quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Portugal - Cuba


Há cerca de 14 anos, em Havana, surpreendeu-me o contraste entre a escassez dos meios e o cuidado que os habitantes da cidade punham na preservação da mesma.

Surpreenderam-me os edifícios transformados em habitações duplas. Que é como quem diz, de um andar faz-se dois - o pé direito era de tal forma grande que permitia que um apartamento albergasse duas famílias, uma por cima outra por baixo, tendo-as a separar um chão de tábuas apenas suficientemente forte para aguentar os moradores das alturas.

No entanto, tudo estava limpo e pintado – os gradeamentos; as casas; os carros…Os carros! Verdadeiras antiguidades! Dir-se-ia que passeávamos numa qualquer rua de NY, em pleno Verão dos anos de 1930. Nas ruas não se viam papéis a esvoaçar, nem sacos de plástico, nem bostas de animal. Sentia-se o extremo cuidado de quem sabe que não pode renovar e tudo faz para preservar o que tem.

Já lá vão 14 anos, mais coisa menos coisa.

Agora, de dia para dia, vejo degradar-se à minha volta uma paisagem que já tive como certa. O lixo, ainda há dias (ou serão meses?) recolhido regularmente, verte dos recipientes acabando por divagar pelas ruas, ao sabor da brisa porque já é tanto que nem precisa de vento. A relva secou e os malmequeres tiveram o mesmo destino. Aliás, nem as ervas daninhas se livram do braseiro porque que os sistemas de rega, tão meritoriamente distribuídos pelos espaços que se queriam verdes, foram danificados pelos condutores.

O calcetado protesta com o peso dos automóveis libertando-se das pedras que já poucos sabem repor. De resto, nem compreendo esta insistência em manter uma calçada que se desfaz constantemente! As pedras soltas, ou semi-soltas são obstáculos perigosos para quem já mal levanta os pés.

Não me recordo de ver Havana com estes olhos! Não sei quantos anos levaram os cubanos a perceber a importância de preservarem o pouco com que ficaram.

Estamos à espera de quê? Quantos de nós já perceberam que as coisas mudaram? Quantos de nós já perceberam que os homens do lixo não vêm todos os dias; que os serviços camarários estão cada vez mais fracos; que as construções estão praticamente paradas e que aquele empreendimento que estava prestes a nascer e prometia andares maravilhosos vai ficar suspenso até as infraestruturas se degradarem. Quantos de nós já perceberam que já lá vai o tempo da descontração porque se pagamos aquela taxa é para eles limparem as ruas, limparem os esgotos, manterem os espaços verdes, recolherem o lixo?! Quantos de nós já perceberam que a paisagem à nossa volta se degrada e que nós, atarefados habitantes, para isso contribuímos, sempre na esperança de que a tal taxa seja suficiente para colmatar a nossa descontração, incivilidade, desresponsabilidade...Pois fiquem a saber uma coisa: NÃO É.

2 comentários:

José Sousa disse...

Olá. De fio a pavio: assino por baixo, se me permite. Apenas direi que mesmo em sociedades com outro tipo de recursos que não a cubana ou a nossa nota-se muitas vezes uma atenção ao que se tem, mas também ao que se é, que me parece muito preventiva e positiva. Um abraço.

Goldfish disse...

Antígona, creio que a questão não é as pessoas acharem que a dita taxa é suficiente, mas acharem que como está nem está muito mal. Não se importam de viver no meio da imundice e da destruição, até porque lá em casa está tudo limpinho e arrumado. A rua é assim.