quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Today is a happy day


Em tempos de crise migalhas são carcaças e embora não seja nunca boa política contentarmo-nos com demasiado pouco, o certo é que muito pouco pode fazer muito e um caminho, por estreito que seja, é sempre um caminho.


sábado, 24 de novembro de 2012

Tenho andado muito ocupada.


Entre os 80 anos do pai e a camisola que prometi à filha pelo Natal, trabalho que ainda não consegui que entrasse em automático e que todas as noites faço e desmancho como se não percebesse nada da poda quando tempos houve em que era eu que fazia as minhas, as dos filhos e até, imagine-se, a do marido!, não consigo tempo, nem inspiração, para parafrasear por aqui.

Não estranhem por isso os soluços das minhas passagens, que é como quem diz as intermitências das minhas ausências, porque não? Não me parece que as coisas tenham necessariamente de ser vistas pelas vindas, podem muito bem ser medidas pelas não vindas.

Assim, prometo ser célere na minha epopeia natalícia – tenho um mês para pôr de pé uma camisola para alguém que mede 1, 73 m, e voltar brevemente com um pouco mais de dedicação.

E dado que isto não está fácil, a nenhum nível, desejo-vos tempos felizes e corações ao largo, na certeza de que tudo se há-de compor, apesar dos pesares.

domingo, 18 de novembro de 2012

Nunca é tarde!...


Mais um mito caridoso que inventámos para nos consolar a frustração de ser sempre tarde. Porque é sempre tarde que percebemos, o que quer que seja. Até parece que esse é o único propósito da caminhada – perceber. Mal percebemos, compreendemos que aquilo que percebemos está já demasiado longe, inalcançável. É fundamental, baila-nos na mente, enquanto não percebemos. Só enquanto não percebemos.

A nossa realidade é sempre uma merda. É sempre aquela que não deveria ser, exceto quando deixa de o ser.

Ontem um trabalhador da construção civil disse-me, tranquilo, que a construção de uma casa se começa quando está já no fim. Abençoada simplicidade!

sábado, 17 de novembro de 2012

Ostentação, em tempos de crise, não


Imagino que a intenção seja boa. Ah! E tal!...em tempos de crise embora lá pôr coisas giras no Facebook, mostrar as possibilidades que esta vida nos dá. Embora lá pôr fotos das nossas vivendas com jardins de Inverno e de nós com as nossas toilettes mais sofisticadas, de sorriso nos lábios, a olhar a Torre Eiffel ou o Empire State Building, para levantar os ânimos.

Não meus amigos. Não. Caras sorridentes de gente que está bem na vida mesmo que o resto do mundo esteja a braços com uma das mais tremendas crises da História, não levanta os ânimos, desperta raivas e invejas. E toda a gente sabe que nada disso é bom, para ninguém. Por isso, minha boa gente, metam as vossas viagens e as vossas roupas de marca num sítio que eu não digo, não vão as pessoas pensar que, para além de invejosa, sou malcriada.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Entre a Inveja e a Vaidade(ou o Orgulho)

A vida, essa coisa maravilhosa que é viver como se não houvesse amanhã, está inflacionada.
 
Só mesmo alguém com sangue novo, neurónios frescos, nervos à flor da pele e um entusiasmo de quem acabou de chegar ao paraíso pode acreditar que a vida é um turbilhão de fazeres e afazeres, experiências movimentadas, correrias absurdas.
 
Eu, por mim, passava os dias enrolada numa manta, em frente ao televisor, a viver todas as aventuras de todas as séries que por lá passam. De preferência sem ter de me levantar para comer – alguém que me alimentasse.
 
Isso sim, seria o paraíso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A caminho de mim e das minhas vontades


Vivo uma vida cheia de incompatibilidades, inconveniências, incongruências, contrariedades e outras ências e ades que me incomodam e me provocam uma vontade que quase me transcende de mandar tudo às urtigas.

Preciso de começar a pensar mais em mim, e só em mim. Preciso de largar esta forma de estar, ou os resquícios dela, que me impedem de dar passos egoístas. Esta forma de ser boazinha quando, provavelmente, nem sou. Gostava de saber de onde veio isto. Onde foi construído este muro que me separa de mim. Prometo que assim que o descobrir, o derrubo.

Ao meu irmão, que acabou de regressar a casa


Se há momentos em que a vida me parece uma bênção, outros há em que ela se me afigura uma amálgama de sacrifícios e momentos que eu preferia não viver – uma amálgama de incompreensíveis dores de coração, e mais valia que o tivéssemos só a ele, escusávamos de sentir estas dores, muito mais dores que tantas outras que inventámos.

Separarmo-nos de quem amamos é sempre tão triste. Tão triste. Podem passar anos e anos e anos, que nunca se apanha o hábito e se não se chora já no momento, chora-se depois, no dia seguinte em que se acorda e ele já cá não está.

Depressa nos habituamos ao que nos é querido. Nunca nos habituamos à sua ausência.

Merda de mundo este que separa quem se quer. Temos caminhado sempre em direcção a tudo o que de nós está mais distante. E mesmo que isto não seja exatamente assim, é assim que o sinto, agora, neste mesmo instante.

(A Puca apaixonou-se por ele e tem estado toda a manhã tão triste quanto nós. Nem come, a pobrezinha.)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Prevariquei, confesso.

Não fiz greve. Não que não concorde com esta forma de luta mas a quem serviria uma greve minha? Quem a veria? Foi nisso que me pus a pensar antes de decidir. Afinal de contas as pessoas a quem presto serviços já me pagaram – fazer greve seria pouco leal dado que recebo antecipadamente. Por outro lado, o meu trabalho é tão solitário, tão retirado, tão no meio do quase nada que a visibilidade da minha ausência seria quase nenhuma. Apenas duas ou três famílias se iriam aperceber da minha greve, mais ninguém. Ora uma greve tem de ter visibilidade. Tem de fazer mossa. A minha insignificância não me permite fazer mossa em coisa nenhuma.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Merkel

 “Já estou mais conformada. A D. deu-me força…vai, vai lá para onde quiseres…” diz ela num tom de voz afectado e cínico, com aqueles trejeitos do “eu sacrifico-me”, quando o que eu precisava de ouvir era: “não te preocupes, vai que eu fico óptima”, num tom determinado, claro, sincero. E neste entretanto anda a Merkel na visita papal! Não, papal não, presidencial. Fez-me lembrar o Salazar naquelas visitas relâmpago que fazia às então colónias portuguesas só para nos fazer acreditar que tudo estava bem, que éramos todos felizes, até mesmo as crianças e as famílias que o esperavam à saída do avião com uma espécie de pompons nas mãos, blusas brancas e saias azuis escuro.
 
Nessa altura havia muito quem acreditasse nesses tons dissimulados velados e cínicos. Tão dissimulados velados e cínicos que havia quem não lhes detetasse outra característica que não a denotativa. Havia muito quem não ouvisse sequer o que diziam as palavras quanto mais o que estava por detrás!
 
Não eu. Nunca eu, que tenho ouvidos de tísica e oiço sempre o que está para lá das palavras. Oiço os olhares, os gestos, os tons e fico aflita, responsável e aflita como se me pertencesse a árdua tarefa de transportar aos ombros a solução para todas as mágoas. As dela, não as da Merkel que essas não me dizem respeito, nem sei se as tem. Mas questiono-me se à noite, à cabeceira, lhe afluirão as mágoas do mundo. Provavelmente não. Afinal de contas tem tanto em que pensar!...

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Classe média


Ao contrário do provérbio antigo, é importante, em termos de justiça, que se olhe mais ao que se faz do que ao que se diz, até porque, hoje em dia, tudo se diz e muito do que se diz é da boca para fora – sim, as palavras já não têm o peso que tinham, já não valem só por si. Um homem já não se mede pelo valor da sua palavra. O que é uma pena, porque por causa dessa desvalorização é que subiram as cotas dos Tribunais que afinal se revelam incapazes para tanta falta de palavra. Daí que o melhor mesmo é medir-se a honra pelo atos e nem todos merecemos louvores iguais, essa é que é essa.

Que justiça pode existir quando alguém que pouco ou nada faz ganha tanto ou mais ainda do que aquele que entrega os seus dias ao trabalho mesmo que não saiba viver de outro modo? Que justiça pode haver quando enriquece e fica impune o ladrão e empobrece o honesto trabalhador a quem não é dada abébia para coisa nenhuma? - ai dele que se esqueça de pagar o seguro ou o imposto do carro, se ainda o tiver.

Creio que entre uns e outros não existem dúvidas. As dúvidas residem naqueles que estão no meio e que são tantas vezes olhados por uns como pertencendo ao grupo dos outros e por outros como pertencendo ao grupo dos uns. Infelizmente, prevê-se que daqui a pouco tempo poucos restarão. Ao que parece trata-se de uma espécie em extinção e, quando mais não fosse, por isso mesmo, merece ser aqui homenageada.

Falo de homens e mulheres lutadores, que estudaram enquanto os outros se divertiam e que agarraram cada emprego como a própria vida, e olharam por aquilo que era dos outros como se fosse seu, defendendo, melhorando, capitalizando, progredindo. Criando emprego e riqueza. Falo de certos gestores, por exemplo, ou arquitetos, ou engenheiros, ou médicos ou professores, que não contam as horas que trabalham diariamente porque trabalham aquelas que são precisas, que têm férias aos bocadinhos e para quem os fins de semana nem sempre existem. Sim, eu sei, isto cheira mais a workholics mas não é isso que está aqui em causa, o que está em causa é que, workholics ou não, são pessoas graças às quais outras trabalham, graças às quais algumas empresas progridem e são, sobretudo, pessoas que vivem anónimas e ganham bem. É verdade que sim, que ganham bem. Por vezes ganham mesmo muito bem e pagam, em impostos, o correspondente àquilo que ganham, o que significa que é nas mãos delas que está a possibilidade de pagar umas quantas reformas e subsídios que suportam quem não trabalha e até, por vezes, quem nunca soube o que isso é.

Acreditem que estes homens e estas mulheres existem. Eu conheço alguns e quero, aqui e agora, prestar-lhes homenagem e dizer-lhes que não se amofinem com os que os olham de lado. É que as pessoas invejam muito e sonham sempre conseguir, sem esforço, aquilo que só com ele se consegue .

domingo, 11 de novembro de 2012

Isabel Jonet


Mais uma vez são tantas as verdades! Creio que o problema mesmo é a falta de precisão, de resto impossível a não ser que se usem dados oficiais, como estatísticas e coisas dessas, tão imprecisos quanto certas pessoas habituadas a movimentarem-se no seio de um determinado grupo e convencidas que o mundo é todo assim. Ninguém vê tudo. Ninguém sabe tudo. E isto não significa que, quando se fala, não se fale verdade. O meio de cada um é restrito e quando falamos e quando exemplificamos é com base nele que o fazemos.

Em Portugal sempre existiram pobres, mas há 50 anos atrás existiam muitos mais do que aqueles que existem agora. Após o 25 de Abril quisemos acabar com eles. Foi talvez o pensamento, a intenção, mais bonita que tivemos até hoje, e tratámos de oferecer a todos mais do que aquilo que podíamos. Talvez, quem sabe, tenhamos ambicionado substituir Salazar como pai da nação e tivéssemos querido mostrar a todos que todos podemos ser pais de todos e esquecemo-nos daquela regra básica da economia que dita que as despesas têm de ser inferiores às receitas se queremos gerir bem a nossa casa.

É claro que esse esquecimento, ao longo destes anos, mudou-nos a mentalidade e, sobretudo, moldou a mentalidade dos nossos filhos que nasceram e cresceram numa abundância que todos tomámos como certa. Mais! que todos tomámos como legítima.

Ontem, em conversa com o meu irmão a propósito de um novo emprego que ele arranjou e que o vai empurrar, ao fim de 20 anos, para os braços de uma entidade patronal (é preciso que se saiba que o meu irmão, que vive há 32 anos na Holanda, trabalhava por conta própria, mas a crise chega a todo o lado e obriga-nos, ou aconselha-nos, a mudar de vida), fiquei a saber, dizia eu, que na Holanda não existe, nunca existiu, subsídio de Natal e que o de férias não corresponde a um salário completo mas à poupança que cada trabalhador faz ao longo do ano com o salário bruto que recebe todos os meses! Prevenidos estes holandeses!...

Eu trabalho num meio pobre. Num desses meios que consideramos pobres. Com crianças que vivem em habitações clandestinas, no meio do mato, sem saneamento básico (não sei já há quanto tempo existem esses bairros, mas já têm nome e caixa postal). Se os virmos na rua, a sair da escola, percebemos que a única coisa que lhes falta é, talvez, a consciência da ilegalidade em que vivem porque, em tudo o resto, são iguais aos outros – ostentam os mesmos telemóveis, calçam os mesmos ténis e vestem as mesmas calças, salvo seja, evidentemente…

Alguns pais destas crianças não têm trabalho. Alguns dizem que são pescadores mas têm de fugir às autoridades sempre que vão à amêijoa porque lhes falta a autorização necessária para o fazerem. Alguns recebem subsídios.

Eu, por vezes, saio do meu canto e vou dar uma mãozinha na distribuição de alimentos aos sem-abrigo de Lisboa. Vou integrada numa associação que o faz há vários anos e, como é natural, vou ficando ao corrente do que se passa com este e com aquele que aparece regularmente nos locais habituais. Aliás, são quase sempre os mesmos e vêm quase sempre no mesmo estado. A pobreza é uma coisa que se entranha nas pessoas e é tão difícil sair-se dela como sair de um buraco escuro. Mesmo que alguém nos puxe para cima encadeamo-nos com a luz e perdemos a segurança que a escuridão nos dava. Muitas vezes voltamos para lá. Mas de cabeça erguida e voz de comando. Sim, porque nós, aqueles que lá vão de sopa na mão, não fazemos mais do que a nossa obrigação. Isso eles não nos deixam esquecer na forma como tantas vezes nos tratam.

À minha volta, neste bairro que habito tão classe média quanto possível, vêem-se carros de alta cilindrada que foram, e aí eu estava capaz de apostar o que não tenho, comprados com dinheiro do banco. E ontem num dos restaurantes da zona, não havia mesas vagas para almoçar. Aliás, não foi a primeira vez que isso aconteceu. Já no outro dia, quando por lá passei, havia gente à espera, à porta.

Tenho vários amigos que estão reformados há vários anos. Reformaram-se antes dos 50. Aproveitaram a oportunidade que lhes foi dada. Eu teria feito o mesmo se tivesse podido mas hoje, de mão na consciência, tentaria compreender se realmente mereço o que todos os meses me entra pela porta adentro sem estar a trabalhar e, provavelmente, estaria mais calada do que estão muitos que, na verdade, têm recebido mais do que aquilo que têm dado apesar de nós sentirmos sempre, e cada vez mais, que merecemos, que nos é devido e, no caso dos nossos filhos, até apenas pelo facto de termos nascido.

É claro que tudo isto é matéria para muita discussão. É claro que as reações dos sem-abrigo podem ser interpretadas à luz das teorias comportamentais e justificadas com a necessidade de se defenderem e manterem, assim, alguma dignidade. É claro que os carros de alta cilindrada e os empréstimos bancários podem ser justificados com as facilidades que os bancos, que vivem dos juros que cobram, ofereceram ao longo dos anos fazendo-nos acreditar que tudo é possível e que todos podemos, independentemente da dimensão da nossa contribuição. É claro que tudo pode ser justificado. Já temos teorias suficientes para isso.

Mas uma coisa é certa, e nisso Isabel Jonet tem toda a razão, – é urgente que aprendamos a viver com o que temos e, já agora, que comecemos a produzir um pouco mais.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Evolução

As coisas têm a importância que lhes damos e muito poucas, se é que há algumas, têm em si agregado um grau de importância merecedor das preocupações que lhes dedicamos. Ao fim e ao cabo (eis aqui uma expressão que uso e abuso precisamente porque tudo tem um fim), todos acabamos da mesma maneira – de pés para a frente – independentemente da vida que levamos, pelo que mais vale levá-la bem, evitando preocupações em demasia e nesse particular podemos, e devemos, ajudarmo-nos uns aos outros.
 
É precisamente por isso que no respeito pelo outro faz parte a atenção do que para ele é importante, ainda que o não seja para o próprio. Ora cai-se muitas vezes no engano do menosprezo por tudo quanto é valor, por vezes até na ausência absoluta de consideração, o que só pode ser, e é, um sinal de ausência de educação, confundindo-se descontração com alheamento e alheamento com egoísmo e prepotência. “Nada disto tem importância para mim. Quero lá saber se tem ou não importância para alguém!”
 
E nesta descontração se perde, estou certa, algo de valioso por ser a única coisa que levamos connosco quando nos despedirmos – a consideração dos outros, a sua lembrança, a memória que de nós deixamos. Tanto aos que ficam como, quiçá, aos que partem. A verdade é que a incerteza do que acontece depois é total e mais vale prevenir do que remediar.
 
Mas nem isso sequer é o mais grave. Cada um sabe de si e cabe ao próprio ser responsável pelos seus atos e por eles responder – nesta ou noutra vida.
 
O mais grave é o exemplo que disso damos aos mais novos, àqueles que pretendemos ensinar, perpetuando, e validando, algo que é contrário à nossa humanização – o desprezo pelo outro, a indiferença ao que nos é, acreditamos nós, alheio, ignorando que nada vive isolado, que tudo faz parte de um todo e que cada elemento que o compõe influencia o conjunto, por muito ténue, discreta ou transparente que essa influência seja.
 
A nossa falta de visão, a nossa incapacidade para perceber quais são, de facto, as consequências dos nossos mais pequenos atos, não é uma bênção porque nos deixa dormir descansados, é uma maldição porque nos impede de evoluir.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

À espera do fim do mundo


Nos EUA anda gente a construir bunkers de todos os tamanhos e feitios para se precaver contra o fim do mundo.

Pergunto-me que tipo de sentimento, ou instinto, nos leva a querer sobreviver seja de que forma for. Não será, creio eu, o instinto de sobrevivência da espécie já que esse, ao que parece, se manifesta em cima do acontecimento ou sexualmente – ainda que já existam algumas teorias que deitam por terra o instinto de sobrevivência como motor sexual (e se não existem deveriam existir).

Assim, que paranóia é essa de levar parte da vida, alguns uma grande parte dela, a arquitetar uma forma de não morrer?! Não será essa uma forma de não vida? Porque é que é tão importante que sobrevivamos num cenário de catástrofe terminal? O que é que a nossa espécie tem assim de tão fundamental? A capacidade de dar cabo disto? Quando aprenderemos a respeitar a vida tal como ela se nos oferece e deixamos essa megalomania de controlar tudo excepto, tantas vezes, nós mesmos?

Por mim, dispenso bunkers. Até porque não me agrada mesmo nada a ideia de viver num mundo destruído. Ele já como está, sabe Deus!... Se me tirarem o pouco que ainda existe de natureza sã, de bondade, de respeito, de ordem, de moral, de ética enfim, de humanidade, prefiro, sinceramente, fazer parte dos que partem.

domingo, 4 de novembro de 2012

Os homens-golfinho


Não é difícil ao homem invejar as capacidades dos outros animais. Somos capazes de gastar pequenas fortunas em mecanismos que nos permitam imitá-los, não para os estudar mas para vivermos as mesmas sensações, ficando assim mais uns passos à frente daqueles a quem temos tomado, sucessivamente, território.

Em que momentos se imita o homem? Quando faz humor, quando se ri de si mesmo.



sábado, 3 de novembro de 2012

Perfumes e companhia

Tão longe da verdade estão aqueles que afirmam que o importante é o corpo, como os outros que gostam de acreditar que é na alma, ou no espírito, que está a salvação, que é como quem diz, o nosso bem-estar – porque é isso que todos e cada um de nós almeja, estar bem, e só está bem quem consegue esse maravilhoso equilíbrio entre essas duas dimensões de que somos feitos. 

Assim, quando nos embrenhamos na difícil tarefa de nos conhecermos, é bom que não conheçamos apenas uma delas e que saibamos, e isso é fundamental, ver a passagem entre uma e outra para que possamos compreender a forma como, mutuamente, se influenciam. 

Que parte de mim é mais vulnerável ao ambiente? Qual, ou quais, dos meus sentidos tem maior poder para alterar o meu estado de espírito? O que é que me atrai nos outros? E o que é que me repele? Qual o nível de esforço que tenho de fazer sempre que estou perante uma situação que me provoca repulsa? 

Eu sou particularmente sensível aos cheiros e aos ruídos. É raro um odor passar-me despercebido e são os cheiros que têm o poder de me despertar memórias – são eles que eu guardo, porque são importantes para mim. 

Quanto ao ruído, esse tem a capacidade de me deixar exausta. Sou capaz de trabalhar 12 horas seguidas, se for preciso, desde que não seja perturbada pelo ruído. Não digo que preciso de silêncio, ainda que dele necessite em momentos de abstracção  mas o que não consigo suportar é o barulho. O esforço que me obriga a fazer para manter a concentração é tal, que fico exausta. 

Já os cheiros têm o poder de me aproximar ou de me afastar das pessoas, e sempre que sou obrigada a suportar odores que sabe Deus há quem transporte, sobe-se-me uma irritação tal que fico completamente inibida de a tratar bem, pelo que me vejo na eminência de simular uma outra fonte qualquer de desconforto só para não ter de mandar, assim à má fila, a criatura tomar banho. 

É claro que já me passou pela cabeça aproveitar esses momentos para avançar mais um degrau na escada ascendente, aquela que dizem que nos eleva até aos céus. Apelo a toda a minha paciência e condescendência, mas o facto de não poder respirar fundo atrasa um bocadinho o processo. Já pensei, inclusive, em andar com um saquinho de cheiros no bolso, ou um lenço de pano, daqueles que caíram em desuso, para levar ao nariz e voltar a ser feliz por uns instantes, mas até aqui o mais longe que fui foi levantar um dos braços e aspirar fortemente o odor da parte de dentro do cotovelo – cheira sempre a perfume. O problema é que nem sempre os nossos cheiros são tão evidentes quanto os dos outros, pelo que não tenho sido lá muito bem sucedida na minha ascensão espiritual.