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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

O meu pai




José Tolentino Mendonça, no seu livro O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, fala, a dada altura, sobre o legado. Qual será o nosso legado aos outros? Pergunta ele e segue dizendo que:

“Quando se fala de heranças, deveria ser claro que as coisas materiais são o aspeto menos importante de uma transmissão que, se for apenas de direitos de propriedade disto ou daquilo, verdadeiramente não se consuma.”

Diz ele que:

“As heranças verdadeiras, aquelas que nos confirmam numa determinada filiação ou linhagem, têm de ser mais amplas e, ao mesmo tempo, mais irredutivelmente pessoais do que a materialidade.”

Diz ainda que:

“Não há maior legado do que uma vida feita dom; e quando isso acontece a vida revela-se no que tem de fundo e flagrante, de grácil e de arrebatador, de esperançoso e possível.”

Diz ainda que:

“Não há maior legado do que transmitir uma dessas centelhas (…) onde o infinito reluza. (…) [quer se tenha chegado a ela] através de uma paixão ou de uma grande dor…”

E foi através de uma grande dor, mas também de uma paixão que as centelhas de amor, de força, de coragem, de esperança e de possível chegaram até nós, que tivemos o privilégio de privar com o meu pai.

O meu pai, que passou mais de metade da vida sem poder mexer metade do corpo, sem poder expressar livremente todos os pensamentos que o assolaram ao longo dos anos – e eu não consigo imaginar maior prisão do que a de estar fechado, preso, no próprio corpo.

Mas ele nunca se rendeu, nunca deixou de amar e de nos fazer sentir amados. Nunca deixou de estar apaixonado, pela minha mãe, por nós, pela vida. Nunca deixou de lutar. Nunca deixou de ser livre porque não há maior liberdade do que aquela que encontramos dentro de nós.

Tinha 42 anos quando teve o AVC e eu lembro-me da força e da determinação dele, da rapidez com que mudou o seu caminho e passou de intelectual a artesão – mesmo só com uma mão, construiu capoeiras, coelheiras, canis. Transformou-se num criador de coisas e mostrou-nos que por muito difíceis que as coisas sejam, elas não deixam de ser possíveis.

Essas são as centelhas que dele recebemos. Esse é o seu legado:

A liberdade.

O amor.

A força.

A coragem.

A gratidão e a alegria. 

A satisfação de estar vivo, independentemente das circunstâncias e, no final, a aceitação do inevitável que eu acreditei que fosse mais lenta. Mais difícil. Mas isso foi só porque, por momentos, me esqueci da sua força, da sua liberdade, da sua determinação. Esquecimento que tentarei que não se repita para que as centelhas que me deixou brilhem cada vez mais e possam ser, como diz Tolentino Mendonça, “fragmentos de infinito” e nos possam, a todos que dele descendemos,  “ligar para lá do espaço e do tempo.”


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O MAIOR AMOR DO MUNDO






Que me perdoem todas aquelas e aqueles que decidem passar pela vida sem deixar descendência mas aquela sem ela é pouco. É muito pouco. Pouco de tudo. De alegrias, de preocupações, de orgulhos, de realizações, de felicidades extremas e medos disparatados, de frustrações e ansiedades, de amor incondicional, de saudades imensas quando partem, porque têm de partir.

Faz hoje 28 anos que dei à luz o meu filho mais novo e não o tenho aqui para o abraçar. Tenho pena. Mas não tanta quanta teria se aqui o tivesse e o sentisse frustrado, triste, sem saber o que fazer da vida porque era mais ou menos assim que ele andava quando o fazia por cá.

Hoje, no dia dos seus 28 anos, está por Londres, a trabalhar. E eu vejo-o de vez em quando, nas reportagens que faz, e encho-me de orgulho porque o meu filho, que faz hoje 28 anos, encontrou o seu caminho e é feliz.


domingo, 12 de julho de 2015

A Minha Filha - À Minha Filha


Nunca me senti verdadeiramente importante, disse-me ela ao fim de 35 anos como se disso dependesse o mundo. E dependia. O facto é que dependia. O dela. O mundo dela.

Em que momento das nossas vidas estamos preparados para ser pais ou mães? provavelmente em nenhum, mas há sempre quem consiga superar o desafio de forma mais harmoniosa, mais segura, mais madura até.

Dependerá da idade? Também.

Eu era muito nova quando decidi, pela primeira vez, que seria mãe. Mais nova ainda quando soube que não poderia deixar de o ser. E fui. E teria sido muito mais se tivesse conseguido ultrapassar sozinha - porque foi como sempre me senti, sozinha -, todos os obstáculos que a vida se foi empenhando em colocar-me no caminho.

Se mudaria alguma coisa podendo voltar atrás? Muita! Muita coisa! O que sei hoje é exponencialmente mais do que aquilo que sabia então.


Mas uma coisa é certa - apesar dos pesares, ela ainda vai sendo capaz de me dizer estas coisas. E isso é bom.