domingo, 9 de agosto de 2009

Gostar à distância é gostar ainda mais

Quando saí do colégio onde andei até à 4ª classe (era assim que se chamava nessa época), fui estrear o 1º ano do ciclo preparatório.
Não havia ainda escolas construídas para o efeito. As que existiam ou eram liceus ou escolas técnicas, comerciais e industriais. Assim, fomos levadas para umas instalações provisórias que pertenciam a um ginásio e que serviram muitíssimo bem os seus propósitos. Eram escolas só de raparigas e entre as várias professoras que me saíram em sorte destacou-se uma de Português e de Francês. Eu tinha então 10 anos e nunca mais a vi até ao momento em que resolvi, muitos anos depois, participar num curso de formação para formadores que a Câmara da minha cidade e a Universidade Nova de Lisboa decidiram promover. De entre as várias disciplinas que compunham o curso, teatro era uma delas. Foi aí que me voltei a cruzar com a minha antiga professora. Reconheci-a imediatamente, ela não, evidentemente, fomos tantas ao longo de tantos anos e afinal eu já não era uma menina. Se ela foi uma professora marcante de Português e de Francês, não o foi menos como formadora na disciplina de teatro. Na verdade ela é uma pessoa marcante. Doce, calma, paciente, linda.
Quando aconteceu publicar o meu primeiro livro não pensei em mais ninguém para a sua apresentação. Levei-lhe a compilação dos poemas em folhas A4; ela leu-as e aceitou. Não me esquecerei disso como não me esquecerei nunca da sua pessoa.
O destino quis que fossemos vizinhas. Vejo-a muitas vezes passar. Conheço o carro que tem.
Hoje, que é já ontem, cheguei a casa já passava da meia-noite depois de um jantar com os meus filhos que me deixou ternurenta como sempre me deixa a companhia deles. Corri para a varanda na esperança de ainda ver a minha filha partir mas, em vez disso, vi a minha antiga professora chegar e estacionar o carro mesmo ao lado do meu, no lugar que tinha estado ocupado pela carro da minha filha. Vi-a sair e caminhar para o prédio dela, mesmo mesmo aqui ao lado, e senti um calor no coração, um gostar tão grande, um desejo de que tudo na vida lhe corra de feição e de que eu a possa ver por muito muito mais tempo. Pensei em chamá-la mas não o fiz, fiquei assim, de cá de cima, a gostar dela, a desejar-lhe tudo de bom, a agradecer-lhe o facto de existir e estar aqui, mesmo ao meu lado.
Acontece-me algumas vezes, gostar de alguém mesmo que não nos dêmos, mesmo que as nossas vidas não se cruzem muitas vezes, que não façam parte uma da outra. Acontece-me às vezes. Não muitas. Algumas. E é precioso.

2 comentários:

CF disse...

Talvez porque te marcou pela positiva... Mesmo que à muito tempo, as boas sensações perduram...

Quase nos 50 disse...

E esse gostar em silêncio, à distância pode ser tão agradável!
E nada frustante, ao contrário de alguns amores de proximidade.....
;-)