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quarta-feira, 29 de julho de 2026

A vida é breve

 




A vida é breve. 

Mas é sobretudo frágil.

Talvez nos devêssemos lembrar disso mais amiúde. Mesmo aqueles que se julgam eternos perecerão. Porque ninguém é eterno. Por mais anos que se viva, um dia perecemos. Todos nós. Ninguém é eterno.

E uma prova de que a vida é breve é que uma grande maioria de nós, senão todos, chega ao fim da vida com coisas por fazer, por compreender, por aprender...

E uma prova de que a vida é frágil é o facto da morte não escolher idades. 

Hoje fui ao funeral de um menino que vi crescer. 

Aqueles que vemos crescer são eternos meninos.

Talvez devêssemos olhar mais amiúde para o outro. Só para termos a certeza de que não está a sofrer. De que não precisa de ajuda, porque, se precisar, provavelmente não vai pedir.

Quantos de nós pedem ajuda quando precisam? E quantos se fecham na sua concha, na sua lástima, para não incomodar, para não se diminuírem ainda mais do que os pobres, fracos, incapazes que veem refletidos nos olhos alheios.

Há, neste mundo muita gente em sofrimento. Atrever-me-ia a dizer que mais do que em outra época qualquer.

Muitos jovens não encontram propósito ou força para superar tantos obstáculos e contrariedades.

Muitos velhos lutam para serem vistos porque a verdade é que a idade os vai desfocando aos olhos de um mundo que luta para sobreviver.

Talvez devêssemos parar, de vez em quando, e olhar à nossa volta. Parar um pouco e prestar atenção. Olhar com olhos de ver, como dizia a minha querida mãe. Até porque,
quando os outros se vão, nem que seja por momentos, olhamos e vemos o que perdemos, o que podíamos ter feito, onde poderíamos ter estado e agora, é tarde demais.

                                                                   

domingo, 10 de julho de 2016

Ser Bom – um conceito decadente


A Bondade é um conceito claramente ultrapassado.

O que é isso de ser Bom?!

Ah você ajudou um velhinho a atravessar a estrada?

Tratou bem o vizinho, apesar de ele não o deixar dormir de noite? Que simpatia!

Deu lugar a uma grávida no autocarro?

Pediu desculpa por não ter reparado em quem estava à sua frente? Que educação!

Há muitos anos, quando eu ainda tinha alguma vergonha de ser eu, houve alguém que se insurgiu contra mim dizendo, alto e bom som:  Ninguém é assim tão boazinha!

Ao longo da minha vida tenho-me deparado, com uma assiduidade considerável, com desconfianças que oscilam entre o descrédito e a certeza de que por detrás de mim existe uma qualquer intenção maléfica destinada a satisfazer as minhas necessidades, sejam lá elas quais forem.

Tenho uma novidade para todos: essa não sou eu.

Não, não sou premeditada.

Sim, sou genuinamente boa.

E mais, desde que adquiri a consciência de que ser boa é, afinal, algo de extraordinário – consciência aliás que me foi dada por todos quantos sempre duvidaram da existência da bondade ou têm feito da sua vida uma campanha a favor da certeza de que todos os seres humanos são genuinamente maus, o que faz dos Bons seres extraordinários -, desde esse momento, dizia eu, que me tenho empenhado em apurar e aprofundar esta minha característica, de modo a que ela se transforme no “absolutamente mim”, libertando-me gradualmente do maior número possível de sentimentos, pensamentos ou actos típicos dos homens maus.

A sensação de bem-estar, de satisfação e realização pessoal é tal que não me deixa compreender esta aversão quase geral que as pessoas têm à existência, e prática, da Bondade.

Desde quando é que ser bom é um ridículo sinal de fraqueza, debilidade ou mesmo estupidez? Quando é que essa ideia começou e quem é que a espalhou? Não faço a mínima ideia. Sei, de fonte segura, que está na hora de desmistificar a Bondade. De deixar que ela saia da concha. De a olhar como ela merece – um bem preciosíssimo capaz de trazer felicidade à mais desgraçada das criaturas.

Se é fácil? Nem por isso. É talvez mais fácil ser-se mau. Mas muito menos compensador. Garanto-vos.

O que me leva a deduzir que a Maldade, essa sim, é própria dos fracos, dos débeis e dos ignorantes. Dos incapazes e dos verdadeiramente estúpidos que ainda acreditam que a felicidade é um somatório de momentos preenchidos por prazeres tão fugazes que até por quem eles passa pouco recorda no dia seguinte.

A Bondade é um conceito claramente ultrapassado? Pode até ser que sim, que tenha vindo a ser. Mas está na hora de ser ressuscitado. Está na hora de ganhar o seu merecido lugar no teatro da vida.

Por isso, criaturas, encontrem-na dentro de cada um de vós – mesmo que esteja muito escondida, ela está lá. Encontrem-na e tragam-na à superfície. Cultivem-na. Desenvolvam-na e sejam felizes.

Está na hora.



quarta-feira, 29 de julho de 2015

Abandonos de mim


Às vezes abandono-me.

Por tristeza ou por preguiça, um abandono de mim como quem deixa o pó apoderar-se da casa para depois ter o prazer de a ver limpa.


Às vezes abandono-me sem pensar se vou ter força para me renovar, sem calcular o limite desse meu abandono, e como mal, durmo mal, rejeito-me prazeres fechando-me ao mundo só para ter o derradeiro prazer de me ver renovar, como as águias, como a fénix, acreditando que todos estes abandonos me protegerão do tempo que passa.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Ninguém me liga nenhuma


Não tem idade este sentimento. Esta terrível frustração de não ser para os outros o que se acha que se deveria ser.

Não tem direcção. Tanto faz se estamos a falar de quem nos é próximo, de quem nos é menos próximo ou daqueles que julgamos conhecer só porque todos os dias nos deixam algumas palavras, tantas vezes arrancadas à solidão, nas redes sociais.

Nem tem sentido. Porque só pode ser fruto das baixas auto-estimas com que a sociedade, cada vez mais, nos presenteia.

Não é, por tudo isto, uma razão vectorial. Mas existe. Vive em nós e é real.

Ninguém me liga nenhuma!


E, se ninguém me liga nenhuma é porque eu não presto para nada. Mas como, cá no fundo, às vezes muito no fundo, eu até sinto que presto. Eu até quero prestar. Então são os outros que não prestam porque não olham, não vêem e não merecem que eu fique. E, numa desgarrada tentativa, serei inconveniente, agressivo, insultuoso até. Ou, simplesmente, virarei costas para voltar, logo a seguir, quando ouvir o público que tanto anseio bater as palmas por um encore.


domingo, 21 de junho de 2015

Dos Arraiais e das Danças


Há muito tempo que não dançava! E não é que não goste de dançar porque gosto, mas tenho mergulhado naquilo que a vida diz que tem para mim, aceitando o frenesim de todos os dias sem me mexer para dizer agora chega, agora vou ver se me divirto um bocadinho. Mesmo que seja num arraial. Mesmo que a música não seja aquela que gosto de ouvir. Aliás, de preferência que não seja aquela que gosto de ouvir porque essa raramente serve para dançar e eu preciso mesmo é de dançar - de me mexer, de saltar, de dar aos pés, de cansar as pernas e ficar com a certeza de que os meus joelhos não estão assim tão maus, que o meu peso não está, ainda (e espero ter a vontade que preciso para que nunca chegue a estar) de modo a não me deixar mexer mais de meia hora sem ficar a arfar de cansaço.

Enfim... há muito tempo que não dançava, mas ontem dancei e fez-me bem.


Obrigada a este grupo dos antigos alunos do Liceu de Almada que se mantém tão activo por via de meia dúzia - se calhar nem tanto - de carolas que não desistem de nos arrastar para este lado da vida. Este lado despreocupado, descontraído, meio louco, onde se vão carregar as baterias para aguentar os mergulhos naquilo que a vida diz que tem para cada um de nós e que insistimos em aceitar sem espernear de vez em quando. Ontem esperneei.