imaginem então o meu espanto quando, anteontem, ao abrir o dito portal dou de caras com uma etiqueta vermelha, daquelas com que se marcam os piores dos caloteiros.

O que é que tinha acontecido?

Fácil – como eu não tive dinheiro para pagar o IRS antes do final de 2014 e deixei a coisa arrastar-se até à primeira semana de 2015, levantaram-me a isenção não alterando, contudo, a informação que figura no espaço “isenções” do portal das Finanças.

Desta forma, sou castigada por não ter tido dinheiro para pagar o IRS – sendo-me exigido mais daquilo que não tive!

No rescaldo desta aventura, dou de caras com uma notícia quase extraordinária,


“A paróquia de São Martinho das Moitas, em São Pedro do Sul, foi multada em 6.300 euros por prestar apoio social a mais seis pessoas do que estava habilitada pela Segurança Social. O Centro Paroquial ainda recorreu para o Tribunal de Trabalho de Viseu, que baixou o valor da contra-ordenação para 2.500 euros. Um valor “desproporcional”, considera o padre responsável.”


É a lei, dizem as pessoas. É a lei, dizem as Finanças. É a lei, dizem os tribunais.

A quem servem estas leis? pergunto eu. 

Que legado ficará para os nossos filhos? para os nossos netos?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

AMOR


De nada me serve a paixão desmedida que queima as entranhas.
A pele não a sente.
Eu quero é a paz que se instala tranquila no amor que é profundo.
Que é fogo também, mas não se consome.
Que, tal como a água
não se detém.
Mas quando arrefece,
Tal como ela,
Segura bem firme
tudo o que tem.
Eu quero é a paz que se instala tranquila no amor que é profundo.
Que dá e recebe.
Que cresce e se funde.
E que é vida também.
Eu quero é a paz que se instala tranquila no amor que se tem.