segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Velha de mais

Existe um preconceito qualquer em relação à idade que leva as pessoas a acreditar que é de bom tom exclamar AH! Que disparate! Mas ainda é tão nova! Cada vez que digo que já não tenho idade para certas coisas. E não tenho. Não tenho, não porque haja quem o diga, até porque na cabeça de muita gente isso não existe – as idades são todas próprias para fazermos tudo, que é como quem diz, se eu quiser posso continuar a fazer o  que me dava na real gana aos 15 anos! (mal de mim, digo eu, se me apetecesse fazer as mesmas coisas que fazia em idades já passadas!), mas porque não me apetece. Há coisas que já não me apetecem, ainda que não me recorde em que momento é que deixaram de me apetecer, e há coisas que não me apetecem e que sei exactamente o momento em que isso aconteceu.
 
Por exemplo, lembro-me perfeitamente do dia em que fiz a minha última roda. Estava na praia com os meus filhos, deitei as mãos ao chão, levantei as pernas – mal esticadas com certeza -, e depois de as rodar, levantei-me do outro lado com a certeza, absoluta, que aquela tinha sido a minha última roda. E foi. Eu, que andei na ginástica anos a fio, que participei em campeonatos de ginástica desportiva, fiz a minha última roda aos trinta e poucos anos – altura em que fiquei velha de mais para essas coisas, isto é, altura em que essas coisas deixaram de me apetecer, de me dar gozo.
 
Com cerca de quarenta e cinco anos andei, pela última vez, numa montanha russa. Foi na Disney, em Paris, o meu filho queria andar no Indiana Jones Backward – um comboio ao ar livre que sobe um penhasco literalmente na vertical e depois se deixa cair por ele dando um luping logo a seguir – tudo de costas. Eu, adepta incondicional desse tipo de diversões, não me fiz rogada. Quando o comboio parou o meu filho pensou que eu estava morta de tão branca. Tive de ser levada para um restaurante para ser reanimada. Soube, de imediato, que tinha sido a minha última montanha russa. Aliás, soube-o assim que caí de costas e me vi obrigada a concentrar-me nas batidas cardíacas para não deixar o coração parar.
 
Na sexta-feira passada fui dar a minha última caminhada nocturna. Andei três horas por montes e vales, apanhei uma chuvada que me deixou tão encharcada quanto o dia em que caí, completamente vestida e calçada, dentro da piscina da casa onde vivia, levei com vento e mal consegui ver as paisagens, seguramente maravilhosas, por onde passei. O meu coração protestou com o esforço e as minhas pernas, em certos momentos, quase se recusaram a obedecer. Tive, enfim, todos os indicadores da última caminhada. Quando me perguntaram se tinha gostado, tive de responder que não – foi mais o sacrifício do que o prazer.
 
Porque é disso que se trata, de tirarmos prazer das coisas – ficamos velhos para elas, exactamente no dia em que nos deixam de dar prazer. E só não sabe isto quem ainda não viveu o suficiente, tenha lá a idade que tiver.
 
Por isso, por favor, quando eu me referir à minha idade, tenham pelo menos o respeito de consentir, porque se eu digo que estou velha não me estou a queixar – estou a dizer que tenho a barriga cheia e que por nada deste mundo voltaria atrás, já que esta é, para mim, a melhor idade de sempre. É que eu nunca fugi à vida e, por isso, não me faltam histórias para contar. Agora, apetecem-me outras coisas porque a riqueza da vida mede-se mais pela variedade do que pela quantidade. E, se a aproveitarmos bem, somos capazes de ir saboreando o tempo à medida que ele passa, em vez de insistirmos, por vezes quase estoicamente, em não o deixar passar.
 

3 comentários:

CF disse...

:) A idade em que eu andava de montanha russa já passou há muito. Uns vinte anos, por aí, altura em que ganhei consciência ou algo parecido.
(Ena ena, voltamos :)))) Não? Não te fartaste disto, certo??? :))))))

Antígona disse...

Não me fartei CF :) Claro que não. Ando é com alguma dificuldade em gerir esta minha nova vida :)

Majo disse...

Muito interessante a sua exposição e frontalidade.
Estou totalmente solidária consigo, até porque o meu coração também me vai ensinando quando a atividade é imprópria para a minha idade.
Mas ainda temos muitos sonhos a realizar...